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 CARTAS

 

Nesta gaveta poderão não estar, de início, as cartas temáticas, que mandei a figuras questionáveis/questionantes de Arte em geral. Encontram-se, neste caso, em Ensaios.

( Cartas:         - Minha ao Pedro Xisto: v. revista japonesa “ASA”, vol. 6 – 6-1972.72.

- Minha ao Osmar Pimentel, A SER USADA NO RELATO SOBRE O ROMANCE “OS SENTIMENTOS DIDÁTICOS”, onde ele será transcrito. Acho que está na Pasta do cap. III do romance, cf. 

 

 

(As cartas supra já estão aqui)

 

 

         - Minhas a:

         - Augusto de Campos.

         - Pedro-Juan Gutiérrez.  TODAS ESSAS : PASTA 6.

                                                          

       -     Carta do Barreira, relatando sua vida PASTA 3. )

 

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@ - CARTA AO CAZAL CID MARCUS BRAGA VÁSQUES E THEREZA DE JESUS CAVALCANTI VASQUEZ, SOBRE UMA PRESUMIDA “MONTAGEM” DE JAMES JOYCE RECITANDO ANNA LIVIA PLURABELLE:

 

 Cazal ! ( com z mesmo, cês não existem mais!) ( Daqui pra frente não alerto mais, pensem que é Annal Fabetismo meu...) Trata-se de Thereza de Jesus Cavalcanti e Cid Marcus Braga Vasquez, presentes aqui e alhures nesse Site. Faróis!)

    Peguei aí na portaria e deixei os documentários sobre Joyce e Proust ( 1 só DVD).

    Seu Anna Livia Plurabelle dura 10 minutos! Bem maior do que eu tenho em LP e CD. Não só a aparição, como o tempo, é uma produção recente, de 2008, veja lá.

    E aquela fisionomia do Joyce sem mexer a cabeça por 10 minutos, não será uma montagem??? O texto recitado eu o segui, ( pelo som, claro, e sou bom em leitura de movimento de lábios) : parece que está saindo mesmo de sua boca. Mas a cabeça por 10 minutos na mesmíssima, milimétrica postura!... Não sei... O mundo está se estragando dia a dia, e pode ser que até ingleses estejam dando uma de brasileiro... ( perdoem-nos o aparecente laivo de racismo )

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    Aquele pedacinho da rua, quando Joyce põe o sobretudo e resmunga algo pra criança ( sua filha que morreu louca ou seu netinho? ) eu o tenho (VHS) com mais tempo e nitidez.

    Nesse DVD que deixei pra vocês copiarem ( pra vocês, claro ), que é acoplado ao sobre Proust, há uma raridade, que é o Joyce gozando a posteridade, ao responder ao interlocutor: - Escrevi essas coisas todas que é pra deixar os professores pro resto da vida falando sozinhos, quebrando a cabeça pra ensinarem aos alunos aquilo que não entenderam direito (rsrsrsrsrs, noutras palavras, claro, mas testem.)

    Ciao belos! 

 

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@ - A Ivan Teixeira, sobre Mergulho da Sereia, da gav. POESIA.

 

Queríssimo confrade, bom anjo de minhas guardas e guardados, se chegam a algo digno disso...

Você é mesmo um cara muito carinhoso, não é à-tôa que é queridinho das guarapas!

Perigooooso!

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Você sabe que o Que lindos seios possuirdes! é a ânsia de uma indagação de Se lindos seios possuirdes, etc. aos quais as escamas servem de sutiã.

O mergulhgo é atimoso ( é assim na linguagem dos marinheiros ) liga a cabeça diretamente ( "Ligados,direto,)

aos pés, que elas também não têm, dispensando colo e ventre.

A coisa é meio embaçada, sensitiva, escamosa mesmo ( trocadilho voluntário...)

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Mas para se ver com o efeito formal, digamos, isomórfico, é preciso:

1 - Abrir o Site, www.asdfg-menezes.org.

2 - Abrir a gaveta Poesia, simplesmente Poesia, não é Poesia déc. 50 nem Poesia visual.

3 - Localizar:  Desenho / Mergulho da Sereia..

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Já que o querido amigo tem mesmo um saco de filó e, por amor ao próximo quer me agradar, quando não embevecer, quero esclarecer uma pequena dúvida na sua referência ao Degas:

a ) Naquela cenarização do poema, a encenação, o salão do cabaré, cortinas, o Degas sentado com seu amigo Alan de ...., olhando para a bailarina ( que na vida real é obra sua) caçando alguém, com a frase, capital para o poema:

                "- Aquela ali é do degas aqui", NADA-NADA, IVAN,  É DE AUTORIA DO DEGAS, mas um "trompe-l´oeil verbivocal", de minha autoria ( degas = vocábulo que significa: a própria pessoa, aqui..., desculpe a explicação, mas talvez não fosse usada na juventude de você), com a cenarização que a Maria Christina (uma grande desenhista, permita-me...) foi fazendo seguindo milimetricamente instruções minhas, o tipo de cortina, o ar enfumaçado, mesas, etc. etc.

 Quando você tiver um tempinho, procure em minha INTRODUÇÃO meus exemplos de trocadilhos visuais, quando abordo Harold Lloyd, mas este do Degas é um trompe l´oeil verbivocal. Veja, neste momentinho a coincidência: 

 

Acho que você, com razão, não atinou com a inserção supra, mas foi, por feliz coincidência, a vinheta de dois dias atrás que o Google usou, veja as figuras humanas, os objetos aqui em cima, a moldura da imagem. ESTE É UM TROCADILHO VISUAL ; o do poema do Degas um trompe l´oeil verbivocal. E as versões das legendas da frase para o inglês, modestamente, acho que estão um primor, dentro das gírias carimbadas nas locuções... ( não são locuções, estou com a memória meio afeta hoje, são aquelas frases-expressões de uma língua: ??? Ajude-me...)

Abraço arretado. Floriva.

 

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@ - FERNANDO RIOS, EPÍSTOLA A FLORIVALDO MENEZES:

 

Veja lá caríssimo e querido amigo,

Nesta prosopopéia barroca

Que alimenta sem citar o trigo

E mostra a cornucópia que abarrota

 

http://www.psb40.org.br/bib/b307.pdf

 

o homem é Manuel Botelho de Oliveira

 

À Ilha de Maré

Manuel Botelho de Oliveira

À ILHA DE MARÉ TERMO DESTA

CIDADE DA BAHIA

 

fernando rios

www.fernandorioscom.art.br

 

De: Florivaldo Menezes [mailto:flomen@ig.com.br]
Enviada em: quarta-feira, 31 de julho de 2013 01:56
Para: fernando rios
Assunto:
Ref.: !!!

 

Tenho a honra de comunicar a Vossa Senhoria que, aos trinta e hum dias do mês de julho do ano de nosso senhor Jesus Cristo tido e havido por dois mil e treze, nesta cidade de São Paulo, no aicativo 820°  Tabernionato, lavrou-se e larvou-se esta declaração de reconhecimento de estarmos de fronte com os poemas seguintes, desmembrados aqui por razões de tempo & espaço, e que nos configuraram uma modernização dos geniais poemas sobre verduras e legumes perpetrados pelo também genial poeta brasileiro setecentista, Não Sei O Que Lá Botelho [ meu Google  desfigurou-se...e estou perdido em minha biblioteca). Disto dou fé, com muita fé de que novas arrebentações aflorem por nossas plagas abençoadas por Deus & pelo Papa Francisco & pelos que te admiram muito e sabem amarte com engenho e Arte, Fernando. 

 

 

[ DELE, FERNANDO RIOS ] :

 

os legumes estáticos

insistem nos pegares

(.............................)

e se oferecem gentis e cálidos

 

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abóboras esperam um gesto

repolhos esperam um gesto

pepinos esperam um gesto

batatas esperam um gesto

beringelas esperam um gesto

 

pimentões ficam indecisos

abobrinhas ficam indecisas

cenouras ficam indecisas

quiabos ficam indecisos

beterrabas ficam indecisas

 

alfaces em revoada

envolvem as cabeças

escarolas em revoada

envolvem as cabeças

couves em revoada

envolvem as cabeças

salsas e cebolinhas em revoada

envolvem as cabeças

almeirões em revoada

envolvem as cabeças

rúculas em revoada

envolvem as cabeças

 

e todas e todos

poeticamente

se (pré) dispõem às caçarolas.

                                              ( E Florivaldo Menezes: Ah, "A infelicidade é um prato de cenouras vazio"  )

 

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@ - Ao Maurício [ do Brasil ] , sobre Mar e Lugar Ermo.

 

Grato, querido Maurício [ de Brasília ], mas não gosto de água em nenhum sentido. Raramente tomo banho: faço minhas higienes diárias com esses modernos descartáveis de caráter enfermarial.

            O mar : só com calça & camisa na praia, curtindo o barulho mais lindo do mundo, mas sempre com medo, perscrutando no azul se o horizonte não sobe numa sanha famélica.

            Coisa de louco. Nos dois sentidos.

            Como exceção, e estranhamente excitável, um êxtase mesmo: um riacho, mas navegável !, em uma fazenda, um sítio bem rústico, cursando semi-encoberto por arvoredos de copas quase unidas, passando a luz do dia pelo vão ; e com aquele murmurinho.

            ... Gostei de estar em Veneza pelo incrível de sua construção inicial e alternativa do bemmequer-malmequer de uma via d água, a outra de paralelepípedos. 

@@@

    Mas o lugarejo que você me mandou, Giethoorn, é para-dizíaco.

    Abração sempre alegre pelos dá-as-caras.

    Menezes

 

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@ Para Paulo Bonfim, em 16-01-07, a ser enviada pelo correio.

 

            Caro Poeta Paulo Bonfim.

            Há pouco falamos por telefone sobre o tributo que fizeram ao ilustre vate, onde, a par de curtir as merecidas homenagens, também procurava por um soneto de José Jorge Tannus.

            Estou tomando a liberdade de mandar-lhe, reproduzido em cartão-postal, meu poema-cartaz (se assim podemos chamá-lo)  “O lago dos signos”.

            Determinada historiadora de literatura, Zina Bellodi, falou em intertextualidades. Por exemplo, a execução do poema, virado partitura (sua última parte, quando surgem as notas musicais, direcionadas todas para o tempo das semibreves) tem que ser, digamos, monitorada, pois a colocação de certas appoggiaturas é que possibilita uma semelhança, uma ressonância com os primeiros compassos d´"O lago dos cisnes" de Tchaikovsky. (Tenho uma gravação da leitura do poema ao piano, feita pelo renomado compositor Flo Menezes, que, não sei se você sabe, Paulo, é irmão do Philadelpho Menezes, morto em desastre de carro aos quarenta anos em 2000, no torque de sua carreira, teórico e instaurador, no Brasil, da Poesia Sonora, criador da Poesia Intersignos, titular da PUC e da S. Marcos em literatura intersemiótica. Ambos filhos meus...

            ... e grande admiradores do papel que você representa na poesia lírica e memorialística, além de emblemática  da inspiração das Arcadas, já que todos aqui de casa, inclusive minha filha mais velha, cineasta e procuradora do Estado, passamos pelo Largo de São Francisco.

            De volta ao poema: a alusão aos sininhos da suíte “Quebra-nozes”, que está em meu texto-bula, é para melhor identificar o assunto com caixinhas de música, essas que dão surpresa. Aqui há um certo subjetivismo na exegese, mas pago pra ver no que dão tais associações...

            O poema foi muito ajudado pelo acaso: mais uma intertextualidade com o chamamento à autoria do coup de dés mallarmaico: un coup de dés (...) j´amais n´abolira le hasard  etc. etc .

            Aquela clave central, mas que está logo abaixo de um registro neutro ( os AA. de uma antologia inteligentemente atribuiram quatro fases ao poema!...) está colocada em hexagrama, ao invés do natural pentagrama musical, para ser manipulado por consultas aos trigramas do I-Ching, o clássico livro chinês das Mutações. Consultando tais trigramas na exatitude, dão quase sempre no mito do desaparecimento do cisne, em seu corso ed ricorso da volatilização do amor atribuído pela lenda, e que Tchaikovsky comoventemente imortalizou.

            Como a versão circulante d´ “O lago dos signos” está em cartão-postal, suas dimensões dificultam muito a percepção de certos sinais que estão no protótipo original, de mais ou menos 1 metro por oitenta centímetros, tal como exibido na 1a.Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo – BR, 1988 – Centro Cultural São Paulo. Lá se vê que as duas claves dos pentagramas são de sol, mas se se pegar uma lupa dá pra ver certinho também na versão do cartão-postal.

            O original estava em comodato nos salões principais de um café literário do Bixiga, aqui em São Paulo, quando foi vendido, por insistência pertinaz, quase tresloucada, e oferta pecuniária irrecusável, a um dos mais famosos (na época, 1990, 91 o mais famoso) bateristas de rock do então mais retumbante conjunto heavy metal do mundo, que visitava São Paulo durante uma folga do primeiro (ou segundo?) Rio Rock Festival.

            Razões óbvias me impedem de declinar o nome tanto do Café como do conjunto musical.

            Mas o poemão original, de parede, está em Los Angeles ou em Londres...

            Tempos depois foi feito um fotolito gigante que possibilitou a réplica hoje em poder do maior bibliófilo brasileiro de Modernismo, pré-modernismo e pós-modernismo brasileiros, que tem toda sua obra em primeiríssimas edições, Waldemar Naclério Torres, já há anos residente em Porto Alegre.

            E, last but not least, o poema muda um pouco o secular princípio de Hipócrates, Ars longa, vita brevis, demonstrando que signos largados ( = Arte. Ciência = signos amarrados), i-chingando a Natureza (atente para a homofonia do gerúndio), realmente em nada mudam que a Vida continua breve, mas a Arte é (pouco) menos breve (veja o “semi-breve!” que fecha o texto bula). Quer dizer, a transitoriedade impera em qualquer relação. E causticamente...em música a semibreve tem a metade do tempo da breve ...NÃO É DIABÓLICO?!

            Bem, ficando por aqui, deixo-lhe um fortíssimo abraço, na esperança de um dia ter um exemplar do “Tributo a Paulo Bonfim”, organizado pelo ilustre desembargador seu amigo, com quem não consegui ainda trocar palavra, por minha culpa exclusiva..

 

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@ Para FLOREG.

A presente carta foi dirigida ao Flo Menezes, na época para nós e os de seu convívio mais íntimo, simplesmente o Bebê. Estava na Alemanha com sua mulher, REG, artista plástica, Regina Johas, 1986. Acabara de ser agraciado com uma bolsa de Colônia  ( Köln), após seleção de trabalho musical que o habilitou, e onde desenvolveu, até primórdios da déc. 90, todo seu percurso de compositor de música eletroacústica. Procurei traçar-lhes, chamando-os de FLOREG, um panorama desses anos, no conturbado Brasil de então. Tentei suavizar com chistes de natureza artística, músical e, principalmente, econômica e política.

 

 

Ora?!...só por causa desta puta senvergonhice que paira no sanguerido brasileiro! Não estou pessimista, não, mas é mesmo de arrepiar qualquer cristão esta mentalidade lúmpem do nosso povinho! Agora mesmo, às dezenove horas, no Almanara, segunda-feira, da Basílio da Gama, encontrado o Percy por acaso, sentamo-nos (eta lingüinha!☺) ao lado de uma petista muito teórica, vivida e sofrida, parece que pegou cana quando estudante, em 63 e 68, que deu um violento baile de doutrina em cima de nós dois sobre o Plano Chifrado, desculpa o “lapsus linguae”, quer dizer, o Plano Cruzado, mostrando ao Percy que ele (Plano Cruzado) veio em fins de Fevereiro justamente porque Março-Abril-Maio, por aí, haveria os maciços dissídios coletivos...então o Governo achatou de cara o salário do pobrão e acenou com o ilusório congelamento dos preços...e aí está ; falta tudo, carne (com a UDR fazendo leilões entre os fazendeiros/industriais/financiadores dos ontem obans-dói-codis...hoje dumpings acintosos de sonegação do produto...leiloando às escâncaras, pra o Governo ver, rezes valiosíssimos para angariar fundos para compra de armas, daqui e do Exterior, pra mostrar, alto e bom tom, que estão armados até os dentes para continuar a matar os “invasores” de suas santas terrinhas...(OBS. PRA VOCÊ QUE ESTÁ AÍ:UDR quer dizer União Democrática Ruralista, uma associação de magnatas fazendeiros do Brasil inteirinho unidos para impedir que os sem-terra usurpem alguns palmos de sacrossantos torrões ganhos com o suor...das heranças...então veja, FLOREG, falta carne, exportamos duzentas toneladas de uma vez...; falta carne outra vez, a UDR leiloa carnes e vacas para angariar fundo pra compra de armas que saem... daqui mesmo! Vocês sabem que produzimos as armas mais poderosas e modernas do mundo? Tanques com cérebro eletrônico capaz de fazer com que a energia do corpo inimigo e de seus pertences irradiem um expectro que desenham em relevo seus perfis na escuridão, de tal sorte que a própria camuflagem realce apetitosos alvos!!! Parece-me que se chama Ozório. Bazucas/bumerangues! Lança-napalms de trezentos metros de alcance!, anfíbios de oito rodas de nadadeiras atômicas, tudo, tudo, temos tudo, produzimos as melhores armas do mundo, tudo na mão de aguerridos, confessados e comungados rapazes orgulhosos da lupanar pátria lúmpem que reluz na lupa de sua cegueira; quando abrem os olhos é pra dirigir carros, ah, seus carros/feudos portáteis, autoritarismo ambulante, uma lesma empurra a outra como diz o Ronaldo Azeredo – Deus o tenha em boa vida -- ...e cada buzinada é um tiro, por isso buzinam tanto......leite (há longas filas de leite, sumiu o queijo fresco, o queijo prato, o queijo mussarela, o requeijão; açúcar...a burguesada saqueou os supermercados de medo da falta de açúcar! Gozado, se faltar água eles dão um jeito...mas açúcar não pode faltar, nem na visão mental do cidadão, não sei porquê, ele enlouquece com a idéia... A petista falou em luta de classes, disse que o Suplicy vai fazer a autofagia da contradição de ser filho de industrial e de enfrentar uma possibilidade de não continuar seu pai, algo assim. O Percy já começou a meter o pau em Cuba, Marx era um utópico, os serenos homens igualitários jamais existirão...mas ele era a favor de uma justiça social mais humana que esta, etc etc etc; a petista disse, parabólica-parafrásica-metafóricamente, que um revolucionário não pode ser um alvo para uma bala e...dizendo que não dava pro Percy, pq. a coisa custa e precisa ter retorno, deu pra mim 2 folhetos de programa de uns candidatos meio udigrudis do PT (isto na minha opinião): uma é mulher sofrida, tem um programa de base internacionalista, outro vai defender, como deputado estadual, coisas metalúrgicas. Na saída, na calçada, falei-lhe em Jacob Bittar; ela me respondeu meio rindo: O Bittar é advogado!... Achei a observação um pouco estalinista, posso estar enganado; o Percy, puto da vida pq. a mulher não lhe deu bola e achou-o de direita, azulou de raiva e me disse: Caralho, esses operários elitistas, autoritários...você viu?, só eles que falam, não dão a mínima, não respeitam o ser próximo... Ele tem um pouco de razão, são essas contradições de campanha política. Mas, veja, FLOREG, vocês não acham que tudo isso é gostoso? Não estou pessimista não nem louco nem dopado nem bebido nem meditado nem taroado (de tarô) nem i-chingado nem... Só, digamos...um pouco abendsçoado pelo fim do dia, que sempre me deixa um pouco estranho. Vim sozinho pra casa. Passei pelo Miguel, tomei uns choppinhos, o Orlando viajou hoje pra Europa, não fui no bota-fora, comi um steak ou poivre, mandei dois licores de uísque, agora, 11h50 de 15, entrando no 16, fiz uma pausa, falei com a Tabinha, a Cris está dormitando no sofá, mamãe na cama, é uma grande mulher, a Tabinha é uma grande cachorra, a Cris é uma grande pessoa, tenho muita pena dela por causa de sua insegurança, acho que ela nunca ouviu uma gargalhada da Vida, sabem? Os amigos...de sempre...o Wylly sumido, fissurado só nas kulas,  viciadíssimo, só anda com o Leonel & Gonzalo, dupla esquizo! se um morrer, o outro só vai perceber uns dias depois. Enfim, é uma falta de objetivo autêntico terrível! Não vá se sensibilizar nunca pela música desses versos:

 

“Glücklich allein

Ist die Seele, die liebt.

 

Freudvall

Und leidvalt                              ♫♪!

Gedankenvall sein,                                Goethe

Langen                                    ♪♪!

Und bangen

In schwebender Pein,

Himmelhoch jauchzend,

Zum Tode betrübt –

Glücklinch allein

Ist die Seele, die liebt.”

 

  Sabem, FLOREG, Seele (a escolha do sintagma See mais sua colocação na frase)...regendo dois verbos...esse segredo Goethe furou o véu da alegria...deu uma música interna muito forte, só sei o alemão da hora, isto é, do instante dos meus achados, dos meus estudos noturnos! Vi isso no Goethe supra, sozinho! mas quem não tem objetivo certo, fanatizado na vida, não enxerga mais nada. Bem, algo muda com a idade, uma pena que na maioria e no mais das vezes mude para pior...Tenho estado muito com o Fiaminghi, o Décio, o Zelão, são fanáticos, cada um à sua maneira...mas que bonito só se pensar, como maníacos internados, na Arte, na Beleza, o desligamento total do dinheiro e do automóvel, duas lepras.

Porque estou assim? : como disse, na primeira linha desta carta, por causa que estou vendo o mundo – e, em especial, o Brasil – de uma maneira muito exclusivamente política...e este lumpemzinato brasileiro de primeiro ao quarto graus (i.é: nas nossas classes sub-operária, sub-classe média, sub-classe alta e ecto-lumpem) é tudo produto de um fenômeno que só ocorre no Brasil, descoberta minha, conscientizada por mim somente aos cinquenta e cinco anos! :...de que, no Brasil nunca nasceu ninguém, aqui só se reencarna, é uma descoberta diabólica. Os seres já “nascem” com uma carga que vai gerar grandes contradições, um filho da puta de um pé-de-chinelo qualquer acaba esfaqueando grevista ou alguém que queira tirar-lhe a mãe, mulher e a filha da zona...se lhe acenar com um estado de coisas “dito” comunista...ou igualitário...ou algo parecido...Mas, em seguida vai dar a bunda pro patrão que o humilhará cada vez mais! Um senso de metempsicose (não confie Floreg, vá ao dicionário!) sempre acaba tomando o infeliz pobre diabo de espírito cacete o mais com todas as sanhas de feroz cão de guarda cinzento de burguês com guarita, ui...ui...ui... QUEM? CÃES CAÍNS.

                      Um maroto de um inglês (inglês, não é americano!) se não me falha a memória Guy Playfair, escreveu um livro sobre o reinado dos “phaenomena” paranormais, Brasil! com o título de (ah, achei o livro, a Biblioteca continua bagunçada, mas tenho ainda minha ordem, da memória) ”The flying cow: research into paranormal phenomena in the word´s most psychic country”, Souvenir Press, London, 1975; eu traduziria, li o livro, “PARAFERNÁLIA PARANORMÁLIA”; É o fim! Mas tem coisas intrigantes! Será que existem?!...Mas, politicamente, a “ficção” vira realidade...Se não se exorcizar, limpar tudo isso do Brasil, não haverá nunca luta de classes, a vida dos “karmas” e a ladainha das justificativas obnubilarão eternamente os juízos e os sentidos de justiça. Vejam lá o título “..... no país mais “psicado” do Universo”: aquele tal lugar onde ninguém nasce pela primeira vez, todo mundo se reencarna: imaginou, Floreg, se alguém quererá revolução?!

   Bem, queridos, de novidade: Cris está entrando numa ótima, de repensar a vida, firme no propósito de fazer cinema, isto dará a ela fé em si mesma e muita vontade de viver, tenho certeza. Ela bem que podia desenhar, tem um traço bonito, original. Falar nisso, estou felicíssimo em saber que você, Reg, está animada em descolar um ateliê ou coisa parecida pra praticar sua vocação. Vá em frente, mas não brigue com o Bebê, penso que ele ama muito você.

(2 meses depois): Não queria continuar, para não deixar, politicamente, vocês dois em fossa, mas, hoje, primeiro de Dezembro de 86, acontece no Brasil:

            - Falta sal: filas pra você pegar um pacotinho de um quilo;

- Ah, se o Lula tivesse se candidatado a deputado estadual, estaria eleito.. “É muito burro, querer ser governador logo de cara ( um amigo que você conhece), (1982);

- “Pô, que burro! Se se condidata a Senador, esta eleito”....(Orlando, 1986) (Mais de 100 mil votos, agora, para o deputado federal à “Constituinte”).

- Leite só amanhã, doutôire! Passa de leve, que arranjo-lhe um litrinho!...(o português da esquina, boteco, hoje, 1º Dez.);

- Você é um ignorante tanto quanto era há 15 anos, Fia! Fale, fale mais sobre essas reuniões anarquistas da década de 40...Pô, pô, quer fazer o favor de calar a boca, ME-NE-ZES! IN-TE-RE-SSA O DE-PO-I-MEN-TO DO FÍÍÍÍA...:(há um mês atrás, aqui em casa, eu, Décio e Fia, depois de um papo moralmente desgastante, que varou a tarde no João Sehn e terminou aqui, (DESCULPA OS ERROS CONSTANTES DA DATILOGRAFIA, ACHO QUE É ATO FALHADO POR EU DETESTAR ESCREVER, MAS SINTO QUE ESTOU EM FALTA COM VOCÊS!-------Continuem a escrever, mesmo que eu mande umas linhas somente a cada 3 ou 4 meses: adoro receber cartas, na direta proporção do ódio, digamos aversão, em vez de ódio, de escrever-----------,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, e depois das onze, quando ia colocar na vitrola o que lhes prometi:

             a) O CHOPIN QUE EU AMO, LP maravilhoso, onde Rubinstein, aos quase noventa anos,

toca umas dez obras de Chopin, um pai

de uma verdadeiramente deslumbrante,

onde é transcendente a leitura que faz

a Valsa n. 7, Op. 64, n. 2; da valsa do

minuto; e de uma Mazurca onde

acentua umas pulsões moçarábicas só

captáveis à luz (sic) de estetoscópio

ou de Jack Daniels na veia (ESTE

WHISKY BOURBON É O MELHOR

NECTAR QUE JÁ TOMEI! 

A Mazurca é a de nº 23, ré maior, op. 33, nº2!!!!!!!!!! Você verá, principalmente se a ouvir tomando esse inigualável, infalsificável bourbon, em cmpanhia da Reg; terei um neto na hora!
             b) mais o Dinu Lipatti, que ele Décio não conhecia, “pô, você é meu guru em música, Menezs”... De repente, começa a gritar, histérico, que não tinha tempo para ouvir “essa besta do Glenn Goud, veja, veja como mata Bach!” E ele estava ouvindo o Carl Phelippe, não o pai! Achou que o Glenn Gould servia apenas para tocar Gershwin e...”é a segunda vez, agora me lembro, que você quer fazer proselitismo...com esse picareta! Vou-me embora!” e, apanhando suas coisas e arrastando o Fia consigo, deixei-os sair pela porta, passei a chave, nem ouvi sumirem os passos no corredor, toquei volume no Glenn Gould, realimentando na memória a última frase do Fiaminghi, esta, sim, milagrosamente ressuscitada da ignorância pela in-ciência :

             - Esse piano afinado como cravo por essa besta, cravo é cravo, piano é piano!...

 

                        (DIGAM DE QUE PUBLICAÇÕES VOCÊS PRECISAM, PERIODICAMENTE, PARA SABEREM O QUE ACONTECE NO BRASIL)
 

Estou ouvindo agora, pela Cultura,

1º-12, 20 horas, gravações digitais
simplesmente fenomenais (técnica  digital) de Mengelberg, o velho e
imenso Mengelberg regendo, como nunca vi,  Richard Strauss, “Don Juan”,
antes foi uma maravilha de César Frank e imagino você com a Reg,
mulher firme na sua vontade, ambição, garra, vocês curtindo ao vivo um sonoro,
vitalmoso, derralmado, Richard Strauss! Ontem, com o Phila, ouvi a
psicodélica – ah, palmas na gravação o Don JUAN, op.2º, Strauss/
Mengelberg, de algum concerto na década de 30, que maravilha, a

tecnologia – versão do Webern da Ricercare (i?) da Oferenda Musical de Bach!!!!!!!!!!!!!!!!!! Nem Miles Davis, nem Eric Dolphi, (releve os erros de grafia, tb., não ligo mais pra isso, a vida é curta), ah, agora, 21  h, na Cultura, estou começando a ouvir, escrevendo esta, um programa novo com KOEULLREUTER ( é assim que escreve?), nem Ornette Coleman (tb. errada grafia, desculpem, não estou com saco, hoje, para ir conferir no disco) nenhum deles iguala a fenomenal versão de Webern sobre a Ricercari de Bach!! É um fenômeno novo em música, tanto quanto o foi, penso eu!, quando alguém ouviu pela primeira vez as Danças dos Companheiros de Davi, de Schumann: “algo novo para a escrita para o ouvido”, como eu já disse uma vez, num jornaleco, não: num jornalzinho, de uma companhia estatal...Sabe, há uma escritura para articulação, que pertence ao ramo da morfologia, e uma escritura para oralizar, que é do campo da gnosiologia, algo do universo pensamental, que, por sua vez, está ligado à heurística, algo como um catecismo do existir, o porquê se repete no dia-a-dia, um problema crucial da cobrança de vida... uma coisa muito funda: saudade do que a gente não sabe bem + dever ético de questionar + instinto de caminho vital finível !... Espero que você procure entender!... Acho que Schumann ENTENDEU ao ouvir sua própria DAVIDSBUNDLERDANZE (a grafia!) Reouça de vez em quando – só de vez em quando! – essa enormíssima obra inaugural, eu diria “finaugural”, só possível num romântico... e do porte de Schumann...Chopin, um gênio insubstituível, idioleto de Deus (ou da Natureza), seria despiciendo (veja que não falo desprezível), se não tivesse existido Schumann... O mesmo mistério que saber o que há de importantíssimo...antes de Deus (ou Natureza).

                                    REMETO AO PARÁGRAFO, atrás, onde digo que não estou drogado, nem taroado etc etc etc etc

                                    e a DESCONEXÃO é devida à ansia que tenho em dizer-lhes tantas coisas que transcenderiam o mero relato de fatos...embora:

             O PMDB ganhou as eleições em todos os Estados do Brasil, menos num (mostro pelo recorte de jornal);

             Uma semana depois, desce o cacete na população com o CRUZADO 2: aumento dos preços, na ordem de 80% globais, sobre bebidas, cigarros (2 coisas que o povão gosta – e precisa!!!), automóveis e combustíveis (SANTAS TIAS DE DEUS, irmãs da Santa Mãe de Deus, para os sub-burgueses; remeto ao parágrafo onde reclassifico as 4 sub-classes sub-sociais do sub-Brasil)    O KOEULLREUTER ESTÁ DIZENDO, NESTE MESMÍSSIMO MOMENTO, QUE A VIDA NÃO EXISTE, ALGUÉM TÁ SONHANDO!................o Borges parece que já manhou nisso.).

             O Governo, aumentando tudo, quer arrecadar dinheiro para saldar suas dívidas, externas (ATO MORAL INTERNACIONAL,  que não deixa de ser  pragmático) e i nternas, que é um  ATO

FISIOLÓGICO, mas que não

deixa de ser especulativamente
MORAL, como, digo, é todo ato,  ah!, chamado de IMPÉRIO,
isto é, o que se impõe a todos pelo exemplo...da LEI! Aí, ele
pune, como nunca, os burgueses, seus esteios: um governo sem
burguesia é como um cadáver adiado...que procria, como o disse,
noutro sentido – e genialmente – Fernando Pessoa;
(Num torpor como este, do Brasil, a ciência psico-social impõe a
mpõe a existência de uma conduta regular de grã-guiñol:
este falastrão de borrocôrte, exdrúxulos!, nosso Ministro da
Justiça...ah, acima eu ia dizendo que um governo é, por natureza,
burguês. A turma está comprando doidada estoques de papel-higiênico,

sal, açúcar, fósforos, se matando nas filas, durante o dia. À noite, infestam as casas de bolsas, cintos, sapatos, roupas, um conjuntinho de saia-e-blusa está na ordem dos 5 a 6 mil cruzados!

             Estão falando em descongelar os aluguéis.

             Você não compra nada que não esteja...não só descongelado...como só no câmbio-negro: ingresso de cinema, mas pasmem! Penicilina! Carne, só em restaurantes de alto luxo. Cerveja é motivo de esfaqueamento entre os bebuns. Tenho 55 anos e nunca vi algo igual em minha vida. E olhe que me lembro do final da 2ª grande guerra mundial...

Não há discos nas lojas.

As editoras – de porte- estão mandando imprimir seus livros no Exterior.

Um livro mais ou menos maçudo está custando na ordem de 250 mangos.

Quando a única coisa que nos poderia salvar seria a velha amizade das velhas rodas, o cara percebe que está doente e que precisa ir logo pra casa ou por causa de si, em si, ou porque se ele chegar um pouco fora de hora algum assaltante está esperando por ele...felizmente ainda não tive esse desprazer.

O Hermann, melhor grafando,

Herrmann, mandou-me uma
carta, há um mês, entre ressentida e carinhosa, onde
me diz várias verdades – e eu s aceitei! -, mas acaba dizendo
que minha obra (!, existe isso mim?!) acabou influenciando-o.
Depois de um mês, venci a preguiça e lhe respondi com 4
audas; o mais importante, penso eu, foi quando lhe disse:
VOCÊ ME AGRACIA, CORTEZMENTE, COM UMA
INFLUÊNCIA QUE TERIA TIDO SOBRE SUA PRODUÇÃO
ARTÍSTICA. SABE QUAL A COISA MAIS BONITA NESSE
PAPO DE INFLUÊNCIAS? : VEJA COMO HAYDN
INFLUENCIOU MOZART,  QUE INFLUENCIOU HAYDN,
QUE INFLUENCIOU  MOZART, QUE
   

INFLUENCIOU HAYDN, QUE NÃO INFLUENCIOU MAIS MOZART PORQUE ESTE MORREU ANTES QUE HAYDN PUDESSE INFLUENCIÁ-LO PARA QUE MOZART O INFLUENCIASSE!...”

         Aliás, um mês atrás, em Jacutinga, bebidos muito nós dois, o Dióginho disse-me que eu fui extremamente brutal com você na noite de aniversário da Cris, aqui em casa, ao gritar-lhe uns disparates a respeito do não respeito, por parte de um artista, pela obra do Caetano.

           A princípio, fiquei muito chocado por pensar que tinha ofendido uma das pessoas que mais amo em minha vida, que é você. Mas, passado algum tempo, pensei: o Bebê não é burro e deve ter entendido minha maneira de discutir : a única coisa que cobro nos meus próximos é uma absoluta semelhança com minha subjetividade! Quer dizer: como não me ofendo nunca, depois de um certo tempo, com o que me dizem, exijo que as pessoas também não se ofendam. CREIO EM VOCÊ ESCREVA-ME TAMBÉM  

TECNICAMENTE ENVIE NOTÍCIAS SOBRE SEUS PROJETOS. EM JANEIRO SAIRÁ SEU LIVRO. FAREMOS

 

 REVISÃO. MAS...O QUE VALE É ISSO AÍ: O AMOR É O CRESCIMENTO QUE NÃO MATA.

papi Florivaldo Menezes   1/12/86             

Obs.: A carta supra está entremeada com a figura da REG, recortada de um jornal (semelhança incrível),
e que progressivamente vai crescendo com o texto circundando-a.

 

**********

 

   @ ROTEIRO-GUIA PARA DIZER NUMA FITA À CRIS

 

Querida Cris:

 

         Você deve saber o sacrifício que é para mim escrever cartas!

         Se agora estou escrevendo uma, é porque ensaio aprender uma técnica para vencer esse obstáculo movido pela necessidade que sinto em trocar umas idéias com você.

         Você não pode imaginar a mudança de imagem operada em minha cabeça e, principalmente, em minha alma, que sua ausência me proporcionou. Vejo você, hoje, sob outro prisma, vejo novas faces, desfolho outras camadas, que estavam endurecidas pela proximidade, viciadas por pós-conceitos (permito-me o mau gosto da expressão) originários de uma falta de paciência, uma falta de mínima sabedoria de pai errado perante um ser humano tão complexo como você...Hoje vejo como você me faz uma falta difusa... e ao mesmo tempo simples como a falta de uma cinta ( e aqui não entra Freud)  [ desenhei uma carinha rindo, que parecia o Roberto Campos, toc,toc,toc!).Pensei sempre que você não teria coragem de separar-se de mim, e quando falo mim falo nós, de nossa casa, de seu habitat  original. E disso tiro uma lição belíssima: você tem uma força, Cris, um ânimo, um esplendor de vida difíceis, dificílimos, de serem encontrados em outra pessoa de sua natureza, idade, condição, condicionamento social, familiar, etc,etc, blá!(Escrevo do apê “Sylvia Beach” ( Sylvia Beach foi uma amiga de Joyce ai em Londres, tinha uma livraria onde Joyce passava algumas tardes, a Shakespeare & CO., acabou editando o ULYSSES.::::::: FICA EM PARIS! CORRIGI EM TEMPO: FICA EM PARIS.-.-.-.-.-.- começei a tomar whisky... mas não daria tempo para confundir minha memória excepcional...) (a megalomania começa a despontar).

         Quando você partiu, senti o mesmo alívio que deve ter animado seu espírito para alçar o primeiro vôo. Conheço você e tenho absoluta certeza do que estou falando.

         Suas primeiras cartas chegaram a me irritar um pouco pelas conceituações neblinosas sobre Londres, seu casario, seus transeuntes, sua atmosfera, enfim, era uma areia movediça puramente sensorial e precipitada a visão que você teve da cidade-berço de tudo que é verdadeiramente contemporâneo ( ou falsamente contemporário!). Aí esteve tudo...e ter estado é mais sólido do que estar, como em Nova York, por exemplo). Mas continuo, hoje em dia, a lhe dar o direito de não gostar de Londres. E como, desesperadamente (e às vezes em vão), procuro não soar dogmático, pode ser que voltando a ver Londres, não sofra  o impacto que sofri em 1981, quando aí estive.

         A partir de um certo tempo, começei a dimensionar certas verdades que você começou a falar. Foi porque fui-me distanciando emocionalmente de uma certa birra que viciava nossas relações, uma intransigência meio maluca minha de não respeitar você à altura do que você é ( e era!, hoje vejo)...

         Como se fosse um parêntese, reafirmo uma das poucas certezas que tenho em minha vida: a de que você é uma das inteligências mais portentosas que conheci. Seguramente, é a mulher mais inteligente que conheci ( que nenhuma outra mulher nos ouça!) Por incrível que pareça, o dia que você tiver ciência concreta disso ( e se ainda não teve, não diminui em nada tal inteligência!), você vai dar um vôo de condor, pode até ficar chata.

         Comecei a esperar certas mudanças de enfoque, que hoje noto, em sua visão, suas resignações, sua maturidade em transacionar com os seres daí, sua objetividade em ver o real, a labuta nos empregos, a porfia brava, mas nunca a desesperança, mesmo diante de ocorrências meramente passageiras, como a de que as pessoas se afastavam (será que se afastavam, ou nunca chegaram a estar realmente numa situação consciente?) por simples dificuldade de comunicação lingüística etc, etc. Veja como tudo já passou e como foi um grãozinho minúsculo que se perdeu!

         Hoje, sinto que você já incorporou a couraça na própria pele, não se molesta mais com frustrações, está para o que der e vier, encara com sabedoria, até com certa sofisticação expressional, como quando descreveu magistralmente, como o melhor dos narradores de ficção, seu encontro com aquele cineasta que fez muitos filmes ai para as BBCs, um tal de Frears(sic?); pela sua descrição memorável ( mostrei pro Percy, pro Zelão, pro Nilton, meus estilistas de bares), repito: pela sua descrição justa, machadiana!, deve ser ( tenho certeza!) uma bichona tremenda ( não mostre pra nenhuma bicha, que ela vai pensar que sou um machista – e sou!- do cacete!). Se por acaso você resolveu mudar de Artes, tem um caminho aberto pra você na prosa de ficção, estou certíssimo disso.

         NÃO ENTRE EM FREARS(NÃO ENTRE EM FRIA)!Esse tipo de cinema não leva a nada, longe de BLADE RUNNER,longe de TERRA EM TRANSE, longe de APPOCALIPSE NOW, muito longe de um filme de seu querido(como homem) John Cassavettes ( morreu em Abril!) ( é assim que se escreve?) que acabei de ver aqui, pelo vídeo, chamado “AMANTES” (acho que o título original é STREAMSLOVER, ou LOVER´S STREAMS, veja aí) dirigido e interpretado, ambos por Cassavettes magnificamente, uma obra original, subliminar, roteiro sonoro, fotomóvel, montagem descolada, um Rimbaud domesticado, com hodiernidade (=hoje+ódio+idade), uma coisa muito parecida com os anseios de você, é incrível!...É a obra de arte (- e melhor exemplo por ser no Cinema) que mais se parece com você... Pode ser que haja algum exagero, ou deformação de minha parte...mas você entende, pode estar havendo uma idealização de minha parte nascida pela necessidade de reparar injustiças que cometi: se eu sumisse de repente, seria uma catástrofe humanística de Deus ou da Natureza eu perder eternamente a oportunidade de fazer você sentir o conceito que hoje tenho de você.

 

(parei pra tomar um gole. Estou ficando rebarbativo, sinto. Mas... seja o que Deus quiser.)

         Cris...mamãe está bem, Phila está bem, Natália é meu novo amor (a gente sempre tem um novo amor, legal ou ilegalmente, moral ou imoralmente), eu estou naquelas “neuras” de sempre, amando detestar a vida, vivendo a detestar o amor, detestando amar a vida, mudando as palavras por mudar, sabendo nada de nada, sabendo tudo de tudo, me achando – como sempre – um sábio-gênio imbecís...mas ainda sei distinguir o que está fora de mim, isso salva.

     Quanto à sua vida prática, espero que você curta o máximo que uma pessoa jovem, cheia de vida, pode tirar das visões de uma viagem como essa: veja museus, vá a TATE GALLERY, veja com calma TURNER, (pare meia hora na frente dos MONDRIAM que tem aí), observe os demais paisagistas ingleses do séc. XIX, XVIII, veja detalhes, esquadrinhe as cenas com religiosidade, vá sozinha, sozinha, ver esses museus (nunca vá a Museus acompanhada! : Você só acabará comendo sanduíches!) Tome alguns pileques acompanhada de pessoa do mesmo sexo (que não seja lésbica): elas ou cairão juntas...ou tentarão ajudar você, no fogo. Macho vai querer te ferrar, em todos os sentidos. Pense sempre nisso. Nunca pare de beber, você gosta. Manere na saúde e... let the ivory run (nota I). Apesar de você estar segura (disso que vem) pelas últimas cartas, não entre em drogas! Mesmo que você esteja firme, acabarão por deixá-la with the pants in the hands (nota II).

     Veja que escrevo with all the ff and rr (nota III). Assim sendo, quero que fique claro que seu mundo é aqui, embora você pense em não mais voltar.

     Preste bem atenção: você terá de voltar, um dia. Sua pátria é sua melhor mãe (não é civismo de Olavo Bilac). É a única mãe eterna. E,jogando Freud fora, por comodidade ou instinto de preservação...nunca jogue as mães pela janela, como no título dessa comédia que está nas telas do mundo todo. Pai é outro papo. É choque, luta, desafio, demonstração do viver, exemplo de coragem, não se tem culpa do que não se conhece bem. Honestamente, hoje assumo qualquer assomo de babárie moral que me acene com o Inferno! Quando você estiver a perigo, diante de um fantasma de solidão...cante, como aquele cubano gordo (não estou em casa, senão veria no disco) “La vida no vale nada...”

     Tirando de lado qualquer tipo de desabafo que você tenha feito, antes de viajar, com alguma amiga (o), sobre sua necessidade de independência (= distanciamento da figura do Pai), gostaria muito, amaria muito mesmo, que você um dia conhecesse algo, a sério, da teoria dos arquétipos junglianos, para se sentir aliviada sobre a eleição inconsciente dos modelos (ideais ou não), que cairam sobre mim. Se eu mesmo me invejo, por que uma filha, da mesma natureza, não me invejasse? Não me elegeria como flour of the same bag? (NOTA IV). É duro, depois de tempos inúteis, complaining with a full stomach (NOTA V).

     Você, como mulher inteligente, está vendo que aplico racionalizações freudianas...mas é claro que, de mim, jamais receberia uma carta formal, legalizada, na linha da corrente, isso é insípido e covarde, não seria honesto. Ademais, estou animado com um filme sério, embora chochinho, que vi ontem na Globo, do Otto Premminger, “BON JOUR TRISTESSE”, onde uma menina (17 anos), interpretada pela belíssima Jean Seberg (o filme é de 1958), tem um relacionamento com o pai muito sofrido, mas assumido como uma contingência que, entretanto, não a separa da vida comum. O fim do filme é muito instrutivo, gostaria tanto que você o visse! Aliviaria muito, tenho certeza, seus, nossos, até de sua mãe (que é muito mais inteligente que você pensa) os “complexos” de todos, é uma catarse divina, se você não puder ver o filme, leia o livro (“Bon Jour, tristesse!”, da genial “nati-morta” Fraçoise Sagan).

     Escrevo tudo isto, para deixar bem claro que você é, não direi nossa querida filhinha saudosa, babyzinha desprotegida nos fins do mundo, desamparada freelancer do futuro fugidio, heróica aventureira do amparo salvador, eslovena cariátide do flêmur mais andor, nada disso:

 

                   (São Paulo)   |            (Londres)

                                  |

     Seu quarto está sempre limpo |-> - Não se entregue fácil

                                  |

                                  |

                                  |

Seus discos querem te ouvir  |-> - O futuro a gente não

                             |                    [pega

                             |

                             |

Os verdadeiros amigos são -> |- Rua escura nem sempre é

                             |                 [poética

                             |

                             |

Pátria é sempre Pátria       | -> -Pai nem sempre é mãe

 

.-.-.-.-.

SOBRE A FITA: Respirei fundo, não vomitei, fiz um sursum corda 9 (NOTA VI), e – “quero dizer uma coisa a você” (cacoete do Ulysses Guimarães): nessa fita estão os noventa minutos que eu gostaria de tê-los antes de morrer, se, numa agonia tranquila, movida só a luz e som, pudesse ver sua mãe a meu lado, fazendo tricô, e ouvir, na ordem que está, toda essa fitinha maravilhosa que dipensa Mozart (Novos Baianos!), Bach (Tim Maia!), Beethoven (Gil!), Schumann (Marina!), Wagner (Cauby!), Stockhausen (João Gilberto!), Chopin (Jorge Ben!) etc etc, Caetano!!, João Bosco/Clementina!!, Noel Rosa com Violeta Cavalcante!!! ( Os três em um – não é goiabada, marmelada, pessegada, explique aos amigos ingleses – os três em um Cae-Gil-João em “Milagre”!!!!!!!!

(etcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetc)

 

Mostre aos amigos ingleses a ♪ BR!

 

 

NOTA I – “Deixa correr o marfim”

NOTA II -  “Com as calças na mão”              

NOTA III – “Com todos os efes e erres”

NOTA IV – “Farinha do mesmo saco”

NOTA V – “Reclamar de barriga cheia”

NOTA VI – “Elevação de coração”   (i.e. com espírito

altaneiro, etc).

 

 

  (falsas versões do Mllôr!)



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@ Para Aninha, em 12-02-06:

1. - Aninha, ontem ou anteontem o Lyra (tb. Aly em e-mail, o Alberto Lyra Filho, sobre quem lhe mandei um acesso a "blog" muito inteligente e rico, Letteri Café: http://www.letteri.blogger.com.br/index.html ), mandou-me esse apanhado maravilhoso de geração, que você está me enviando.!

    2. - Valeu!

    3. - Um dia desses também recebi uma foto sua com o Phila, fiquei muito emocionado, só não respondi por estar muito, extremamente desanimado com um terrivel estado gripal, sem febre !, tenho medo disso. Febre tem de vir junto!...

    4. - Bem..., por falar em Phila, gostaria de tratar com você da permissão hereditária de edição do Livro que deixou armado, cujo boneco o Marcos Bastos esboçou.

    5. - O Plínio, da Ateliê Editorial, se dispôs a editar, não sei ainda sob que condições financeiras, os Poemas do "boneco" que nós dois temos e que ele não viu ainda, ninguém viu ! Sugeri também os ensaios e micro-ensaios que deixou e, igualmente, alguns poemas verbais de grande força, enorme inventiviade sonora e originalidade.Também ele não viu. Estamos no puro jogo de intenções.

    6 - Precisaríamos encontrar um apresentador/prefaciador de grande expressão. Um nome que me parece bem credenciado, e acho que você também pensa igual, é o da Maria Lúcia Santaella, que, além de tudo, tem ibope.

    7 - O Medeiros, no Estadão,  abrirá para mim o espaço necessário, à época que eu quiser. Precisamos ver na Folha : está entrando lá um nome que espera por um artigo meu, mais informativo e sentimental, mas também técnico, onde explico um por um aqueles poemas que o Phila deixou, com a vantagem de ter anotado as gêneses das concepções, que ele me confidenciou de oitiva, com aquele jeitão reticente dele, mas provocando-me pequenas invejas ( "Rriso" ). Trata-se da vantagem da "interpretação autêntica", uma das normas da denominada "Hermenêutica Jurídica", isto é, aquela que promana do próprio autor da peça.

    8 - No ensaiete, que é mais um suelto de educação sentimental no sentido flaubertiano, procuro ligar-me a ele, sem que o leitor veja qualquer influência, mas sim o que denominei um caso de "intuição reinfluente" por tabela : lembra-se daquele meu texto que acompanha meu poema / "encarte" num dos catálogos de exposição do Orlando? : aquele poema cujos membros da família são os dedos da mão? ("Três insights na vida glamorosa de Eustáquio Parreira", veja aquele catálogo que tem na última capa o clássico poema do Ronaldo sobre os olhos da Greta Garbo se abrindo ao devaneio). Ali explico o fenômeno da intuição reinfluente que se deu do Phila para mim. O artigo se chama "Dum Pai, Dum Filho", e é uma alusão a Dumas Pai e Dumas Filho.

    9. - Finalmente, precisamos conversar :

    a - eu e você;

    b - você e Maria Lúcia.

    c - eu, você e Maria Lúcia.

    d - você e o editor.

    e - eu, você e o editor.

    10. - ATÉ ORDEM EM CONTRÁRIO, NÃO ENTRAREI EM CONTATO COM A MARIA LÚCIA, ASSIM COMO PEÇO QUE VOCÊ NÃO O FAÇA COM O EDITOR DA ATELIÊ.

        Aguardo resposta breve.

        Bgs Menezes.


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@ Carta a Villari-Herrmann


 

Caro Herrmann;

 

Primeiramente, espero que você perdoe a demora em responder sua emocionante carta; acho que no fundo eu não a merecia. Leve a demora à conta de uma maldita, e natural, preguiça que tenho em escrever...infelizmente não só  cartas como qualquer coisa. Nasci seco na escrita que envolva confidências. Você sabe que gosto muito de papear com os verdadeiros amigos, aí me abro, rompo nos exageros, mas pra cartas... mesmo para artigos, ensaietes, incursões pela prosa... só qd. a coisa me incita muito na criação, nas coisas abstrusas (perdoi-me), aí faço um esforço e depois que pega fogo fica incontrolável. Ou então quando estou bêbado ou meio bebido. Como não tenho bebido ultimamente, a ponto de aportar naquelas paragens onde qualquer bobagem vira lance de epifania, relutei, relutei, mas vá lá, você me merece o máximo de respeito como poeta e como homem de grande caráter... E sua alma não pervaga  nos círculos do rancor onde gravitam alguns espíritos de “glass menagerie” que conhecemos bem... Uma brincadeira a 4 mãos como nós dois fizemos em cima do augusto versor (cuidado! não veja “versor” aqui senão no exclusivo sentido de “tradutor”, pelo amor de Deus!), qual seja, a de que era o GUILHERME DE ALMEIDA DA LETRA SET, mais alguma farpinha moderada de delíquio de pubs perdizeiros custou-nos – a menos a mim – uma recolhida de fausta, longa e aprazível amizade também digna , deiscente, sempre um grande palco...mas, enfim, não se pode, impunemente, apagar as luzes do fundo do salão dos hip-campos, hip-campos, hurra-pignatari!...

Voltando a nós, mortais, e sem literatice, que já ia me tomando o ego – mas você sabe, Herrmann, quando começamos a abrir a boca, automaticamente, somos artistas! , começamos a parlapatar... a não ser quando a coisa é grave. E o que houve entre nós dois foi até uma coisa gosada; jamais quis menosprezar um amigo como você, quando, por telefone, aquela noite na casa do Phila, lhe disse que o sítio do Décio se chama Valdevinos, o de Mallarmé se chamava Valvins (cito de memória, é assim a grafia?) e que o seu deveria chamar-se Mal de Vinho. Foi, sim, pra fazer, como você critica em mim, umas firulas verbais... mas tudo na gratuidade... não tenho nem capacidade para articular nada na base da verdadeira ironia. Nunca a usei. Detesto-a fora dos livros. Não tenho amigos irônicos. Sentiria remorso em ferir alguém com esse tipo de vezo. Assim, também me explico – e retifico – a alusão à litografia famosa de Charles Munch, mas é fantástica a semelhança de sua fisionomia, Herrmann, com aquela figura expressionista que está lá! Sabe?, é o “ar” daquela alma atormentada, que encarna muito de seu olhar, de um grande poeta romântico que tem a plena obsessão de encarar de frente a Arte e a Vida, como você... dos poucos raros tipos maravilhosos que tiveram a grande coragem de renunciar à Vida, para melhor serví-la. Soturnamente. Te entendo, meu caro, nas angústias nobres de fim de noite, que sempre começa trêmula, mas que termina intrépida. Não estou fazendo demagogia verbal, mas admiro muito sua maneira de viver. Incrível, mas acho uma coisa de Dichens, você pelos “seus cantos” e... de repente: no sábado almoçando rodeado de pais e irmãos e cunhados ; de repente :domingo e você agitando a bandeira tricolor numa cadeira-cativa. Você é uma figura única! Se você não se ofender... vou te chamar... de... abencerragem...

Tentando, novamente; falar mais sério (embora tudo que disse acima tenha sido sincero – e não veja nisso, contraditoriamente, uma ironia retórica!), acho que você é dos poucos caras, que conheço bem, que não têm a mínima possibilidade de ficar louco. Isso que você chama, em sua carta de “ponto fraco do meu psiquismo”, i.e. , o temor que você tem pela desrazão, pela loucura, nada mais é que o pessimismo natural dos grandes infelizes (também estou nesse meio), que acham a vida tão sem sentido, que lançam mão de todas as artes para dar-lhe uma semântica...

Por isso admiro cada vez mais os tolos religiosos. Os grandes tolos religiosos. Não há tolo que não seja profundamente religioso, nem religioso que não seja profundamente tolo! E veja que a coisa é tão imbricada que, à medida que vão perdendo a fé em Deus, vão virando progressistas, acalentam, protegem mais o complexo social! O grande místico, o Iluminado, o Umbelicado, este rasqueia, abjura seu próximo. É estranho. Sabe – e não pense que vou desgarrar na meada deste filosofar -, sabe no que quando mais me identifiquei com o triste e ereto confrade numa fralda de madrugada? Foi quando, há uns quatro anos já passados, percebi que você ouviu comigo, e conseguiu entender, a frase que aquela infanta também ouvia naquele quarto de um castelo, de seu amado, fingindo-se de fantasma, cantando, em parceria com o músico Chopin: - “Eu já estive aqui! Eu já estive aqui!” Você precisava ver como seus olhos sorriam no escuro e seus dente perscrutavam a sequência, na meia luz de nossa sala!

Por esses esparsos – e aparentemente desatinados exemplos -, você vê, querido Herrmann, que estimo muito a você e à sua poesia, algumas delas sempre me causando inveja, o koito, a valsa do infinito, o grande poema pop da Miss Kodak (tenho uma análise meio longa dele, que vai sair num “ersatz” verbal de meu  próximo livro, (o Phila conhece), enfim, quase tudo que você faz.

Você me agracia , cortezmente , com uma influência que teria tido sobre sua produção artística. Sabe qual a coisa mais bonita nesse papo de influências? : veja como Haydn influenciou Mozart, que influenciou Haydn, que influenciou Mozart, que influenciou Haydn, que não influenciou mais Mozart porque este morreu antes que Haydn pudesse influenciá-lo para que Mozart o influenciasse!...

As palavras sobre a Cristina, aceito-as como muito sinceras, mas embora eu cometa alguma injustiça verbal com ela, saiba que é por um misto de ansiedade pelo futuro de sua realização como artista... e, consequentemente, por sua integridade pessoal, sua felicidade de ser que almeja, como todos, realizar alguma coisa de duradouro neste mundo passageiro. “As coisas que duram mais que a vida é que mostram que ela é tão efêmera” (Millor? Marquez de Maricá? Eu-bêbado?) Mas, mesmo em se sabendo desse triste aforisma , o homem almeja prolongar-se... “C e nymphes, je les veux perpetuer!...”

Quanto ao que você sente pela Maria Cristina, continuo respeitando, distantemente, como sempre me impôs meu ponto de vista a respeito.

Espero recebê-lo de novo em nosso convívio, boca-livre, embriaguês sem policiamento, livre-pensadores-verbais, orlandos das grandes salas, hipóteses de vida, arte só na cabeça (que importa! o bonito é ter projeto!), mitificações, mistificações toleráveis, festa de viver!... é isso nossa vida menos íntima e penosa. E que cada um lute pela obra, que pereniza, enfim, o amargo contra-peso da solidão. Pois muita alegria também mata.

            (ACHO QUE ESSA ÚLTIMA FRASE É UMA GRANDE BESTEIRA).

 

            Abraço

 

                (MENEZES)      5/11/86

 

 

 

- Salvador Dali é um gênio enorme!

 

 

 

 

- Você é um cara muito bom,  Herrmann!

                                               (Cézanne também é.)

 


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@ Para Janaína;                     (10-02-06)

 

                Gostaria de te passar uma alegria, que contraí quando conheci Cuba no Paraízo idealístico de minhas cerebrações.

                O  “Lasciate ogni speranza, voi ch´entrate”  tem de ser visto não como inscrição na porta do Inferno dantesco, mas na alfândega buliçosa e desesperadamente política e social dos homens de bem,

                É o preço.

                E que o burguês acha caro.

                Você, que acredita pouco nos homens de bem, ou do mal, tem de se concentrar na frescura genuína dessas canções de Silvio Rodriguez, pra ver como a irresponsabilidade guiada ( pode? : irresponsabilidade guiar-se?!?!) pelo mero lazer do som, do povo, da rua e do amor, tão presentes neste LP, até ressoar em suas (de você), sensações, como numa feérica mentira das coisas que rondam pela Realidade.

                Abra a porta do LP na faixa “Te doy una cancion”.

                : Cuba não é, não foi, não será real, nunca, mas o eco de seus socorros, para as coisas boas e más ( Cuba é a única coisa que pede socorro no bem!, prenúncio de que será até perdulária, veja o riso e a sandália de seu povo nos pedregulhos) e que sempre será, e é, até que o Homem mude, o hino da transperança! Ouça.

                Ouça.

                Ouça a voz – que seja a mera voz... – de Silvio Rodriguez e o desânimo jamais surgirá em seu horizonte.

                A Tristeza não prostitui, como o Medo.

                (O tratamento pronominal variável, 2a., 3a. pessoas, só é possível na verdadeira liberdade. E lá estamos, nela.)

                Abraço Menezes. S. Paulo, 10, fevereiro, 2006.

                ( E tome um Xarope São João!...)

 

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@ Para Paulo Fernando Araújo, via e-mail, que, diz ele, não chegou...

 

Paulo: 1 - Conforme lhe disse ontem por telefone, no agradabilíssimo papo que tivemos, onde muita coisa foi repassada, com vantagens para mim, que sempre aprendo algo com você, encontrei o CD que você me fez e que se chama "SOM BRASIL - 05.11.99, Coletânea CRIPTON, from LP".
2 - Em meus arquivos, classifica-se em ZZZ - Mus. Pop, Internac. e BR, letra C- CAIPIRA, som do Brasil "caipira" (country pra mim é outra coisa : Os 2 Irmãos em Voga - não é pouco-caso não, esqueci-me neste momento de seus nomes ; Chitãozinho Xororó et al.)
3 - A primeira faixa é justamente a de Alvarenga e Ranchinho, "O drama de Angélica", vasada exclusivamente em proparoxítonas, nos molde de uma famosa composição de Chico Buarque, bem posterior!
4 - Eu lhe havia dito, ao telefone, que, no livro que estou escrevendo, de biografias estéticas (ou estéticas biográficas), denominado "IMPROPRIEDADE PRIVADA", há uma passagem em que exploro essa ressonância fonética ligada a eventuais ligações semânticas, associando o fenômeno com as pausas da fala (e do canto) que podem dar outro sentido, uma espécie de "trocadilho sonoro", embora todo trocadilho, ao ser lido, seja de certa forma sonoro...
5 - Para que você deduza e elocubre, se tiver tempo, em cima destas minhas insinuações, passo-lhe, a seguir, a nota para o capítulo em que desenvolvo a coisa. Você, culto e inteligentíssimo, vai atinar com o que pretendo demonstrar :

"- Ouça a letra do "Coração Materno" , que exala a natureza árabe da lenda d´ "O CORAÇÃO MATERNO", que está no livro "Contos e Lendas Orientais", de Malba Tahan. V. tb . o livrinho na cx. "Caetano Veloso completo" :

Fx. "Coração materno" ....." [...] mattar [sobrenome árabe] ou morrer!", i.e., "mátar ou morrer", que é como Caetano canta !!!).

Também as duas tônicas frásicas de início, no CD da Globo, dado pelo Paulo Araújo, v. no ZZZ, letra C- Som do Brasil caipira : na música do Alvarenga Ranchinho ( cf. fx. 1, "O drama de Angélica", com Alvarenga Ranchinho) de finais de frases só com proparoxítonas de rimas ricas -- bem antes da do Chico Buarque -- uma proparoxítona rica, pois só tem três sílabas e a tônica cai na segunda, mas que, devido à prosódia / fonética, é mesmo uma proparoxítona ! : a palavra "perplexo" ...( = ...pléquisso ).

- Ouça a seguir "De quimeras mil / um castelo ergui" - ouça a Nana Caymmi na versão de "Fascinação".



                                                           **********************************



Para terminar, caro Paulo, noite destas darei um aviso pra você vir buscar a cópia do CD, que você mesmo me fez ! ("ironias do destino", isto até parece título de música...) e tomar um trago comigo, com álcool ou sem. A propósito, acabei de ouvir outra dubiedade prosódio-fonética, na FM 102.5 : uma música do Genival Lacerda, cujo título é: "Dá álcool pra mim !"

Abração do Menezes.

 


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@ - Para ALBERTO LYRA JÚNIOR ( O nosso inconfundível Ly-Ly, Albertinho Lira, aly), nov. 2005.


Letteri Café: www.letteri.blogger.com.br
BUCÓLICA II

Alvêntias tretanias balouçavam
nos girântios de almocriz.
Passavam géulas em bando
na busca dos drídeos.
As nuvens ernosas pesavam
de jutulas prestes a desabar.
A terra farpídia e túrpera
esfarelava-se sob
o inclemente trípio.

aly. Opera Minima: Fonografias (no preprelo)

Um fauno é um fauno é um fauno: e,
por aly . 10:37 AM . Comentários (11)

 

Tu és o quelso do pental ganírio

saltando as rimpas do fermim calério

carpindo as taipas do furor salírio

nos rúbios calos do pijom sidério.



És o bartólio do bocal empírio

que ruge e passa no festim sitério,

em ticoteios do pártamo estírio

rompendo as gambas do hortomogenério



Teus lindos olhos que têm barcalantes

são começúrias que carquejam lantes,

nas cavas chusmas de nival oblôneo.



São carmentórios de um carcê metálio,

mas duas pélias por que pulsa Obálio,

em vertimbráceas do pental Perôneo.

 

(Teus lindos olhos que têm barcalantes

 são começúrias que carquejam lantes : isso é belíssimo e como é verdadeiro!, Ly)




(HENRIQUE MINDLIN, irmão do ZÉ MINDLIN, pp.207/208 de "Uma vida entre livros", deste último):


Esparforismo glásteo de perfúlio pasmo

Castarcinando márgoras no pascorel

[ ..................................................]


Angucilando [...etc]



MAS, ESTE, É DE UM ÓTIMO MAU-GOSTO E INTERROMPO.



*************************

(No documentário póstumo que a TV Cultura dedicou ao Philadelpho (Menezes), tem uma hora lá em que ele aparece recitando um seu belíssimo poema sobre nomes de pessoas, que estão rodeando , gravitando no absconso da anormalidade ontológica, com seres que se estufam em sua boca e deformam seu rosto a cada vocativo que ele pronuncia!!!)



************************

(Drummmond tem um poema de velhice, nessa mesma linha, mas (também) em outra linha, como acho o teu, no outonal (talvez o melhor!...) "Discurso da Primavera", não me lembra o nome agora).
 

 

 

 

 

 




 

 

 

 

 


 


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@  Para Ivan Teixeira, madrugada de 13-12-05, por e-mail

:   Caríssimo Ivan.

    Li e gostei desmedidamente de seu artigo sobre o Manoel Botelho de Oliveira.
   O traçado inicial sobre as estéticas do poeta está colocado com muita precisão. Realmente, os três primeiros parágrafos do ensaio, chamêmo-lo assim, situam o grande vate nas regras da poética que adotou com muita sabedoria e engenho, com as precisões horacianas da época. Ou Horácio não havia ainda sido traduzido por aquele português genial? No entanto, lia-se o latim.  [Diga-me o nome e a data, estou no momento sem os dados] 

    Mas o foco estanto em você: é um traçado didático perfeito; você quando quer escreve qualquer coisa, este truismo, embora tautológico, é meu de longa data!

 Lembra-se ? :

                                    "Quando ainda não tinha intimidade com você, e li o 'Apresentação de Machado de Assis', anotei lá:

                                   “Mais uma vez digo: o A.  consegue ´expressar` o que quiser. Doravante, vai ser uma questão de idéias-teses!...”.

                                   Anotei isso em 1989, na p. 190 e referia-se à invejável passagem:

                                   “ O texto é um hino à liberdade de pensamento e contém uma censura ao mito da coerência. Mas o seu aspecto mais criativo resulta das imagens e do labirinto da sintaxe, que procuram imitar as surpresas do caráter de Artur de Oliveira.”

    Quem escreve assim é um verdadeiro mestre, você sabe! E tem de se vangloriar.

 

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    Fico um pouco em dúvida sobre o rigorismo da apreciação sobre Antonio Candido no tocante a aspecto que seria restritivo de seu enfoque sobre uma eventual exclusividade: a poesia seiscentista seria a única [coisa] responsável pelo afastamento do leitor da ( sic:) realidade imediata dos fenômenos dignos de imitação artística, que, basicamente, seriam a emoção pessoal, os embates da vida em sociedade e a relação dos indivíduos com os valores responsáveis pela formação da nacionalidade?

    Indago mais: seria Manoel Botelho responsável consciente ( tipo porta-voz ) pela concepção que privilegia a função formadora da literatura, "vendo nela principalmente os aspectos utilitários, que acabam por se confundir com a noção de valor artístico", ou seu notável, humorístico e humoroso gosto e estro não derivam de seu prazer oswaldiano, ludismo cabralista e molecagem semeadora de Mário de Andrade?1?!

    Tudo isto vi quando li o genial poeta. Com olhos noltalgicamente regressivos. (Lembre-se que nostalgia, em si, é a saudade de alguma coisa que o cara não chegou a ter, ou a perder. Incrível como coincide com uma visão diacrônica!)

    E como era ele pessoalmente?!...Sua vida, sua pessoa, podem explicar sua concepção de arte e função artística..

    Por outro lado,  você admite uma desvinculação entre Arte e Política e tem tendência, por tal liberalismo, a encontrar nos escritos de Candido um certo jdanovismo, ou, pelo menos, um reducionismo semidemagógico (no sentido etimólogico do termo) na concepção marxista de resgate da História, para justificações políticas, quando não ideológicas. A sua concepção, Ivan, é esteticista, como a minha ( penso eu! ).

    Acho corajosa sua posição, e (contradição?!) incrivelmente materialista, mas de um materialismo histórico, por incrível que pareça, e, talvez no cerne, mais marxista que a do marxista Antonio Candido, este mais realista do que o Rei. Ele tem um tremendo patriotismo, está na cara, em suas feições, que justifica suas posições de retrovisão dos fatos, para moralizar as atualidades de quaisquer textos que considere sólidos.

    Tal antagonismo, seu e de Candido, fica evidente na passagem :

    “Botelho, ao contrário, dava prioridade ao prazer com as formas sutis de jogo intelectual, que, embora também visasse à educação da pessoa, não era concebido nos termos do século 20. O poeta não escreveu para a posteridade , e sim para os contemporâneos.” (grifos acrescentados)

    Mas onde vejo que a questão se levanta mais alta é no período que começa com a assertiva  de que “isso [tudo...] obriga a procurar em “Música do Parnaso” não apenas uma possível identidade com o nosso tempo mas (...)” , até a consequente (e muito bem consequente) “relatividade dos valores” [para cada época].

      Mas, ao erigir seu landmark de moralidade poética (vamos chamar assim), na tomada de posição de que se deve reafirmar o compromisso com a realidade imediata do dia-a-dia, Candido não pode lastimar a visão que você tem da realidade que cerca não só o grande poeta enfocado, mas que envolve e compromete também o próprio Candido. Isto fica magistralmene claro nos dois últimos períodos de seu ensaio (o penúltimo é de uma agudeza rara!), sem este possível arrevezamento de quem não é especificamente do ramo...

     Belo, durma com os anjinhos. Ou com os macaquinhos das ONGs tombadoras, eles que estão carinhosamente em seu redor. Porque não ligam pras ONGs.

     Abraço Florivaldo.

 

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@  Para Ivan Teixeira, madrugada de 10-12-05:

     Querido Ivan: não estou sabendo de celebração nenhuma da Editora, não sei em que dia vai acontecer, lógico que estarei lá onde for, para cumprimentar você e ao querido Plínio.

     (Não sei por onde anda o Castor, ele tem estado casado, de vez em quando ele faz isso, que mania!...)

     Mande 1 1/2 , forse 2, dando as coordenadas.




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    Sabe?, a respeito da "queda que as mulheres têm para os tolos", se for mesmo uma tradução, como quis, "recentemente", J.M. Massa ("A juventude de Machado de Assis"), é um caso, avant-la-lèttre, de make it new poundiano -- e, depois, de transcriação afinitiva dos Irmãos Brothers --, pois o texto é machadiano por excelência! (pensamento, e forma da maturidade, adaptada (Rriso!) aos 20 anos!).

    Seria, como você se recorda, "De l´amour des femmes pour les sots", sem autoria, 1859, Paris e Liège, obra de VICTOR HÉNAUX, que, por sua vez, se abeberou num texto do sec. XVIII.

    Está anotado por mim em 1990, no facsímile da primeira edição.

**************

                                           

[Das "contradições da semântica" : (veja, Ivan, estou com a cabeça desgastada, minha memória virou uma pedra-pomes... Ia lhe mandar uma do cacete, de minhas elocubrações e, enquanto me levantei pra dar uma mijada, sumiu completamente!!!(???)).] Do tipo:

    @ - Galinha de Angola – galinha, mas a que primeiro assumiu, primal, a indiferenciação de gênero sexual ( esta é uma notação humorística...) ao dizer, e sem ninguém perguntar “ – Tô fraco! Tô fraco! Tô fraco!

    São coisinhas de meu Livro, mas que só passo a você e à Cris, minha filha. Tenho medo de ser usurpado, são pezzi às vezes ao estilo Millôr, mas acho que estão bem mais à frente em sua mescla de humor e demonismo, este no sentido verdadeiramente teológico da presença no Mundo.

    Millôr não sofre, fica no humor, eu pulo pra furar a bolha, vivemos numa placenta de bolhas, um dia Deus vai me conceder razão.

    Se sua namorada atual vir isto, vai se arrepender de dizer-lhe que você precisa de psiquiatra...

    E se eu me lembrar da sacada dentro das "contradições semânticas", lhe mando em seguida.

    Abraço Menezes.

 

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@ - Para  WILSON PEDRO JANINI         

 

            - Querido primo Wilson: estou cada vez mais pasmado com sua capacidade de elocubrar sobre coisas às quais você reveste de uma referência, uma topicidade paradigmática, mas que pertencem ao cotidiano, às pequenas sensações que assolam o homem no dia-a-dia. Estou especialmente referindo-me a um texto seu de meados de setembro, onde você discorre sobre HORROR AO VÁCUO, O LAZER E O ÓCIO, a CLONAGEM DOS CARACTERES, a MEMÓRIA ORDENADA e A ILUSÃO DE QUE O PRESENTE É CAPTÁVEL.

            É coisa típica daquele grupo de filósofos sem sistema, e também dos grandes autodidatas, que não é o seu caso.

            Acho que estes últimos não têm noção de valor da real existência de uma Arte, Ciência, Filosofia ou Religião (o valor, na vida, é gradativo, a gente assimila de forma sistemática, com as somas e com o tempo; os autodidatas não têm tempo a perder, pela própria natureza deles...Eles me incomodam um pouco, por uma possível arrogância da não-competição...É meio nebuloso para mim).

            Os filósofos de sistema, “Filósofos filósofos”, assentam seus pilares na lógica mais abstrata, que vai rodopiar, de propósito, a mente do ser humano no torvelinho cada vez mais centrífugo, para que a essência do silogismo / apotegma fique cada vez mais distante, evitando o fim da Filosofia... No caso: a natureza das soluções que se explicam por si mesmas e o Deus de Aristóteles /a metafísica realista tentando impor-se ao contingente); o cartesianismo que “desumanizou”  os famosos homens da caverna de Platão; o monadismo de  Leibnitz  (uma nova teologia); o fulcro da Óptica de Newton (panteismo físico à espera do fadado panteismo estrito de Spinoza); o Juízo absoluto do racionalismo de Kant, que foi pai da Dialética (que hoje se pré-põe à colocação de qualquer raciocínio); a fenomenologia de Husserl, base dos dois filósofos do Humanitarismo (Metafísica Tática( risos...) de Heidegger e Existencialismo de Sartre, mas que, em minha quase insipiência no ramo, julgo que são mais Filosofia Política do que Filosofia pura). E, mais “hodiernamente”, o Logicismo de Wittgenstein, que conseguiu chegar, através dos números, i.e., das coisas que “todo mundo entende do que não entende”, à natureza de Deus, sobre quem todo mundo entende do que mais não entende..., como escrevi uma vez ao grande didascálico Ivan do Prado Teixeira, ao palpitar sobre o  “Tratactus...”.

            Mas você, Wilson, me surpreende com magníficas aberturas na base do pessimismo, pois só as negações possibilitam, em meu entender, a ereção de novas verdades. Pode ver que tudo o que existe é porque algo foi negado: estão aí as grandes lições e o rolamento dos fatos de Machado de Assis, Lucrécio, Leopardi, Swedenberg, Nietzsche e, para mim o Rei dos Drops=Schopenhauer, com seus Paraliponemas (Aforismos, que virou sinédoque tautológica, “Aforismo é um aforismo”, já disse alguém, magistralmente!). Realmente você me assusta em alguns escritos: um médicin de campagne, daqueles que não se fazem mais (que chegavam, curavam, não cobravam, tomavam do café zurrapa com bolinho de chuva e iam embora com dor no coração), mas agora, com mais de oitenta anos...com sua maletinha de poções espirituais!!!

            Isto tudo para mim é emocionante. Passei a te ver na distância. Gostei de mais dos cinco textos que mencionei acima.Mas precisamos conversar pessoalmente, explicar por quê gostei!! Venha logo e telefone, vamos tomar uns whisquinhos e jantar juntos.

            Abração a você e para a Lourdes, do Vadinho.

            (Desculpe o tratamento na segunda e na terceira pessoas...)

 

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 @ - Ao Castor (Fernandez), aduzi no espaço Assunto um : mais uma surpresa.

    Tento explicar-me:

    1 - Você se enruste nas alusões a leituras. E fico sem saber o que você leu, quais suas preferências. Se você fosse um padre ou um bookmaker, não me despertaria interesse. Mas você faz coisas...e coisas. Me lembro de quando o conheci, você estava mostrando peças suas de teatro ao Plínio Marcos, ele um afetuoso amigo meu e seu amigo de infância. Depois você entrou numa fase de Xadrez, campo em que me espantaram algumas análises de partidas magistrais, e você sabe que tenho cancha para saber do jogo, conheço-o historicamene como poucos (modéstia à parte), embora seja um patureba, ou no máximo um bom, quase excelente jogador doméstico. Mas longe do doméstico de Duchamp! Aí vieram as fotografias, você com equipamentos de última geração, Canon, Nikon, só não vi a rainha (Leica), mas vi belíssimas fotos, as das raias do Jockey Clube com aquela ciranda toda de uma festa ou solenidade japonesa, uma profusão de cores que lembraram fotos de making of de RAN, com uma atmosfera de Kurosawa mas estática, você mostrando que aquela dinâmica genial de seus filmes pode ter atmosfera parada, congelada.Depois soube, no plano do Castor Engenheiro, de seus alertas sobre a tragédia do Viaduto dr. Frontin, no Rio. E de suas viagens pela Europa, Argentina, locais em que você dominou fatos e peripécias de futebol, próprias de um profissional da área. TIVE OPORTUNIDADE DE VER UM PAPO SEU NO REDONDO COM UM ARGENTINO FUTEBOLÍSTICO DE PROFISSÃO. Em seguida suas incursões internáuticas, a tonelagem de informações, pô!, às vezes grilo que isso tudo só pode ser mediúnico.

E, PELA AMIZADE, GENEROSIDADE E ABDICAÇÃO, você me dá o direito de expor estas franquezas...É que nunca o vi sentado, concentrado, você corta a exposição do interlocutor, parece jogar tudo pela janela, como quem está garantido pela informação de última hora...ou da frase que vem logo a seguir.

Chegou a me irritar muitas vezes, quando me deixava falando sozinho no meio de uma frase e saía do ambiente como que correndo. E não havia nele um terceiro interlocutor. Dava-me impressãoa de vesânia, ou no mínimo de maluquice.

Tenho ainda que entrar por outra, neste arrazoado, bem a molde de seu comportamento cultural:  tenho pra mim que, sem leitura, não é possível ordenar idéias, mas sei que posso estar errado, veja o caso do Lula, que ordena muito bem, ele só não coordena...Mas acho que continuo certo e que o Lula é caso de genialidade (= talento congênito. Ou ingênito, melhor.)

            Volta e meia você aparece com uma de sua lavra que exige, digamos, uma certa especialização. É o caso do Poema "Amor", para mim simplesmente genial, e um caso, esse sim!, do tão academicamene decantado isomorfismo: [ GOSTARIA DE MANDAR  ESTA MENSAGEM COM CÓPIAS, PORQUE SERIAM PARA PESSOAS DE ALTÍSSIMO NÍVEL, QUE TERIAM – DEVERIAM! – EM MEU ENTENDER, DE TOMAR CONHECIMENTO DAQUELA PÉROLA ] : veja(m) que o poema aproxima entidades (os amorosos) que não suportam a companhia, pois, ao se tocarem, desviam-se de novo como resultado de verdadeira colisão, que é a rota do Amor, para mim. Como se chama aquele ímã ao contrário, cuja insistência de grudá-lo com outro provoca uma repulsão violenta? Explique-me, você que também conhece eletrônica, !,   por quê aquilo acontece...

            Agora o mais importante e não sei se involuntário ( mas para mim o ato involuntário é da essência e valor de quem o pratica, isto é um truismo tradicionalmente português, perdoi-me a Nova Cartilha das nomenclaturas e chamamentos oficiais, cartilha essa recolhida pelo Governo superior da  república ) mas só por essa via é que se chega ao alvo das criações; por exemplo, não é possível arcabouçar humanamente, a não ser com o auxílio de um “Deep Blue”, um artifício metalingüístico mais perfeito que o do ato de operar seu poema do Amor.

            Pode-se argumentar que o ato involuntário teve como típico fio condutor ( e aqui no melhor, ou único,  sentido técnico ) um dos milhares (ou milhões, ou bilhões) de arquétipos que pudessem ter aflorado ao Inconsciente Coletivo, neste caso ao Autor, a você. Mas eles se acumulam pelo evento da Ancestralidade. E a Ancestralidade não é um buraco negro e sim um repositório memorável de fatos e coisas à mão...(e onde possa entrar a analogia!)

            Pra catá-los é preciso uma especialização, um ato de vontade (portanto voluntário) sob pena de se pegar a coisa errada, aí sim vira acaso, azar (não o azar na acepção mallarmeana).        

            Você me disse por e-mail  que o poema foi herança, algo nesse sentido, da Poesia Concreta. Mas é realmente estranho o modo displicente com que você chega ao resultado do balanço das duas linhas verticais. E não posso acreditar que por acaso se chegue à manipulação do acaso do poema, a não ser por intuição suprema, que talvez seja seu caso: tem um achado lá que é um primor de invenção, não mais digo involuntária, mas escondida, como quem malandramente brinca, debocha, sem pensar na responsabilidade poética.

Ou de quem acha que a Obra de Arte, ou o exercício de sua fatura é mera brincadeira. Tese que expus ao saudoso Nilton de Castro, para dessacralizar a inveja(diria mais elegante e humanamente :disputa) do Percy por um confronto de nostalgia de criação, senão ele morreria...

Como levo muito a sério as brincadeiras, comovi-me com a aproximação e afastamento das linhas (os amorosos) resultado da manipulação da ruela desses mouses modernos. Quando recebi seu poema Amor, fiquei muito entusiasmado e lhe escrevi:

Muito bom!!! Realmente, o Amor só volta (retribui), como no seu poema,
quando "bate" no outro(a). Se você eliminar o final onde se desenha o
coração com a palavra no meio, fica perfeito. Porque com aquele final o
poema sai da espacialização para cair no pictograma, recurso tipicamente caligramático que, no caso, "estraga"...
Desculpe-me, mas se não fosse muito bom mesmo eu não me atreveria a
palpitar. Ezra Pound rabiscou e trebiscou todo o longo poema de Eliot, TheWasteLand, marco da Contemporaneidade poética, 1922  (a ModernidadecomeçoucomLesfleurs du Mal, 1856). Eliot acatou e deu naquele pilar!Mesmo não sendo eu
nenhum Pound,  DESCULPE-ME A "INVASÃO", MAS É QUE GOSTEI MESMO DO POEMA.
Outra coisa: você reparou que, para o Amor funcionar é preciso que o dedo médio, ou o indicador (respeitem-se  as preferências dos dedos!)acionandoa roda, fique  cricoteando um clitóris?!!!
Toda obra de arte é uma obra aberta...
Abraços, Menezes.”

            E hoje mandei um e-mail para o Ivan, de seguinte teor:

  Ivan:em complemento ao e-mail que contém as apreciações que fiz sobre o talento do Castor (xadrez, engenharia, política, religião, poesia; e ele é tão agitado, pessoalmente, não pára um segundo quieto, não se senta numa cadeira pra dar uma sossegada, não se concentra um instante, só pode ser mediúnico!), e-mail aquele onde quase autoritariamente determino que você e todos "os CC" (*)  vejam com carinho seu poema móvel "Amor"(das maiores obras-primas que conheço da arte cinética e do isomorfismo científico, confiram), em complemento, repito, vejam a síntese desse artigo dele, "O útero de Deus"! É um exemplo raro do gênero Sub Alegoria, parece-me que ultimamente muito falado em Retórica, mas pouco exemplificado.

    Ah, estou meio confuso hoje, pulando com ansiedade pra afugentar uma bruta ressaca, nesta madrugada enxuguei com um amigo um litro de whisky JB, meus neurônios estão in UTI s (pôrra, mas esta está ótima, acho que está, Deo gratias, nasceu agoríssima), então, neste embaralhamento todo descobri mais uma alusão, sutil, maravilhosa, no poema Amor, do Castor: além daquela atração e repulsão, da divisão do ser na aderência do amor, do ímã ao contrário, da massagenzinha no clitóris do mouse (como já disse, o dedinho roçando a ruela do mouse para o poema se mover), acabei de ver mais uma: aquelas duas linhas (que tenho chamado de amorosos no curso dessas análises), estão em dois balanços,  desses de parques de periferia, os primórdios do amor, balançando puros...no poema há pureza, maldade e crueldade, três etapas do Amor quando não vinga ( aí ele se vinga).

                                    ************

    O Castor está dando o que falar (esta frase ainda vai dar samba, esperem).

                                    ************

    Disse a ele uma vez que o verdadeiro zen-budista tem de pregar a bunda na cadeira. Meditar. Pra atingir o nirvânico. Bunda pregada no assento. Todo zen-budista verdadeiro é um verdadeiro zé-bundista. Palavra atrai palavra, atinge-se a essência através do mot-juste.Não existe coincidência: sabe por quê Buda tem esse nome? Porque passou a vida inteira sentado. Não é incrìvel? (Explico aos ex-seminaristas, filhos de Maria e congregados marianos, se os existem ainda (sic): o n acabou se desmilingüindo fiofó adentro. É fraca. Mas verdadeira. Justifica-se a posteriori (cuidado, a expressão é no único! sentido, o "Houaiss" explica muito bem) E daí você pode rebus-cala com auxílio da Glossolalia, do Mistifório, das Algaravias, do Silabário Aleatório e até mesmo da Mixórdia...

    ÔÔÔ, como é gostosa a Internet, os e-mails, você pode cagar cultura, mas cagar com fé, não é como no livro que a gente está escrevendo, que não promete seja haurido por ninguèm... No e-mail não, você manda e o cara lê. Mesmo que te mande em seguida à puta que tiôs pariu!

    Mas a gente exerce a Comunicação.

    E a pessoa fica sem-vergonha (sic) de sacar umas e outras...

    Mandei uma pro Zé Simão, não tenho medo de usurpação de autoria, pois esta já está publicada, num ensaio sobre o Orlando (Marcucci): - O pior da bebida é que, com o tempo, a família acaba ficando perigosa. 

 (*) ("os CC = com copia para, então = os que receberam cópia, vamos adotar assim).
 

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@ - Ao Castor (Fernandez)

"(...) ... Reitero, Fat Garoot : é uma questão de luta de classes = o preconceito de classe. Só isto faz o burro ficar por instantes inteligente. Não deixa de ter coisas agudas , e corretas, na ladaínha da Torloni. Ela tomava porrada diária do marido, o falecido psicanalista Eduardo Mascarenhas, outro imbecil, mas com a qualidade pelo menos de admirar o Brizola . E, toda de olho roxo, não reclamava, não tinha a menor dignidade feminista. No entanto, quando entra a luta de classes, percebe que tem cérebro e até que articula verdades inteligentes, mas que têm de ser toleradas, procrastinadas em função de uma teleologia social de país em formação ( só agora, em meu entender, o país está se formando, virando o ápice da pirâmide para a raiz, para o assentamento da nacionalidade e da cidadania). Em todo caso, como se preza a democracia, o individualismo... "chacun sa verité"... e abração do Menezes, sempre stalando."
 

AGORA O MAIS IMPORTANTE: O BRASIL, ELIMINADO NAS QUARTAS, OU TALVEZ NAS OITAVAS DE FINAL, NA PRÓXIMA COPA DO MUNDO, POR ACERTO GLOBAL, FARÁ COM QUE O POVÃO, BESTIAL, IMBECIL, ZARAFRÚNDIO COMO TODO POVÃO, DESCARREGUE A VOTAÇÃO NA OPOSIÇÃO, SEJA ELA A MÉRDA QUE FOR... E BYE-BYE REELEIÇÃO!!!

    É O PROCESSO INVERSO DA JOGADA DO BAGGIO NA DERROTA DA OPOSIÇÃO (LULA, QUE ERA BARBADA), CONTRA A SITUAÇÃO FHC (1994)...

(Se você, ou quem quiser, quiser ver o Baggio olhando pras nuvens e jogando pra elas, nuvens, descaradamene, a bola que decidiria o campeonato em favor dos italianos... e o povo descarregaria em Lula, bye bye FHS. TENHO AQUI EM MINHA CASA, TUDO GRAVADO!!!)

 

        E você acha que sou ingênuo, que não estou enxergando?!?!?!

       E QUANDO LHE DIGO QUE O LULA AINDA NÃO FOI ELEITO, AQUELA MINHA PARÁBOLA  QUE DIVULGUEI AOS AMIGOS?...

        ESPERE A COPA... OU O IMPEACHMENT.
 

----- Original Message -----

From: Castor Fernandez

To: flomen@giro.com.br

Sent: Sunday, May 07, 2006 11:20 PM

Subject: SPAM: RE: Fw: Fw: Não deixe de ver o vídeo !!! Uma triste verdade !!!/ FM em 06-5-06, 22h48/ C.Torloni.

 

Pára com isso Menezes

A "menina" é burra de pedra. Burra e mau caráter. Você dá muita credibilidade p'ressa gente da Globo. As reginas duartes, marilias peras, ana marias bregas, limas duartes, verezas, jôs soares "et caterva" estão apenas fazendo propaganda política ILEGAL a mando e com consentimento da Globo. Será que você não percebeu que o Lula "traiu" e ainda está "traindo" os interesses da Vênus Platinada no assunto da TV digital? É muita ingenuidade sua pensar que essas pessoas são capazes de pensar sozinhas. Essa gente só pode "pensar" se houver um "script" e um autor "extra corpóreo". A "coisa" vai ficar pior ainda. Soube de fonte fidedigna que o sistema da HDTV a ser adotado no Brasil NÃO vai ser o japonês. O que foi assinado pelo ministro Celso Amorim em Tókio foi um protocolo de INTENÇÃO  e não um CONTRATO. A Globo, caso não seja adotado o padrão japonês, deverá ter sua participação no mercado publicitário brasileiro reduzido de¨60% para 15% em apenas 2 anos. Isto se chama FALÊNCIA. Todas as empresas de telefonia poderão distribuir sinais digitais e/ou HDTV com CONTEÚDO PRÓPRIO. Isto quer dizer que ela (Globo) tem que colocar em Brasília alguém da sua inteira CONFIANÇA. O Lula não está no rol dos CONFIÁVEIS (pelo menos para a Globo) face suas últimas decisões. Ista que está acontecendo chama-se VINGANÇA PELO DEBATE EDITADO COM O COLLOR.

Você, como sempre, superestima e "tolera" pessoas com mau caráter como essa turma vendida da Globo.

Chego em SP 3ª feira a tarde. Apareça.

Abraço

Castor
 

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@ - Para Castor Fernandes, 11-4-2006:

“(...) Adendo: Há pouco, quando recebi a malfadada entrevista do Carlos Merdão : Verezas no programa do Jô, mandei ao remetente o seguinte texto :


Fat Garoot: há muitos, muitos, muitos anos, escrevi o seguinte sobre o Jô Soares:
"@ - JO SOARES Num país de invertidos progressivos como o nosso, um desinvertido público como Jo Soares dá uma impressão de paz douradora (sic)."

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É meio naquela minha base, de que falamos hoje (ontem, 09-5-06) em sua casa ao comentar minhas cifrações, que lhe defini como anárquicas, propositais, fragmentárias, como a maneira reconditamente cínica de ver o Mundo (NÃO SE ESQUEÇA DE QUE SEMPRE FALEI QUE O HOMEM É UM ANIMAL FADADO À DANAÇÃO. NÃO CONFUNDIR COM ANIMAL FARDADO DA NAÇÃO).

"Vendo o fragmento de vereza do programa que mencionei e fiquei de lhe mandar (acabo de fazê-lo agora), dá pra sentir aquilo ali de cima : a voz, por distorção benfazeja dos deuses, denuncia a chibice do cidadão, e a alho/nação de seu seleto aurrotório. Também a lestipência do lápucra, cagando filosofias de tilho da fupa, excita uma sem-família kojac rosa a sanear pelos ares a cagalhice toda, a começar pelos câmeras, terminando pelo não término.Como sempre diz o Zé Simão: Pompa! Pompa! Voou lá, mas eles vão também!

Com a bênção de um Deus justo.

(A justiça farda mas não talha!!!, como dizíamos em priscas eras)

[ Ao caro QUIXADÁ, que está recebendo junto:  PEÇO-LHE QUE GUARDE ESSE TEXTO SOBRE O VEREZA COM RESERVA, POIS FAZ PARTE DE MEU LIVRO EM ELABORAÇÃO.

ABRAÇÃO DO Blumenbosque Menezes.


Blumenbosque [ Eu !, Florivaldo Menezes ] ( Uma versão : FLOR = BLUMEN juntada a uma tradução : WALD = BOSQUE. Então...Flor wald = Blumenbosque ) Presto, assim, homenagem a uma grande, enorme, maravilhosa e, malheureusement, já saudosa pessoa, que foi Jacó Leiner, e que assim me chamava...)
 

 

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@ CASTOR FERNANDES (agente ativo nesta missiva)

Olá  Menezes,

Em 1º lugar muito obrigado pelos comentários. O testemunho do alerta pessoal do Francis ao Jango foi relatado em entrevista ao JB pouco depois do fato. É possível que seja mentira mas não acho isso. Segundo outros relatos, o PF era amigo  pessoal do "home". Soube disso numa conversa que tive com alguns "caras" do "Pasquim" (se não me engano,o Jaguar) no final da década de '80 no "Lamas" (restaurante freqüentado até hoje pela classe artística e jornalistas, nas Laranjeiras-RJbem  ao lado do Largo do Machado). Devo notar também que o comportamento  alcoólico varia muito de pessoa para pessoa. É muito comum o desvario  e/ou a irracionalidade. Janio era um megalômano sóbrio. Imagine  bêbado...Passar filme ao contrário é coisa de cineasta ou aficcionado... Pode ser e é recurso utilizado em muitos filmes. Agora, gostar de fazer isso regularmente é coisa de "doidão". No Guarujá, na casa do Dorival de Abreu ele "enchia o saco" de todo mundo por monopolizar a TV e o video-cassete fazendo isso. A tal ponto que quando nós (eu e a Shane ou os irmãos dela) alugávamos fitas procurávamos assitir pela manhã, antes da praia e antes que o "maluco" saísse do quarto... Lembro apenas que você não comentou minha"tese" da canalhice golpista congênita dos militares latino americanos em geral e brasileiros em particular.

Abraço agradecido do Castor

FLORIVALDO MENEZES  escreveu:

"Garoooto" : acho que há algumas fixações extra-mente, ou obsessões irracionais no homem, como arquétipos verdadeiramente endêmicos, uma delas a bebida, outra as mulheres. Paulo Francis era vítima da primeira, Goulart da segunda, e é bem provável que tais portadores de idéias-fixas ( havia outras, também nobres (RRiso), naquelas duas cabeças sui generis e possantes ) tenham alguma vez se encontrado para um recolhimento na intimidade da Política. Tinham a mesma ideologia e análises muito parecidas. Mas eu duvido (um era muito ocupado e importante, o outro muito desocupado e angustiado, necessitando estar sempre sentado e falando sem parar, naquele "sotaque nato de bêbado" ajudado pela bebida..., que não o abandonou nem após dez anos de abstinência ; e, portanto, ponho em xeque a assertiva de que Paulo Francis tenha alertado *pessoalmente* Goulart sobre a necessidade imediata de Lott no Ministério da Guerra. Isto também já foi discutido às pampas, principalmente em churrascadas de cúpula nos pampas... Outro pé atrás que coloco é no tocante ao retrato de Jânio que você traça, como se suas bebedeiras tivessem alguma vez (inclusive no mal contado episódio da renúncia, abordado com seriedade e noutra vertente pelo jornalista ítalo-americano John Gerassi, no livro "Invasão na América latina") norteado qualquer impulso dele... Um homem impulsivo é, por incrível que pareça, “moderado”pela bebida na hora h, porque a navegação etílica (hoje se diz viagem) lhe proporciona a impressão de aquele objetivo de momento, seu ideal, seu própósito, sua façanha, seu heroismo, está sendo coroado, bem sucedido... No fundo acho que é assim. Vejo por mim e por alguns colegas de “birinaites” (=biritas pela noite).


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Aquela de passar o filme ao contrário não tem nada de loucura do Jânio: já foi recurso, “no enredo”, de um dos maiores diretores da atualidade, o austríaco Reineke (estou citando de memória, com preguiça de abrir arquivos, mas o carinha fez a obra-prima "A professora de piano"), num filme campestre sobre extrema crueldade em cima de um casal, por parte de dois adolescentes. E o Jânio, como todo visionário, que alguns chamam de loucos transcendentes, ou simplesmente loucos, ao ver um cara levantando-se do chão para, então, tomar o soco, está retrocedendo um ato de vingança, que redime do flagelo, põe o cara de pé pra se encostar no soco do agressor, já fiz isso também com alguns filmes. Cheguei a montar e recopiar, com outro videocassete, uma história inteira, começando por seu fim, até chegar às primeiras cenas, exclusivamente para amainar certas maldades, ou justificar aquilo que parecia absurdo. É um filme terrível, precisa-se ter estômago forte e espírito meio maldoso para se chegar ao fim: "Bad Boy Bubby", já recolhido das locadoras.
 

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Mas, no geral, como sinopse de toda uma fase da política brasileira, seu relato é muito bom, bem costurado, com observações muito bem pesquisadas e extremamente úteis para vestibulandos (oxalá a maioria dos releases o fossem!). Friso que a questão do Jânio, seu temperamento e eventuais conseqüências em seu futuro, bem como o relacionamento -- e entrosamento ideológico como "praxis" -- entre Paulo Francis e Jango, e minha discordância desses dois aspectos são matéria de enfoque pessoal, erro com freqüência, sou  muito superlativo, hiperbólico, às vezes me invade uma megalomania e acho que sou dono da verdade. COM UMA SUAVIDADE : OUÇO BASTANTE, TOMO AS PORRADAS NECESSÁRIAS E VOU À LONA, PENSANDO, ENQUANTO VOU CAINDO, QUE AS COISAS NÃO ERAM BEM ASSIM...

Abraços Menezes."

 

 

 @ - Para Fábio Lucas.

 

Querido Fábio Lucas:

Como você é uma criatura rara, de imenso saber e proporcional paciência, ( nosso amigo comum Zé Olympio diz que você sempre teve saco de filó), generosidade e afeição,  vou abusar desses atributos todos ao lhe presentear com  a “ANTOLOGIA”, de Adília Lopes, de quem lhe tenho falado muito.

O presente era para ser entregue naquela noite em que você me visitou, mas o whisky m´o impediu. E digo que vou abusar, porque resolvi escrever-lhe todo um trololó, óbvio para sua experiência, mas necessário para meu ego diante de uma figura como você, e também por meu entusiasmo.

.           Tenho curtido toda uma existência de Poesia, de Pessoa a Drummond, de Rilke a Cabral, de Haroldo de Campos a Carlos Pena Filho (!), Cummings, Américo Facó a Cesário Verde, as mulheres do Parnaso, Emily Dickinson e Marianne Moore ( estas sem dúvida as top-line, com perdão da prosápia). Estou nesta vida a ler ( e a malfazer ) poesia nas horas e desoras, vagas e invagas, bem sentado, escondido e fora de lugar, enfim, tenho visto de tudo... mas confesso que há pouco mais de um ano descobri uma poetisa portuguesa, atualmente com quarenta e quatro anos, que me trouxe realmente, agora sim, parece que renovadas, as verdadeiras epifanias ( = "linguagem de reis", como você sabe, i.e., linguagem/revelação dos Reis ( aqueles três magos que seguiram, pelo Céu, a rota pra manjedoura, a ver se chegavam na horinha da chegada da Redenção...e repare que a cadência já era o início da decadência, arre!)

                        Note, Fábio, que as epifanias da poetisa Adília Lopes são revelações inéditas, mas tiradas das anedotas ( no sentido grego de coisa do cotidiano, que acontece todo dia ), ela tece tramas possíveis se de fato acontecerem ( parece coisa de português!, RRiso), verdadeiras abstrações concretas, pois, apesar de operar mudanças de entidades na própria palavra, na própria escrita, funcionam, como observou Flora Süssekind no posfácio à "Antologia", como estratégias simultaneamente contra-ficcionais ( porque se expõe o seu mecanismo de fabricação de enredos ) e antilíricas ( porque o eu lírico se transfere do plano da enunciação para o da ficção) indícios capazes de auto-evidenciar o território misto, instável, entre a figuração poética e a narração, o lírico e o épico, entre forma enunciativa e estrutura ficcional, em que se move sua escrita poética. Por exemplo,  da personagem chamada Arima, da novela “Menina e Moça”,de Bernardim Ribeiro, de seu próprio nome a poetisa passa, ontologicamente, a uma consideração sobre "a rima" como recurso poético. E do recurso rítmico ( rima ) se volta a um processo figurativo ( a rima vira outra vez uma senhora, como acentua o posfácio), de um som que se repete se passa a uma personagem contorcionista, retomando-se o trabalho de ficcionalização.

            [ NESTAS ALTURAS DO POSFÁCIO, ANOTEI:

            " V. meus processos da década de 50! e que continuo a aplicar: v. a passagem do Gustavo Kürten no meu poema ´Heavenly Creatures´ " (2001).]

            Se você tiver ainda mais paciência, gostaria que você relesse o poema supra, que lhe mandei, ou deixei em sua casa.

            No livro que estou escrevendo, “Impropriedade Privada”, na parte dos ensainhos, falo uma hora que a Fotografia foi um dom ( = possibilidade) que a tecnologia deu ao homem de não apodrecer no nihilismo da solidão e de nunca perder seu corpo. É a vida suspensa: ou a morte parada. Qualquer um pode ser milhões, como – e embora – naquele poema de Vinicius de Moraes, o da   "Nova York, oito milhões de solitários" (1962).

            Mas solitário solidário.

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        E, voltando ao problema do divinatório das Fotografias, reproduzo esta jóia, condizente, de Adília Lopes, que definitivamente devia  encerrar, selar e lacrar minhas leituras de poesia.

Tinha de acreditar nessa verdadeira devoção e dizer, alto e bom tom: basta, por esta encarnação tudo para mim já está justificado em termos de Poesia:

 

                        UM FIGO

                              

                               Deixou cair a fotografia

                               um desconhecido correu atrás dela

                               para lha entregar

                               ela recusou-se a pegar na fotografia

                               mas a senhora deixou cair isto

                               eu não posso ter deixado cair isto

                               porque isto não é meu

                               não queria que ningúem

                               e sobretudo um desconhecido

                               suspeitasse que havia um relação

                               entre ela e a fotografia

                               era como se tivesse deixado cair

                               um lenço cheio de sangue

                               porque era ela quem estava na fotografia

                               e nada nos pertence tanto como o sangue

                               por isso quando uma pessoa se pica num dedo

                               leva logo o dedo à boca pra chupar o sangue

                               o desconhecido apercebeu-se disso

                               é um retrato da senhora

                               pode ser o retato de alguém muito parecido comigo

                               mas não sou eu

                               o desconhecido por ser muito bondoso

                               não insistiu

                               e como sabia que os mendigos

                               não têm dinheiro para tirar fotografias

                               deu a fotografia a um mendigo

                               que lhe chamou um figo

 

                                                                                              (Chamar um figo (Port.): levantar as mãos pro céu, para o bem...ou para o mal, o que se há de fazer...)

                              

                               É que o livro todo é feito dessas coisas.

                        Curta-o. Gostaria de ter sua opinião.

                        Abraço de quem o respeita e estima muito,

                                          

(Florivaldo Menezes),

 

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02-5-05.

@ - Para o Castor Fernandes, fev. 2005, por e-mail.

Você votou no PT?!?!...

Mas que falta de juízo, baby!...E no meio da estrada (meio de mandato da prefeita) você elogiando a Marta daquela maneira? Pô, baby!...

Ih!... eu não falava que Internet ia me dar problemas?
Fairy: telefonemas eu tinha preguiça; e-mail a gente se anima, está com a mão na massa, dá uma de sincerity, a gente pega e desanda a falar bobagens, como estas, sorry/sorry, amigo-amigo é pra essas coisas, tem de se lixar... abração do Menez ( oriundo de Menes, Espanha, sabia que sou judeu espanhol? Tenho no meu sobrenome escamoteados pela certidão de nascimento os seguintes: Marino Machado de Oliveira. (Florivaldo Augusto Marino Machado de Oliveira Menezes).Só não sou nobre porque o Picasso se chamava PABLO Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santissima Trinidad Ruiz y y PICASSO.

Mas Blasco Ibañes conta o caso daquele prelado espanhol que tinha um nome ainda maior: Juan Thiago Ignazio Agostin Ambrosio Ciriaco de Alexandria José Maria Bartolomeu Cristiano de Las Dores y Toros de Villas y Puertos Titina y Barrios.

                                             ***

O dono de um restaurante na Tailândia, onde se comem baratas à milanesa enfeitadas com grinaldas azeitadas de olhos de gambá se chama U. E seu sobrenome: I.

Seguramente é o nome mais curto do Mundo. Embora numa competição de rádio em Valladolid tenha acontecido aquela maravilha dos caras que conheciam o nome mais curto do Mundo: Um falou Ó (da família da Marquesa de Ó). Quando lhe iam adjudicar o prêmio, levantou-se no auditório um baixinho e disse : yo conozco un más corto: Casio! E quando ia arrebatar o prêmio, levantou-se um gaiato e disse: No!, el prémio és mio: Yo conozco Nicásio!

Mas isto é pura semântica estruturaaalll...  

 

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@ - PARA BEATRIZ PORTELLA.

            Querida Beatriz, segue, como combinamos, meu textinho sobre o Clemente. Será que não está longo?

 

 

                                                           I – MEU

 

            Um jeito mais gostoso de explicar as coisas. Calmo, o anti-caga-regras.

            Explicadas por ele, no entanto, elas adquirem a força das sentenças bíblicas ou de outras bíblias.

            Custei anos pra notar isso, mas sentia sua eficácia pelo pachorrento timbre de sua voz (não era sedução, era um mistério)uma voz belíssima, perdida, perdida, perdida pelos melhores Teatros, que pena. E o pior é que vinham encimadas por um olhar de belos olhos verdes (que não eram verdes!), marcáspico, ondulante, um verdemusgo perigoso nos braços de um azul mais amigo...

            Afinal, de que cor são os olhos do Clemente?

 

                                                                           II – SEU

 

            Desde que o conheci, toda vez que dele me aproximo, saúdo-o alternando o “Que-le-men” de época (era a fase dos alumbramentos por Guimarães Rosa) com o “Ó Clemente, ó Piedosa (...)”, completando, depois de um silêncio prolongado, o verso da mais eternamente bela das orações católicas.

            E o trocadilho da prece, também dentro de um trocadilho conceitual, caía-lhe bem, pois não me lembro de um reproche, (como é de seu irônico agrado, tal palavra...) um só reproche , por pessoa, fato ou causo, discordes de seu pensamento límpido, mas que ele, cientificamente, deixava para uma gargalhada abortada e de imediato esmaecida numa pergunta elegante... Sabia – afinal, sabe!!!, ele me parece mais feliz, e feliz sabe mais das coisas, hoje acho isso – sabe de tudo, é o cara mais informado que conheço. Por exemplo, e num só campo: sabe do próprio nome de um filme que ainda poderá ser feito por Scorsese ou Antonioni.

 

                                                                              III – FATOS, SÓ ALGUNS POUCOS

 

            Uma tarde apareceu em casa (sabia que os vagabundos são encontrados em casa à tarde). Pus-lhe uma faixa do CD que acabara de sair do Cauby, acho que “A tua presença”. Ele ficou mudo, mais vermelho e abalou-se. Abalou-se. Senti que lhe causei uma felicidade, sinto muito, na época.

            Como dava festas! Também, com a mulher que tem (ou é ela que tem o marido que tem?) e com a filharada esvoaçante mas em ninho sempre arrumado e respeitado, aquele ambiente rupestre refinadíssimo, a sempre música saindo por todo canto sem barulho, tinham mesmo que abrir pros amigos, era muita comilança, bebedança e faiança, o Willy, o Orlando (que não nasceu mesmo para casal de varizes felizes, como previ em um de seus approachs), o genial cuco Nélson Lerner, os JotaJotas por tabela, o pessoal da Publicidade, da Psicanálise ( hoje a turba-multa da Psilacânise estragou tudo, aboliu a fantasia, as mentiras, ficou mais insosso!) ... e haja festa, a cozinha sob seu comando, sempre foi o gourmet mais criativo. Comi um cateto assado por ele, que até hoje é meu maior prenúncio do Paraíso, eu que nunca achei que os catetos fossem comíveis, aquele corpo cheio de espinhos...

                Mas os principais fatos foram os que não aconteceram: seu imenso faro para as artes miméticas em geral, principalmente o Cinema, abafados por um vergonhoso, exasperado, raivoso senso de ridículo e auto-crítica, mas cujos resultados de sua genuina poesia puderam ser vistas nas inúmeras vezes em que dirigiu espetáculos teatrais por mera intenção benemerente, humanitária, onde a originalidade e o ludismo soltaram-se pela criançada dos colégios.

            No fundo, soa como um descrente. Mas que não lhe tira a boa companhia, a beleza, a simpatia e a generosidade.

                                   São Paulo, dezembro de 2004.

 

                                               (MENEZES)

 

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Ufa! Help me! Helpem me !

                                                         

 

 

 

      

@ - Para Willy Corrêa de Oliveira (27-8-04)                 

                 Willy: na semana passada você pediu-me algum (alguns) poema(s) para musicar, nessa fase de inspirado mergulho pela natureza do LIED. Acho mesmo: ouvi os três do Celan, um deles absoluto, para meu gosto.

                                                        *

                 Keats dispôs que o epitáfio Here lies one whose name was writ in water (Aqui jaz alguém cujo nome foi escrito na água) ficasse gravado no seu sepulcro.  (Apud Borges, "Introdução à Literatura Inglesa")       

                   O som é de algo que, sorvido pela água, borgulha (borbulha no mergulho, ou mergulha no borbulho), sumindo tristemente: pode ser vertido -- no conceito borgesiano do virtualmente (in)traduzível:

                   a) Na lápide plúmbea meu nome, de plúvia, se espuma.

                   b) Eis quem não sobra nada além.

                   c) Ávida vida de vidro à vista.

                   d) Eis cujo, cujo nome (só não) é sujo.

 

                   NOTAS:

                   a) Dá uma idéia (sonora) de algo jogado nágua.

                   b) Versão puramente parassemântica. Pessimismo só.

                   c) Isto é : existência clara mas errônea (a do próprio K.)

                   d) Os dois  cujo : o cúmulo do anonimato, condizente com a função da frase do epitáfio.

 

                   Mas, onde quer que tenha eu conseguido a maior similitude, fui traído, malheureusement, pelo som fechado, quando, no original, o objeto que parece cair nágua é algo de claramente aberto, isto é, eclatant (claro!... sem trocadilho) (Uma observação escrita num livro, no João Sehn, 9-6-1996)

 

                                                        ***

 

                   Bem, a água, levando o epitáfio embora, desmanchando-o, pode muito bem ter marolado e justificado uma expansão de frases pessimistas que o piano pode acentuar, emendando uma na outra. Nesse caso, as minhas quatro versões também justificam uma repetição insidiosa do mesmo tema... e uma como complemento da outra, desenvolvendo um poema com sua semântica própria.

Vai lá, então, o

 

 

                                                        Um kit para Keats

 

                                      Here lies one whose name was writ in water

                                      Na lápide plúmbea meu nome, de plúvia, se espuma: eis quem não sobra nada além!

                                      Ávida vida de vidro à vista:

                                      eis cujo, cujo nome (só não) é sujo!                

                                                                                                            Florivaldo Menezes

 

                                                    

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@ - Agnes Kilzer:

                       - Para preenchimento da `régua e compasso´, o contorno é do cérebro, mas o miolo, do coração. Veja Sacilotto x Fiaminghi, Braque x Juan Gris, embora o primeiro desta dupla seja o grande artista maior do movimento cubista. Agora já está na hora de sua (grande!, acho) pintura "se mexer" um pouco: talvez uns desenhos. O figurativo (que “se mexe” melhor), e nestas alturas da Vida, acho que só aceita o desenho como gênero, não sei...

                        Botei aspas no dito para demonstrar que a opinião é de mais de um ano, antes de você começar a desenhar. Algum sentimento de perigo me fez vacilar, e não a mandei.

                        Quando você voltar ao caminho do abstrato, ou extravagar por ele, dedique algum tempo, se possível bem largo, para ver, fronte a fronte , Braque e Gris, Gris e Braque.

                        Espero demais por você.

                                    ( Menezes )

                        SP., março de 2004.

                       

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@ - CLÜVER, CLAUS:      Claus: Estou passando-lhe às mãos:

                                               1 - Livro do Phila, da Editora Ática, sobre  Poesia Concreta, antecedentes / conseqüências, conforme você  muito atenciosamente me solicitou.

                                               2 - Uma fita de vídeo, contendo cópia:

                                                           a - do programa / homenagem póstuma ao Phila, que a TV Cultura levou ao ao ar em 2001.

                                                           b- algumas coisas de meu Livro (desculpe-me a maíuscula, que parece uma pretensão mallarmaica) /  ( mas aqui pessoalmente, muito entre nós... é! Enfim: o relato de toda minha vida : entram nele relatos de estética pessoal e geral; vai ter só uma Introdução de aproximadamente 800 páginas e... acaba. Não há capítulos; e as notas de rodapé às vezes avançam pela(s) página(s) seguinte(s), tomam todo o corpo da página e, quando determinada nota de rodapé termina, já estamos em outro assunto, para que o leitor se esqueça afinal... onde é que estamos? sobre que falávamos? etc. etc. ) . Entram muitas imagens gráficas ( portraits, caricaturas, teatro de rosto/face com a Elza atuando em dramatis personae de Borges, de Fernando Collor etc). Entram també remissões à fita de vídeo que acompanha o Livro, mais etc. etc. O Livro, você sabe, chama-se "Impropriedade Privada", é projeto surrado em minha vida, já dei até um resumo dele numa entrevista na revista  "Escrita"  do final da década de 70.

                                                           b.1. - Gostaria que você visse esse vídeo com calma e mantivesse sobre ele a maior reserva possível...desculpe recomendar isso, perdão mesmo, mas você entenderá o zelo nessa fase de gestação: você e Maria são as primeiras e únicas pessoas a verem a fita. (Preste atenção no poema Rainbow / Rimbaud – este título, da exposição de 1985, ficou na memória ran do Augusto até 1996, quando ele publicou seu “Rimbaud / Rainbow”... ele tem talento pra não precisar plagiar nada... o inconsciente é um traidor amoroso.

                                               3 - Um ensaio meu sobre a Academia Brasileira de Letras, escrito há uns três anos e publicado no livro de Fernando Jorge sobre o sodalício. PERDOANDO-ME A IMODÉSTIA, CONFESSO A VOCÊ QUE O CONY, NUMA CARTA, PÔS O TEXTO NO ÁPICE DOS INSIGHTS SOBRE A ACADEMIA E NO DOS ACHADOS ESTILÍSTICOS E VERNACULARES DA LÍNGUA. ELE IA PUBLICAR ESSES ELOGIOS EM SUA COLUNA DA "FOLHA DE S.PAULO", MAS, LOGO EM SEGUIDA... ELEGEU-SE PARA A ACADEMIA E ACABOU, LÓGICO, NÃO PUBLICANDO.

                                               4 - Parte do subcapítulo ( sic : lembre-se que o Livro só vai ter uma Introdução ) de passagens sobre o Cinema, uma escolha pessoal que esteve ( está ainda? não tenho "inernet", como v v. pronunciam ) no ar por uns três meses, no site da melhor locadora do país, a "Locadora 2001". GOSTARIA, TAMBÉM  IMENSAMENTE, QUE VOCÊS DOIS LESSEM E TAMBÉM TRANSMITISSEM AO            

 

[ NÃO SEI SE CHEGUEI A LHE MANDAR ISTO. NA DÚVIDA, SEGUE OUTRA VEZ, COMO ADENDO Á XEROX DO TEXTO DO MASSAUD MOISÉS SOBRE O JOSÉ DE ALENCAR . Nota de 01 de janeiro de 2004]

 

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Ivan:

                                  Sei que você, por longo tempo de sua vida, sentiu a nostalgia da criação, no sentido de escritor objetivo (a clássica distinção objetivo / poeta / ficcionista x adjetivo / crítico / ensaísta) Isso você me confessou pessoalmente, quando abordei aquele seu livrinho, para mim delicioso, de morfemas poéticos e me disse que tinha abdicado da intenção, lembra-se?

                                   Você sabe que a nostalgia é diferente da saudade: é um sentimento de falta de algo que pode nem ter existido.

                                   Porisso, acho que você se subestimou muito; e foi uma pena; poderia ter sido um perigo maior...

                                   E sabe melhor do que eu que suas coisas, no campo da ensaística e história – diria mesmo da historiografia, onde se enquadra seu grande livro sobre o mecenato pombalino, hoje, honestamente falando, um clássico – às vezes mantêm o laivo daqueles lances, não sei se subjetivos, que fazem de Mário de Andrade dez vezes mais criador que nosso maior crítico atual,  Antonio Candido, que, aliás, reconhece, literalmente, o que estou asseverando.Isto está em várias abordagens de Antonio Candido de Mário de Andrade e, de modo mais expresso, se não escorrego na (ladeira da) memória, naquele escrito em que analisa o convite que fez ao Mário para dar um curso, ou um programa, ou workshop, ou algo que o valha, numa das faculdades de São Paulo, se não me engano, na USP; estou citando de memória e com pressa de consultar. Mário chegou a fazer um esboço de roteiro, mas nunca aceitou a proposta. Tal roteiro e as razões da recusa de pô-lo em prática estão num alentado volume sobre Antonio Candido de uns quatro, cinco anos.

                                   E tais lances fazem parte de sua loucura, permita-me Ivan: uma loucura um pouco pessoal, um pouco de mineiro, que todo mineiro é maravilhosamente um louco de alcova. Zelão, um mineiro, dizia de nosso amigo Zé Olympio, outro mineiro ( não é o editor), que, a hora que desse dois minutinhos de distração ( e ele às vezes ficava distraído, mas distraído de propósito, como bom mineiro), sairia matando por aí um mundo de desocupados e distraídos...

                                                           ***

                                   Quando ainda não tinha intimidade com você, e li o "Apresentação de Machado de Assis", anotei lá:

                                   “Mais uma vez digo: o A.  consegue ´expressar` o que quiser. Doravante, vai ser uma questão de idéias-teses!...”.

                                   Anotei isso em 1989, na p. 190 e referia-se à invejável passagem:

                                   “ O texto é um hino à liberdade de pensamento e contém uma censura ao mito da coerência. Mas o seu aspecto mais criativo resulta das imagens e do labirinto da sintaxe, que procuram imitar as surpresas do caráter de Artur de Oliveira.”

                                    Já na mesma página fiquei muito impressionado com a concisão de:

                                   “ E a paisagem não passa da boa aparência de uma má entidade.” (!!!)

                                   Pegar uma coisa dessa, assim, é de dar inveja! .

                                   Na análise das Falenas, você tb. atingiu um fulgor de linguagem já naquela época das mais claras. E eu adoro a clareza, a maior das virtudes do estilo, quando este não esteja dirigido para  as diatribes do engenho (sentido barroco da palavra), no próprio Machado erigido em genialidade em “Um cão de lata ao rabo”, ou mesmo no embora conceitual “O cônego ou a metafísica do estilo”.

                                   Você deve estar rindo por ver no altar da clareza um cara de  constante nebulosidade, mas é que uso do recurso quase orgânico, biotípico, lúdico / idiopatico, do grito, ou aparição de quem sai de trás da porta: intuo, chuto e espero pelo gol de placa, confio muito em minhas intuições, não acretido em destinação, ou tarefa programática, sempre achei a Arte uma brincadeira...

                                   Quando você transcreve a anotação do Conselheiro , do dia 4 de fevereiro de 1888, de que:

                                   “[...] Este era feliz, e para sossegar das inquietações e tédios de fora, não achava melhor repiro que a conversação da esposa, nem mais doce lição que a de seus olhos. Era dela a arte fina que podia restituí-lo ao equilíbrio e à paz...” (grifo acrescentado),

                                   tem de ver-se aquele tédio no plural , e ainda mais “de fora” !, não só como recurso estilístico, em Machado, de grande estilo, senão como clareza, clareza, clareza, mas clareza de outra ordem, de ordem idiossincrática, pois arrisco a dizer, quanto a esse período, que o demonismo da prosa dostoievskiana  faz falta no imenso adro que une a mente ao coração.

                                   Isto estava anotado por mim naquela leitura de 1989, de seu livro, para sublinhar a maneira de Machado encarar.

                                                           ***

                            Todas essas digressões – mas digressões do que? não tinha assunto definido! – me acudiram à mente após a leitura que fiz em sua casa em 25 de novembro de parte do Memorial de sua tese, um talento enorme para a memorialística, que trás o anedótico, o romanesco, e que me encorajou a, pediodicamente, mostrar-lhe coisas por escrito: não escrevo para jornais, é a angústia da comunicação, do exercício do ego...

                                                          

***

 

           Tenho estudado bastante, mas não o suficiente, Retórica e Lógica; e, neste último campo, fui levado a ler Wittgenstein, que sempre me intrigou com sua fama, com o ressonar de seu simples nome. É, por enquanto para mim, talvez devido a minha incipiência, o maior gênio doméstico, o gênio do lar, no sentido grego. Conseguiu chegar, através dos números, i.e., das coisas que “todo mundo entende do que não entende”, à natureza de Deus, sobre quem todo mundo entende do que mais não entende. Dentro das abstrações a que ele conduz, mesmo para quem não saiba a fundo das Lógicas e da Matemática, sinto-me compensado quando me surpreendo, por raiva ou por medo, esmurrando, insanamente, os objetos da casa: assim, livro-me de uma tristíssima desolação, a sensação de que não existem os seres, um começo da vida sem mais começos, início da velhice...

                        O “TRATACTUS” me ilumina com uma cegante luz apagada, sensação de que não estamos vivendo, mas simplesmente entrados numa reservada área de promessa para quem ainda não vive! É tão estranho, uma dádiva do Pensamento Absoluto, algo como o jogo de xadrez, um micro-universo no qual você constrói, você destrói, você reconstrói, está tudo errado, vai dar tudo certo, essas coisas me animam e aterrorizam. Creia.

                        Uma noite destas, tive uma epifania, mas estritamente religiosa, diria mais: hagiógrafa e portanto etimológica, despontada de modo wittgensteiniano:

                        “O imbecil é o idiota burro. O idiota é o idiota inteligente.”

                        (Formule isso com os olhos fechados, mântricamente, e verá muitos amigos e parentes desfilarem em sua nuca)

                        Se eu, na segunda assertiva, dissesse que o idiota é o imbecil inteligente – o que logicamente era o aguardado – , teria que definir ambos, para não cair na “tautologia da Lógica”, embora as duas assertivas configurem “tautologia da Retórica”.

                        Outro assunto: dia destes, você, ao telefone, demonstrando ter admirado meu Heaveling Creatures (heavenly creatures) (que agora lhe mando com o nome do Aigulfo escrito corretamente), aparentou-o com o poema das flores, de Drummond e com o dos tecidos, do Décio Pignatari. Em que pese a honrosa companhia, insisto em que você o veja como um nominalismo, no sentido estrito e formal da Filosofia. Acho que é mais surpreendente.

            Abraço do  Florivaldo.

( ACHO QUE EM 06-12-2001 )

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@ - a Gilberto Mendes.

  

                                                               Gilberto:                    

                                               Conforme prometido no papo por telefone da semana passada, estou remetendo-lhe:

                                               1. cópia VHS, sistema Pal-M, do programa da TV Cultura, canal 2, de 25 de agosto último, que homenageou meu pranteado filho Philadelpho;

                                               2. cópia, em seguida ao  documentário,  de  um  vídeoclip, “Metamorfoses, amor, Phila”, de autoria da Maria Christina , minha filha ,no qual faz uma homenagem ao irmão numa toada de réquiem (a música-trilha,como no documentário da TV, é do Flo), um réquiem visual-sonoro  muito  interessante, em meu entender.  Peço-lhe  a  gentileza  de não deixar nas mãos de terceiros(você pode exibí-lo em sua casa),pois está concorrendo num festival da Itália, já que foi ´"seleção de juri" em Montecatini. Neste mesmo ano,  a Chris já fora premiada também na Itália, com outro trabalho, um pouco mais longo.

                                                               3. meu mais recente trabalho, um poema  nominalista, na acepção  técnica de Filosofia, "Heaveling Creatures"... lembrando a você que nenhum dos nomes dali é inventado. Todos existem, a  maioria viva, os locais existem...Na abstração, no conceito dado ao ente, as coisas e pessoas não se dão bem sem ligação, você sabe; precisam estar relacionados. No nominalismo , a existência do ser ou coisa é livre, só depende do cogito,  as portas se  abrem, tudo é mais solto, mais feliz, as criaturas ficam celestiais... A  Evelyn Critchard, a quem dedico o poema, é uma derivação sonora  (fonética)  do título do poema, tem, na minha cabeça, uma virtude nominal soberba, passa a existir, como todo o poema, com uma função independente dos "universais". São criaturas celestiais, mesmo...

                                               4. um ensaiozinho em que abordo as academias de letras em geral e, em especial, a Academia Brasileira de Letras, como depoimento, a convite de Fernando Jorge, em seu livro sobre a ABL, "A Academia do Fardão e da Confusão", Geração Editorial, 1999, 586 pp.

                                               Sem mais, o abraço afetuoso a você e Eliane.

                                               São Paulo, 15-10-01.                                                                                                          

                                                               ( MENEZES)

 

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@ - Roberto Brasil, irmão do Ben-Hur  e autor do CD “Enluarando”.

 

Roberto:

                        Admirei muito o gosto da seleção de teu CD.

                        Mas, forçando-me, instintivamente e não por espírito de porco, a  bancar o advogado do Diabo, indago-te – em off, pelo amor de Deus ! – se os arranjos não soam, à primeira escuta, muito comportados, monocordicamente  tímidos, parece que sempre esperando o cantor entrar, escritos dentro daquela espécie de caderno de caligrafia, com pautas forçadas, que quase expuseram tua bela voz, intimista, sincera, tão interiorana, diamantina mesmo (MG!) e tua interpretação sui generis, a uma exibição escolar, como o aluno chamado na frente para dizer algo na vista do Inspetor. Parece que por um trís, mas é pura ilusão, e, se for ilusão propositada, é genial, pois por milagre isso desaparece progressivamente! A sinceridade da interpretração e o timbre bondoso de tua voz parecem vir em teu socorro, e o prazer cresce durante a escuta. Aí você vê que o arranjo é cordura pura.

                        Estarei eu certo ou exagero? Poderia omitir-me? Precisaríamos aprender a encarar Arte objetivamente, sem subjetivismos; mas poderia ficar árido, sem a graça das bobagens e das idéias erradas...

                        Assim, se estou sendo um pouco chato, é que me envolvi demais com a presumível sinceridade de tua encarada no empreendimento. A gente sente nela uma verdade vital, antes de artística...Foi um ato religioso de tua parte, permite-me!

                        Mas tua voz merece uma reedição, talvez com outra entourage menos acadêmica, apesar de se sentir que são músicos exímios (as cordas!, são naturais ou eletrônicas?). Ou talvez a mesma turma, mas com um “pouco de alcool demais na cabeça”!

                        E acho que a pérola de "Deixa Rolar", de inspiradíssima concepção melódica e encadeamento harmônico tão natural que parece nem existir, uma belíssima balada rústica, digna de um Taiguara dos primeiros tempos , ou do saudoso e genial Jessé, não consegue se contaminar por aquela minha impressão – QUE PODE ESTAR TOTALMENTE ERRADA ! , friso.

                        O mesmo ocorre com a bela toada sertânica ( vejo que não digo sertaneja ), "Enluarando", digna de estar naquele histórico Festival ao lado do "Disparada" . Tem algo daquela natureza, não é só a congeneridade da melodia, é o tom  de desafio do "Disparada"... só que na tua música um desafio sentimental e não épico como naquela :  seria só acelerar o arranjo dessa tua faixa, que penso que daria uma irmã daquela música do Theo de Barros / Geraldo Vandré. Tudo tendo a ver com música, sem pensar nas letras, claro. Sinto isto de modo muito inexplicável, sentimento em estado puro, sem pesquisar as afinidades intervalares e de tonalidade que podem até existir nas duas partituras. Mas aqui, é pura sinceridade intuitiva.                                              

No geral, fiquei imensamente surpreendido com a unidade da concepção, a realização, teu amor ao romantismo. E extremamente gratificado por conhecer, nestas alturas de minha vida, uma pessoa como tu, tão feliz, tão bem cercado...Também, permite-me, um irmão como o Ben-Hur, valha-te Deus para sempre! (fora a família, que deu pra conhecer naquele pequeno flash auditivo de tua filha dizendo lindamente que se arrepiou e quase chorou...).

                        Um grande abraço, sincero, do                                  

     ( Florivaldo MENEZES )

                                São Paulo, 27 de agosto de 2001

 

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@ - Waldemar [Naclério Torres], (31-7-2001): >>>>>>>>>>>> V. Nota de 16-10-01, ao final da carta.

                                  Waldemar:

                                   Como não tinha até recentemente condições de controle emocional para  falar ao telefone – e, em grande parte das vezes, até pessoalmente – sem que desandasse em choro, num pranto, num verdadeiro pranto, que aumentou  terrivelmente no curso do dia-a-dia, não pude até hoje ter o prazer de um papo com a Maria Helena, quando ela fala com a Elza, nem a iniciativa de falar com você, motivado por uma  grande saudade de nossos tempos tão felizes.              

                                   Com a morte – e  principalmente – com  a falta do Phila, perdi a dimensão da tristeza em sua genuinidade, você não sabe mais o que realmente é triste sem associações, aquela tristeza sem referencial das grandes obras de arte, uma obra de câmera de Schubert ou Beethoven, um piano de Schumann, um concerto de Corelli... Não, de uma hora pra outra tudo para mim ficou triste, leva ao choro, sinto um aperto na garganta e no coração por qualquer merda de melodiazinha de churrascaria, desculpe-me a chulice...E isto diminui minha grandeza, o sentimento do meu ser e de ser, parece que nunca mais vou poder ouvir música, uma das minhas maiores, senão a maior, das paixões.

                                   A tragédia daquela perda, a de perder o Phila, foi uma dor que eu, em minha experiência humana e literária, ficcional etc. etc., jamais imaginei que pudesse existir igual, um sentimento sub-humano, indescritível, lá de baixo da existência, parece que uma sensação reservada, lá das origens de nossa ante-vida, aos grandes desgraçados, muito infra, muito terrível, talvez infernal, perdoi-me você que é tão religioso!

                                   E nossa dimensão, de todos os pais que  perdem filhos,  supera todas as descrições de trevas, inferno, exílios e o mais, que os grandes gênios criaram. Sabemos que é a ligação direta com o ser desaparecido é que exacerba a dimensão de um evento dessa natureza, que sempre existiu e existirá...mas é horrível, Waldemar!

                                   Eu, Elza, Cris e Flo, seus filhos maiorzinhos, os parentes próximos, minha irmã, os irmãos da Elza, realmente ficamos desolados, passamos a pensar só nele, que, para mim – posso falar em nome de minha alma está  presente em tudo, na desgraça de desaparecer sem aviso,com tanto presente pela frente – nem precisa falar em  futuro – dando aulas, formando novos cursos ( permita-me divagar sobre fugases glórias e detalhes humanos...), convidado especial periódico da Califórnia, de Barcelona, Dublin, onde tinha acabado de dar uma conferência, em inglês, no Trinity College, muito elegiada pelo embaixador brasileiro na Irlanda...

Ele era reconhecido mundialmente como fundador da Poesia Intersignos, 1985; como o introdutor, no Brasil, da Poesia Sonora nos começos da década de 90, ainda muito jovem, e seu principal teórico; era o pioneiro da Polipoesia, ou poesia hipermídia interativa, hoje começando a virar onda – ESTOU MANDANDO-LHE, COM ESTA, UM CD-ROM COM A POLIPOESIA –, enfim, era um trabalhador e um desbravador, todo mundo sabe que não exagero, a quantidade de matéria  que saiu em jornais e revistas importantes do país e do exterior bem o atesta.

                                               E, como chefe de família, era um exemplo fantástico. Peço-lhe alguma reserva, mas deixou ,a duras penas pelo preço, um seguro de vida de R$370.000,00 ( R$150.000,00 para a Aninha, R$75.000, para cada uma das filhas e R$70.000 para as três ), pois sabia que, se morresse insopitavelmente, como morreu !, a viúva cairia nos míseros 70% do INAMPS  sobre os não menos míseros dez ou pouco mais de salários mínimos...imagine, ele que trabalhava as 24 horas do dia para proporcionar o melhor para suas filhas e mulher!

                                   Procuro fazer tudo como uma forma de esquecê-lo, fingindo que estou escrevendo para atender seus pedidos / estímulos: eu estava, desde  outubro do ano retrasado, empenhado em escrever “ o grande livro de minha vida”, pôr no papel todas as experiências artísticas pelas quais passei, teatro, com 21 anos, meu romance inacabado, dos 22 aos 26 anos, tinha guardado tudo em sacolas, gavetas, meus poemas da década de 50, alguns publicados em jornais da época e da Faculdade de Direito, os desenhos que sempre fiz, enfim, o Phila chegou pra mim, para ultimar um roteiro que me sugerira há uns 7 ou 8 anos numas férias em Jacutinga, ajudando-me na concepção de um livro/conglomerado, e deu-me um ultimato:

                                   - Pai, o senhor ( era assim que me chamava, apesar de nossa liberdade e liberalidade, desde pequenino ) já tem tudo separado e organizado nos vários arquivos do Word de seu computador, agora está na hora de juntar, costurar tudo, é só ir contando como tudo aconteceu na sua cabeça, vai sair coisa boa, coisas fantásticas!, seu senso de humor e originalidade, mais os projetos inéditos – e são bem antigos, pai! – tudo vai dar num grande livro, concentre-se, pai, duas horinhas por dia, vai ver que sai logo e tudo estará pronto...

                                   Comecei a trabalhar animado com sua esperança, também com a torcida e o apoio do Flo, da Cris, da Elza, o livro começou a engrossar, mas não tinha como coordenar, ou ligar coerente e logicamente os 17 capítulos que esboçara, Ensaios, Cartas, Música, Glenn Gould, Fitinhas (ditados em micro-cassete de idéias durante o trânsito), Traduções, Poesia das décadas de 50 e 60, Poesias Visuais, Romance, Portraits ( desenhos meus, que transpus para o computador através de scanner ( o Phila me fez comprar um scanner, pois meus trabalhos gráficos estavam ficando numa fortuna, na Gráfica Xerox aqui do bairro ),  enfim, tinha até trabalho de projeção cinemática que seria objeto de um VHS apenso ao livro : meu  poema da luz do abajur, um mapa da ilha de Cuba que  projeta na parede, quando se liga referido abajur, a fisionomia do Ché Guevara.É um trabalho antigo meu, que os dois brasilianistas norteamericanos que traduziram Oswald de Andrade para o inglês, Albert Bork e David Jackson Kenneth, conheceram aqui em minha casa nos meados da década de 70 e muito admiraram.   Denomina-se Abat ( j ) Our ( Nosso  Abade, o Ché, mentor
das juventudes e, o que é mais importante, guru das jovialidades até hoje-em-dia) onde o J do abat
j our cai e vira o castiçal / pegador do abajur. Acho que você conhece o projeto.

Me lembro do dia em que, por volta de janeiro ou fevereiro do ano passado,  disse ao Phila que o livro não mais teria capítulos, só teria uma Introdução, de 700, 800, 900 páginas, cheias de notas de rodapé, notas de rodapé que às vezes viram páginas seguidas, tornam-se o texto principal; os assuntos a seguir, com a tipografia maior do texto em si, voltam a se emendar, como numa confissão, feita em confessionário mesmo, sem ordem nem medo; e, acabada a Introdução, acabava o livro, ué! diria o leitor, introdução a que?!, não introduzia  nada, cadê os capítulos? e assim  também se justificava o título do livro, "Impropriedade Privada".

                                   Ele sorriu largo e vermelho – era sua forma predominante de gargalhar – e disse:

                                   "- Ótimo, pai, é isso, estamos na época das bulas, o senhor sempre gostou de colocar bulas em seus poemas, veja os bilíngües títulos-bulas dos poemas do primeiro livro, de 1972, veja "O lago dos Signos" : a idéia complementa a fatura, o senhor não se diz um amante da arte conceitual? E mesmo que não complemente nada, a simples enunciação dos projetos mentais que o senhor almejava pôr em livro ou imprimir individualmente já é o poema, já é a obra, sua semente, puxa !, acho que vai ficar muito original."

                                               Mas vai daí, Waldemar – e isso justifica também eu não escrever a você, não responder a seus catálogos, cartinhas emocionantes, nossa expectativa por sua nova vida  em Porto Alegre–, estava eu muito imbuído de uma tarefa vital, era meu tudo ou nada, beirava os setenta anos, boêmio, dilapidador de tempos preciosos, jogador inveterado de conversa fora, botequinando a torto e a direita pelos torresminhos das gratuidades anônimas – vai daí que também adveio uma apagada geral na memória de meu computador, que me assustou muito, tive que embrenhar-me num empreendimento custoso de recuperação de arquivos por firmas especializadas nisso e, finalmente... o câncer na próstata, a peregrinação a médicos, hospitais, Oswaldo Cruz, Hospital do Câncer – neste queriam me tocar a faca, deixar-me impotente e usando fraldas, pela incontinência urinária; cintilografia óssea para ver se não havia metástase, uma apreensão terrível, suavisada pelo apoio dos três filhos e com total arregaçamento de mangas por parte do Phila, que transacionou com a PUC e a UNIMED o tratamento radio-braquiterápico ( essas sementes radiativas de um tratamento caríssimo ). Acabei fazendo radioterapia conformacional (tridimensional). Após sua morte.

                                   Quando o ví pela última vez, na véspera de seu embarque para as férias com a família, uma sexta-feira, 13 ou 14 de julho do ano passado, almoçamos juntos no Almanara do Shopping Paulista, ele fez questão de pagar o almoço – jamais deixara um filho pagar qualquer despesa – mas ele insistiu que era pra dar sorte no meu tratamento, na volta.

                                   Quatro dias antes de morrer, telefonou-me do Grande Hotel de Ouro Preto e me disse, como se ele fosse o pai:

                                   - Olha lá, fica pronto aí, que na quarta-feira estarei em São Paulo e vamos direto para o Instituto da Radioterapia.

                                   Dia 25 de julho, na véspera da tal quarta-feira, eu estava  desesperado, alienado, não acreditando ao ver seu caixão baixar à tumba, coisa horrível, parece que tudo , tudo, minha vida toda ia indo junto por terra abaixo...E não me libertei dessa sensação até agora, Waldemar...e o sentimento de sua falta me parece um estigma vitalício, eterno, choro à-toa no só pensar em seus sorrisos, suas gozações, tinha uma ironia atilada, rápida mas sempre ética, sei e sinto que me amava muito. 

                                   Sabe, Waldemar, como falei num depoimento ao M.I.S, numa homenagem que lhe prestaram há uns seis meses, o Phila me dava a impressão de que iria partir logo.Ou melhor, vinha me dando essa impressão , porque não era ela costumeira, mas de uns bons tempos para cá. E tal impressão era difusa, imprecisa, não sei se em parte neurose de meu lado, mas sinto que aí entram razões até... místicas.

                                   Disse então que ele era altaneiro, às vezes até orgulhoso, e eu lhe tinha pena. Não a pena da comiseração, mas aquele sentimento de que a pessoa vai perder algo que tanto ama e que a faz agir apressadamente; pode ser sentimento só meu, mas ele vivia com pressa, agitado, e tal pressa e agitação poderiam ser creditadas, por um incauto, ao excesso de cursos que ministrava, à multitude de convites para viagens de bancas examinadoras, cursos e conferências, Belo Horizonte, Curitiba, Nordeste, Dublin, Califórnia, Barcelona e por aí ia ele, rápido e completo, pensando em tudo, centralizando, projetando, criando idéias para novas obras – aí então sorria largo e exultava, embora na discreção de seu temperamento reservado, quase inglês.

                                   E quem não o conhecesse a fundo julgaria que ele, um triste filosófico, estava sempre de bem com o ânimo e com a animação;  mas isso lhe derivava do imenso, extraordinário, límpido e originalíssimo senso de humor, que beirava o non sense genial, uma insuperável capacidade de enxergar figuras, feições  e relações insólitas, incongruentes até, mas  que fazia as pessoas, atingidas aturdidamente pela lógica, arrebentar de rir e, logo a seguir, catar seus próprios pedaços na tristeza decorrente...

                                   Quando disse acima que nestes insights entrariam razões até místicas, me lembram três fatos curiosos, dois provenientes dele mesmo, um bem juvenil, e o terceiro ligado ao meu subjetivismo – excessivo em sua opinião? –,  mas que sempre achei que honrosamene herdara de Mário de Andrade. Tal subjetivismo, na opinião do Phila – e isso ele expôs num programa de rádio de quase vinte anos, acho que o Poucas Palavras – prejudicava, ou melhor, relativisava alguns de meus poemas que, apesar de tudo, ele teve a generosidade e a coragem, por ser eu seu pai, de classificar como pioneiros de certas constantes ou vertentes da Poesia Visual e da Poesia Intersignos. ( você se lembra, Waldemar, primeiramente de seu texto sobre mim no catálogo da exposição Poesia Intersignos, São Paulo, 1985, Centro Cultural SP, e de seu basilar "Poética e Visualidade", Editora da Unicamp, além do  didático e correto,  embora transgressor,  "Poesia Concreta e Visual"- Roteiro de Leitura - Ed. Ática).

                                   A razão mística aludida  proveniente de mim eu a expus um mês de sua morte, em uma carta a um amigo íntimo do Ceará, que você conheceu em um almoço na API, comigo e com o Flávio, lembra-se? o Quixadá, já há quase três anos morando de novo em Fortaleza):

                                    " O Phila parece que tinha alguma idéia de que iria muito cedo? Ele era apressado, um pouco agitado,  sem nenhum egoísmo ( que pode preservar a vida, prolongá-la ), distribuia, dividia a  fama e o prestígio com seus colaboradores...Sabe, Quixadá, eu sempre tive uma espécie de medo difuso quando ouvia as “ Danças Polovetsianas” , da ópera “Príncipe Ígor” , de Borodine, porque não conseguia conter as lágrimas, ninguém percebia, mas era só ouvir aquela melodia e me vinha a imagem do Phila, como se ele gostasse muito daquela música e já fosse uma pessoa ida deste mundo! Isto sempre me aterrorizou e eu evitava ao máximo ouvir aquela melodia. Acho que eu sentia que ele partiria logo..."

                                   A segunda, de sua fase bem juvenil, proveniente dele e não do meu subjetivismo, reporta-se a um papo que tivemos, por volta de 1974, 75, em que ele, vendo meu eterno tormento perante a idéia da morte, me disse com ares dele pai e eu de filho:

                                   - E antes de nascer? O senhor sentia alguma coisa, percebia alguma coisa antes de nascer, se lembra de alguma coisa ?( Apesar de toda liberdade com que foi criado, me chamava de senhor, repito) Pois então, pela lógica, e por justiça do criador ou do incriado ( formulava isto de outra forma) depois da morte será a mesma coisa!

Achei aquilo fantástico e me confortou durante quase todo o tempo em que pensei na morte...

                                   Depois de quase duas décadas, Paulo Francis, recenseado por Daniel Piza  em um livro de seus aforismos, sacadas e chutes freqüentemente geniais, o " O Dicionário da Corte de Paulo Francis", cita Kingsley Amis para Philip Larken:" Morrer é como antes de nascermos".

                                   E a terceira mística retiro do dístico ( final ) do Soneto IX de Fernando Pessoa, que o Phila já traduzira com maior semântica da inexorabilidade que o próprio original, se se pensar naquele seu modo todavia elegante de virar a página de cada dia:

                                   " E eu vivo a vida morta dada a nós,

                                   reposto pro repor de um dia após".

                                   Acho que me lembro que comentei com ele, quando colocou em meu criado-mudo um exemplar da primeira edição ( foi o criado-mudo que me falou que o Phila traduzira os "35 Sonnets", ele só me apresentava o produto final de suas coisas, não comentava nunca as coisas por fazer ):

                                   - Phila, nesse dístico do Soneto IX parece que o inglês é que está traduzindo você, você formulou o pensamento de modo mais enigmático, mais sentido, preocupante...

                                   "E eu vivo a vida morta dada a nós,

                                   reposto pro repor de um dia após."

                                   Parece que fiquei perdido, sempre quis dizer de viva voz  isto tudo a você, à Maria Helena, Tuti, Tatiana, ser consolado pelo Fafão, mas não tive estrutura nem pra escrever estas desgraçadas linhas sem que se abatam sobre mim o choro e a desolação, uma profunda, profundíssima desolação, confesso que nunca senti nada tão pesado...

                                   E, embora eu me apoie na religiosidade da Elza, não tenho – espero que ela não sinta isto em mim – a mínima esperança na frase clássica de que o tempo tudo vence: sinto a sensação de que não tenho mais tempo pra ter tempo.

                                   Mas, como sempre senti apoio de você, nos meus e maus momentos de cismas, hipocondrias, andanças a médicos, tristezas verdadeiras, dúvidas existenciais, senti também agora a necessidade deste desabafo, que ficou longo, mas que espero que vocês entendam e perdoem.

                                   Saudades, muitas saudades, do                                     

                                   (Florivaldo), 31 de julho de 2001. 

                                   “Arrependo-me profundamente de ter aberto minha alma em demasia. Dessculpe-me a franqueza. Seguindo meu fado e tradição, mais uma vez não ouvi o ensinamento de Mateus, 7:6.
 

 

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@ - QUIXADÁ - 1-4-1997, reproduzindo peça de 1992.

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                        Prezado Quixadá :

                       

                        Como você é uma pessoa extremamente lúdica (talvez o mais forte componente de seu lado bom, permita-me), de um ludismo por natureza, mas preponderantemente por contágio, ( o que é uma forma de generosidade) ,  tomo a liberdade de levar-lhe mais um campo de bactérias espirituais -- que muitos consideram gratuitas... -- que é a xerox de um livrinho esquecido, ou talvez nem sabido de existência.

                        Mas que é muito de nossa natureza.

                        Trata-se de uma muito apropriadamente denominada “MINIATURA DE HISTÓRIA DA MÚSICA”, de Guilherme Figueiredo. (grifo nosso)

                        Você terá sensibilidade para ele, como o destinatário da carta abaixo -  que ora faço sua - teve.

                        Tomo a liberdade de abrir para você o conteúdo da carta, que acompanhou o livro em questão, quando presenteei àquele que hoje é um crítico conceituadíssimo, com obras publicadas, e titular de uma cadeira de letras das Universidades Federais de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro:

                         @ - Murilo Marcondes de Moura - 30-3-1992.

                        Murilo:

                        No Rio de Janeiro lhe falei sobre este “livrinho”, se não me engano no bar do hotel, ou nas poltronas, enquanto esperávamos o Waldemar descer. Citei-lhe de memória, a princípio, coisinhas pitorescas, tais como “A ópera é uma briga cantada”, pág. 189, apud Fernando Mendes de Almeida; ou um conceito de mulher   ligada ao “feeling” para Chopin (confiro agora: “As mulheres, que não possuem imaginação criadora, sobretudo em música, tornam-se, entretanto, intérpretes.”) (pág. 151).

                        Etc etc etc.

                        Agora veja:   

                       “O ritmo foi a primeira qualidade musical do homem. Porque trazia consigo mesmo o ritmo de suas pulsações, o ritmo do andar, a respiração, sentir-se-ia desde logo preso a eles, e tentado a reproduzí-los. A respiração, sobretudo, limitando a duração do som transmitido, circunscreveu o fonema, fixou-o no tempo e foi o ritmo inicial da linguagem falada, por mais primária e monossilábica que ela fosse. Ao mesmo tempo, modulou essa linguagem, dando-lhe alturas de sons [altura, permita-me lembrar, não se ofenda ! = espaço entre um tom e outro] que eram imitados, sequência de sua iniciação, e portanto embrião melódico.” (pág. 16; grifos acrescentados; o que está entre colchetes é nosso).                     

                        Parece coisa meio marioandradesca, pignatariana, gol de placa que coroa o chute bem dado, mas, partindo desses espíritos criativos, bem-elocubradores, é sempre instigante, não acha?

                        O conceito de menino-prodígio, aplicado a fatos reais da triste vida alegre de Mozart, é fundamental (pág. 104). O homem respeita, forçado, a biologia, mas a Humanidade a achincalha, transformando-a em espetáculo... :

                        “Data daí, precisamente, o início das amarguras do jovem músico. Não era tão bem recebido, como outrora,  nem tão festejado. É que a adolescência tem a desvantagem de apagar o prestígio da criança genial, colocando-a num outro plano, onde a sua arte parece estar nivelada à idade.” (grif. acresc.)

                        Parecendo o óvio, é coisa de observador muito inteligente, não lhe parece? Mal dos Figueiredo! Seu irmão Presidente foi, sem dúvida, o observador mais agudo que o Brasil político ja teve...

                        Enfim, fiquei contente de achar este exemplar para você, que é um rapaz sensibilíssimo e de muita cultura, principalmente na aptidão para o que está passando e por vir.

                        “Manchando”, mais uma vez, a pureza da recepção que você dará a sua leitura, não posso me furtar à transcrição de uma nota que apús no rodapé da pag. 143:

                        “Talvez à época deste sensibilíssimo - e muito original! - “musicologista” (sic), não houvesse registro fonográfico  das monumentais, e marcantes, “Canções sem palavras” (para piano) de Mendelssohn : para quem nunca ouviu, tudo bem, mas, para quem as ouviu, passam a ser indispensáveis para a História Prazerosa da Música (e Música é, antes de tudo, prazer. S.P., F.M., 21-6-91)”.

                        Livro preciosíssimo - e original - como conceito. Lacunoso no âmbito dos artistas menores. Pleno, e sábio!, no “sense of humour”. Junte-se à “Pequena História da Música”, de Mário de Andrade e à  “Uma Nova História da Música”, do Carpeaux, e temos, no Brasil, o  “- conversa encerrada!”.

                        O abraço e o desejo de remozart-se a cada ano!

                                               FLORIVALDO. São Paulo, 30 de Março de 1992.

                       

                        ADUZO AGORA, QUIXADÁ, que há no livro o tipo da abordagem que a cada ano mais se ajusta à minha visão das coisas: o humor desencantado ( pergunto: não é o humor sempre uma visão conformada ?...) o jeitão de bate-papo, as sínteses destemidas, com ar de quem fala a última palavra.Mas seguras, de quem viveu a coisa, a arte, no cerne e na carne da sensibilidade, do sensorial. Abrindo não só os ouvidos, mas os poros também.

                         E UM CERTO DEBOCHE ENGAJADO... não sei te explicar o que seja bem isso.Mas você entenderá à sua maneira.

                        ALIÁS,  É ISSO O QUE HOJE CADA VEZ MAIS ME INTERESSA : A CRÍTICA SUBJETIVA, CHAMADA ANTIGAMENTE DE IMPRESSIONISTA. PRATICADA, POR EXEMPLO, POR  MÁRIO DE ANDRADE.  MARIO, QUE UNGARETTI DISSE SER O RECONHECÍVEL MAIOR ENSAISTA DO SÉCULO! (OU DOS MAIORES, NÃO ME LEMBRO) .CRÍTICA ESSA  QUE É A RAIZ DA PRÓPRIA FILOSOFIA.

                        Salteando o livro, veja, por exemplo:

                        @ - MOZART / SALZBURGO -

                        “... e onde se encontravam todos os estilos, o que lhe facilitou aliar a sobriedade germânica à cristalinidade melódica dos italianos.” (pág. 103)

                        @ - MOZART / INFLUÊNCIA DE CONSTÂNCIA, SUA MULHER-

                        “Constância, entretanto, era uma esposa mesmo e não um besouro em volta da cabeça que trabalha.” (pág. 105)                

                        @ - BEETHOVEN -

                        “... não escutava de bom grado as composições de outros para não perder a originalidade.”(pág. 107)

                        @ - MOZART ABRINDO PICADA PARA O BEETHOVEN QUE ABRE PICADA PARA O ROMANTISMO:

                        “... além de todo o estilo que mais tarde seria retomado pelo gênio de Bonn.”(pág. 106, sobre os aspectos precursores da Fantasia K. 475, posteriormente ligada à Sonata K. 457. Grifos acrescentados).

                        Veja, Quixadá, isso aí acima só ficou muito falado de uns anos para cá. É logico que no âmbito de Brasil.

                        @ - RECONHECIMENTO DO POETA  MURILO MENDES COMO UM MELÔMANO “OFICIAL” (v. pág. 114. Observo que o Murilo Marcondes de Moura, destinatário da carta que lhe passei acima , é o introdutor crítico da DISCOTECA DE MURILO MENDES, (não é esse o nome correto, cito de memória, o livro está em meu escritório, editado pela Ed. Giordano).

                        @ - VEJA O RESUMO HISTÓRICO DA CONJUGAÇÃO DOS CAPÍTULOS  “AS VOZES DENTRO DA NAVE”  e  “AS VOZES DENTRO DA PRAÇA”.  É gostoso e claro. Tem algo de abordagem pessoal, poética.

                        @ - B A C H  /  MÁS INTERPRETAÇÕES / COISAS DE ALUNOS:

                        “Bach mal tocado é o pior dos músicos. Nenhum outro tem como ele a propriedade especial de entregar-se inteiramente ao intérprete, ou não se entregar nunca.” (pág. 72).

                        ISTO É EPIFÂNICO. OU UM OVO DE COLOMBO.

                        Quase nada de altamente técnico. Observações, revelações sábias, como uma conversa com alguém agradável, que ama a Música,que procura indagar as raízes da criação, um livrinho deveras precioso.

                        PEGUE-O COMO UM PRAYER BOOK. OU, COM OU SEM TROCADILHO, COMO UM  MAIDEN’S PRAYERS, AQUELAS CÉLEBRES E NOSTÁLGICAS PECINHAS -- OU PEÇONAS/ PEÇONHAS --QUE AS MOCINHAS TOCAVAM ANTIGAMENTE, QUE SAUDADES!

                        @ - BACH - SENTIMENTO RELIGIOSO -

                        “O seu sentimento não fere paixões terrenas. Sua grandeza não torna os ouvintes pequenos nem vís.” (pág. 79)

                        @ - BRASILEIROS (nome de um capítulo, pág. 217)

                        “ (........)...os acentos espanhois, mouriscos, italianos, germânicos, e até mesmo escandinavos, russos, possivelmente puramente casuais, que se encontram na nossa música, e teremos compreendido por que motivo o brasileiro sintoniza tão imediatamente com qualquer trecho que ouve.”(pág. 217)

                        @ - DEBUSSY -  UMA REVELAÇÃO !

                        (Sobre  “O Martírio de São Sebastião”)  - “Hoje consideram-na uma das mais espantosas mensagens do além que já foram dadas ao ouvido humano”, citando VUILERMOZ.

                        @ - AS PÁGINAS SOBRE VERDI CONTÊM, EM MEU ENTENDER, VERDADES INAUDITAS.  Leia o que ele diz, nas págs. 188/9, p. exemplo, sobre  argumentos, melodia, funções dos instrumentos. Desce ao plano da gozação, ou sobe ao plano do humor, quando diz :

                         “Em oitenta por cento da obra de Giuseppe Fortunino Francesco Verdi a orquestra se limita a fazer pa-pa- pum, pa-pa-pum. Mas (etc. etc., cf. grifo acrescentado)”

                        E QUANTO ÀS VOZES, QUE É O QUE MAIS INTERESSA, NO CASO:

                                               “Quase infalivelmente, a ópera verdiana apanha cada tipo de voz e coloca num papel imutável. Entre um  tenor e um soprano acontece sempre um amor, onde tanto pode haver pureza como pode haver mau procedimento de um para com o outro. O bandido é o barítono e trata de fazer força para impedir um desenlace feliz: e o  pai da mocinha, o rei, o inimigo político; o baixo faz as vezes do pai, mas, na maioria dos casos, fica fora do centro de ação, como criado, embaixador, personagem importante e intangível, mero instrumento de vingança. A eliminação do barítono permitiria o enlace do tenor e o soprano, sem maiores complicações; o desaparecimento do baixo não afetaria a estrutura central da ação.Tudo consiste, portanto, numa luta entre o simpático tenor e o intolerável  barítono, o que será de igual modo em todo o verismo   italiano.” (pág. 189, grifos acescentados)

                        Bem, não vou te furtar ao prazer de atacar direto o livrinho.

                        Fico por aqui, na esperança de que gostes, ok?

                        Desculpe a variação no tratamento gramatical.(RISOS...)

                        Grande abraço do MENEZES. S. P., 1 de Abril de 1997.

 

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@ - AO QUIXADÁ, 14-9-00:                      

                                   Querido amigo Quixadá, que sinto cada vez mais   próximo,    à medida que a distância, não a geográfica, mas a do tempo, parece que mais aumenta entre nós.

                                   Hoje, 13 de setembro, agora de manhã, não sei por que,  deu-me uma irresistível necessidade de bater um papinho com você, mas não tenho ainda condições de controle emocional de falar ao telefone – e em grande parte das vezes, até pessoalmente sem que desande num choro, num pranto, num verdadeiro pranto, meu amigo... que eu pensei que fosse diminuindo, mas que aumenta terrivelmente no curso do dia-a-dia.

                                   Sabe como é?, algo que lhe faz perder a dimensão da tristeza em sua genuinidade, você não sabe mais o que realmente é triste sem associações, aquela tristeza sem referencial das grandes obras de arte, uma obra de câmera de Schubert ou Beethoven, um piano de Schumann... Não, agora tudo para mim é triste, leva ao choro, vejo aperto na garganta e no coração em qualquer merda de melodiazinha de churrascaria, desculpe-me a chulice...E isto diminui minha grandeza, o sentimento do meu ser e de ser, parece que nunca mais vou poder ouvir música, uma das minhas maiores, senão a maior, das paixões.

                                   Fora a tragédia de perder o Phila, uma dor que eu, em minha experiência humana e literária, ficcional etc. etc., jamais imaginei que pudesse existir igual, um sentimento sub-humano, indescritível, lá de baixo da existência, parece que uma sensação reservada, lá das origens de nossa ante-vida, aos grandes desgraçados, é muito infra, muito terrível, talvez infernal! E nossa dimensão, de todos os pais que  perdem filhos,  supera todas as descrições de trevas, inferno, exílios e o mais, que os grandes gênios criaram. Sabemos que é a ligação direta com o ser desaparecido é que exacerba a dimensão de um evento dessa natureza, que sempre existiu e existirá...mas é horrível, Quixadá!

                                   Eu, Elza, Cris e Flo, seus filhos maiorzinhos, os parentes próximos, minha irmã, os irmãos da Elza, realmente estamos desolados, só pensamos nele, que, para mim –  só posso falar em nome de minha alma – está  presente em tudo, na desgraça de desaparecer sem aviso,com tanto presente pela frente – nem precisa falar em  futuro – dando aulas, formando novos cursos, convidado especial periódico da Califórnia, de Barcelona, Dublin, onde acabou de dar uma conferência em inglês no Trinity College, muito elegiada pelo embaixador brasileiro na Irlanda; era reconhecido mundialmente como fundador da Poesia Intersignos- 1985, como o introdutor, no Brasil, da Poesia Sonora nos começos da década de 90, ainda muito jovem; era o pioneiro da Polipoesia, ou poesia hipermídia interativa, hoje começando a virar onda –  VOU MANDAR-LHE OPORTUNAMENTE UM CD-ROM COM A POLIPOESIA, PRECISO PEDIR PRA ANINHA OU NA P.U.C – , enfim, era um trabalhador e um desbravador, todo mundo sabe que não exagero, a quantidade de matéria  que saiu em jornais e revistas importantes do país bem o atesta.

                                   Uma de suas últimas alegrias era de ter reformulado o ensino das artes lingüísticas e criado um departamento, para o qual contratou sumidades, na Universidade São Marcos, a universidade particular mais promissora do Brasil, propriedade de uma famíla milionária aqui do Ipiranga e  que tinha o Philadelpho nas alturas: recentemente o Ministério da Educação homologou, nessa Uiversidade,  o primeiro empreendimento de MESTRADO PROFISSIONALIZANTE, uma idéia sua e que vai revolucionar uma modalidade de ensino e profissionalização no Brasil.

                                   E na PUC criou o Estúdio / Laboratório de Poéticas da Voz, para onde convocava os grandes expoentes da Poesia Sonora do mundo todo, além de ter sido o mais profícuo – com as edições mais avançadas no ramo – presidente da EDUC ( a editora da PUC 0) , com vinte e poucos anos.

                                   Ele acumulava essas duas universidades e, nas sextas-feiras,  pegava seu carrinho, deixava aqui em casa, apanhava um taxi, ia pra Congonhas, entrava num avião e ia dar um curso de sábados ou fazer parte de alguma banca de doutorado em Belo Horizonte ou Porto Alegre, alternava essas duas capitais. 

                                   Poucos minutos antes de seu sepultamento, aproximou-se de mim o dono da referida  Universidade São Marcos e, entregando-me, chorando, um documento, disse-me ao ouvido que o Phila já tinha sido homologado pela congregação como o novo Reitor do estabelecimento, e que o destino fora cruel – essas frases-feitas, mas tão humanas! – ceifando-o daquela maneira tão abrupta.

                                   O documento que o dono da Universidade me entregou no velório era um seu poema, feito na véspera do desastre, com o pensamento voltado para o Phila, que – disse-me naquela hora o diretor da Universidade – dava  uns palpites sobre suas pretensões de poeta.

                                   Mas, o que é incrível, arrepiante, é que todo o poema do administrador, que se chama dr. Ernani Bicudo de Paula, versou, na véspera da morte do Philadelpho!, sobre alma, corpo, transitoriedade deste, tempo para existir etc. etc. , muito estranho, comovido e comovente. A Elza, quando o leu, chorou muito e mandou pô-lo num quadrinho, tirou xerox dele e distribuiu para amigos e parentes, para verem a impressionante premonição do cidadão!

                                   O Phila parece que tinha alguma idéia de que iria muito cedo? Ele era apressado, um pouco agitado,  sem nenhum egoísmo ( que pode preservar a vida, prolongá-la ), distribuia, dividia a  fama e o prestígio com seus colaboradores...Sabe, Quixadá, eu sempre tive uma espécie de medo difuso quando ouvia as “ Danças Polovetsianas” , da ópera “Príncipe Ígor” , de Borodine, porque não conseguia conter as lágrimas, ninguém percebia, mas era só ouvir aquela melodia e me vinha a imagem do Phila, como se ele gostasse muito daquela música e já fosse uma pessoa ida deste mundo! Isto sempre me aterrorizou e eu evitava ao máximo ouvir aquela melodia. Acho que eu sentia que ele partiria logo...

E, como chefe de família, era um exemplo fantástico. Deixou ,a

duras penas pelo preço, um seguro de vida de R$300.000,00 ( R$150.000,00 para a Aninha, R$75.000, para cada uma das filhas ), pois sabia que, se morresse insopitavelmente, como morreu, a viúva cairia em  70%, do INAMPS,  sobre dez ou pouco mais de salários mínimos, imagine, ele que trabalhava as 24 horas do dia para proporcionar o melhor para suas filhas e mulher.

                                   Procuro fazer tudo como uma forma de esquecê-lo, fingindo que estou escrevendo para atender seus pedidos/estímulos: eu estava, desde de outubro do ano passado, empenhado em escrever “ o grande livro de minha vida” , pôr no papel todas as experiências artísticas pelas quais passei, teatro, com 21 anos, meu romance inacabado, dos 22 aos 26 anos, tinha guardado tudo em sacolas, gavetas, meus poemas da década de 50, alguns publicados em jornais da época e da Faculdade de Direito, os desenhos que sempre fiz, enfim, o Phila chegou pra mim e, para ultimar traçados que me fizera há uns 7 ou 8 anos numas férias em Jacutinga, ajudando-me na concepção de um livro/conglomerado, e deu-me um ultimato:

                                   - Pai, o senhor ( era assim que me chamava ) já tem tudo organizado nos vários arquivos de seu Word, agora está na hora de juntar, costurar tudo, é só ir contando como tudo aconteceu na sua cabeça, vai sair coisa boa, coisas fantásticas!, seu senso de humor e originalidade, mais os projetos inéditos – e são bem antigos, pai! – tudo vai dar num grande livro, concentre-se, pai, duas horinhas por dia, vai ver que sai logo e tudo estará pronto...

                                   Comecei a trabalhar animado com sua esperança, também com a torcida e o apoio do Flo, da Cris, da Elza, o livro começou a engrossar, mas não tinha como coordenar, ou ligar coerente e logicamente os 17 capítulos que esboçara, Ensaios, Cartas, Música, Glenn Gould, Traduções, Poesia das décadas de 50 e 60, Romance, Portraits ( desenhos meus, que transpús para o computador através de scanner , o Phila me fez comprar um scanner, pois meus trabalhos gráficos estavam ficando numa fortuna, na Gráfica Xerox aqui do bairro ) enfim, tinha até trabalho de projeção que seria objeto de um VHS apenso ao livro – meu  poema da luz do abajur, um mapa da ilha de Cuba que projeta na parede, quando se liga referido abajur, a fisionomia do Ché Guevara, um trabalho antigo meu que os dois brasilianistas norteamericanos que traduziram Oswald de Andrade para o inglês, Albert Bork e David Jackson Kenneth, conheceram aqui em São Paulo nos meados da década de 70 e muito admiraram. Denomina-se Abat Our ( Nosso  Abade, o Ché, mentor das juventudes e, o que é mais importante, das jovialidades até hoje-em-dia) e o J do abat j our cai e vira o castiçal / pegador do abajur.

                                   Me lembro do dia em que, por volta de janeiro ou fevereiro deste ano,  lhe disse que o livro não mais teria capítulos, só teria uma Introdução, de 700, 800, 900 páginas, cheias de notas de rodapé, que às vezes viram páginas e páginas, tornam-se o principal, os assuntos iam-se emendando , como numa confissão, em confessionário mesmo, sem ordem nem medo, e, acabada a Introdução, acabava o livro, ué! dirá o leitor, introdução a que? não intruduzia a nada, e assim  justificava o título do livro, "Impropriedade privada".

                                   Ele sorriu largo e vermelho – era sua forma predominante de gargalhar – e  disse:

                                   - Ótimo, pai, é isso, estamos na época das bulas, o senhor sempre gostou de colocar bulas em seus poemas, veja o primeiro livro, de 1972, veja "O lago dos Signos" , a idéia complementa a fatura, o senhor não se diz um amante da arte conceitual? E mesmo que não complemente nada, a simples enunciação dos projetos mentais que o senhor almejava pôr em livro ou imprimir individualmente já é o poema, já é a obra, sua semente, puxa !, acho que vai ficar muito original.

                                   Mas vai daí, Quixadá – e isso justifica também eu não escrever a você, estava muito imbuído de uma tarefa vital, era meu tudo ou nada, beirava os setenta anos, boêmio, dilapidador de tempos preciosos, jogador inveterado de conversa fora, botequinando a torto e a direita pelos torresminhos das gratuidades anônimas – vai daí que também adveio uma apagada geral na memória de meu computador, que me assustou muito, tive que embrenhar-me num empreendimento custoso de recuperação de arquivos por firmas especializadas nisso e, finalmente... um câncer na próstata, a peregrinação a médicos, hospitais, Oswaldo Cruz, Hospital do Câncer – onde queriam me tocar a faca, deixar-me impotente e usando fraldas, pela incontinência urinária – ,cintilografia óssea para ver se não havia metástase, uma apreensão terrível, suavisada pelo apoio dos três filhos e com total arregaçamento de mangas por parte do Phila, que transacionou com a PUC e a UNIMED o tratamento radio-braquiterápico ( essas sementes radiativas de um tratamento caríssimo ).

                                   Quando o ví pela última vez, na véspera de seu embarque para as férias com a família, uma sexta-feira, 13 ou 14 de julho, almoçamos juntos no Almanara do Shopping Paulista, ele fez questão de pagar o almoço – jamais deixei um filho pagar qualquer despesa – mas ele insistiu que era pra dar sorte no meu tratamento na volta.

                                   Quatro dias antes de morrer, telefonou-me do Grande Hotel de Ouro Preto e me disse, como se ele fosse o pai:

                                   - Olha lá, fica pronto aí, que na quarta-feira estarei em São Paulo e vamos direto para o Instituto da Radioterapia.

                                   Dia 25 de julho, na véspera da tal quarta-feira, estava eu desesperado, alienado, não acreditando ao ver seu caixão baixar à tumba, coisa horrível, parece que tudo , tudo, minha vida toda ia indo junto por terra abaixo...

                                   E não me libertei dessa sensação até agora...e o sentimento de sua falta me parece um estigma vitalício, eterno, choro à-toa no só pensar em seus sorrisos, suas gozações, tinha uma ironia atilada, rápida mas sempre ética, sei e sinto que me amava muito.

                                   Parece que estou perdido, queria dizer isto tudo a você, dona Carmen e Marisa pessoalmente, mas não tenho estrutura nem pra escrever estas desgraçadas linhas sem que se abatam sobre mim o choro e a desolação, uma profunda, profundíssima desolação, confesso que nunca senti nada tão pesado...

                                   E não tenho a mínima esperança na frase clássica de que o tempo tudo vence: sinto a sensação de que não tenho mais tempro pra ter tempo.

                                   ***

                                   Passadas umas horas, volto a escrever e agora queria que você soubesse, sinceramente, com convição, que,  embora saudoso, estou muito feliz por saber que você se integrou firmemente nessas associações culturais do Banco aí em Fortaleza: provam-no seus textos sobre as programações e eventos musicais, que todos li com muito interesse e atenção; e invejo sua clareza na exposição dos fatos que rondam as obras e os compositores, os folhetos sobre as semanas de Mahler estão magníficos, o referente ao "Das lied von der erde" é lapidar, didático, grande sem pretensão!, que beleza, caro amigo!

                                   E, por último, mas não em importância, seu problema de saúde: pelo que você nos disse no último relato, talvez fosse o caso de você não cogitar em fazer mesmo, a curto prazo e talvez nunca,  aquele tipo de intervenção: seu organismo já fez, por automatismo instintivo de conservação, aquele tipo de " by pass". Pense, Quixadá: você nasceu com aquele tipo de trânsito cerebral que nunca te afetou em setenta anos, não vai ser perigoso agora, penso eu. Depois, existem drogas modernas que se aperfeiçoam diariamente, aliás você fala na cartinha que toma uma porrada de remédios. Mas, felizmente, não te tiram a oportunidade de, de vez em quando, tomar um drinquinho mais forte, um whisky, que é bom pra circulação, um dry martini à la Buñuel: meia quantidade de gim inglês – ele cita o Gordon – , para meia de vermouth francês – ele cita o Noilly-Pratt – ,  abençoados com 7 a 10 gotas de angostura... uma pedrinha de gelo, nada de limão, azeitona, essas coisas que acaipiramos nos nossos martinis secos. ( cf. as memórias de Buñuel, “ Meu último suspiro”) .

Mas, em qualquer hipótese de você ter de fazer algum tipo de intervenção, penso que você deveria vir pra São Paulo, sem demérito de seus  médicos conterrâneos, é claro. E penso que você será sempre beneficiado por sua infantil, no bom sentido, alegria de viver, como já lhe disse uma vez numa carta, lembra-se? :" (...) você é uma pessoa extremamente lúdica (talvez o mais forte componente de seu lado bom, permita-me), de um ludismo por natureza, mas preponderantemente por contágio, o que é uma forma de generosidade" ( 01-4-1997) . E também não se esqueça da velha frase de Thomas Mann, "não morre quem não consente em morrer".

                                   Vou ficando por aqui.

                                   Façam preces para que eu possa enfrentar um telefone sem me decompor emocionalmente e logo-logo voltaremos aos bons papos.

                                   Beijos à sempre lembrada  e gentil dona Carmen, à Marisinha e, por que não? , em beijão tambem a você.

                                    ( FLORIVALDO MENEZES )

                                   Em 13 e 14 de setembro de 2000.                                 

 

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@ - Ao Quixadá, 20-10-05: 

 

Caro Quixadá, que beleza! Que saudades me deu de Viena, 1981!
    Naquela praça do Teatro Municipal, vi uma belíssima loura circundando-o
de bicicleta. Na segunda volta, ela percebeu, por me ver no mesmíssimo
lugar, que eu a estava paquerando. Na terceira volta, sorriu, meio maliciosa
e arfante (era a bicicleta?...). Passou rente por mim, eu fui ficando com
salduro, uma alergia pra disfarçar pra quem eventualmente lê e-mails...
    Lógico que não deu em nada.


                                ***************


    Você se lembrou de meu furto famélico, praticado, à uma da madruga, num
corredor do hotel onde eu vagava de fome, desesperado...Havíamos chegado de
Amsterdam e não havia nada pra se comer, Viena toda já dormindo, eu não
conhecia os macetes, é claro. Foi a melhor ceia de minha vida! Acho que
tinha até lagosta naquela prataria e faianças de nababos, no carrinho à
porta de um apartamento, no andar de baixo. Os detalhes você conhece.
    Está aí, nas imagens belíssimas do Edison de Piracicaba, o palácio de
Schönbrunn, cuja ala de hóspedes da época se transformou no referido hotel.
    E naquela praça (confronte) , onde tem um tocador de realejo, alí,
naquela cantinho à esquerda, vi um conjunto tocando um Mozart numa
glasharmonika, aquele "instrumento" inventado por Benjamin Franklin e que
Mozart descobriu em Praga : vários copos e vasilhames cortados, em alturas
diferentes, com as bordas umidecidas e sobre as quais os músicos deslizam
seus dedos, emitindo sons em  timbres inusitados e evanescentes. É onírico!
Você pode ver essa geringonça no filme "E la nave và", do Fellini.Tenho tb.
um LP com música de Mozart para glasharmonika
e orquestra.
    Tchau. Abraços a todos, Menezes.
 

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 CARO AMIGO HÉLDER :

                        HÁ TEMPO ESTOU CURIOSO POR SABER COMO VOCÊ, UM EXPERT TAMBÉM EM MÚSICA POPULAR, PRINCIPALMENTE A BRASILEIRA, VERIA MEU ENFOQUE DE 1989 SOBRE UMA SELEÇÃO DE NOSSAS JÓIAS DO SETOR.

                        NÃO PRECISO DIZER A VOCÊ QUE É UMA SELEÇÃO DE UM MOMENTO, DENTRO DE UM LIMITE PARA DEMONSTRAÇÃO A INGLESES : VEJA QUANDO MANDEI A CARTINHA COM A PRIMEIRA FITA (FITA ESSA CUJA REPRODUÇÃO ESTOU LHE DANDO AGORA) PARA A CRISTINA, QUE ESTAVA MORANDO EM LONDRES. MAS INSISTO QUE NÃO É,  PERMITA-ME UM TROCADILHO, UMA ESCOLHA  “PARA INGLÊS VER”...

                        SE NA FITINHA HOUVESSE ESPAÇO PARA MAIS OITENTA POR CENTO DE NOSSA MÚSICA POPULAR... OITENTA POR CENTO SERIA DE OUTRAS ESCOLHAS. ( NÃO É PIADA DE PORTUGUÊS )

                        ESTA, COMO EM CERTAS ANTOLOGIAS ENXADRÍSTICAS, É  UM FLORILÉGIO TALVEZ DE CARÁTER SAZONAL DO ESPÍRITO; MAS ACREDITO EU QUE -- TAMBÉM COMO NO XADREZ -- VALE O APELO PARA AQUELAS PARTIDAS QUE, NÃO SENDO AS MAIS PERFEITAS, INSTIGAM UM QUÊ DE MAJESTOSA INVENÇÃO, ÀS VEZES ATÉ DE ERRO CONSOLIDADOR DE AUDÁCIA, DE EXPECTATIVA, DE MISTÉRIO FALHO, ENFIM, DO SUBJETIVISMO QUE ME ENVOLVE ULTIMAMENTE E QUE INVOCO EM MÁRIO DE ANDRADE NUMA EVOCAÇÃO QUE DELE FAZ UNGARETTI, RELATADA NO ANEXO. RESUMINDO, UMA DERROTA DE ALEKHINE MUITA VEZ É MAIS BELA QUE UMA VITÓRIA DE PETROSSIAN (E, SE FOSSE POSSÍVEL, NUMA MESMA PARTIDA, PARA NÃO DESMERECER PETROSSIAN). PORRA, EU NÃO PODERIA DIZER QUE, NO MATCH DA DÉCADA DE 20, EM ALGUMAS PARTIDAS QUE ALEKHINE PERDEU, ELE JOGOU MAIS BONITO, FEZ MAIS BELEZA QUE CAPABLANCA?? VEJA QUE NOSSA SIMPLICIDADE PROGRESSIVA VAI FICANDO COMPLICADA... VOCÊ COMO POUCOS ENTENDE MELHOR DESSAS DIFERENÇAS.

                        MAS, PELO AMOR DE DEUS!, NÃO ESTOU PONDO O CONTEÚDO DA MISSIVA  NO NÍVEL DOS  EXEMPLOS SUPRA: É SÓ MAIS UM EXEMPLO.

                        NESTA CARTA ESTÃO EMBUTIDAS OUTRAS, POR RAZÕES LOGO EVIDENTES.

 

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CARO AMIGO  QUIXADÁ.

                        

                        Estou passando-lhe às mãos uma cópia da fitinha onde, em 1989, depositei o objeto de minhas paixões musicais brasileiras populares.

                        Ela vai acompanhada de uma carta embutida nesta a você; e aquela carta trás embutida outra. Ao invés de ser um caso de transferência comodista de conversas entre amigos, variados e variáveis, é mais uma espécie de cascata de janelas de computador, uma coisa se ligando a outra de acordo, não só com as tendências particulares dos destinatários, mas principalmente com a afinidade de gostos de cada um para com o outro. O que vale dizer, paradoxalmente, que é como se estivesse falando com os três ao mesmo tempo. Cris, Enzo, Claus e você são de mesma estirpe intelectual e, principalmente, afetiva, e tudo redunda como se estivéssemos ao mesmo tempo na mesma sala, ouvindo a mesma fita.

                        Isto me conforta.
 

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@ - CARTA AO CLAUS
CLÜVER, DEZEMBRO DE 1996.

                      

                        Claus:

                        Como parece que todos sabem, nossa música popular é, junto com a de mesmo cunho dos Estados Unidos, a mais profusa em formas, ritmos, capacidade de absorção congenial de timbres e de estruturas de outros locais e raças, não só harmônicas como -- o que é estranho -- também melódicas.

                        Então, além do samba clássico, do samba-canção, do samba-exaltação, do samba de fossa, do samba de bossa (malandragem vocabular e o “breque” matreiro), o Brasil tem, de umas quatro ou três décadas pra cá, também o samba balada, o samba de bossa-nova, o samba-rock, o rock-balada, o blue maxixizado, enfim, de Pixinguinha a Marina, de Noel a Djavan, de Ismael a Tim Maia, o que se procurar!...

                        Em 1989, quando a Christina morou em Londres, fiz-lhe uma seleção do que eu considerava de mais belo na multiplicidade de formas musicais brasileiras e mandei-lhe uma fita cassete. No final da fita tentei explicar-lhe oralmente minhas escolhas, e que eram o meu paideuma, de modo muito resumido, eis que ela tivera muito convívio com o assunto aqui em casa, e saberia demonstrar a variedade a seus colegas de Londres.

                        A fita fez um bruta sucesso; ela teve de fazer várias cópias pro pessoal! Acabei dispensando a explicação, como v v. ouvirão no finalzinho da fita.

                        Acrescento que muita coisa ficou de fora, como as antológicas leituras de Noel Rosa feitas por Aracy de Almeida ou Marília Batista; as interpretações do “velho malando” Morangueira (Moreira da Silva, hoje com 94 anos e que ainda vem a público, intocável na personalização, embora com a voz devastada - no sentido mesmo da palavra  waste -) interpretações essas da década de 30 e mesmo antes, e que demonstram que sua voz teria que esperar, para ser igualada ou talvez superada, o timbre prateado, e translúcido!, de ORLANDO SILVA em sua fase de ouro, isto é, de seus 20 aos 26 anos de idade! Algo similar a Sinatra, até nas fases.                 

                        E muitas outras jóias desbordaram deste paideuma, talvez por mim eleito num momento de decisão etílica. Mas isto é outra conversa, que fica para se apurar em futuros papos... e com muito álcool!...

                        Mais recentemente, em fins de 1993, esteve em São Paulo o poeta italiano ENZO MINARELLI, que você deve conhecer, e que praticava  o que o Philadelpho vinha fazendo como uma de suas experiências literárias, isto é, POESIA SONORA; fez várias conferências e performances muito concorridas pela PUC e outros auditórios, transferiu a paixão pelo seu time de futebol lá da Itália para as mesmas cores do uniforme corintiano, enfim um grande praça, cobrasileiro, alegre, insinuante, um belo tipo, você o conhece?

                        Quando partiu de volta, ENZO levou uma cópia daquela mesma fitinha que remeti para a Cris, só que, dessa vez, acompanhada de um resumo crítico que lhe fiz por escrito e manuscrito (ele domina muito bem o português), mas tudo de memória e bebendo eu whisky em meu escritório na cidade. Sem dados para consultar.

                        TOMO A LIBERDADE DE TRANSCREVER PARA VOCÊ, CLAUS, LITERALMENTE, SEM NENHUMA MODIFICAÇÃO, TAL CARTINHA-CRÍTICA DAS MÚSICAS QUE ESTÃO NO CASSETE.

                        Espero que você releve o fato de eu não colocar o nome exato das faixas, pois, à época em que pela primeira vez selecionei as músicas (1989), fui embaralhando os discos e agora -- como em 1993, quando dei cópia da fitinha ao ENZO -- daria uma tremenda mão-de-obra conferir tudo. Mas dá para você ir identificando cada tópico de minhas análises -- bem resumidas, repito -- ouvindo com atenção as musicas, uma por uma.

                       

                        [ EIS O TEOR DA CARTINHA AO ENZO: - O  QUE COLOCO ENTRE COLCHETES FOI ADUZIDO NESTA CARTA AO CLAUS CLÜVER  &  MARIA ]

 

 LADO  B  

                        @  -  NOVOS BAIANOS:

                        1 - De seu primeiro LP, produção déc. 60/70 : “Brasil Pandeiro” [, de Assís Valente, RECORDISTA EM TENTATIVAS DE SUICÍDIO, QUATRO!,  E QUE ACABOU... SE MATANDO ] 

                        Solistas em destaque (vozes):

                        Baby Consuelo, hoje uma dona de casa e cantora esporádica. [ hoje Baby do Brasil ]

                        Moraes Moreira. [ atualmente em grande forma “single”]

                        O grupo pertencia a uma “família” de 12 ou mais pessoas. Habitavam uma chácara, no Rio, levando, com os filhos, vida comunitária, “primitiva”, naturalista e naturista, sem fronteiras demarcadas, a não ser, talvez, as do sexo.

                        2 - Música do mesmo LP.

                        Guitarrista em destaque : Pepeu Gomes, então marido de Baby Consuelo (supra).

                        NOTE OS CONTRA-TEMPOS NO CANTO DE BABY CONSUELO !

                          @ - CARTOLA e:

                        1 - um samba-canção de sua autoria, gravação déc. 70, produção déc. 50.

                        Genuíno nas concepções, inspirado, com melodia de cunho muito pessoal. Era também mestre no samba rápido (tipo “batucada”).

                        2 - outro samba-canção, mesma época.

                        3 - Note, na terceira musica de Cartola, O SOLO  DE TROMBONE, instrumento em que o músico brasileiro de cabaré e boate é imbatível. Dizem que o GLOBOKAR ia, quando no Brasil, “assuntar” em nossos “inferninhos”. Não sei se é verdade, nem se o VINCO GLOBOKAR esteve no Brasil...

                        4 - ib., ib., veja o trombone! [ O uso que o instrumentista faz de um insinuado ruflo (frullato) numa passagem do  “ACONTECEU” é antológico! ]

                        OBSERVAÇÃO : CARTOLA descende das duas vertentes mais significativas e fundantes da Música Popular Brasileira não-eruditizável, isto é, não

popularesca,no sentido marioandradino, tendente ao folclore :

                        a) NOEL ROSA - o maior gênio de nossa música de extrato popular no sentido lato (samba urbano) e

                        b) ISMAEL SILVA, seu “pendant” idioletal, de riqueza melódica... divina (isto é, como você nunca vê, nunca sabe também como surge uma solução melódica ... que não é harmônica!).

                        (Ismael = idioleto, assim como CHOPIN era um idioleto para o próprio SCHUMANN, criador da linguagem pianística do Romantismo ou, como já disse uma vez, da "linguagem pianística para o ouvido"...)

                         @ - CAETANO VELOSO in  “ALFÔMEGA”,  “dele” & de Gilberto Gil.

                        Belíssima - e genial - escatologia de tendência pré-tarkowskiana. Déc. 60/70. Grande achado. Acabamento, no arranjo, de grande mestre.

 

                        [ INTERROMPO A CARTA AO ENZO, PARA DIZER QUE ACHO A COMPOSIÇÃO SUPRA, COMO OS FILMES DA FASE FINAL DE TARKOWSKY, UMA REPRESENTAÇÃO DO ABSURDO METAFÍSICO-PESSIMISTA, COM INTERFERÊNCIAS DE ACASOS ESCATOLOGICAMENTE PROGRAMADOS, COMO, NA MÚSICA QUE CAETANO CANTA, AQUELE ESTRIBILHO BEM ESPAÇADO DO BÊBADO QUE FALA “- JUSTAMENTE!...” ]

                        [ VOLTO À REDAÇÃO DA CARTINHA AO ENZO E VOU CONFERIR DIREITO A AUTORIA, POIS ACHO QUE TEM O TORQUATO NETO TAMBÉM COMO DONO DA COISA ]

                        @ - CAETANO VELOSO  e uma rumba de sua autoria (s/ Cuba), déc. 80.

                        Um script sonoro de musical hollywoodiano, com “direção de câmera vocal” caribenha. Virtuosismo vocal e suporte melódico e rítmico puramente isomórficos, o que é quase uma exibição/demonstração técnicas. Amoralismo político brejeiro, o mesmo rosto amoralista do Caetano, na vida. Deboche a uma espécie de pré-politicamente correto e, ao mesmo tempo, alusão, velada mas positiva, à grande causa fidelista! (CUBA É A ETERNA NAMORADA DOS SOCIALISTAS DE BEM)

                        @ - MARINA LIMA - um rock-bolero típico de sua personalidade quente, ao mesmo tempo intimista. Pegou a juventude feminina brasileira da década de 80 muito carente... e cativou!

                        @ - (VOLTA À DÉCADA DE 30):

                        Samba de NOEL ROSA, “Cansei de Pedir”, com Violeta Cavalcanti cantando em 1984, ou 85. Um clássico. Letra (lyric) tipo Ira Gershwin, Cole Porter! E um domínio total da natureza do SAMBA.

                        @ - TomZé , “Namorinho de Portão”.

                        TomZé é o membro-gauche do Tropicalismo (Caetano & Gilberto Gil). Arranjo “erudito” de DAMIANO COZZELA. Letra (lyric) de inocência rubra e antecipando as identificações dos comerciais de TV, aquele vovô cantando rápido no fim de uma frase! De seu primeiro LP, déc. 60. A melodia da balada -- verdadeira balada!-- tem uma natureza saudosística ingênua, algo como um futuro já na época saudoso, que envolve, recapeia  a voz do TomZé, em vez de ser envolvida por ele... por causa, penso eu, da tonalidade menor.

                         @ - ( OUTRA VOLTA, À DÉC. 40/50) : ISMAEL SILVA(!) em “Tristezas  não pagam dívidas”. O próprio autor, já setentão (déc. 70), canta. Logo a seguir, “Novo Amor”, também de Ismael. OBSERVE A RIQUEZA, “DIVINA”, DA MELODIA.

                        [ DESCULPE USAR, MAIS UMA VEZ, A PALAVRA “DIVINA”, MAS É SÓ COMO POSSO, NO CONVENCIONAL, ADMITIR O MISTÉRIO DE UNS CORTES DE DIREÇÃO MELÓDICA , QUE SÃO PRÓPRIOS DO ISMAEL. ALGO COMO QUANDO, EM HAYDN, DE REPENTE, NUM ATAQUE DE FRASE NOVA, VOCÊ INDAGA : MAS DE ONDE É QUE VEIO ISTO ?! ]

 

                        @ - Década de 70 : CHICO BUARQUE DE HOLANDA, “Folhetim”.

                        Gal Costa canta essa estória de disponibilidade amorosa de uma mulher livre ( livre inclusive de sentimentos ! ). Bolero propositado. A letra (lyric) é imensa poesia. Chico Buarque foi, com Caetano,  o que melhor encarnava a mulher “na primeira pessoa”.

                          @ - TIM MAIA  (déc. 80), “Me dê motivo”. “Rock-fats” explorando a voz roufenha, e o empenho amorável de enfrentar adversidades... Tim Maia transpõe seu jeito de encarar a vida (ou, pelo menos os outros) para o gesto da interpretação. Me parece muito interessante esse tisne stanislawskiano.

                        @ - RITA LEE ,  a criadora, na déc. 60, com o revolucionário conjunto “OS MUTANTES”, do rock brasileiro. Aqui (“Mania de Você”, já da déc. 80”), veste um  bolerão de roupa insólita : voz, solmizações etc.

 

 LADO  B

 

                        @ - CAETANO VELOSO, dele, “LÍNGUA”, talvez sua obra-prima absoluta. Utiliza ELZA SOARES, cantora marginal, de caráter e modulações  “debochadas”, exímia ritmista, aqui usando e abusando dos vocalises e ornamentos bêbados, que se transformam em  “scats” mais gostosos que os de ELLA FITZGERALD; porque em ELLA  os “scats” estão sempre revestidos de solmizações. A obra (déc. 80) é plena de jogos de palavras e sacadas filosófico-etno-culturais, balançando entre o exotérico e o esotérico, fazendo uma sinopse das culturas eruditas se intercalar com uma sabedoria existencialista tardia. Nas frases entra sempre  um absolutismo conceptualista de aparentes “non-sense”. Repare na comparação entre  amizade / amor   x   prosa / poesia. Ou na passagem em que dogmatiza sobre fazer uma canção / filosofar / língua alemã (!!!). AQUI É POETA MAIOR. E o tônus é de quem vai caminhando, revoltado mas com razão, para o patíbulo!

                        @ - GILBERTO GIL e “Pessoa nefasta”, maravilha de interpretação e utilização de sua voz afro, em rock-balada rápida, numa composição de profundidade religiosa (candomblê-zen !), exorcismo pela reza! Domínio de timbre vocal e de ritmo, como poucas vezes se atingiu no Brasil. Déc. 80. O dia em que você dominar mesmo a língua portuguesa, ENZO, você vai desmaiar com isso. [ ISTO NÃO VALE PARA VOCÊ, CLAUS ! ]

                        @ - CLEMENTINA DE JESUS & JOÃO BOSCO, em samba de João Bosco, uma das expressões mais individuais da Mús. Pop. Brasileira. O canto de CLEMENTINA é africano típico. O ASSUNTO É DIFÍCIL PARA UM ESTRANGEIRO.   [ MESMO PARA VOCÊ, CLAUS, MAS A MARIA O AJUDARÁ A DECIFRAR O COLOQUIALIMO ] É um caso de praga rogada, macumba, traição matrimonial, com muita gíria. Melodia e “acompanhamento” sem dúvida magistrais (Déc. 70/80).

                        @ - TETÊ ESPÍNDOLA e sua voz característica e não suscetível de ser utilizada no corriqueiro do dia-a-dia. Como apelo isolado e não constante, é uma maravilha! O assunto (lyric), casado à melodia riquíssima, com a passagem do recurso da duplicação da voz por meio do “play back”, destaca a obra na galeria das obras-primas do Brasil moderno. Também é de uma tristeza dignificante. (PERDÃO PELO SUBJETIVISMO).

                        @ - “BEBETE VAM ‘ MBORA” (algo como “Bebete, lets go !”),  JORGE BEN (déc. 70), hoje JORGE BENJOR. Criou o ritmo quase  5/4 (tempo sincopado). Digo quase  5/4  porque é meio diferente do nosso jequibau (MÁRIO ALBANESE e CIRO PEREIRA, um dia lhe falo sobre estes), que deriva, talvez incientemente, da espécie de movimento interlúdico da Quinta Sinfonia de TCHAIKOVSKY. Há aqui também um tipo de assunto (lyric) malandro e sincero ao mesmo tempo. É uma delícia... mesmo não se entendendo completamente a letra na hora.

                        @ - “CAMISA LISTADA”, de ASSIS VALENTE, déc. 30, gravação da déc. 70. Com ISAURINHA GARCIA, cantora  (predominantemente de boates e cabarés) de acento “cantado”, resquício do italianismo dos bairros típicos de seu país “de origem” em São Paulo. A seguir, “CARA DE PALHAÇO” (acho que não é esse o nome correto), auto-gozação de um fracassado cínico -- ou talvez dono de um imenso “fair play”! Atente para o acompanhamento verdadeiramente genial do piano, nessas duas faixas da ISAURINHA : seu então marido, ou companheiro, WALTER WANDERLEY, precocemente desaparecido.

                                   AMIGO QUIXADÁ, [ Claus & Maria, este vocativo QUIXADÁ  é porque encaixei as cartas ENZO/CLAUSS em outra para um outro amigo melômano ] CORRIJO PARA VOCÊ O QUE  NÃO TIVE OPORTUNIDADE DE FAZER NEM PARA O ENZO NEM PARA O  CLAUS  :  O ACOMPANHAMENTO GENIAL  DO PIANO É DO AMÍLSON GODOY, QUE FEZ A TRILHA DE UM FILME DE MINHA FILHA CHRISTINA, E QUE É IRMÃO DO FAMOSO AMÍLTON GODOY, DO “ZIMBO TRIO”. APROVEITO A OPORTUNIDADE PARA CORRIGIR TAMBÉM QUE O WALTER WANDERLEY CONTINUA VIVO E É  CONSIDERADO UM DOS MELHORES ORGANISTAS NOS ESTADOS UNIDOS.

                        @ - OUTRA VOLTA: (à déc. 30) -  “A RAZÃO DÁ-SE A QUEM TEM”. Outra obra-prima de ISMAEL SILVA. A dupla que se alterna na primeira e na secunda partes: FRANCISCO ALVES e MÁRIO REIS, este o verdadeiro precursor de JOÃO GILBERTO pela falta de solenidade, desimpostação da voz, e canto-falado (sprach-gesang) !

                        @ - CAETANO VELOSO  e seu talento também para a marcha carnavalesca. “CHIQUITA BACANA”, ou  “A FILHA DA CHIQUITA BACANA” (ESTOU ESCREVENDO, ENZO,   ESTAS NOTAS NO MEU ESCRITÓRIO, SEM OS DADOS TÉCNICOS, CONFIANDO NA MEMÓRIA, 24-8-93).

                        @ - Do LP  “BRAZIL” (sic) , de JOÃO GILBERTO, déc. 80. Música do clássico DORIVAL CAYMI, dos sambas praieiros, alma da Bahia. Há uma riqueza poética notável nas assonâncias dos nomes dos pescadores ( “Maurino, Dadá e Zeca ô/ Embarcaram de manhã...”) e da narrativa ( “anedota”- ficção ). Os dois cantores que contracenam com João Gilberto ( Caetano Veloso & Gilberto Gil )  fazem “dramatis personae” do gesto vocal de João. Timbre encarnado deste. NOTE TAMBÉM O DESCOMPASSO DA FRASE VOCAL COM A BATIDA DO VIOLÃO. JOÃO GILBERTO  (como GLENN GOULD)  tinha um sistema calmo pegado a seu sistema nervoso... [ Aqui desenhei para o ENZO uma carinha rindo e uma exclamação ]

                        @ - De novo ISMAEL (!!) , “ME DIGA TEU NOME”, déc. 30. Melodia originalíssima, milagrosa, mais uma vez insisto no mistério!  [ MAS HÁ UM LIVRO ESTRANHÍSSIMO, EMBORA ASSEGUREM SER CIENTÍFICO, QUE ABORDA TAMBÉM O ASPECTO  DESENHO MELÓDICO / TONALIDADES /  TRISTEZA E ALEGRIA DECORRENTES DISSO!, DE ALOIS GREITHER, TÍTULO :  “MOZART”,  TENHO EM ITALIANO, ED. EINAUDI ].  A seguir, “BOA VIAGEM” (déc. 30), no mesmo diapasão inconfundível. Re-gravação da déc. 70. O autor canta. Era um gênio, como já disse, mas uma pessoa tremendamente ignorante, quase um boçal completo, com vontade de ter senso de humor...

                        @ - “A TUA PRESENÇA”, CAUBY PEIXOTO, a voz mais sonora, dotada, natural (tipo SINATRA nesse particular) e melodiosa do Brasil. Além de tudo, um pleno domínio técnico nas inflexões e exploração das particularidades do “fato cantado” (v., na primeira estrofe, a pronúncia da palavra  “DISTÂNCIA” !!! Na repetição, ele tira a “an-an-an ” do perfil montanhoso da lonjura). Mas... é considerado pela “maioria crítica” um cantor “depassé”, amaneirado, old fashioned, e , como brasileiros já dissemos em  passado não muito distante, bôco-môco...

                        @ -      “SOY LOCO POR TI,  AMÉRICA”, de GIL & TORQUATO NETO, na voz de CAETANO. É uma rumba que talvez não se encontre melhor no gênero.

                        Eis, ENZO, um “pot pourri” de coeur & tête.

                        [  Bem, CLAUS E MARIA, vou ficando por aqui, esperando um breve reencontro.

                        S. P., 24 de Dezembro de 1996, FLORIVALDO MENEZES. ] 

 

                                   Amigo QUIXADÁ, DESTINATÁRIO E DEPOSITÁRIO AFETIVO DE MINHAS CARTAS ( VÃO TAMBÉM SAIR NO LIVRO ), também fico por aqui.

                                  E amigo HÉLDER, um grande abraço e uma despedida talvez num molde de “1: P4CR” (será o meu?!); ou, modernizando-me  fenomenologicamente  :  “1 : g2 - g4”.

                                    [ CLAUS &  MARIA, AÍ EM CIMA FOI O FECHO DE UMA CARTA PARA O HÉLDER CÂMARA, MESTRE INTERNACIONAL DE XADREZ, MEU PARTICULAR AMIGO E TAMBÉM POETA / MELÔMANO, NÉO PARNASIANISTA TARDIO (SIC; SÓ NO BRASIL ESSAS COISAS INCRÍVEIS) E HOMÔNIMO DE SEU TIO, O BISPO PROGRESSISTA QUASE NOVENTÃO; JÁ  OUVIRAM FALAR DE DOM HÉLDER CÂMARA? ]        

                        São  Paulo, 1997 para 1996 para 1993 para 1997.

                                   FLORIVALDO MENEZES

 

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@ - PARA IVAN TEIXEIRA :

                        Como tenho por você uma estima especial, que dia a dia mais  se fortifica, tive vontade  -- embora possa parecer um atrevimento -- de ir mandando-lhe por escrito tudo o que penso ou venha a pensar do caro amigo, em virtude de suas manifestações públicas, i.e., o que você expuser em jornais, revistas ou livros. Assim de chofre, pode parecer  neurose, coisa freudiana, que direito tem esse cara?... Mas  não deve nos preocupar, fica como exercício de ego ou de viver.Ou como uma marca, uma variação na nossa amizade. E certamente se exercerá dentro de uma periodicidade que ficará afeita, claro, a minha disposição, ânimo,  estados de espírito trôpegos etc. etc. : em última análise, não será insidiosa a encheção de saco, penso que você me conhece.

                        Assim sendo, julgo que desde já estarei perdoado pela  intromissão, eis que você frequentemente me intriga e muita vez sou impedido, por pudor, de exercer minha costumeira sinceridade em relação a um ser humano, principalmente quando a ele me pareço ligado há muito, muito,  tempo.Talvez para essa sensação contribua muito o apreço que tenho por sua família,  que me trata com tanto carinho! E um carinho que sinto objeto de júbilo de sua parte.Enfim, já está sendo um costume verdadeiramente espiritual a hora e a vez em que nos encontramos, por mais espaçadas que às vezes sejam.

                        Sinto em você um verdadeiro companheiro, como o Percy, o Nílton, infelizmente o já ido Zelão,  naquilo que para mim significa dos raros momentos de felicitar a Vida: a paixão constante, diuturna mesmo, pela arte, a literatura principalmente,  e pelas demais coisas do Espírito:  quaisquer que as consideremos, mas desde que fanaticamente. Fanaticamente, para mim, saiba- se,   para o  Bem maior, ou seja o de nossa alma, façamos de conta que esta exista e que o egoísmo não seja pecado.

                        Você pode começar a  receber estes aportes/palpites dentro daquelas suas  não insinceras sacadas  (vejaque não disse " daquelas sinceras" sacadas...) de que é o paizão que está falando, meu “quarto filho” ouvindo com carinho, quando não com um respeito só de leve acoimado pelo comodismo de não retrucação.Se esta palavra não existe, vale pelo som de batida na mesa. E ficou solene como uma personagem de Rosa falando bonito. (NÃO ESTOU BEBENDO...PORTANTO, DESCULPE AS VULGARIDADES !)

                        Os óbvios se assemelham aos "não querendo te interromper", que em sí já interrompem. Assim sendo, não precisaria dizer mais que seus textos continuam primando, desde logo, por uma estrutura  verdadeiramente   estelar quase insuperável, escopo e magnitude  didáticos, encadeamentos sempre lógicos e objetivos, bem acudidos e  pertinentes paralelismos  -- como evocar Bandeira no problema que você levantou do cosmopolitismo mental e cultural de Pound no artigo de sábado.

                        O leitor vê, de cara,   uma chave sinóptica em seus preâmbulos. E como são boas as chaves sinópticas numa era de apreensão das coisas pela via dos video-clipes!

                        No artigo de sábado, você dá ao leitor, principalmente ao não muito familiarizado com Pound, uma visão esquemática acabada do grande mentor, perdoi-me chamá-lo assim. Mas - e aqui vai a primeira sinceridade/desabafo - acudiu-me que o interesse do autor pelo artigo, afora a solicitação de jornal ligada ao evento comemorativo (os 25 anos da morte do poeta), por seu teor mais recôndito, subterrâneo, poderia estar mais intimamente ligado,como bom mineiro que você é, a algum problema de desavença, ou desencontro,  com o Haroldo de Campos. Ou a uma necessidade de “rearrumação” de algo com o Hansen, se bem que as duas hipóteses estejam naturalmente ligadas. Outra coisa a considerar, e aqui entra mais uma vez meu mau vezo de criptografar, é que o Haroldo é uma pessoa muito agendada.

                        Há muito tempo lhe falei, até professoralmente, e disso  já me perdoei, do perigo que seria para sua carreira de scholar, visando USP, seus (pelo amor de Deus, não se ofenda!) namoros um pouco exagerados com o Haroldo e, por conseqüência, com o "grupo concreto".

                        Estes, em minha opinião, são e continuam muito invejados pela maioria, imensa maioria, não criativa e nem de leve criadora, da intelectualidade brasileira de mesma geração! Às vezes até por vingança a um complexo de desprezo megalomaníaco por parte da grei.

                        É claro que, sistematicamente atacados, dão a volta por cima, dançam e rolam soberanos por conta de seu preparo e inventividade, mas poderiam ter prejudicado, por via indireta dessa inveja,  uma figura como você, que despontava com força na mídia, disputava cargos e posições, e que corretamente lhes devotava admiração e justiça.

                        Houve ti-ti-tís e fuxiquinhos, você sabe;  mas você também  soube, no devido tempo, superar isso tudo, por força de sua cultura,  capacidade  de trabalho, apuro técnico  e por algumas posições de autonomia, nem sempre explícitas, contudo. Mas não sei se no íntimo-no íntimo não sobrou algum ressaibo nas plagas dos grupos ou do pessoal que se opunha a eles, tais como, com todo o respeito, os  Hansens, os  Arriguccis, aquele inquisidor... o  magriça rebelde... de sua banca de doutorado, talvez até nosso próprio amigo de roda, o Fábio Lucas. E  congêneres...pra não dizer "et caterva".

                        Fazendo um corte abrupto na cena e aclaradas todas as dúvidas através da diplomacia ( -- não se ofenda, senão não escrevo mais, beicinhos...---) mineiro-mineiradora de sua parte, apesar do peso de dedicar longas páginas a poetas ligados a eles e  que ainda não estão credenciados, em meu entender, nem digo a herdar, mas a se habilitar na herança do patrimônio de Cabral, tais como Régis, aquele cara do Rio, o filho do João Alexandre e  Nélson Ascher ( este,sim, seria um herdeiro dele, mas herdeiro por representação, no sentido jurídico da expressão, se você tivesse demonstrado que, reelaborado vitalmente, encarnado num jovem de hoje, Cabral falaria com aquele instrumental de "hodiernidade" de expressão usado pelo Ascher; expressão essa que é toda cabralina,  a despeito do hodierno mais perene da linguagem mais universal, embora idioletal, do poeta pernambucano), aclaradas todas as dúvidas, repito, acrescidas da natural generosidade que você tem  para com os valores emergentes, agora me acode mais uma, em função do artigo de sábado:

                        Você não sente alegria, nem digo o êxtase, de aceitar uma invenção genial, mesmo falaciosa, quando não mentirosa, mas bela, insopitável, como o melro, que era preto, belo, luzidio, entregando-se ao prazer da constatação, ou mesmo da mera assertiva? A unanimidade é sempre burra?! O vago, o impreciso, partidos de um grande poeta, não são dignos de que fechemos os olhos e demos desculpas de que ouvimos mal?...

                        Desculpe-me a petulância de um aparente repto, mas também me intriga essa postura contrária a qualquer tipo de subjetivismo mario-de-andradiano numa pessoa, na intimidade, extremamente sensível e lúdica como você. Ou você  estrategicamente adota de público a posição historicista, sincronicista, que quase sempre desautoriza as epifanias de prever o passado, já que o futuro a Deus pertence? Se assim não fosse, caro Ivan,  não teria criticado o critério poundiano de definição de literatura como novidade que permanece novidade. Nem pespegaria de noção engenhosa a aferição de Pound dos exemplos, não citados no seu texto, dos reais valores literários, embora  a eles --conheço-os bem -- se possam aplicar os signos enxadrísticos de "duvidoso para melhor", ou de "exclama, podendo ser duvidoso".

                        E é claro que Pound se supunha em "lugar privilegiado de observação e juízo". É óbvio, dentro de um desígnio de"insight" poético como  ao que se propôs durante a vida toda !

                        Mas isso deve ter agradado ao Hansen, arranhado um pouco o Haroldo, desculpe-me cair em planos aparentemente baixos desses antagonismos, mas se não fosse pela franqueza nada disto teria sentido...

                        Também mais livre de esquemas acadêmicos, talvez pudesse ser evitado o não menos  subjetivo juízo de que um  "hipotético bom gosto perene, infalível e trans-histórico" (grifo acrescentado) tenha embasado os critérios de classificações de Pound, eis que no período imediatamente anterior você admite que houve "implicações idealistas" (grifo mais uma vez acrescentado).

                        E por que falar em "suposta excelência eufônica" (grifo tb. acrescentado) da melopéia, quando a melopéia  "é como se esse som nascesse do ar",  tão simples?!...

                        Acho que, em prol de sua sempre fundamentada justificativa de negações -- quando você pertinentemente as levanta, é claro -- você bem que poderia dar exemplos nominais e comparativos, quando você diz, ao criticar o genial truismo de que existem artistas inventores, mestres e diluidores (no "etc." de seu texto poderia entrar o Gullar do caldinho pra famintos da panela onde ferveram as vanguardas esquecidas) quando você diz, repito, que a "história tem demonstrado a falácia de tal classificação, transformando em escritores irrelevantes alguns inventores ou mestres de determinado momento". UNS EXEMPLOS, NESSE TRECHO, SERIAM, EM MEU ENTENDER, ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEIS E REFORÇARIAM OS PONTOS ALTOS DE SUA POSIÇÃO.

                        Os dois períodos que abordam o conceito de "paideuma" devem ficar para os esquemas simétricos do pensamento crítico sócio-historicista, "ab initio" hansenianos (em todos os sentidos!...) e que, "pour cause", melecam a simetria,  permita-me o mau gosto do trocadilho conceitual. MAS, POR FAVOR, APAGUE ISTO : É UMA BIRRA ( IRRACIONAL ?!...)  DE MINHA PESSOA.

                        Desculpando-me pela crueza, não posso terminar sem aguardar com ansiedade novos temas polêmicos como tais. E, admitindo, no caso de Pound, e sem qualquer desejo de ferí-lo,  um inimigo estratégico, ou um medo de ser feliz (na Literatura, é claro,  o que também é o caso do Percy, a quem igualmente amo tanto) ;  uma ânsia de questionar existencialmente alguns achados humanitários -- o que não deixa de ser meio triste, permita-me --, ou uma não sei se justificável necessidade de ser arauto de eventuais desmistificações/demitificações, você está,  de certa forma  e apesar de tudo, salvando a patria de certo  periódico até então  anódino.

                        VOLTAREI, SE NÃO TIVER VERGONHA DE ENCARÁ-LO DENTRO DAS GARGALHADAS, DOS ALMOÇOS E DOS WHISKIES!

                        A bênção!

                        (Agora quem pede sou eu)

                        FLORIVALDO, 2 DE NOVEMBRO DE 1997.( V. MAIS ABAIXO )

 

                                  

@ - PARA IVAN TEIXEIRA: ( ESTA DEVE SER DESPREZADA)

                        Como tenho por você uma estima especial, que dia a dia mais  se fortifica, tive vontade  -- embora possa parecer um atrevimento -- de ir mandando-lhe por escrito tudo o que penso ou venha a pensar do caro amigo, em virtude de suas manifestações públicas, i.e., o que você expuser em jornais, revistas ou livros. Assim de chofre, pode parecer  neurose, coisa freudiana, que direito tem esse cara?... Mas  não deve nos preocupar, fica como exercício de ego ou de viver.Ou como uma marca, uma variação na nossa amizade. E certamente se exercerá dentro de uma periodicidade que ficará afeita, claro, a minha disposição, ânimo,  estados de espírito trôpegos etc. etc. : em última análise, não será insidiosa a encheção de saco, penso que você me conhece.

                        Assim sendo, julgo que desde já estarei perdoado pela  intromissão, eis que você frequentemente me intriga e muita vez sou impedido, por pudor, de exercer minha costumeira sinceridade em relação a um ser humano, principalmente quando a ele me pareço ligado há muito, muito,  tempo.Talvez para essa sensação contribua muito o apreço que tenho por sua família,  que me trata com tanto carinho! E um carinho que sinto objeto de júbilo de sua parte.Enfim, já está sendo um costume verdadeiramente espiritual a hora e a vez em que nos encontramos, por mais espaçadas que às vezes sejam.

                        Sinto em você um verdadeiro companheiro, como o Percy, o Nílton, infelizmente o já ido Zelão,  naquilo que para mim significa dos raros momentos de felicitar a Vida: a paixão constante, diuturna mesmo, pela arte, a literatura principalmente,  e pelas demais coisas do Espírito:  quaisquer que as consideremos, mas desde que fanaticamente. Fanaticamente, para mim, saiba-se,   para o  Bem maior, ou seja o de nossa alma, façamos de conta que esta exista e que o egoísmo não seja pecado.

                        Você pode começar a  receber estes aportes/palpites dentro daquelas suas  não insinceras sacadas  (vejaque não disse " daquelas sinceras" sacadas...) de que é o paizão que está falando, meu “quarto filho” ouvindo com carinho, quando não com um respeito só de leve acoimado pelo comodismo de não retrucação.Se esta palavra não existe, vale pelo som de batida na mesa. E ficou solene como uma personagem de Rosa falando bonito. (NÃO ESTOU BEBENDO...PORTANTO, DESCULPE AS VULGARIDADES !)

                        Os óbvios se assemelham aos "não querendo te interromper", que em sí já interrompem. Assim sendo, não precisaria dizer mais que seus textos continuam primando, desde logo, por uma estrutura verdadeiramente   estelar quase insuperável, escopo e magnitude  didáticos, encadeamentos sempre lógicos e objetivos, bem acudidos e  pertinentes paralelismos  -- como evocar Bandeira no problema que você levantou do cosmopolitismo mental e cultural de Pound no artigo de sábado.

                        O leitor vê, de cara,   uma chave sinóptica em seus preâmbulos. E como são boas as chaves sinópticas numa era de apreensão das coisas pela via dos video-clipes!

                        No artigo de sábado, você dá ao leitor, principalmente ao não muito familiarizado com Pound, uma visão esquemática acabada do grande mentor, perdoi-me chamá-lo assim. Mas - e aqui vai a primeira sinceridade/desabafo - acudiu-me que o interesse do autor pelo artigo, afora a solicitação de jornal ligada ao evento comemorativo (os 25 anos da morte do poeta), por seu teor mais recôndito, subterrâneo, poderia estar mais intimamente ligado,como bom mineiro que você é, a algum problema de desavença, ou desencontro,  com o  Haroldo de Campos. Ou a uma necessidade de “rearrumação” de algo com o Hansen, se bem que as duas hipóteses estejam naturalmente ligadas. Outra coisa a considerar, e aqui entra mais uma vez meu mau vezo de criptografar, é que o Haroldo é uma pessoa muito agendada.

                        Há muito tempo lhe falei, até professoralmente, e disso  já me perdoei, do perigo que seria para sua carreira de scholar, visando USP, seus  (pelo amor de Deus, não se ofenda!) namoros um pouco exagerados com o Haroldo e, por conseqüência, com o "grupo concreto".

                        Estes, em minha opinião, são e continuam muito invejados pela maioria, imensa maioria, não criativa e nem de leve criadora, da intelectualidade brasileira de mesma geração! Às vezes até por vingança a um complexo de desprezo megalomaníaco por parte da grei.

                        É claro que, sistematicamente atacados,   dão a volta por cima, dançam e rolam soberanos por conta de seu preparo e inventividade, mas poderiam ter prejudicado, por via indireta dessa inveja,  uma figura como você, que despontava com força na mídia, disputava cargos e posições, e que corretamente lhes devotava admiração e justiça.

                        Houve ti-ti-tís e fuxiquinhos, você sabe;  mas você também  soube, no devido tempo, superar isso tudo, por força de sua cultura,  capacidade  de trabalho, apuro técnico  e por algumas posições de autonomia, nem sempre explícitas, contudo. Mas não sei se no íntimo-no íntimo não sobrou algum ressaibo nas plagas dos grupos ou do pessoal que se opunha a eles, tais como, com todo o respeito, os  Hansens, os  Arriguccis, aquele inquisidor magriça de sua banca de doutorado, talvez até nosso próprio amigo de roda, o Fábio Lucas. E  congêneres...pra não dizer "et caterva".

                        Fazendo um corte abrupto na cena e aclaradas todas as dúvidas através da diplomacia ( -- não se ofenda, senão não escrevo mais,  beicinhos...---) mineiro-mineiradora de sua parte, apesar do peso de dedicar longas páginas a poetas ligados a eles e  que ainda não estão credenciados, em meu entender, nem digo a herdar, mas a se habilitar na herança do patrimônio de Cabral, tais como Régis, aquele cara do Rio, o filho do João Alexandre e  Nélson Ascher ( este,sim, seria um herdeiro dele, mas herdeiro por representação, no sentido jurídico da expressão, se você tivesse demonstrado que, reelaborado vitalmente, encarnado num jovem de hoje, Cabral falaria com aquele instrumental de "hodiernidade" de expressão usado pelo Ascher; expressão essa que é toda cabralina,  a despeito do hodierno mais perene da linguagem mais universal, embora ideoletal, do poeta pernambucano), aclaradas todas as dúvidas, repito, acrescidas da natural generosidade que você tem  para com os valores emergentes, agora me acode mais uma, em função do artigo de sábado:

                        Você não sente alegria, nem digo o êxtase, de aceitar uma invenção genial, mesmo falaciosa, quando não mentirosa, mas bela, insopitável, como o melro, que era preto, belo, luzidio, entregando-se ao prazer da constatação, ou mesmo da mera assertiva? A unanimidade é sempre burra?! O vago, o impreciso, partidos de um grande poeta, não são dignos de que fechemos os olhos e demos desculpas de que ouvimos mal?...

                        Desculpe-me a petulância de um aparente repto, mas também me intriga essa postura contrária a qualquer tipo de subjetivismo mario-de-andradiano numa pessoa, na intimidade, extremamente sensível e lúdica como você. Ou você estrategicamente adota de público a posição historicista, sincronicista, que quase sempre desautoriza as epifanias de prever o passado, já que o futuro a Deus pertence? Se assim não fosse, caro Ivan,  não teria criticado o critério poundiano  de definição de literatura como novidade que permanece novidade. Nem pespegaria de noção engenhosa a aferição de Pound dos exemplos, não citados no seu texto, dos reais valores literários, embora  a eles --conheço-os bem -- se possam aplicar os signos enxadrísticos de "duvidoso para melhor", ou de  "exclama, podendo ser duvidoso".

                        E é claro que Pound se supunha em "lugar privilegiado de observação e juízo". É óbvio, dentro de um desígnio de"insight" poético como  ao  que se propôs durante a vida toda !

                        Mas isso deve ter agradado ao Hansen, arranhado um pouco o Haroldo, desculpe-me cair em planos aparentemente baixos desses antagonismos, mas se não fosse pela franqueza nada disto teria sentido...

                        Também mais livre de esquemas acadêmicos, talvez pudesse ser evitado o não menos  subjetivo juízo de que um  "hipotético bom gosto perene, infalível e trans-histórico" (grifo a crescentado) tenha embasado os critérios de classificações de Pound, eis que no período imediatamente anterior você admite que houve "implicações idealistas" (grifo mais uma vez acrescentado).

                        E por que falar em "suposta excelência eufônica" (grifo tb. acrescentado) da melopéia, quando a melopéia  "é como se esse som nascesse do ar",  tão simples?!...

                        Acho que, em prol de sua sempre fundamentada justificativa de negações -- quando você pertinentemente as levanta, é claro -- você bem que  poderia dar exemplos nominais e comparativos, quando você diz, ao criticar o genial truismo de que existem artistas inventores, mestres e diluidores (no "etc." de seu texto poderia entrar o Gullar do caldinho pra famintos da panela onde ferveram as vanguardas esquecidas) quando você diz, repito, que a "história tem demonstrado a falácia de tal classificação, transformando em escritores irrelevantes alguns inventores ou mestres de determinado momento". UNS EXEMPLOS, NESSE TRECHO, SERIAM, EM MEU ENTENDER, ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEIS E REFORÇARIAM OS PONTOS ALTOS DE SUA POSIÇÃO.

                        Os dois períodos que abordam o conceito de "paideuma" devem ficar para os esquemas simétricos do pensamento crítico sócio-historicista, "ab initio" hansenianos (em todos os sentidos!...) e que, "pour cause", melecam a simetria,  permita-me o mau gosto do trocadilho conceitual. MAS, POR FAVOR, APAGUE ISTO : É UMA BIRRA ( IRRACIONAL ?!...)  DE MINHA PESSOA.

                        Desculpando-me pela crueza, não posso terminar sem aguardar com ansiedade novos temas polêmicos como tais. E, admitindo, no caso de Pound, e sem qualquer desejo de ferí-lo,  um inimigo estratégico, ou um medo de ser feliz (na Literatura, é claro,  o que também é o caso do Percy, a quem igualmente amo tanto) ;  uma ânsia de questionar existencialmente alguns achados humanitários -- o que não deixa de ser meio triste, permita-me --, ou uma não sei se justificável necessidade de ser arauto de eventuais  desmistificações/demitificações, você está,  de certa forma  e apesar de tudo,  salvando a patria de certo  periódico até então  anódino.

                        VOLTAREI, SE NÃO TIVER VERGONHA DE ENCARÁ-LO DENTRO DAS GARGALHADAS, DOS ALMOÇOS E DOS WHISKIES!

                        A bênção!

                        (Agora quem pede sou eu)

                        FLORIVALDO, 2 DE NOVEMBRO DE 1997.

 

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@ PARA PERCY GARNIER -  em 22-11-84:[ não mandada ]                                               

            [ ESCREVI DE LÁ PRA CÁ MAIS UMAS DUAS OU TRÊS CARTAS AO PERCY, MAIS ESTENDIDAS, MAS NUNCA MANDEI NENHUMA . 3-3-98 ]

@ - PERCY              26-5-98:                    VERSÃO “DEFINITIVA”, ATÉ AGORA AINDA NÃO MANDADA (9-7-98)

                        Percy:

                        Esta carta começa para você mas termina, desde o começo, para mim. E em quase 90% é carregada de um “feel bad facto”. E poderia ter como epígrafe - desculpe a pretensão - :

 

Uma lesma empurra a outra. Ou o andar do mandorová:  um fogo que se carrega, esperando
o  próprio fogo, sem o alívio do passo dado. Ai !, felizes somos nós, os humanos!                      
 (Dramatis personae de Cornélio Pires)                                                                                            
 

 *

                        Até pra me livrar de um provável complexo de culpa ( perdoe-me a impropriedade, a nomenclatura é técnica, especificamente freudiana, esqueci-me de que estou escrevendo a você...), livrar-me de um eventual sentimento de culpa, tentarei justificar alguns possíveis impropérios de ontem quando chegávamos ao  shopping. E torço, preliminarmente, para que tudo seja mesmo  grátis quando suceda no reles do momento, como lindamente disse Guimarães Rosa no “Grande Sertão: Veredas”.

                        Primeiramente, sublinho que tenho pelo velho, querido amigo e companheiro uma verdadeira, sincera estima. Acostumei-me, há mais de quarenta anos ( penso que isto também pesa muito ), a conviver, ora com mais freqüência, às vezes renitentemente de minha parte e por razões neuróticas, com uma das pessoas mais raras que conheci: um grande caráter, uma seriedade quase excessiva, tanto no sentido moral quanto no intelectual, além de afetivo ( embora à la mode ) e, sobretudo, muito, extremamente sincero, corajosamente sincero!

                        Não precisaria dizer que o respeito que tenho pelo que você conhece  jamais poderia  ser arranhado por qualquer brincadeira, mesmo que abusiva de meu temperamento / às vezes comportamento. Mais: você sabe que penso que você sabe muito das coisas do espírito, mormente das artes, além das resultantes de uma grande  experiência da vida.

                        Em suma, você sempre foi para mim uma grande figura humana.

                        Mas, às vezes, até as grandes figuras humanas se desgastam a mercê de pequenas fraquezas, a idade passando, as esperanças se distanciando,  o ego se debatendo por uma tábua de salvação, uma impaciência diante do curso natural mas implacável, cruel, do dia- a-dia etc. etc.

                        Não despreze o fato de que tal análise pode ser ( e acho que, em certa medida, é ) uma projeção de minhas próprias preocupações. Mas penso que vale para você também, os seres numa curva se parecem muito, observe qualquer tipo de corrida.

                        E, se projeção houve, justifica em parte  minha exasperação de ontem, por cujo excesso peço sinceramente desculpas.

                        Dito isso, vamos a como o vejo ultimamente.

                        ( Se a você pouco se lhe der minha visão do amigo, penso que não me ofenderia se soubesse que rasgou a carta neste ponto. )

                        Preocupa-me muito a intolerância cada vez mais acentuada  que vem tomando conta de você, ou talvez uma necessidade de afirmação, que pode, no fundo, confundir-se com intolerância, eis que você, nas coisas mais sérias, não abdicou nunca da humildade...

                        Embora você sempre tenha sido tolerante nas coisas que podem fazer chorar, você quase sempre foi extremamente intolerante nas que fazem rir. Arte é brincadeira, você nunca entendeu isso, permita-me o dogmatismo.

                        No correr da carta,  acho que essa concepção, na aparência gratuita, se explicitará, até por virtude de uma racionalização por presumível fracasso meu, e  que é uma das minhas tábuas de salvação, sei lá...

                        Parece-me óbvio que ninguém é dono de verdade absoluta  alguma em matéria de teoria artística, ou literária. Poderia invocar de novo Guimarães Rosa na entretanto extrema complacência de que “pão ou pães é questão de opiniães” ( op. cit. ).

                         O que diferencia os espíritos criadores ( perdão pelo aristocratismo de considerar a existência de espíritos não criadores )  é a natural, inconsciente e por vezes abusiva coragem de romper com certas estruturas assentes como ortodoxas, ora, você volta e meia se arrostava disso! Fique claro, entretanto, que cada vez questiono menos a unanimidade, mormente se particularizada nos devidos termos, mas isto é assunto “metafísico” e vai um dia incorporar o meu bloco de dogmas mentais, se eu pudesse explicar a natureza do gosto. Mas é algo que venho sentindo e que  não consigo ainda explicar totalmente.

                        Ultimamente ( pensando bem, quase a vida toda, mas agora com dose de raiva), você não admite que ser humano nenhum discorde de suas colocações cada vez mais professorais, diria até arrogantes, quase ( permita-me, pelo amor de Deus, não se ofenda! ) delirantes!

                        Você precisava reparar: ai de quem ousar discordar de um ponto de vista seu, ou de uma assertiva avulsa ! Você, embora sempre de modo polido, quando de chofre não desconsidera, desprezando-as, as razões do interlocutor, tranca-se  num mutismo abrupto, com aparente dose de rancor, encoberto certamente  por auto-avaliações quase vesânicas, de um gozo de sabedoria que paire sobre as águas... Dá essa impressão.  Esse absolutismo faz que os circunstantes quase sempre  se desconfortem, se inibam, percam enfim o prazer da conversa ou fiquem tolhidos por uma obrigacão de reverência que, posta à prova, aí fatalmente provocará ofensas. Cansei de ver isso em rodas de amigos comuns. É  presunção de desinformado pra cá, até de burro pra lá, nos reptos pra demonstração de fontes, ou no categórico  desprezo pela informação do interlocutor, você nunca reparou, mas houve casos de até  explicitações daqueles juízos. Comigo  mesmo  já conteceu.

                        Você fica chato.

                        E você soleniza muito o trivial, Percy.

                        [ Peço-lhe desculpas, mas preciso dizer tudo o que penso, mesmo que esteja redondamente enganado. É necessário para minha saúde mental e -- o que talvez seja mais importante -- para meu conforto espiritual. ]

                        Realmente, fico apreensivo, embora não tenha diretamente nada com isso, [ e permitindo-me uma mesquinharia, uma quase repelente fofoca ] com o futuro de seu relacionamento com o casal Alfredo. Você já lhes ditou até regras para comer...

                        [ A propósito, você se lembra que,  bem recentemente, em sua casa, você, enrubecendo, mas com um sorriso puxado, os dentes com ar de superioridade -- aquela visão, desculpe-me,  me chocou, quase me assustou ! -- chamou-me a atenção, à mesa, porque empurrei com a mão um restinho de doce para a colher?  Eu lhe disse: pô, estamos sozinhos, tarde da noite, não tem ninguém vendo... Você retrucou, sério, não querendo sorrir : é, mas fica desagradável, não é não sei lá -   não sei lá -  não é não sei lá... você se recorda ?]

                        Acho muito triste esse rigor todo. Se você intercalasse um “em minha opinião é assim”, ou um “acho que é por que”, a coisa se desanuviaria e até você se sentiria melhor. Teria melhores condições de ensinar ao próximo aquilo que você domina melhor.

                        Parece-me  que tal intolerância progressiva é um sinal de desânimo, que se alimenta do não querer saber, um certo descaso pelas coisas comuns, que você cada vez mais vem encarando como vulgares.

                        E estou chegando à conclusão [ nós temos que ser sinceros, absolutamente francos, sem desgastes recíprocos, pois senão a amizade ou o convívio ficam ácidos, desagradáveis, isso você e o Zezé no fundo não souberam diagnosticar ] que você sempre foi meio desanimado, e  que se safou do nihilismo   pela eleição de um projeto de ilusões no qual você levava fé, bastante fé, excessiva -- mas justifícada -- fé, de pastor. Mas...certo que teria sido um horror sair pela racionalização de que a Arte é, de fato, uma brincadeira, como tentei fazer a vida toda, e de forma um tanto irracional. Sou meio abaianado, você é germano nato. E, por isso tudo, só teria que dar na impressão de blasé que deu. Você foi ficando cada vez mais chato, perdoi-me a franqueza. Mas ainda assim indispensável. Pelo menos para mim, pois num certo plano você me impede de engolir tudo.

                        E continuando no plano da miudeza, quando não da mesquinharia,  mas é o que estou sentindo, você não deixou de ser um vencedor, em todos os sentidos, principalmente no familiar, o que é sinal de certa superioridade. O que não teria acontecido, para infelicidade de muita gente, se você também admitisse que Arte é brincadeira, como insinuei no parágrafo anterior. Poderia até ter sido trágico, embora mais confortante. É um paradoxo, mas um autêntico “paradoxo de Bertrand Russell”, que no fundo é, no plano da lógica mais absoluta, um “Deus escreve certo por linhas tortas” !

                        Questão de natureza humana, tipo, até de biótipo.

                        Segundo tempo da INTOLERÂNCIA e sua conseqüência natural, o RANCOR : Não tolero não fazer igual ( a Dante, Shakespeare, Joyce, Machado de Assis, Cabral ). [ Se é que você não poderia fazer igual, ou ainda não possa fazer parecido. É preciso uma certa dose de ilusão.Ou uma fortificação daquela fé! ]

                        Mas eles têm os seus erros, por que não haveriam de ter?  Onde é que posso pegá-los, eles são humanos como eu, como é que não posso detetar imperfeições em seres humanos iguais, que só se chamam Dante, Shakespeare, Joyce, Machado, Cabral ?! Aí está o sofrimento, você não deita pra brincar com eles. Você quer destrinchar o fenômeno da inspiração, que pode, tristemente, confundir-se com o da eleição, já que não lhe falta o aparato, o instrumental técnico, ora, eu não analiso tão bem?, não sou capaz de pôr nas devidas gramáticas e semânticas tudo o que eles disseram?!

                        [ Tal análise do fenômeno da inspiração, que o temor emparelha com o  denominado Complexo de Salieri, além de não ser desprezível, é extremamente necessário, sei disso também. Mas aquele entrelaçamento de virtudes veio para eles naturalmente, eles não estavam competindo com ninguém, não sofriam, enfim, por aquela razão de existir, mas se ALEGRAVAM por ser donos daqueles dons. Isso você nota em qualquer obra de arte, até de um Van Gogh, até de um Ensor, até de um Munch, até de um Francis Bacon, o pintor, até de um Augusto dos Anjos, até de uma Suzana Flag, de qualquer autor de “arte feia”, ou “arte triste”, ou “arte degenerada”, como dizia o Nazismo. ]

                        Além de tudo ( e isso você pode ver pela correspondência de alguns desses artistas ) nunca houve rancor pelo que outro fizera, quando muito mágua pelo que deixou de ser feito por cada um. E tal tipo de sentimento, ou de apenas ressentimento, com todas as conseqüências, seria legítimo e normal de nossa parte, da parte de nós dois, caso não estivéssemos  entre os eleitos, vulgarmente chamados inspirados, ou vice-versa..

                        Sabemos  que a vida não é muito bonita para seres invulgares; e essa  sua paixão incessante pela arte, essa exclusividade vital, é uma virtude rara, uma coisa realmente linda, poderia  até ser uma brecha para que você entrasse no mundo do lúdico, embora julgue eu que o fanatismo da dedicação ( que eu também  julgo ter ) no fundo é uma válvula de escape para quem não tem fé naquele sentido mais profundo, religioso, que faz a beatitude dos simples, talvez os verdadeiramente eleitos mesmo. E quando invoco aqui religião não o faço na concepção, certamente infeliz, de que o maior benefício dela  - para mim o único - é disciplinar o medo, eis que para mim o  medo indisciplinado é dos maiores flagelos do espírito.

                        Cada vez mais acredito que você seja mesmo um pessimista “condenado”, que não se cansou de perguntar a mim se eu me considerava um sujeito feliz, lembra-se?  Sempre lhe respondi que sim, embora não pare muito para fazer balanços e tenha roçado medidas extremas que me custaram caro, você sabe do que falo.

                        Acontece que sou vitalmente mais alienado que você, por incrível que pareça. Mas [ veja que não digo “e porisso” ] iludo-me acreditando ser um gênio. Um gênio,  se não fracassado, pelo menos com “un gran avvenire dietro le espale” ( com um grande futuro pelas costas! ) como vi num filme com o Mastroianni, não me lembra qual. E gênio não tem rival, tem iguais, tipos diferentes.

                        Acredito que se você também pusesse isso na cabeça, armasse um arcabouço gigantesco de um grande projeto, uma grande obra, também deixasse de lado as gramáticas ( outro canal de fuga inconsciente...), escrevesse seus poemas ( alguns entre os melhores que li, honestamente ) e/ou ensaios, sem reescrevê-los infinitamente [ cansei de ver ou ouvir terceiras ou quartas versões suas bem inferiores que a primeira, porque você quer pegar erro ou fraqueza em si mesmo, um infrutífero desafio face à insegurança ! ],  não perdesse tempo em não ver que o Modesto Carone é um bom tradutor de Kafka ( porque ele “reescreveu”  Kafka dentro de sua alma de Carone. Algum eventual erro é humano! ),  entendesse que o Marques Rebelo é um cara que escreve daquele jeito porque é o jeito que ele sabe, dentro de seu dígito, seu jeito de falar , que é um grande prosador menor; enfim, afugentasse o ciúme,  a inveja que todos temos de ver uma casa ( mal feita mas completada, habitável, por esforço de um suor natural ), sem indagações, penso que isso tudo iria fazer de você um indivíduo feliz. E a felicidade às vezes faz bem pra encarar a infelicidade.

                        Você, nestas alturas, deve estar julgando-me um idiota, no bom sentido, mas absolutamente isso não me afeta em nada. Você teria até o direito de dizer-me, na cara, que isto é, senão burrice, uma insensatez empolada, pretensiosa, tudo em alto e bom tom, garanto-lhe que iríamos discutir em bom nível, ou pelo menos tolerável,  simplesmente porque não seria gratuito, nasceria de umas colocações, nada teria de competitivo.

                        Acho que a coisa ficou clara.

                        A propósito da clareza, usando uma parábola meio obscura, fui levado a ler Wittgenstein, sempre me intriguei com sua fama, o ressonar de seu simples nome. É, por enquanto para mim, o maior gênio doméstico, o gênio do lar, no sentido grego. Conseguiu chegar, através dos números, i.e., das coisas que “todo mundo entende do que não entende”, à natureza de Deus, sobre quem todo mundo entende do que mais não entende. Dentro das abstrações a que ele conduz, mesmo pra quem não saiba a fundo das Lógicas e da Matemática, sinto-me compensado quando me surpreendo, por raiva ou por medo, esmurrando, insanamente, os objetos da casa: livro-me da tristíssima desolação, sensação de que não existem os seres, parece-me um começo da vida sem mais começos, início da velhice...

                        O “TRATACTUS” me ilumina com uma cegante luz apagada, sensação de que não estamos vivendo, mas simplesmente entrados numa reservada área de  promessa para quem ainda não vive! É tão estranho, uma dádiva do Pensamento Absoluto, algo como o jogo de xadrez, um micro-universo no qual você constroi, você destroi, você reconstroi, está tudo errado, vai dar tudo certo, essas coisas me animam e aterrorizam. Creia.

                        Não estou fazendo  literatura, juro-lhe, e penso que esse temor, ou  vontade!, de cair na loucura é que me deixa mais agressivo. Sofro na intimidade principalmente por tal agressividade, acho que você  sempre se apercebeu. Mas ninguém tem culpa , e isso é outro horror!

                        É que disfarço, tenho muito medo de cair na fossa, já tenho meus tormentos de hipocondria e a consciência de alguns males reais da saúde. Estou começando a ter a triste sensação de bola-sete. Mas não quero jamais contagiar você com tais sentimentos.

                        Por tudo isso, nunca achei grave contrariar o velho amigo em algumas coisas, ser gratuito, dar umas de vida bêbada, passar por superficial, como você sempre me teve até uns quinze anos atrás. Mas não se agaste com esta indelicadeza. Só esteja certo de que, de vida,  sempre fui mestre.

                        Por todas estas razões, acho que poderíamos prosseguir nos papos com a liberdade das negativas, liberdade de contraditar sem ter às vezes que provar. De falar bobagens, de “ofender” e ser “ofendido”. Melhor que dar murros em coisas inanimadas. A  vida é curta ( - A vida foi curta, sempre falava o Zelão ).

                        Espero que você perdoi todo o arrazoado, esse ar de doutrinação e o desabafo.

                        Creia que relutei muito para mandar-lhe esta carta.

 *

                        P.S. : Não se esqueça de ler o prefácio que o próprio Nélson Ascher faz ao seu livro de tradução de vários poetas, alguns realmente magníficos, outros somente traduzidos por seus dele Nélson interesses políticos ou empenho de empertigado sionismo. Mas tem algumas sacadas bem originais, umas coisas bem engenhosas no plano dos gêneros, uma visão muito inteligente de dispersão de autoria, da humildade no relativizar uma provável impossibilidade de tradução perfeita embora correta, mas que acho que é racionalização de impotências episódicas  face a determinados textos. Diante dos quais, para mim, a falta de rapidez e a insistência têm que dar certo, têm que operar o milagre. Não há texto intraduzível. Até o som do sentido pode ser transposto, do sânscrito para o chinês, só uma questão de paciência e fanática dedicação. Você sabe.

                                   Um abraço.

                                   ( FLORIVALDO )

 

**********

 

@ - Carta a Mário Chamie

[ Frequentemene trocávamos farpas por e-mails, velho costume dos tempos de estudantes de direito, verdadeiros desafios verbais, como na seguinte brincadeira abaixo.

Nela encetamos, recentemente, pouco antes de sua morte, uma disputa que visaria uma paródia da célebre “Polêmica Alencar-Nabuco”, sem, é claro, as amarras das teorias magnificamente defendidas por aqueles vultos tão importantes de nossa literatura.

Aqui se reproduz uma pequeníssima parcela dessa extravaganete polêmica, não se podendo estranhar o tratamento que adotávamos pela vida toda, a começar, quando nos víamos em qualquer lugar, pelos gritos de – Canaaalha!!! e  - Que tiiipo! , também compartilhado pelo genialmente tresloucado historiador, exegeta e crítico de arte Fernando Jorge, pioneiro em Aleijadinho, e pelo singularíssimo poeta ( pespegado pela alma de Lautreamont! ) e hoje desembargador aposentado, no Rio, Fernando Whitaker Tavares da Cunha.                   

 

  Ref.: Vários.

De: Florivaldo Menezes <flomen@ig.com.br>
Para: Mário Chamie <mariochamie@uol.com.br>
Data: 26
de Nov de 2009 - 3:34pm

Estava recordando nossa recente polêmica verbal e deparei ( qui t´´´´iiiiiiiiiiiiiiiiipo! CaKaCakaKaCa naáaáaálha!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) com um trecho de maravilhoso, extraordinário, joymelhoroyce toque, nossa!, se não fosse minha megalomania, diria que sou um dos talentos verbais mais estridentes deste nosso universo de unhas e dentes. MAS NÃO QUERO VOLTAR A POLEMIZAR.RECORDE-SE:

Me enrabastes, seu traste

Nesta Polêmica
de Alentar / Trabuco

(Polêmica mui polissêmica)

Mas inda te ponho no bico

da gralha, canááááálha!

Falo isto pra alegrar-te

porque no engenho & arte

de terçar palavras,

vem com muitas larvas lavras

que um só
de meus versos,

por sinal antológico,

um só verso, biológico,

acaba com tua indústria

de fústria canústria e bústria.



Notas
de esclarecimentos pra ignato que perde o tato:

1 - Alentar / Trabuco = "Polêmica Alencar / Nabuco", nunca ouviste falar?!

2 - E para tua ciência: o verso meu que te pode ser servido, é um monumento lógico e maior verso biológico
de qualquer língua: ( está no meu Site, gav. Avulsos, Frases) :

"A coceira é uma dor sorrindo."

Mas hoje, 26-11-09, a esquecida dupla sertaneja , Respício e Ebenésio, mandaram-me -me Isto, canááááálha tipoquetipo, é simplesmente magistral!!! E também acabei
de ganhar um concurso em Portugal de rimas ricas em propaganda, aufere tu, que foste Plublius Citárius ( i.é., de cítaras públicas... ):



De todas as facetas

as melhores são as sandálias

                                   ELE, MÁRIO,  PARTIRA PRO ATAQUE:

Do pé das flores ao talo

das flores no valo,

que o amigo florivaldo

não seja asno, nem vago,

nem seja baldo

mas vasto!

 

Sem flores murchas, se assim fores, então desembucha e escuta

ou

L’ouça seu fio de uma água e pulquérrima cavalgapura:

- Virgilius, máior poeta amicus meus, a me dixit in illo tempore nas minhas têmporas,

apud e aos pés da letra de lavra lavra, magna opera poética grávida mea:

 

-  Marius, vejo na lavra lavra tua, prima inter pares, versus  inversus que ego, Virgilius, verto per gloria lídima de nostra latina língua plena. Quindi la versione fecit cosi in se ou em si:

Pater ipse colendi (entende?) /

haud facilem esse viam voluit primusque (busque)/

                   chamusque per artem (pois ardem)/

                movit agros in libera carmina terraquae (na fé),/

            curis acuens mortalia corda(que acorda a horda)/

                                        nec torpere gravi passus (para o passo)

sua regna ueterno (no eterno inferno).

 

Pois, se Virgilius, quod virgilius est, in potestate sua pôde nominare a me genius, por quais cujus (quá, quá, quá, quá!!!), não podeis vós (cui, cué, quod, pequeno pote ou bode na eterna moratória da sub-letra do eterno calote, em seu protesto sem câmbio da letra que fode quando pode, e, mesmo quando não pode, fode)?!

Sonolentus flatus vocis, sai dessa floresvento!

Tome tento para o alento, a céu aberto, e lacre esperto o aposento da preguiça que sempre enguiça a mente e o mento de quem perde, à beça, o tempo e o tento com a conversa de ler ao léu, sob a fumaça de véus e a negaça de um falso zeus.

Não se avexe nem se feche. Leia logo paulicéia dilacerada que é o lógos da palavra dada, pois, mais que dada, é a paulada na paidéia da palavra alada.

 

Não demores muito

na fuga

do teu ler ao léu,

para não ficares

léu-léu da cuca!

 

Queridíssimo e fraterno canalha amigo, sái-te de si e vái-te para o seu site sim,

com os proclamas nos para-lamas (sem receios, recessos nem retrocessos) de sua pré- obra em progresso, dizendo na teia e tramas de seu texto em chamas:

 

Por caminhos e estradas,

sem recuos nem paradas,

vou ler já

paulicéia dilacerada,

obra prima e obra magna.

 

Que tiiiiiiipo!

O carinho e o abraço califal de

Máior Hacime

(Ubi Maior, minus cesat!)

 

----- Original Message -----

From: Florivaldo Menezes

To: Mário Chamie

Sent: Monday, October 12, 2009 4:22 AM

Subject: Re: Paulicéia Dilacerada

 

    - 1- "Canaaaaaaalha, verba vobis de lépidas letras superavit census expectat, ora pois, amicus sum ubi carmina sunt!"  

    Dixit Marius, non ubi carmina sunt, sancti provecta amicus urbi carmina carentis de omnia latinus latitude consuetudine! Et in verbis, pro rata mea partis dejecta est, preste atenção seu fio duma égua:

Qui quae quod / cuius cui / quem quae quod / quo/ qua / quo //

qui / quae/ quae/ quorum quarum quorum quibus/ quos/  qua/ quae / quibus.

Qui quae quod /Quem tem barba tem bigote / Quem tem pica também fode / Fode cabra / fode bode / Só não fode quem não pode / Qui quae quod.

- 2 - E veja : " Com graverberada cardialidade e modus in rebus".

Não! Protesto em nome do nabus in rabus !!! Nabus in rabus!!!

- 3 - Meu caro, estou lendo seu interessante "Paulicéia Dilacerada".  Tem idéias boas e um português escorreito. Talvez o escritor Moacyr Scliar venha a ter razão sobre o juizo expendido ( de um respeitável colega de profissão!), que você me revelou no agradável encontro do café do Cyrio Libanez, lembra-se?, ao lado do desavisado de nós, Arnaldo Jabor. 

Ah ah.

Ficou apoplético?! é brincadeirinha, mas aqui de modus in rebus et cum grano salis...

- 3 - Quanto à nossa estimadíssima Lina, faço questão de abrir um parêntese para dizer que minha avocação a ela, naquela passagem que lhe indiquei, e que você considera uma minguada linha..., é uma mera chamada à colação, no sentido jurídico da expressão ( e não "objetiva", também no sentido hermenêutico) , ou seja, uma simples ilustração de um fato, a ela ligado, com pinceladas biográficas dessa grande figura que é a Lina Chamie!

 

- 4 - E olhe, eólíca figura típica do quitiiipo :    

- Ainda bem que estamos a "falar línguas",[ no sentido bíblico ] -  1 Co 14 : 2 e    , ( v. tb. em Romanos....... - Línguas incognoscíveis...

( v. progr. Renascer, 29-8-02, o pastor português carismático e engraçado. (Ligar para 3277-9009, saber-lhe o nome Mário! ) : O Mio, o casaa blume meriste nausetraves - oblis o dendes...odes odendes, samikaka laverus oldis verrra melius lavenrus... aquist, aquist, aquist turros plosplosplos ahrre,sio!!! DÊ OS MEUS, OLVIRÁ!!! ( Falei com raiva - deveria falar orando, para que o Espírito Santo transportasse minha súplica aos “homi” da secretaria da Fazenda, Mário, para me pagarem o que é devido, em função de ação que ganhei, por unanimidade, na 6ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado de S. Paulo, desde junho de 2002!...Falei linguas com sentido destrutivo, v. se dá pra perceber, querendo que tudo vá “p´los ares”, como se diz no Chiado (Lisboa), depois das quatro da matina, nos destrios da borracheira...) (RRISO TTRISTE RRISO RRISO)>>>>>>>      É uma Glossolalia? >>>>>>MISTIFÓRIO? UMA ALGARAVIA? SILABÁRIO ALEATÓRIO, UMA MIXÓRDIA, OU UMA COISA DIRIGIDA PELO ESPÍRITO SANTO? Responda-me, Mário!!! 

                                                           (Isto estava dirigido a você há muitos anos,  mas...perdido nos escaninhos e ex-caminhos de meus trêfegos e trôpegos desvios de paragens pelos torresminhos e cervegeladas das esquinas botequinais... ( arg!... linguagem de bruta anel no dedo!!!, que o Joyce usava, pra combinar com suas gravatas igualmente kitsches!!!...)

                                - 5 - ( digo bem baixinho: se seu livro todo ( QUE, POR MÉTODO PESSOAL,  ESTOU LENDO AO LÉU, PARA DEPOIS SEGUIR SUA ORDEM!))  tiver a qualidade dos capítulos de pp. 54 ss., e 153 ss., não terei dúvida de espalhar, em meu Site, que você é um gênio mesmo !!! Sempre comentei isto para o Nilton de Castro et al., confirmado pelas circunstâncias, místicas e míticas, de você ter solapado desgraças de Vida para alcançar a graça da Arte, desculpe-me o lugar-comum...)

 

Blumenbosque Menezes,   o Anarcotrêfego.

Blumenbosque ( = Florivaldo )   : Uma versão : FLOR = BLUMEN, juntada a uma tradução : WALD = BOSQUE. Então...Florwald. Presto assim uma homenagem a uma grande, enorme, maravilhosa e, malheureusement, já saudosa pessoa, que foi Jacó Leiner, e que assim me chamava...)

&

Anarcotrêfego:    ( De: tráfego de anarquismo afobado.)
 

NOTA DE FALECIMENTO: Em 8 de agosto de 2011, mandei a Claudinho Giordano, o carinhoso amigo, bibliófilo-brasilianista renomado e portentoso tradutor direto do clássico catalão medieval “Tirant lo Blanc", e do “Livro das Bestas”, a seguinte resposta a um comentário sobre o acontecimento:

“Querido amigo Cláudio Giordano. Infelizmente o Mário se foi.

Duas semanas antes ele ligou-me por volta das 2 da tarde e, após um papo meio tremido, mas com grande altivez, ele me confessou que estava com câncer no pulmão e sob tratamento de químio.

Pediu-me reservas, excetuado o Ivan (Teixeira) que ele apreciava muito. Falo isso porque agora todo mundo veio a saber sobre a doença...

Eu tinha um laço forte com o Chamie, segui sem pausa, quase como xifópagos, suas tragédias familiares, que você deve saber, todas das décadas de cinquenta, sessenta, e por aí afora, mais seus infortúnios de ser, já na vida de casado, criminosamente espoliado por um estelionatário, ficando sem a própria casa ( uma verdadeira mansão aqui pros meus lados (rua Colibri, ou Pintassilgo, não me lembra mais ) e usurpado de seu cargo de publicitário Chefe, da Pirelli.

Para se sustentar, teve de voltar a trabalhar, dando aulas picadas em educandários, escolas de propaganda, bicos em programas de rádio etc. etc. Estes fizeram muito sucesso ( não me ocorre se até na televisão, mas quase certo que sim), face à capacidade quase inacreditável que ele tinha de glosar, imediatamente, sem tomar fôlego, sobre qualquer assunto que lhe era jogado na hora, um fenômeno ( Não sei se você sabe que ele ganhou um concurso internacional de oratória, algo muito afim com essa proeza de improvisação!)

Enfim, fibra como a dele raramente conheci.

Mandou a filha Lina, a quem dei algumas orientações sobre Música, quando adolescente, à Julliard School, Nova York, de onde voltou longos anos depois ( totalmente sustentada lá com o sacrifício do pai ), uma excelente clarinetista clássica, mas hoje voltada para o Cinema ( Cineasta Lina Chamie ), com obras louvadas em Canes e consagradas pela Crítica ( pelo menos uma, não estou me lembrando agora do título, estou aproveitando a emoção para discorrer como me vêm as coisas na lembrança... )

Claudinho, tenho um mundo de particularidades para contar sobre o Mário, a elegância ( apesar dele ser bravo, meio agressivo mas só quando atacado ) elegância, repito, com que não confundiu nossa "secular" amizade com a publicação em 1972 de meu livro sem título, de faca na capa, pelas edições Invenção, dos poetas do concretismo. Mário também esteve com eles, ou eles estiveram com ele, nas paginas e fases iniciais da página Invenção do jornal Correio Paulistano. Depois houve uma ruptura violenta entre a turma, muito unida, com o grande poeta que foi ( é! ) Mário Chamie.

Ele está reconhecido no Mundo todo, antologias, gravações, livros e livros de teoria literária, amizades com gente célebre, Ungaretti, Murilo Mendes, João Cabral, Antonio Candido et al. Pena ( ou talvez não?!...) que ele resolvesse chumbar para todas as direções.

############### Bem, suas últimas palavras comigo, naquele dia, foi para dizer-me que haveria logo, dentro de uns dez dias, um exemplar do Neonarrativas esperando-me em sua casa. Não conheço a obra ainda. E ALERTOU-ME QUE ALGUNS CHUMBOS TROCADOS ENTRE NÓS DOIS ERAM NA ZOMBARIA, DESAFIO, EGO CONTRA EGO, e sob o tratamento que tínhamos de : - Que tiiiipo!    - Que canaaaaalha! , quando nos avistávamos, mesmo em meio a muita gente, desde os tempos da Faculdade ( S. Francisco ) eu, ele, o Fernando Jorge, o Fernando Whitaker Tavares da Cunha.

 

Com misto de tristeza, vibração pelo ludismo, interesse na gratuidade, relembro outubro de 2009, uma polêmica gozativa, parodística, parafrásica também, após um encontro fortuito na Frei Caneca. Tomamos um lanchinho no Sírio Libanês, em frente. Não nos víamos há uns dois anos, quando esteve em casa, levando-me vários volumes de sua lavra...).

 

A ORDEM CRONOLÓGICA ESTÁ INVERTIDA NA TROCA DE MENSAGENS.

 

 

Agralavra

 

 

Enfim,

levastes o ferro

de minha indústria

e comestes o capim

de minha pura

agra lavra culta.

 

Por isso, caro floripa,

dir-te-ei, agora,

para alegrar-te,

por ora,

com meu engenho e arte:

 

- ao curto vôo

do teu verso zôo-

lógico,

concedo o justo

e merecido pódio,

sem mais baixar a ripa

na tua nobre ou baixa

crista.

 

CANAAAALHA:

SÓ O ALTO NÍVEL

FAZ O GÊNIO

IMBAATÍVEL.

 

 

 

 

Me enrabastes, seu traste

Nesta Polêmica de Alentar / Trabuco

(Polêmica mui polissêmica)

Mas inda te ponho no bico

da gralha, canááááálha!

Falo isto pra alegrar-te

porque no engenho & arte

de terçar palavras,

vem com muitas larvas lavras

que um só de meus versos,

por sinal antológico,

um só verso, biológico,

acaba com tua indústria

de fústria canústria e bústria.

 

Notas de esclarecimentos pra ignato que perde o tato:

1 – Alentar / Trabuco = “Polêmica Alencar / Nabuco”, nunca ouviste falar?!

2 – E para tua ciência: o verso meu que te pode ser servido, é um monumento lógico e maior verso biológico de qualquer língua: ( está no meu Site, gav. Avulsos, Frases) : 

A coceira é uma dor sorrindo

 

Isto, canááááálha tipoquetipo, é simplesmente magistral!!! E também acabei de ganhar um concurso em Portugal de rimas ricas em propaganda, aufere tu, que foste Plublius Citárius ( i.é., de cítaras públicas... ):

 

De todas as facetas

as melhores são as sandálias

 

 

Meu caro Florivaldo,

 

Pensei que o longo e-mail que você me mandou (em 12/10/09), com divertida macarronada latinória, merecesse outra divertida resposta.

Inocentemente, tomei por mote o seu ler ao léu e sapequei também o meu latinório,

na suposição de que estávamos no plano lúdico do bom humor e da boa camaradagem.

Mas, a sua seca resposta (“Pô, Marius...”) que li, há uns quarenta minutos atrás, me pareceu um pouco “ressentida” e tomada de repentina (e “agressiva”?) seriosidade. Tomara esteja eu totalmente enganado. De qualquer modo, como me considero seu velho e leal amigo, eu li os seus versos com fair-play , a ponto de, espontaneamente, num bate-pronto, tomar esses seus versos, também por mote, para, sob o manto neutro da paródia, retrucá-los um a um. E eu o fiz  -  se me permite  - com a minha relativa habilidade em lidar com palavras.

Veja que eu usei a expressão “manto neutro”. É isso mesmo: o poema (se assim posso chamá-lo) que escrevi num jato é, antes de tudo, um discurso neutro, sem intenções pessoais de ferir ou magoar ninguém, muito menos você. Só que, às vezes, egos são equos e ecos cegos...

Por que, então, essas primícias, preambularmente, preliminares e prévias?

Pelo seguinte: só enviarei a você a minha resposta (em forma de poema válido em si) ao seu “Pô, Marius...”, se você me permitir e me autorizar a remessa. Isto pelo fato de eu não saber se você terá a mesma bonomia descontraída com que me diverti lendo seus versos.

Veja o quanto prezo a sua amizade, e entenda o meu cuidado em não querer causar-lhe, involuntàriamente, algum suscetível ou desconfortável incômodo.

Que tipo!

O abraço fraterno do

Mário

 

( TAMBÉM NUM JATO!)

E de repente te arrependes nos repentes,

cabra da peste indecente?!

arreglas, quebrando regras

das (ih! mortais!) refregas??!!

O ludus não está de luto, não, amigão!

Como gosto de um refrão!!!

E tu também gostas, não?

[ Agora, abrindo chave, que também fecha os entraves, na seriedade do prosear daquele genio-cartorial poema do Drummond, “Um boi vê os homens”, selo, de todo e imenso coração, o grande carinho, imemorial carinho, que sempre tive por você, Mario!

Poxa, realmente você me comoveu com o inesperado “Veja o quanto prezo a sua amizade, e entenda o meu cuidado em não querer causar-lhe, involuntàriamente, algum suscetível ou desconfortável incômodo.

Que tipo!” (grifos acrescentados)

Pô, grande MÁRIO, tenho convicção de que você tem, e sempre teve, a absoluta certeza de que nada nos abalaria, discrepâncias estéticas de filiações em Escolas ou pseudo-Escolas, malentendidos fatuais nos cursos de necessidades familiares, nada, nada, nunca mudou meu, nosso, modo de proceder. E de ver, um ao outro. MUITO MENOS UMA ESPADA (CHIM!, ESPIRREI) NUMA PORFIA DE COMPETIÇÕES! Nesta perfídia de mede-ações! que canááálha, que tiiiiiiiiiiiipo!!

Pra escapar da repetição do vulgar lugar, avoco, egoisticamente, a prerrogativa de ser dos poucos, raríssimos seres que sabem de seu valor pessoal como ser humano sofrido, mas que sempre virou, quando preciso, qualquer  mesa !

Se houvessse , ou tivera tido, algo daquela natureza, você sabe: nos recolheríamos, civilizadamente, no afastamento e silêncio...

         Mas estávamos num divertido e talentosíssimo ] fechei a chave, pra voltarmos no brinco-a-braço ( traduzo pro canaaaalha: bric- a -b rac( que tiiipo!) terçando armas d´ilhas do troca de ilhas mais infames (este agora é tanto infame...), onde vale tudo. Valetudinário, Mário Mário.

Você sabe que sou genial e repito: sempre fui filho-gêmeo de Joyce, ( quiiii tiiiiiipo!, canaaaaalha!) mas agora, preste atenção em algumas correçõezinhas semanticamente mas ajustadas:

Pô, Marius:

Por mares nunca Dantes navegados,

sem mares mas com sacadas

de um apartamento, ao léu,

não fiques tonto, em dúvida cruel:

és um joycinho do Padre João Manoel:

Abandona as sacras tias

que te mimaram e mais tiaram

turibulinando os – sei-os! – teus insensos

e bebe humildemente meu talento

(e cáli-ce  sem mais alento ou tormento!)

que num canto te acalanto

sem nenhum canto, espanto ou esperanto!

(Burocraticamente: sempre às ordens.)

Você percebeu as sacristias, tiaras, turíbulos, in-sensos, em minhas palavras-valize ? Insencível ! Analgebeto! VENHA COM TUDO, PONHA ATÉ A MÃE NO MEIO! Canááááááálha!

 

 

Do pé das flores ao talo

das flores no valo,

que o amigo florivaldo

não seja asno, nem vago,

nem seja baldo

mas vasto!

 

Sem flores murchas, se assim fores, então desembucha e escuta

ou

L’ouça seu fio de uma água e pulquérrima cavalgapura:

- Virgilius, máior poeta amicus meus, a me dixit in illo tempore nas minhas têmporas,

apud e aos pés da letra de lavra lavra, magna opera poética grávida mea:

 

-  Marius, vejo na lavra lavra tua, prima inter pares, versus  inversus que ego, Virgilius, verto per gloria lídima de nostra latina língua plena. Quindi la versione fecit cosi in se ou em si:

Pater ipse colendi (entende?) /

haud facilem esse viam voluit primusque (busque)/

                   chamusque per artem (pois ardem)/

                movit agros in libera carmina terraquae (na fé),/

1            curis acuens mortalia corda(que acorda a horda)/

                                        nec torpere gravi passus (para o passo)

sua regna ueterno (no eterno inferno).

 

Pois, se Virgilius, quod virgilius est, in potestate sua pôde nominare a me genius, por quais cujus (quá, quá, quá, quá!!!), não podeis vós (cui, cué, quod, pequeno pote ou bode na eterna moratória da sub-letra do eterno calote, em seu protesto sem câmbio da letra que fode quando pode, e, mesmo quando não pode, fode)?!

Sonolentus flatus vocis, sai dessa floresvento!

Tome tento para o alento, a céu aberto, e lacre esperto o aposento da preguiça que sempre enguiça a mente e o mento de quem perde, à beça, o tempo e o tento com a conversa de ler ao léu, sob a fumaça de véus e a negaça de um falso zeus.

Não se avexe nem se feche. Leia logo paulicéia dilacerada que é o lógos da palavra dada, pois, mais que dada, é a paulada na paidéia da palavra alada.

 

Não demores muito

na fuga

do teu ler ao léu,

para não ficares

léu-léu da cuca!

 

Queridíssimo e fraterno canalha amigo, sái-te de si e vái-te para o seu site sim,

com os proclamas nos para-lamas (sem receios, recessos nem retrocessos) de sua pré- obra em progresso, dizendo na teia e tramas de seu texto em chamas:

 

Por caminhos e estradas,

sem recuos nem paradas,

vou ler já

paulicéia dilacerada,

obra prima e obra magna.

 

Que tiiiiiiipo!

O carinho e o abraço califal de

Máior Hacime

(Ubi Maior, minus cesat!)

 

 

 

Querido Florivago Menosvezes,

 

Canalha briluz das trevas, recebestas ou não o geniártico dos meus polos inscritos no meu superpimpa paulicéia dilacerada?

Para vós, enviesado típico tipo, vos enviei a minha per omnia opera prima, sem o retrós de quaisquer viéses de vias ou veios, nos céleres pés de sedex dez.

Recebestas ou não, minha doce e galártida cavalgapura?

Canaaaaaaalha, verba vobis de lépidas letras superavit census expectat, ora pois, amicus sum ubi carmina sunt!

Com graverberada cardialidade e modus in rebus

acima de todas as coisas,

Máior Hacime assina

Mário Chamie

 

PS- Em outra mensagem, minha caríssima e querida criatura Floresnovalo, sempre brilhativo, comentarei a sua minguada linha sobre a portentosa Lina, a cinehasta pública da reinvenção do nosso cinema.

De novo, com o carinho e o abraço fraterno do

Mário

 

FLORIDO FLORIVALDO

AMIGO

TOMARA NÃO TOMEIS

(SENSU STRICTU)

AO PÉ DA LETRA

(NEM DO OUVIDO)

O GENIAL POEMA

ABAIXO SUBSCRITO!

COMO SÁBIO ENTENDIDO,

SABEIS QUE É FICTO

TODO TEXTO FICTÍCIO!

 

QUE TIIIIPO

INTERINO

E FEEERINO,

ESSE TIIIIPO

FESCEENINO!

 

*************************************************************

 

 

 

                                                      MODUS IN REBUS

NABOS IN RABUS

 

Por seres sonso,

sem talento nem esperanto,

perdestes o tônus e o ânimo.

Por isso, sub-joycinho de subúrbio

e sub-ruas,

                                                          te auto-incensas

aos peidinhos e às firulas

- ao ponto e ao pranto -

com a homilia

não só de tuas tias,

(e tantas outras quizilhas)

mas também com a serventia

de tua anta-

lógica família?

 

Acaso, no meio pusestes

as tias por teres sido,

quem sabe, incensado

com a baba ou as pétalas

dos cuni-mimos-linguae delas

que, bulinárias, te lamberam e te tiaram

as tiaras

de tuas nádegas quérulas?

 

Assim, por fás ou por néfas,

já que de Dantes

pouco entendes,

pusestes de repente

na flatulência

rançosa

dos teus versinhos

sem força

e de tua sub-prosa

sem pólvora,

o azedume e a inveja

que faz das lesmas

dos teus poemas

(puerís tetéias)

o sacro bestunto

eunuco

de tuas bobas e pândegas

 panacéias?

 

 

Haja pois a razão benfazeja

para que, aqui, recebas

da rua padre joão manoel

o não-da-dúvida e a certeza

deste recado cruel.

Tome nota

com alento e sem tormento:

- daqui direta e grande

( pro teu flâmulo gluteanus)

vai a minha flechaglande

do meu portentoso gênio,

já que perdestes

o tento e o tônus

do teu anêmico animus.

 

Nada há por beber no teu talento

que é flatus vocis ao vento.

O que há

é isto de sobejo:

 - sorvas e bebas

   humildemente

as asas, a hélice e a ave

(virumque cano)

do meu canto,

e com espanto

 silente e sonso

sorvas

                                                     o  cáli-ce do teu insenso

                                                               e cale-se

                                                    no teu tolo silêncio tonto.

 

 

 

CANAAAALHA,

BAAANDIDO,

CALUNIAAADOR

PROOLIIÍIIFERO

 

EU CHAMIE, CHAMIE,

Mas ele não respondi.

Não estou lá, nem ali,

Mas paro por aqui.

Quo Vadis

Canalha

Covarde?!

 

 

( TAMBÉM NUM JATO!)

E de repente te arrependes nos repentes,

cabra da peste indecente?!

arreglas, quebrando regras

das (ih! mortais!) refregas??!!

O ludus não está de luto, não, amigão!

Como gosto de um refrão!!!

E tu também gostas, não?

[ Agora, abrindo chave, que também fecha os entraves, na seriedade do prosear daquele genio-cartorial poema do Drummond, “Um boi vê os homens”, selo, de todo e imenso coração, o grande carinho, imemorial carinho, que sempre tive por você, Mario!

Poxa, realmente você me comoveu com o inesperado “Veja o quanto prezo a sua amizade, e entenda o meu cuidado em não querer causar-lhe, involuntàriamente, algum suscetível ou desconfortável incômodo.

Que tipo!” (grifos acrescentados)

Pô, grande MÁRIO, tenho convicção de que você tem, e sempre teve, a absoluta certeza de que nada nos abalaria, discrepâncias estéticas de filiações em Escolas ou pseudo-Escolas, malentendidos fatuais nos cursos de necessidades familiares, nada, nada, nunca mudou meu, nosso, modo de proceder. E de ver, um ao outro. MUITO MENOS UMA ESPADA (CHIM!, ESPIRREI) NUMA PORFIA DE COMPETIÇÕES! Nesta perfídia de mede-ações! que canááálha, que tiiiiiiiiiiiipo!!

Pra escapar da repetição do vulgar lugar, avoco, egoisticamente, a prerrogativa de ser dos poucos, raríssimos seres que sabem de seu valor pessoal como ser humano sofrido, mas que sempre virou, quando preciso, qualquer  mesa !

Se houvessse , ou tivera tido, algo daquela natureza, você sabe: nos recolheríamos, civilizadamente, no afastamento e silêncio...

         Mas estávamos num divertido e talentosíssimo ] fechei a chave, pra voltarmos no brinco-a-braço ( traduzo pro canaaaalha: bric- a -brac( que tiiipo!) terçando armas d´ilhas do troca de ilhas mais infames (este agora é tanto infame...), onde vale tudo. Valetudinário, Mário Mário. (já tomei três whiskyzinhos, mas com três pedras de gelinhos...)

Você sabe que sou genial e repito: sempre fui filho-gêmeo de Joyce, ( quiiii tiiiiiipo!, canaaaaalha!) mas agora, preste atenção em algumas correçõezinhas semanticamente mais ajustadas:

Pô, Marius:

Por mares nunca Dantes navegados,

sem mares mas com sacadas

de um apartamento, ao léu,

não fiques tonto, em dúvida cruel:

és um joycinho do Padre João Manoel:

Abandona as sacras tias

que te mimaram e mais tiaram

turibulinando os – sei-os! – teus insensos

e bebe humildemente meu talento

(e cáli-ce  sem mais alento ou tormento!)

que num canto te acalanto

sem nenhum canto, espanto ou esperanto!

(Burocraticamente: sempre às ordens.)

Você percebeu as sacristias, tiaras, turíbulos, in-sensos, em minhas palavras-valize ? In-sem- cível ! Analgebeto! VENHA COM TUDO, PONHA ATÉ A MÃE NO MEIO! Canááááááálha!

----- Original Message -----

From: Mário Chamie

To: Florivaldo Menezes

Sent: Friday, October 16, 2009 8:22 PM

Subject: ReRe: Paulicéia Dilacerada/ Resp. FM em 16-10-09, 13h54.

 

Meu caro Florivaldo,

 

Pensei que o longo e-mail que você me mandou (em 12/10/09), com divertida macarronada latinória, merecesse outra divertida resposta.

Inocentemente, tomei por mote o seu ler ao léu e sapequei também o meu latinório,

na suposição de que estávamos no plano lúdico do bom humor e da boa camaradagem.

Mas, a sua seca resposta (“Pô, Marius...”) que li, há uns quarenta minutos atrás, me pareceu um pouco “ressentida” e tomada de repentina (e “agressiva”?) seriosidade. Tomara esteja eu totalmente enganado. De qualquer modo, como me considero seu velho e leal amigo, eu li os seus versos com fair-play , a ponto de, espontaneamente, num bate-pronto, tomar esses seus versos, também por mote, para, sob o manto neutro da paródia, retrucá-los um a um. E eu o fiz  -  se me permite  - com a minha relativa habilidade em lidar com palavras.

Veja que eu usei a expressão “manto neutro”. É isso mesmo: o poema (se assim posso chamá-lo) que escrevi num jato é, antes de tudo, um discurso neutro, sem intenções pessoais de ferir ou magoar ninguém, muito menos você. Só que, às vezes, egos são equos e ecos cegos...

Por que, então, essas primícias, preambularmente, preliminares e prévias?

Pelo seguinte: só enviarei a você a minha resposta (em forma de poema válido em si) ao seu “Pô, Marius...”, se você me permitir e me autorizar a remessa. Isto pelo fato de eu não saber se você terá a mesma bonomia descontraída com que me diverti lendo seus versos.

Veja o quanto prezo a sua amizade, e entenda o meu cuidado em não querer causar-lhe, involuntàriamente, algum suscetível ou desconfortável incômodo.

Que tipo!

O abraço fraterno do

Mário

 

 

----- Original Message -----

From: Florivaldo Menezes

To: Mário Chamie

Sent: Friday, October 16, 2009 1:56 PM

Subject: Re: Paulicéia Dilacerada/ Resp. FM em 16-10-09, 13h54.

 

Pô, Marius:

Por mares nunca Dantes navegados,

sem mares mas com sacadas

de um apartamento ao léu,

não fiques tonto, em dúvida cruel:

é um joycinho do Padre João Manoel:

Abandona as sacras tias

que te mimaram e mais tiaram

turibulinando os – sei-os! – teus insensos

e bebe humildemente meu talento

(e cáli-ce  sem mais alento ou tormento!)

que num canto te acalanto

sem nenhum canto, espanto ou esperanto!

(Burocraticamente: sempre às ordens.)

 

Errata, valendo com lembrata:

és um joycinho do Padre João Manoel:

em lugar de

é um joycinho do Padre João Manoel:

Canáááááááálha! ( do assaltimbanco, burla a ti, cá - ná - li- ááá, cá - ná - li - á)

 

 

 

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 @ PARA LUCIANA REDE (Veja "Duas borgeanas", in CONTOS e/ou ENSAIOS) 



 
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@ Para Raduan Nassar ( bilhete ), 05-8-2002. 

Raduan:

                        ... não que seu passado não negue, mas, escrevendo isto, Raduan sentirá aquilo. Referia-me ao arrazoado 7 do relato O VENTRE SECO, que me revelou um agente da nova ordem – está lá, junto com o final do arrazoado 7! – e logo pensei: será um de meus happy fews, do intróito das Memórias Póstumas de Brás Cubas, para entendimento de meu poema , e um surto de megalomania me fez julgar – “você merece, Raduan.

                        É o que eu tinha escrito na dedicatória de uma cópia daquilo, que só não lhe deixei à porta, sábado, porque me esquecera do nome da rua e do número de sua casa.

                        Mas vai lá outra cópia daquilo, um poema não muito antigo, com uma ou outra palavra em grifo 7, coisa acrescentada agora. Meu Heavenly Creatures. Fará parte de meu livro, “Impropriedade Privada”, in progress ( estou ficando, mesmo – mais – megalomaníaco). O livro é uma mexida em toda minha vida, coisa feita, coisa desfeita, anseios, frustrações, mas tento fazer drammatis personae de todo mundo que conheci, com quem me relacionei, até de meus fantasmas. Pode não passar dos célebres casos de autobiografia de cara sem biografia...

                                                                                                 ***

                     Gostaria também que você lesse o que escrevi sobre a Academia Brasileira de Letras, a pedido do Fernando Jorge, que o publicou em seu livro “Academia do Fardão e da Confusão”, 1999. Acho meu texto sinfônico. Veja lá – não é das passagens mais importantes... – que pintei o Paulo Coelho como sucessor de Jorge Amado. E o foi, porque a intersecção da Zélai Gatai foi um retrato afetuoso colado num álbum de famíla.

                        Abraço do

                                                   (FLORIVALDO)  VERSÃO DESPREZADA.
 

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 @ Para Raduan Nassar.

                         Raduan:

                               O poema estava morto desde que nasceu, lá no fundo de um arquivo de meu livro em tropeço, “Impropriedade Privada”. Pra ser honesto acho que só tenho impropriedades na porra da vida: toda uma existência voltada pra uma idéia fixa, uma só idéia fixa...que pode nos matar...e descobrir que Arte é uma brincadeira! Mas de onde vem Beethoven, que significa um Dostoiévsky? E uma vida calma deslumbrante na arte milagrosa de um Machado, dentro de sua prosa aqueles versículos perpétuos se enrolando e desenrolando, a mim  me terrifica, pois tudo já foi visto e você vê aquelas coisinhas como se ele catasse com a mãozinha assim de um lado e pusesse de outro, nada mais... e você aprende a viver a cada palavra! Enfrentar isso dá muita infelicidade, apenas menor que o diabólico prazer!

                        O poema não tem sintaxe, e assim as coisas não concordam, tampouco discordam entre si; resolvi achar que era nominalista, tecnicamente falando, na função da Filosofia pura.

                        Mas acho que foi um desespero, confesso a você, somente a você, Raduan, que tem uma arte muito especial, de grandes abstrações, abstrações de quem não leva fé em nada, brinca com as relações, e com as relações, e com as relações, e com as relações humanas. Nomes, nomes de pessoas, pessoas só com nomes, sem eventos, pessoas que existem de fato pelo Brasil afora – d. Olívia Cavalcanti / Evelyn Critchard me avaliza a existência real da maioria – pessoas estas que podem de repente se ver unidas numa folha de papel que diz ter um poema... não são verdadeiramente criaturas celestiais, mas com o garbo estrangeiro de “Heavenly Creatures” ?!

                        Jamais eu soltaria essa peça,  a não ser na emaranhada diluição do livro, mas eis que, relendo após tanto tempo seu O VENTRE SECO,  reeditado na edição dos Oitenta Anos de Folha de S. Paulo, me deparei com aquele arrazoado n. 7 , que me animou a mostrar o poema a você, pois aquela ordem citada por você só existe no céu. Gostaria que você tb. lesse meu depoimento sobre a Academia Brasileira de Letras, pedido pelo Fernando Jorge para seu livro de 1999, “A Academia do Fardão e da Confusão”. Vai por xerox. Veja lá ( não é das passagens mais importantes, mas foi profética, modéstia à parte ) que pintei o Paulo Coelho como sucessor de Jorge Amado. E o foi, porque a intersecção da Zélia Gatai foi um retrato afetuoso colado num álbum de família.

                        Um grande abraço do velho amigo que muitíssimo o admira e mais o estima,       

                                                               ( FLORIVALDO )

 

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@ Para Moacir Amâncio ( bilhete com anexos, a ser entregue hoje, 16-9-02 ):

            Moacir:

            Sempre tive umas coisas para mandar pra você, aliás uma delas  a pedido – “Glenn Gould”, lembra-se, na casa do Orlando e em outros raros mas felizes encontros nossos? – mas sempre fui relutando, relutando, para guardar um ineditismo neurótico para meu próximo livro “Impropriedade Privada”.

            Mas, agora, com o centenário de Drummond ( data exata: fim deste mês de setembro, fim de outubro?, tive preguiça de conferir, aí no jornal  a tecnologia imediata manda vir de cara ), no dia do evento gostaria muito de ver publicado um portrait que fiz dele quando eu tinha 24 anos e que acho – permita-me o cabotinismo, permita-me mesmo!) o melhor Drummond que vi desenhado em toda a vida do poeta, inclusive seus auto-retratos. Acho, realmente, que de tudo que produzi  este é meu verdadeiro opus magnum... ( se é que posso ter dessas coisas).

            Só tem sentido publicá-lo no esquema que lhe estou enviando, sem suprimir aquele rascunho-assinatura do dia em que foi feito, no meu desenho de letra, ou seja sem substituição por carateres de imprensa, por favor.

            Outro assunto, este de seu interesse imediato: não sei se você tomou conhecimento de uma resenha que Nelson de Oliveira fez, no JORNAL DO BRASIL de 07 de setembro último (2002), da antologia organizada por Cláudio Daniel e Frederico Barbosa, “Na virada do século: Poesia de Invenção No Brasil”, onde há um (“olho”?, “janela”? , não me ocorre o nome técnico de editoração), mas um “buraco / destaque” entre duas colunas: “ O nome de Moacir Amâncio é uma ausência inexplicável”. E lá pelas tantas, diz o articulista: “Falta inexplicável, ao menos do ponto de vista estético, é a de Moacir Amâncio, inventor por excelência.” ( o grifo sublinhado é meu).

            Está seguindo por xerox, pois acho que o tempo é inimigo dos jornalistas, que não podem estar lendo todos os periódicos.

            Abração ao poeta e amigo de sempre

                                                                                  (Florivaldo MENEZES)

s.p., 16 de setembro de 2002.

 

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@ - Para o GILBERTO TINETTI (Em 16-01-2003)

Gilberto:

            Quando um pianista consegue transformar uma sonata para violino & piano em sonata para piano & violino, não pratica uma maldade, mas exerce a estratégia do filho pródigo da parábola bíblica, que, no fundo, vai beneficiar o ato, e não quem o pratica, ou quem o põe à prova.

            Veja, Gilberto, se entende esta elocubração... na qual o compositor não está nem aí...

            Nesse caso, se a ênfase que avulta do piano ( e que parece oferecer as deixas para as entradas do violino ) , desvia o foco das importâncias, instala-se algo como uma humildade contraditória, que não é falsa-modéstia do pianista..

E a tendência irreprimível do piano a se agigantar acaba vingando a generosidade (complacência?) da súcuba posição do instrumento, posição essa histórica (clássica!), própria do gênero.       

            A atmosfera fica no plano dos evanescentes “concerto a duo”, ou dos “duo concertante”, e a gente sente que se opera o milagre  das presenças no mesmo “range”, apesar das iniciativas temáticas, que historicamente classificam o dueto (gênero) como sonata para violino e piano...

            Óbvio que ocorre também com as sonatas para cello & piano.

            Mas iniciativa temática é apanágio de músicos mesmo (partiturais), muitas vezes não apreendida por músicos de paixão ( isto é, amadores, veja que a etimologia os justifica), mesmo que tenham bom ouvido e larga experiência.

Conheço, assim de plano, três pianistas que, milagrosamente, ( é a dinâmica? a malandragem das appoggiaturas?, o descompasso milimétrico? o que é? o que é?! ) transformam as execuções, para mim, em quase divertissements , quando ouço, com eles, sonatas para xis e piano, ou vários lieder , que mais parecem sonatas para piano e xis, e peças para piano e voce obbligata : um deles é você – é voz corrente, esse atributo seu, você sabe disso. Outra foi Hephzibah Menuhin, nas sonatas de Beethoven com seu irmão Yehudi, e,  “recentemente”, o para mim excepcional Robert McDonald, ao "acompanhar" a violinista Midori no Carnegie Hall em 1990.

            Tomei a liberdade de fazer uma cópia em VHS do Video Laser que tenho daquele evento, pois não sei se você, embora conhecendo-o, o tem em seus arquivos. SEGUE COM A DEVOLUÇÃO DO ÁLBUM DUPLO ( LPs) DO LUÍS THOMASZECK, comigo há mais de um mês.

            Fico-lhe mais uma fez devedor de sua costumeira gentileza, com a velha amizade e profunda estima.

                                                (florivaldo)

SP, 16-01-2003.

ESTA PASSAGEM FAZ PARTE DA “GAVETA” IP-MÚSICA, DE MEU WORD (PC), DENOMINADA “MICRO HISTÓRIA DA MÚSICA AO PÉ-DO-OUVIDO”, DO LIVRO EM ELABORAÇÃO “IMPROPRIEDADE PRIVADA”.       ( Florivaldo Menezes )

 

 

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@ Para Hélder Câmara:

Em 1998, Agosto, 05, mandei-lhe a seguinte cartinha:

            “Em 4 último, pelo Chess 4000, depois de um longo "abandono" do Xadrez (pois estou trabalhando em meu novo livro) , ensaiei uma partida, como que "armando uma cilada" para mim mesmo, jogando incorretamente, em meu entender, um lance na abertura eleita, a ver se o programa "descia a pua", i.e., se tomava iniciativa para o ataque arrasador.

            Este realmente se efetivou, demonstrando, para mim,  que a máquina tem aquela "vontade relativa" de ganhar. Digo "relativa" porque nasce da exploração matemática/algorítmica das virtualidades que os erros propiciam...

            Não sei se os deeps mais profundos -- desculpe-me o pleonasmo --, esses que jogam com os kaspárovi e os kárpovi, têm iniciativa especificamente volitiva, a saber, a que não nasce somente dos erros dos contendores ou de alguma opção, também volitiva, de ciladas ou outras trampas. RESUMINDO : A NATUREZA DO JOGO DARIA, EM SI, UMA " INÉRCIA " DE SALVAÇÃO ENTRÓPICA QUE SE ASSEMELHASSE À SAÍDA DE UMA SITUAÇÃO COM SEMELHANÇA A UMA SITUAÇÃO NOVA?! E SERIA POSSÍVEL FALAR EM "NATUREZA DO JOGO DE XADREZ" ? ; O XADREZ TERIA ALGUMA LEI NATURAL ( NO SENTIDO DE "NATUREZA"), COMO A PRÓPRIA NATUREZA? ISTO ÚLTIMO É POUCO PROVÁVEL, MAS, PELO MENOS, É POSSÍVEL?... SE FOR SÓ POSSÍVEL, MAS IMPROVÁVEL, TUDO QUE FALEI ACIMA VIRA SÓ UMA FANTASIA MODORRENTA!

                 MAS...ISTO TUDO  É PURA ESPECULAÇÃO, EMBORA DE CUNHO FILOSÓFICO, TALVEZ INFLUÊNCIA DE MINHAS INCURSÕES RECENTES POR WITTGENSTEIN...MAS GOSTARIA QUE VOCÊ, UM ESPÍRITO IMENSAMENTE CHEIO DE CURIOSIDADE, MEDITASSE E, SE POSSÍVEL, ME DESSE UMA RESPOSTA.

                SOMENTE GOSTARIA MUITO QUE VOCÊ ABORDASSE AQUELAS MÁQUINAS MAIS PROFUNDAS, ALUDIDAS ACIMA, PORQUE TENHO QUASE CERTEZA QUE, NO CASO DE MINHA PARTIDA -- QUE SERVIU APENAS DE "STARTING"  --, A HIPÓTESE DAS BRECHAS QUE SE ABRIRAM JÁ ESTAVAM NAS COGITAÇÕES DO PROGRAMADOR.

                                               Abraço do Menezes, 5-8-98.

 

                Eis a partida:

                                               Brancas: eu, Florivaldo Menezes

                                               Pretas  : Chess 4000, nível "Expert".

                                               1 - e2-e4        c7-c5

                                   2 - g1-f3         e7-e6

                                   3 - d2-d4       c5 x d4

                                   4 - f3 x d4      b8-c6

                                   5 - b1-c3        a7-a6

                                   6 - f1-e2         d8-c7

                                   7 - O-O           f8-d6

                                   8 - d4-f3         g8-f6

                                   9 - f1-e1         O-O

                                   10- e2-f1        f6-g4

                                   11- h2-h3      d6-h2 +

                                   12 - g1-h1     g4 x f2 ++

  

                P. S. Usei acima os nomes kaspárovi e kárpovi metonímicamente,  porisso  em minúscula, e no caso nominativo plural latino, onde, em russo, se usa a desinência "vi" :

                                               O Karamazoff (ou Karamazov, Dmitri Karamazov),

                                               Os Karamázovi ( a família, os irmãos ).

                                               DESCULPE A EXPLICAÇÃO, MAS NÃO GOSTO DE ERRAR, AFINAL ESTUDEI A VIDA TODA, SOU MEIO BESTAMENTE ORGULHOSO, DIFERENTE DO SÁBIO E  NOSSO SAUDOSO ZELÃO QUINTILIANO.”   

                                                               Espero que você dê uma craneada agora, como me prometeu em nosso último – e fortuito – encontro na Don José de Barros em 08-5-03.

                                               Abração do amigo e admirador

                                                (MENEZES, Florivaldo, antigo MeneZIAN,  lembra-se do saudoso CAPo  Orlando?... Você nos cognominou assim no final da déc.60...)
 

 

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@ Para o Marcelo Tapia & Pérola:                               (07-7-03)

                         Quando lhes agradeci por rápido telefonema o envio dos 2 livros sobre o Joyce e os dois CDs com coisas da Irlanda e ligadas a ele ( nominalmente a fxa. 13 do segundo CD) , não havia ainda ouvido as obras que vocês levaram no primeiro e tampouco a performance ao vivo no auditório do Crowne Palace.

                        Acabei de fazê-lo neste domingo.

                        Lastimei, lastimei mesmo, o número pequeno de ouvintes, pela densidade das palmas, embora intensas. Coisas do mercado, infelizmente... Ou pode ter sido deficiência auditiva minha. Mas, em qq. caso, fiquei muito emocionado com o teor de tristeza das canções, especialmente a segunda faixa do primeiro CD.

                        Aqueles cunhos nostálgicos das músicas todas – ou quase todas – bem que me pediram um uísque, mas estava ontem de ressaca, bebi muito no sábado e não tenho mais idade para “fogo de encontro”.

                        E o pior é que tenho sempre em minha casa o Jameson ( o uísque preferido do Joyce, parece que é muito popular no país ) desde que o Phila uma vez me trouxe de lá a bebida ( ele tem (teve...) um amigo e grande teórico em Dublin, titular de Literatura comparada, ou de língua francesa, no Trinity College; e por lá esteve várias vezes). Hoje o Jameson é facilmente encontrável em S. Paulo.

                        Mas, Marcelo, preciso ir ao ponto principal, que é o seu enorme talento para o canto, a afinação sem qualquer raspa de romanticismo (Nélson Gonçalves, que desafinava no timbre!, sic mesmo!), dentro daquela simplicidade “country” mesclada com a plangência do Bob Dylan, muito ajudada pela natureza do cancioneiro irlandês, que não tem nada, nada, nada a ver com aquela grandiloqüência que tanto encantava o Joyce, a vida toda babado pelos dós de peito do Mc Cormack, cantor lírico, como você sabe, mas extremamente contido nas tremulares extensões de sua voz.

                        Incrível como Joyce e João Cabral eram cegos para música!...

                        Conheciam música literariamente, como às vezes acho que acontece com o Augusto, mas isto já é recalque meu, acho que não consigo esconder a inveja que tenho pelo Augusto poeta, sorry...”nobody is perfect!”...

                        Vocês estão merecendo uma maior divulgação do trabalho musical dos dois CDs, algo como um programa na Cultura, sei lá. Acredite, Marcelo,  surpreendeu-me muito a irmanação de sua voz com a tristeza das músicas, mas daquelas anônimas, do inconsciente coletivo das “-Nênia nenê”, entretanto chanceladas pela etimologia.

                        Precisamos um dia marcar um encontro para ouvirmos algo.

 

                                                        ******

             No meu “Impropriedade Privada”, in corso, um apanhado de tudo ou quase tudo que pensei sobre arte e minhas entradas e tentativas, tem um poema recente ( “Heavenly Creatures” ) que eu gostaria de passar para você, por mero prazer egocêntrico... É um grilo da sintaxe pensar uma semântica, ligada a um tópico importantíssimo da Filosofia, que é o Nominalismo.

                        Na minha obra, perdoi-me!, tal peça é um dos hiatos na poesia visual – ainda a exploro, por incrível que pareça – e quando a mostrei, sem maiores, ao Raduan, ele, por telefone, com aquelas gargalhadas catártico-apocalípticas ( você já o ouviu gargalhar?! Esteja preparado espiritualmente!) me disse que é o melhor exemplo que ele viu sobre a inutilidade da Arte!...

                        Gozado que o Raduan vive falando sobre inutilidade da Arte e vez por outra saca um inédito genial, como o “arrazoado número 7 d´O Ventre Seco”, não sei se você conhece.

                        Eis meu poema:

                         

(91,42em06-7-03)

 

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@ Carta a Gabriella Pace

Gabriella:

    1 - Como você diz que "aguarda notícias", lá vão algumas ( não se esqueça de que já lhe falei que tenho pavor de ser advertido das facilidades de papo que a Internet propicia).

    2-   Não quis me referir a analogias entre compositores, no sentido do famoso jargão "nada se cria, tudo se copia" ( Chacrinha e quejandos), que você cita, mas o de verdadeira pré-munição/premonição  de formas de um gênio para outro: quando você vier a minha casa, como você respondeu que terá o máximo prazer de [me dar o máximo prazer!] vir, vou mostrar-lhe (não me julgue arrogante, é pura paixão de raciocinar!) uns fenômenos de antecipação de formas, verdadeiros casos de "plágio em retrocesso" , LEMBRE-ME DISSO, DESSA EXPRESSÃO, POR FAVOR, LEMBRE-ME DISSO!

    3 - Para diferenciar, vou mostrar a você um disquinho de 7´´ de uma revista francesa, onde há um sem-vergonha mas exato "Ils ont tout copié", de(monstrando) plágios de Beethoven, Mozart et al.

( o que te mencionei de Stravinsky e Mozart etc., cf. e-mail anterior, é o "stravinsky"  já concebido por Mozart!... O "berlioz" que te citei é a inaugural invenção do Puccini!!! - ( QUANDO VOCÊ ME CONHECER MELHOR, VAI VER QUE NÃO SOU LOUCO, ou, como diz meu, meu, meu,  Glenn Gould...  "JE NE SUIS PAS DE TOUT UN EXCENTRIQUE" ( título de um de seus livros editados postumamente, coisas de telefonemas gravados, papos rememorados etc...).

    4 - Fiquei muito feliz de saber pelo Flo que você fez um Mahler magnífico. E a Violeta Urmana, que te citei enquanto escrevia o e-mail, ouvindo o Mahler que "analisei", que você me disse que viu pessoalmente no Scalla!..., puxa, isto é um privilégio...

    5 - Quanto à quarta de Mahler ( você se diz vítima, vítima para mim maravilhosa, de quartas sinfonias ) , permita-me aduzir sobre a de Mahler:

    Nos começos da déc. 80, dei uma entrevista no jornal AMBIENTE, da Cetesb, onde aponto, entre as melhores músicas da Humanidade, justamente a 4a. sinfonia de Mahler.

    Não  me lembro se dei razões, nem qual a versão que indiquei.[ Hoje para mim só pode ser de Haitink, Bernstein ou Boulez ]  Mas comentei "em off" que é uma síntese da alma musical de Viena, que era o berço da modernidade, assim como a Alemanha  havia sido, imediatamente antes, o da contemporaneidade.

    Há, nessa sinfonia, vozes em seus ruídos, assim como ruídos (aí já no sentido de McLuhan) em suas vozes (humanas).

    E pra temperar tudo, aquele picadinho das frases tenebrosas, típicas do Autor.

    Não é, para mim, a mais bela (quinta), nem a mais profunda(nona), nem a mais transcendental (oitava), nem a mais matriz e inspiradora (segunda). MAS É SIMPLESMENTE... A QUARTA!!!, que tem a cara de Mahler, do casal Mahler, das infidelidades Mahler..., do perdão, da sublimação, enfim, me parece a mais pessoal.  E já abre o caminho para o mais maduro Richard Strauss, na corporificação das valsas da triste decadência, esta num sentido até nobre, histórico, político, como quis D´Annunzio.

    6 - Bem, Gabriella, não vamos exgotar nossas vidas num só átimo. Temos muito que conversar. Traga sua mãe e seu pai, chamarei o Flo para o encontro, vamos marcar: logo após seu Villa-Lobos na Osesp, que dia mesmo?

    Abraço ffff  do Menezes.

 

 

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 @ Carta a Gabriella Pace


                                              “(...)Quanto ao espetáculo em si, achei a mini-ópera uma obra-prima absolutamente de gênio (eu não a coinhecia...) : entrosamento perfeito de música e libreto (do próprio Donizetti), acabamento melódico primoroso, invenção no jogo de palavras, indispensável para o enredo e próprio desenvolvimento frásico do entrecho, enfoque paródico das óperas bufas ou cômicas de Mozart e Rossini, com maior domínio do tempo curto ; uma tremenda surpresa na fabulação (enredo) e uma extensão infinita de tessituras vocais, com timbres e registros realmente originais e praticamente nunca vistos , em tal entrelaçamento.

                                                Você teve oportunidade de expor suas qualidades ímpares na ceneggiatura brasileira ( Que Celines Imberts coisas nunhumas!, ela é simpática, chistosa nas entrevistas, humana e humanitária...mas voz como a de você... (?!) EU PARECIA OUVIR/VER, PRINCIPALMENTE NO  PRIMEIRO “DUETO”  COM O TAMBÉM MAGISTRAL TENOR SEU PRETENDENTE, ONDE SE CONTRAPÕE UM ARREVEZADO JUIZO DE ACUSAÇÕES E JUSTIFICATIVAS, UMA VISÃO DA RENATA TEBALDI, NO SEU DESENHO CORPORAL E EMISSÃO VOCAL!!!)

                                                Não se ofenda: você vai ser melhor que a Tebaldi !

                                                Por favor, não me responda a isso. Quero surtir a sacada sem que nada ou ninguém me aborde ou raspe. Nas passagens tristes, como por exemplo na que você demonstra o amor pelo tenor, com aquelas extensões ou prolongamentos de voz  para encadeamento da escuta próxima ( que é a surpresa que o ouvido espera, o ouvido é que é humano e triste!), acho que você não tem rival. É que nenhum crítico oficial tem coragem de pôr a cabeça em risco para admitir isso, em você!

                                                Repito: suas frases atingiram o coração, nenhuma balançou !!!, mesmo as mais longas, seu domínio de ar é incrível e seu timbre á mais liso, sem aspereza, haendeliano, mais “sonoro” que o da genialíssima Callas!!! ACHO ISSO DO FUNDO DO CORAÇÃO E NEM DISCUTO COM NINGUÉM./ AMÉM.

                                                Menezes, Florivaldo.

 

   

 

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 @ Carta a Gabriella Pace

 

Caríssima Gabriella :

    Antes de tudo, um abraço por você, que continua deslumbrante em cena.

    Relutando, mais uma vez, pelo enfrentamento de um espetáculo ao vivo, que lhe disse ser penoso, fui vê-la no sábado. Cruzei com seu pai, estacionamos o carro no mesmo local; ao final deixei um bilhetinho no parabrisa.

    Valeu, e muito, pela constatação de que você vai galgando a posição de maior cantora lírica do país.

    Ainda não me adaptei ( e vai ficando cada vez mais tarde, nos meus setenta e cinco anos, embora pense que penso com dezessete ) à expectativa das palmas que sempre coroam os quase repulsivos ápices do “fenômeno diva & bel canto", que é o "panem et circenses" da platéia operística...

    Cá, lá e acolá.

            **********

    Afasto um pouco essa visão de minhas neuroses, ao chamar-lhe a atenção (se os bastidores no momento não a distrairam para outra coisa ou descanso, como no entreato do filme  "A flauta mágica" de Ingmar Bergman) , para aquela frieza ignara da platéia, ao não fazer cair o teatro, em apoteose, na segunda cena do segundo ato, no diálogo, afunilando para o uníssono do dueto, entre Romeu e Teobaldo, enquanto o cortejo fúnebre de Julieta passava ao largo.  Foi das coisas mais emocinantes, comovidas e estéticas que vi em minha vida, uma incorporação total... com frígidas e destacadas palmas aqui e ali...

    Esse tipo de coisa me esfria. Porisso não vou ao vivo, continuo preferindo minha sala, com boa aparelhagem.

    Ainda bem que tiveram a sensibilidade (embora talvez movida, inconscientemente, pelo eterno conceito supra do "fenômeno diva & bel canto") de reconhecidamente aplaudir você ao final da ária que começa com você se aproximando da harpa. Se filmaram todo seu pungente lamento, você seguramente já está na história, como se diz em boa gíria.

            Essa espécie de aplauso “em cena aberta” também se merecia no dueto mencionado acima.

            **********

            A adaptação feita na divisão da ópera fez bem a você, para equilíbrio da tensão contínua da magistral mezzo-soprano, que não é o Romeu que deu uma entrevista no “Estação Cultura” (Cultura FM, com Madeleine Alves, que está substituindo a espertíssima Gioconda Bordon) no começo da semana. Peguei no carro, sortudo que sou, sempre perseguido pela Arte.

            Arre !, ela se disse sua melhor amiga, se não me engano.

            Não sei como ela canta, ou como fez Romeu, mas o da récita de sábado é bárbaro, é estupenda, nem parece que há travestimento de papel ! E contracenando com você, pode até ter havido um “distanciamento”, o que deve ter aquecido tua voz.

            Conjeturas...

 

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@ Carta a Gabriella Pace

 

Queridíssima Gabriela [ Pace] : O quê falar da tarde de ontem?! Magnifica, ampla, em todos os aspectos, sua interpretação, a de sua companheira mezzo-soprano, a naturalidade de ambas no manejo das línguas , incrível como soou aquele seu russo do Tchaikovsky! E o sentimento com que você envolveu aquela segunda canção dele, só não chorei porque estava com uma bruta dor de cabeça e também por não estar sozinho: levei três gerações pra ver vocês, até minha netinha mais nova me encheu de perguntas sobre os artistas!

    O Gilberto estava iluminado no piano, e, em matéria de carisma e simpatia, encaixe nos olhos e no coração da platéia, não sei quem leva vantagem, se ele ou você. Só quem é ciente do auto-valor, domina os espaços, pode oferecer aquele copinho ao público (se eu soubesse que nele tinha whisky, teria aceito).

    A Adriana Clis, que eu não conhecia, me surprendeu pela voz, forte mas brilhante, que adentra, fácil, os domínios de contralto, lisura nas emendas e... manejo dos braços : tenho uma tese (mais uma, que mania que tenho por desenvolver bobagens esdrúxulas!... enfim não consigo me libertar), que também está na salada estética e existencial de meu lvro "IMPROPRIEDADE PRIVADA", em que discorro sobre a supremacia do ator de teatro sobre o de cinema, quando colocados no mesmo range de excelência (Chaplin & Laurence Olivier, Mastroiani & De Niro, Christopher Walken & Willem Dafoe, Marlon Brando & José Lewgoy, Ítalo Rossi & Othon Bastos  - não é machismo, não, neste caso é simples problema de acesso à listagem paradigmática ) pelo simples, elementar, fisiológico e barbarizante dificuldade de dar um destino aos braços durante a cena!!! É um martírio achar a naturalidade de fazer com que eles desapareçam no palco (e aqui tanto em ator como em atriz). Já no cinema, no set, são salvos pelo plano americano, pelo close, e pelos cortes. A continuidade e continuísmo (sem o qual não haveria a ação dramática) do palco mostram a grandeza do ator/atriz se este não se apavorar com os braços.

    E uma das maravilhas que mais maravilham a voz da Adriana Clis é a maneira com que ela articula os braços e as mãos como se fossem artificiosamente alisar o corpo do ouvinte. Acho que é um recurso da qual ela se vale inteligentemente, devido ao volume de seu corpo, grande mas belo, hamonioso. Em você, mais miúda, os braços, em cena, são mais hieráticos, mas somente nos lieder, cantatas (considero aquele Villa-Lobos, que vi você fazer, uma "cantata") e peças para concerto, onde se poderiam encaixar os IV e V movimentos da Sinfonia n. 2 de Mahler, por coincidência com um soprano e um mezzo-soprano (Sheila Armstrong e Janet Baker, sob batuta do batuta Bernstein), que revi em casa nesta madrugada de sábado para domingo.

Ali você vê o hieratismo nas duas, portanto não se ofenda.

    Sei lá, mas tudo se coroa!

    Olhe, bondosa amiga, prometo deixar de "cagar regras" assim que Deus me ajudar.

 

                                                ****************** 

    Glória!

    Cada vez vou entendendo mais o seu currículo, seu desenvolvimento.

    (A pouco afinidade, o comodismo, a reserva de minha incrível timidez (é!...), o desagrado que me causa muita gente junta, enfim, tudo isso e mais aquilo,sempre me distanciaram da mùsica ao vivo, da música que também envolve acontecimento...e porisso não situava bem você e andei talvez dando alguns conselhos ingênuos, sendo opiniático. Mas a gente é como é. O que interessa é que a nossa Tebaldi vai singrando (e sangrando, força!).

    Beijo a você e também à super dupla, como você chama, Adriana-Héctor.

                Florivaldo Menezes

 

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@ Para  Gabriella Pace, em 29-5-06. (Enviada por e-mail em 30-5-06, 16h35)

 

Caríssima Gabriella :

    Antes de tudo, um abraço por você, que continua deslumbrante em cena.

    Relutando, mais uma vez, pelo enfrentamento de um espetáculo ao vivo, que lhe disse ser penoso, fui vê-la no sábado. Cruzei com seu pai, estacionamos o carro no mesmo local; ao final deixei um bilhetinho no parabrisa.

    Valeu, e muito, pela constatação de que você vai galgando a posição de maior cantora lírica do país.

    Ainda não me adaptei ( e vai ficando cada vez mais tarde, nos meus setenta e cinco anos, embora pense que penso com dezessete ) à expectativa das palmas que sempre coroam os quase repulsivos ápices do “fenômeno diva & bel canto", que é o "panem et circenses" da platéia operística...

    Cá, lá e acolá.

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    Afasto um pouco essa visão de minhas neuroses, ao chamar-lhe a atenção (se os bastidores no momento não a distrairam para outra coisa ou descanso, como no entreato do filme  "A flauta mágica" de Ingmar Bergman) , para aquela frieza ignara da platéia, ao não fazer cair o teatro, em apoteose, na segunda cena do segundo ato, no diálogo, afunilando para o uníssono do dueto, entre Romeu e Teobaldo, enquanto o cortejo fúnebre de Julieta passava ao largo.  Foi das coisas mais emocinantes, comovidas e estéticas que vi em minha vida, uma incorporação total... com frígidas e destacadas palmas aqui e ali...

    Esse tipo de coisa me esfria. Porisso não vou ao vivo, continuo preferindo minha sala, com boa aparelhagem.

    Ainda bem que tiveram a sensibilidade (embora talvez movida, inconscientemente, pelo eterno conceito supra do "fenômeno diva & bel canto") de reconhecidamente aplaudir você ao final da ária que começa com você se aproximando da harpa. Se filmaram todo seu pungente lamento, você seguramente já está na história, como se diz em boa gíria.

    Essa espécie de aplauso “em cena aberta” também se merecia no dueto mencionado acima.

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            A adaptação feita na divisão da ópera fez bem a você, para equilíbrio da tensão contínua da magistral mezzo-soprano, que não é o Romeu que deu uma entrevista no “Estação Cultura” (Cultura FM, com Madeleine Alves, que está substituindo a espertíssima Gioconda Bordon) no começo da semana. Peguei no carro, sortudo que sou, sempre perseguido pela Arte.

            Arre !, ela se disse sua melhor amiga, se não me engano.

            Não sei como ela canta, ou como fez Romeu, mas o da récita de sábado é bárbaro, é estupenda, nem parece que há travestimento de papel ! E contracenando com você, pode até ter havido um “distanciamento”, o que deve ter aquecido tua voz.

            Conjeturas...

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            Agora extra muros e em off : gostaria, a contra-vapor..., que você mais uma vez me “esquecesse” no sentido de compromisso social, ou de amizade, ou de reconhecimento, ou de afinidades estéticas e de pensares estranhamente coincidentes, não quero tornar a contaminá-la com as expansividades adiposas de meu temperamento desabrido e apaixonado, como estava fazendo nos e-mails, você sentindo-se obrigada a responder, a decifrar meus conceitos arrevesados, etc. etc.

            Portanto, qualquer lorota, leia e “rasgue”. SÓ DÊ UM AVISO DE QUE RECEBEU.

            Estarei exercendo minhas funções estéticas, embora com enorme empenho espiritual, numa área que não me é muito íntima, o da arte lírica.

            Torno mais explícito : fiquei um tempo, realmente, enlevado pelo contato espiritual com você, a atração e fascínio pela sua arte, que devem ter procupado seus pais.

            Quiz exprimir parte de minhas exaltações em cima de você, doutrinar tendo você por exemplo, minha encarnação de romancista, e a carnação de quem encontra um ser de longa data, uma amizade de infância feita numa tarde na Cultura Villa-Lobos e numa noite, no 1900.

            Exemplo típico de serendipity.

            Mas, poderia causar um desconforto familiar, doméstico, em cima de uma pessoa que precisa estar absolutamente livre para dedicar-se exclusivamente, fanaticamente, tresloucadamente a sua arte, com o talento que você tem, desculpe a deitação de regras de conselheiro (e o pior que está cheirando a Conselheiro Acácio).

            A segurança que eu tinha em falar tudo aquilo dos e-mails, a maioria obviedades sobre você, era resultante de uma teoria (mais uma de minhas teorias, diabo!), chamada de INTUIÇÃO REINFLUENTE, que apliquei em um poema semi-visual, intersemiótico, já há muito publicado em um catálogo, déc. de 80, e em que reapresento o grande, inusitado pintor já desaparecido, Orlando Marcucci. Vou deixar, oportunamente, em sua portaria um exemplar do catálogo.

            Nesse poema, denominado “Três insights na vida glamorosa[sic] de Eustáquio Parreira”,  desenho um casal que vim a conhecer anos depois, Barreira & Dora, absolutamente idênticos aos do desenho, prefigurando aquilo que vulgarmente se denomina de percepção espírita, ou pré-visão de materialização, MAS QUE PARA MIM É UM FENÕMENO DE LINGUAGEM, UM TROPO DE RETÓRICA.

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            Quando parei pra pensar, vi que tudo que falava de você, para você, e os “ensinamentos” ( Rriso ), e os prolegômenos, e os etcs, tudo o que falei de VOCÊ  COMO FUTURO  JÁ TINHA ACONTECIDO NO PASSADO, seus destaques, sua fama na cena lírica, seu currículo.

            Mas eu estava certo, tenho certeza, tudo que previ para você, nos e-mails, já havia acontecido. Mas eu não sabia.

            Fiquei um pouco envergonhado, mas passou, eis que não sou, neste campo da Música, familiar dos eventos ao vivo, das encenações de óperas, dos históricos de atuações...Para mim,  fora do plano dos discos, e ainda mais no Brasil, tenor é ainda Bruno Lazarini e soprano a Niza de Castro Tank, auditório da Gazeta, programa Cortina Lírica, com o saudoso Armando Bellardi, 1950, 51!...

            Coitado de mim,bem que poderia ter ficado, in corpore, naqueles meus vinte, vinte e um anos, magrinho e feliz.

            Um beijão pra você e pra dupla-maravilha que te cerca.

            Menezes.


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  @ - Para João de Campos Aguiar Filho.

                 Joãozinho:

Havia começado uma carta a você falando em Proust, a memória involuntária, toda uma recuperação de um passado que para mim já estava perdido, o verdadeiro sortilégio que foi nosso reencontro através das fotos em nossa querida década, a década de 40, a re-leitura do jornalzinho “O Sentenciado”, tentanto descrever o efeito que isso tudo causou em mim etc. etc.

Cheguei até a arrumar uma metáfora meio chinfrim, a das celebrações de aniversário,pensando na velinha que a pessoa assopra, ela se apaga, subitamente a vê reacender, assopra outra vez, de novo ela reavultando, e assim por diante.

Cheguei a afirmar que a memória visual pode ser mais forte que a olfativa, aquela das madeleines de Proust, através da qual ele recuperou todo aquele  monumento da sociedade francesa que é "A la recherche du Temps Perdu", garantindo que não era o olfato que declanchou tudo aquilo – o cheiro das coisas é realmente marcante, violento – mas uma espécie de involuntariedade...voluntária.

E aí me perguntava até que ponto o envio das fotos, dos jornaizinhos "O Sentenciado", nossa troca de vozes ao telefone, semana passada, também não foram uma ânsia involuntária (se é que pode), só que de fora pra dentro, isto é, motivada por uma necessidade que nossa idade biológica tinha, de colocar nossos corpos em contato com aqueles outros que nos marcaram numa mesma fase, um contato para efetivamente nos reconfortarmos de que não caminhamos sós para a extinção.

            Cheguei a indagar a você se haveria determinismo, misticismo nisso, para  concluir com um comodista “dane-se”, ilustrando que “o que acontece acontece”, ou “se justifica e erige o Destino”, como sentenciava Mathias Ayres e um personagem de Eça de Queirós, que a preguiça me impediu de identificar.

            Mudei o tom da carta mas não aboli a célebre sacada de que “não é literatura não, Joãzinho, nosso querido Joãozinho Aguiar!”

            Impregnado outra vez da turma, ensaiei umas literatices de saudosista, tentanto redescobrir o “Joãozinho Aguiar" que sempre me impressionou, aquele magriça de pescoço pra frente, a cabeça sempre empinada, na postura de galo de briga, mas um galo de briga “sparring”, é possível?!, apenas ameaçando esburacar a nossa mente – como você era inteligente, cara! –, não fosse seu sorriso de gozador, que às vezes soava mas que dava calma, porque você tinha medo de que alguém se ferisse. Você era muito, mas muito gentil mesmo!

            Agressivamente, pelo que se seguia, chamei o Tempo de malfeitor: chegava a pedir a você para mostrar, como consulta de experiência, tal pensamento jansenista  de um contato corporal – sem cogitar em espírito, alma e saudade em nenhum dos dez da turma e das fotos –, para seu pai, mas para aquele  seu pai / você, aquele, dizia eu, que para mim está na foto de braços com a Idalina, sua mulher!

Entenda, Joãozinho: sentí na foto – e ressinto agora – um frisson, para  cima do bem e para baixo do mal, e uma tristeza de não poder rasgar junto com essa foto todo um passado e sacrilegamente gritar, vociferar tresloucado: o que é isso? Onde estão nossas carinhas, aquelas das fotos do Colégio Estadual, meu Deus?!?

            (Lembra-se daquele terror que se apossou de um personagem de Ronald Reagan, que teve as pernas aputadas e ao acordar, apalpando-se e procurando por elas, deu um grito que ressoa até hoje e, ainda gritando, perguntou: - WHERE IS THE REST OF MY BODY ???!!!???)

            Não estou dramatizando não, Joãozinho, mas é mais o menos o que senti quando vi aquele rol de fotos maravilhosas que tanto bem-me-quer-malmequeirou!

            Eu sei que esse defazamento amoroso deve acontecer com todo mundo, mas todo mundo não me interessa nem consola, interessa-me você, a Léa, o Honório, o Ricci, aqueles dez que estão indeléveis nas fotos e serzidos na saudade...

            Aí, resolvi partir pra atmosfera d´”O Sentenciado” e, desapertando a garganta disse-lhe: sabe?: ando chorando muito fácil, será alguma doença, diverticulose, artrose, cistite, uveíte, entupidez vaso-contristadora, loucura indolente, leniência recidiva? ( Mas tudo isso eu tenho realmente, menos a uveíte).  E confessei-lhe, num ato gratuito esquisito,  que às vezes sou mais infeliz que um amigo pianista, muito amigo mesmo, Rodolfo, que toca na noite e em vesperais de clubes de luxo aqui de São Paulo, que só descobriu que existia depois de uma certa idade!

            E, pra justificar o descabido, encerrava o bloco dizendo que afinal tivemos que ter família e fomos obrigados a disfarçar, pra não entristecê-la...

 

                                                           *****

            Há muito tempo não me abria assim. Foi muito maravilhoso este reencontro.

            Sinceramente, considero divinatório esse contato, mesmo à distância, depois de mais de meio século.

            Como o Passado mostrou que não tem memória, Joãozinho!

            Está tudo por acontecer, perenamente, é só querermos.

                                                           *****

       Ou esta é mais uma frase que consola?

*****

            É que de repente gostaria de descobrir que não somos o que pensamos que o Passado nos reservou, assim, tudo certinho, que é só remontar no tempo que descobriremos as linhas que estavam traçadas, e lá no cerne atinarmos “mas estão traçadas mesmo coisa nenhuma, era tudo um emaranhado para o futuro”, eu podia ser o Hely, você podia ser o Moreno, o Olath podia ser a Lea, o Ricci podia não estar existindo, o Honório Parizi poderia ter saído no segundo ano colegial, sumido pro nordeste e um dia voltar padre.

É só querermos, dentro de nossas frustrações. É só querermos, dentro de nossas frustrações!

            Se não houvessem as fotos, a remontagem não teria sido possível, o visual nos recuou para tomarmos os fios da memória sem exageros, a que mostra corpos, corpos e corpos, o que permite dizer que só temos corpo, Joãozinho, mas  não deixe nenhum netinho seu ouvir isto, pelo amor de Deus!

 

Veja isto:

                       

Cave não morrer depois de morto 

                                   pois o osso é o roteiro da carne. 

                                   ["Como] o corpo é a embalagem da alma 

                                   [mas] a vida é o corpo do corpo". 

                                   Florivaldo Menezes / Erasmo de Roterdã. (Música deste, letra minha...)

                                                            ***

            Fiquei triste quando fiz isso. E é aquilo que está nas fotos que você me mandou, Joãozinho.

***

             A Fotografia foi um dom ( = possibilidade) que a tecnologia deu ao homem de não apodrecer no nihilismo da solidão e de nunca perder seu corpo. É a vida suspensa: ou a morte parada. Qualquer um pode ser milhões, como – e embora – naquele poema de Vinicius de Moraes, o da "Nova York, oito milhões de solitários" (1962).

            Mas solitário solidário.

***

Veja como falam aquelas sobrancelhas (encoste o ouvido na foto!) do Luiz Ferraz Sampaio Jr!!!

Tenho curtido toda uma existência de Poesia, de Pessoa a Drummond, de Rilke a Cabral, de Haroldo de Campos ( falecido anteontem... ) a Cummings, as mulheres do Parnaso, Emily Dickinson e Marianne Moore ( estas sem dúvida as top-line, com perdão da prosápia). Estou nesta vida a ler ( e a malfazer ) poesia nas horas e desoras, vagas e invagas, bem sentado, escondido e fora de lugar, enfim, tenho visto de tudo... mas confesso que há menos de um ano descobri uma poetisa portuguesa, atualmente com cinqüenta anos,que me trouxe realmente, agora sim, as verdadeiras epifanias ( = "linguagem de reis", i.e., linguagem/revelação dos Reis ( magos, os três que seguiram, pelo Céu, a rota pra manjedoura, a ver se chegavam na horinha da chegada da Redenção, como você sabe. E repare que a cadência já era o início da decadência, arre!)

             As epifanias da poetisa são revelações inéditas, mas tiradas das anedotas ( no sentido grego de coisa do cotidiano, que acontece todo dia ), chama-se Adília Lopes, tece tramas possíveis se de fato acontecerem ( parece coisa de português!, RRiso), verdadeiras abstrações concretas, pois, apesar de operar mudanças de entidades na própria palavra, na própria escrita, funcionam, como literalmente observou Flora Süssekind no posfácio à "Antologia", como estratégias simultaneamente contra-ficcionais ( porque se expõe o seu mecanismo de fabricação de enredos ) e antilíricas ( porque o eu lírico se transfere do plano da enunciação para o da ficção) indícios capazer de auto-evidenciar o território misto, instável, entre a figuração poética e a narração, o lírico e o épico, entre forma enunciativa e estrutura ficcional, em que se move a escrita poética de Adília Lopes.

            Permitindo-me mais uma delonga, pra você ter uma idéia, Joãozinho Aguiar, da personagem chamada Arima, da novela “Menina e Moça”,de Bernardim Ribeiro, que estudamos no Colégio, sob a batuta da maravilhosa, sempiterna Dona Neuza, !!!, ( ou foi no Ginásio, com a professora Maria Luíza, uma luz coada, um nume-lume em lusco-fusco, um caule pra qualquer fruto ou flor, um pêssego esticado em saia-e-blusa, assim a estou vendo nesta regressão em auto-hipnose...) – voltando: do nome, a poetisa passa, ontologicamente, a uma consideração sobre "a rima" como recurso poético. E do recurso rítmico ( rima )  -- continua Flora Süssekind-- se volta a um processo figurativo ( a rima vira outra vez uma senhora ), de um som que se repete se passa a uma personagem contorcionista, retomando-se o trabalho de ficcionalização.

            NESTAS ALTURAS DO POSFÁCIO, ANOTEI:

            " V. meus processos da década de 50! e que continuo a aplicar: v. a passagem do Gustavo Kürten no meu poema ´Heavenly Creatures´ " (2001).

            Lá pelas tantas te transcrevo o poema "Heavenly Creatures".

 

                                       *****

 

            Mas, voltando ao problema do divinatório das Fotografias, reproduzo esta jóia, condizente, da poetisa portuguesa em questão, que definitivamente devia  encerrar, selar e lacrar minhas leituras de poesia. Tinha de acreditar nessa verdadeira devoção e dizer, alto e bom tom: basta, por esta encarnação tudo para mim já está justificado em termos de Poesia:

 

                        UM FIGO

                              

                               Deixou cair a fotografia

                               um desconhecido correu atrás dela

                               para lha entregar

                               ela recusou-se a pegar na fotografia

                               mas a senhora deixou cair isto

                               eu não posso ter deixado cair isto

                               porque isto não é meu

                               não queria que ningúem

                               e sobretudo um desconhecido

                               suspeitasse que havia um relação

                               entre ela e a fotografia

                               era como se tivesse deixado cair

                               um lenço cheio de sangue

                               porque era ela quem estava na fotografia

                               e nada nos pertence tanto como o sangue

                               por isso quando uma pessoa se pica num dedo

                               leva logo o dedo à boca pra chupar o sangue

                               o desconhecido apercebeu-se disso

                               é um retrato da senhora

                               pode ser o retato de alguém muito parecido comigo

                               mas não sou eu

                               o desconhecido por ser muito bondoso

                               não insistiu

                               e como sabia que os mendigos

                               não têm dinheiro para tirar fotografias

                               deu a fotografia a um mendigo

                               que lhe chamou um figo

 

                                                                                                              (Chamar um figo (Port.): levantar as mãos pro céu, para o bem...ou para o mal, o que se há de fazer...)

                              

                               É que o livro todo é feito dessas coisas.

 

                                                                              *****

Voltando à nossa infância – chamêmo-la assim –, a leitura d´”O Sentenciado” ( o acaso denominou-o melhor que “O Sentenciário”, que estava na minha cabeça e que eu pensava que era como realmente tinha se chamado. Eu não tinha nenhum exemplar e nenhum vestígio de recordação sua) a leitura deles, repito, colocou-me de frente com certas realidades, cruas e ás vezes tristonhas, realmente pesarosas. Por exemplo, penso que minhas pretensões eram maiores que o verdadeiro talento de alguns colaboradores, tais como o Fernando Brisola, muito mais maduro do que eu, e você, Joãozinho, que atinava e escrevia bem melhor...

Uma volta ao passado, como disse bem acima, seria uma realidade virtual nesse emaranhado que nos justifica hoje. O passado não tem pudor mesmo...

Hoje vejo que eu tinha tino era para repórter, veja meu artigo sobre o Petróleo no Brasil, a campanha que adviria no governo Vargas, início da década que se seguiu ao nosso jornalzinho, campanha patriótica pelo nosso monopólio. Não sei se, em 1949 e 1950, quando passei a ser repórter do diário prudentino  “O Imparcial”, do maravilhoso Heitor Graça, lembra-se?, remunerado, com carteira profissional e tudo, e que me vale como jornalista até hoje por força da legislação antiga, apurei ou não meu estilo rebarbativo, que beirava não digo o ridículo, mas uma ingenuidade besta, principalmente quando tinha a ânsia da ficção, das grandes descrições etc. etc.

Veja lá, nos jornaizinhos que você me mandou, uma influência naturalística malajambrada, um machadianismo mal assimilado, a retórica de um Eucydes da Cunha mal digerido, enfim, só sobrava (desculpe o cacófato-trocadilho) uma enorme, fanática pretensão de ser um criador no campo da literatura, cujos resultados eu acho que estavam mais em vocês do que em mim.

A história de como produzi um romance, inacabado, “OS SENTIMENTOS DIDÁTICOS”, com início no começo de meus vinte anos, ganhando, com o capítulo inicial, uma das 15 vagas do primeiro curso de Autores Teatrais da Escola de Arte Dramática ( ligada ao antigo T.B.C- Teatro Brasileiro de Comédia) e hoje anexada a importante departamento da USP) é uma história longa, que se desenrolou noutros projetos, paralelos ao meu curso de Direito, seguindo pelo casamento, pelos filhos, pela minha adesão à Poesia Concreta, pela adoção da  “POESIA INTERSIGNOS”, criada pelo meu filho que morreu tragicamente há 3 anos, essa história toda, Joãozinho, eu gostaria de relatar num fim-de-semana, aqui ou aí, tomando uns whiskezinhos...

Depois de 1972, após a edição de meu livro de poemas semióticos, sem título, mas alcunhado “ In Verso “ pelo prefaciador Ronaldo Azeredo, um dos 4 fundadores da Poesia Concreta, publiquei poemas avulsos e artigos em revistas, participei de congressos de Poesia Visual ( como é hoje globalmente chamada ), fui recenseado por antologias e periódicos internacionais e resolvi, megalomaniacamente, dar uma parada, no fim da década de 80, para que meus filhos emplacassem em suas carreiras, eis que derivads da minha, como de fato emplacaram: a Maria Cristina em cinema, o Phila[delpho] Menezes[Neto] em literatura, intersemiótica na PUC e na Universidade São Marcos ( na qual seria Reitor justo na semana em que tragicamente perdeu a vida, tinha acabado de fazer 40 anos. Ele também foi o criador e principal teórico da Poesia Sonora no Brasil, inícios da década de 90) e o Flo[rivaldo] Menezes [Filho], hoje considerado pela mais apurada corrente crítica ( Arthur Nestróviski, da Folha) o mais importante compositor de Música Eletroacústica de sua geração. É o principal assistente, na América Latina, de Karlheinz Stockhausen, o papa do pós-guerra, como você sabe. Tem encontros pessoais com Stockhausen a cada ano e meio, lá na Alemanha, Colônia, onde estudou e morou por seis anos.

Desculpe-me o orgulho desbordante, mas no fundo só contribuí com os movimentos.

                                                           *****

        Joãozinho, como eu amaria encontrar-me com você, você não sabe o que vocês, você principalmente e o Olath – mas o Olath era muito responsável, você fazia mais o meu gênero – significaram para mim! Precisava muito de um reencontro com essa turma!

            Não identifico um de nossa turma, aquele de blusa preta, será o que morreu? Há alguém que morreu ? parece que ouvi algo de você naquela noite em que falamos ao telefone.

            Por favor, faça um breve resumo de suas vidas, o que deram, onde estão, só para satisfação afetiva, nem que nunca mais os veja, por favor! É importante para mim, você não pode saber porquê, te digo pessoalmente.

 

                                                           *****

            Estou curtindo seus contos ( são seus os de Moura Campos? E porque esse pseudônimo? Dê umas linhas a respeito). É comovente o do médico que deu o a receita praticamente de oitiva e curtiu o remorso pelo resto da vida, até hoje, é o que dá a entender sua economia de expressão.Quando você os escreveu? Dê detalhes. Você continua escrevendo ficção? De quando são os contos?

            E a sua carreira? Sua família?

 

                                                           *****

No meu “Impropriedade Privada”, in corso, um apanhado de tudo ou quase tudo que pensei, fiz e não fiz, sobre arte e minhas entradas e tentativas, tem um poema recente ( “Heavenly Creatures” ) que eu gostaria de passar para você, não só por aparente  prazer egocêntrico mas também porque , como bem acima me referi, se assemelha, sem que eu soubesse, àquele processo de ontologização de coisas usada pela poetisa portuguesa que transcrevi.

É também um grilo de sintaxe pensar uma semântica, ligada a um tópico importantíssimo da Filosofia, que é o Nominalismo.

            Na minha obra, perdoi-me a pretensão!, tal peça é um dos hiatos na poesia visual – ainda a exploro, por incrível que pareça – e quando a mostrei, sem maiores, ao Raduan Nassar, meu grande amigo desde cinqüenta e poucos, ele, por telefone, com aquelas gargalhadas catártico-apocalípticas ( é quase mais importante você ouvi-lo gargalhar que ler sua “Lavoura Arcaica” ou “Um copo de cólera”, mas precisa-se estar prevenido espiritualmente!,”o diabo na rua, no meio do redemoínho”, lembra-se do Guimarães Rosa?; veja, umas meras gargalhadas, mundinho esquisito onde estamos, né?) disse-me ele que esse poema é o melhor exemplo que viu sobre a inutilidade da Arte!...

                        Gozado que o Raduan vive dando entrevistas sobre inutilidade da Arte e vez por outra saca um inédito genial, como o “arrazoado número 7 d´O Ventre Seco”, não sei se você conhece.

                        Eis meu poema:

 

( Dos papos com d. Olívia Gaspar Cavalcanti ).

 

 

 

( Poema nominalista (Filos.) )

 Heavenly Creatures

( Para Evelyn Critchard )

Por neres de piti nereidas:

Nem a pajem, Imálida, que foi

De Babá & Babaoutro

Não de Euprépio e Aigulfo                                     

Basílides e Serzídeo

De Bianor & Balthazar.

( Sim, só Babá e Babaoutro!

Não pajem de outra velagem:

De Pacífico & Tranqüilino

De Bianor, com mais amor. )

E de goose-tav-owe curtain. 

Quem?

Goose-tav-owe Curtain!!!

Não ganso afogado enxuto

Na cortina . Apenas Gustavo Kurten.

Além de não não estarem mortos

Ou por só assim estarem

Procuram por Matas do Taquaranta

Com Marildes e Marinalva

Por Faxinal do Céu

Com Leonor e Leonora

Alana Gandra e Poliânica Salubranco

Com Vera Verão Lafond

Com Zé Quindingues e Nante

( por saber: Elucinante )

Anacoluto e Afonsinho,

Euryderbal, Ladypopéia,

Por teleférico e articulado,

Berdamerda. Berda-merda

Por fim! Afim! Afinal

Por que onde, onde, andará

Martagão Gesteira, meu Deus

( Na última vez que foi visto

Rememorava prolfaças

Do saudável Prafulchandas ) ?

                                                                             

 ( FLORIVALDO MENEZES )

 

 

               *

 

Arnegão de Panariz, atualmente com seus noventa e tantos anos, e a quem citei no trecho de meu ensaio sobre Glenn Gould que saiu na revista “Escrita” n. 35, Ano XI, 1986, lembrou-me que este poema, no fundo–no fundo, usa de uma espécie de chantagem ateista, principalmente pela responsabilidade que tive de relacionar, faticamente, nomes, lugares e pessoas todas existentes ( nenhuma sendo ali inventada e a  maioria viva! ) sem que nada prendesse uma a outra, como, por exemplo, no poema sobre o caso do vestido, em Drummond.  Na abstração, diz ele, no conceito dado ao ente, as coisas e pessoas não se dão bem sem ligação, precisam estar relacionados. No nominalismo , a existência do ser ou coisa é livre, só depende do cogito,  as portas se  abrem, tudo é mais solto, mais feliz, as criaturas ficam celestiais, mesmo, não dependem de Deus e do Destino...”

Confirmou isso ao perceber também que  Evelyn Critchard, a quem dedico o poema e que na vida real, dos fatos “universais”, é minha velha amiga d. Olívia Gaspar Cavalcanti,  é uma derivação sonora  (fonética)  do título do poema. Evelyn Critchard teve, na minha cabeça, uma virtude nominal soberba, passou a existir, como todo o poema, com uma função independente dos "universais". Tem razão Arnegão de Panariz, são criaturas celestiais, mesmo, não dependem de Deus e do Destino...

                                                                              *

 

(De um papel avulso:         “ANUENTES-AVALISTAS 

                                               Prafullchandra Prabhudas Patel 

                                               Vinaben Prafullchandra P. Patel” 

                                               [NOTA:  A PRIMEIRA ASSINATURA PARECE    “JoJoPolês” .      A SEGUNDA PARECE

                                                                                                                             “Neena ( Veena ? ) P. Patel”]

 

                                                           *****

 

            Segue uma foto minha relativamente recente, pra ver se você me reconheceria na rua.

            Segue também um poema visual, reproduzido em cartão postal, “O Lago dos Signos”. O original é grande, foi grande, tamanho de pôster, digo “foi” porque foi vendido sem minha anuência, por uma Livraria-Galeria a que estava emprestado, devido à insistência do baterista genial do conjunto “ Iron Maiden”, em 1989, durante o Primeiro Festival “Rock in Rio” .O conjunto veio conhecer S.Paulo.

            Também lhe mando por xerox um dos últimos escritos em prosa que fiz, um ensaiozinho meio sacana mas muito afetuoso e sincero sobre a Academia Brasileira de Letras, publicado no livro de Fernando Jorge “A Academia do Fardão e da Confusão”, Geração Editorial, como subsídio às pesquisas, sérias, do autor.

            Previ lá, cf., um ano antes da morte de Jorge Amado, que ele seria sucedido pelo Paulo Coelho. ( Praticamente o foi, pois a eleição intermediária da Zélia Gatai, mulher do Jorge, foi uma homenagem familiar...)

 

                                                           *****

            Pra te entupir mais ainda, junto, de última hora, a produção audio-visual do Phila ( 1 CD ROM (polipoesia, Poesia Intermídia Interativa) e 2 CDs de Poesia Sonora ) e um CD com a última composição do Flo.

            Oportunamente te mando as 3 últimas curtas-metragens da Cristina ( 2 selecionadas em Festivais da Europa e alguns livros do Phila.

            Ah, as curtas-metragens da Cristina, na verdade video-clips em animação, estão seguindo juntas.

Com todo o prazer – e desculpas – do exibicionismo, NÃO ABRO MÃO DE SUA BIOGRAFIA E DO ROTEIRO DA VIDA DE NOSSOS QUERIDOS COMPANHEIROS DE COLÉGIO!!!

 

                        Afetuosamente, mas muito, muito mesmo, um beijo nas duas faces e na testa, nessa testa privilegiada, invejável, do sempre Joãozinho.

                                   Do  Florivaldo, Flori, Zé Leite, Zé Caninha,

            São Paulo, 23 de agosto de 2003.

 

 **********

@ - Paulo Ramos Machado e Maria Estela.

 Paulo e Maria Stella:

            Ontem à noite, pouco antes de eu sair, dei uma demonstração de imaturidade emocional, na conversa sobre o teatro.

            Tenho um vezo acentuado de exercer certo autoritarismo intelectual, principalmente quando a bebida passa de certos limites.

            E tais limites estão sendo atingidos fáceis, com a idade avançando...

            Minha decantada delicadeza desaparece e devo ficar nojento, honestamente falando; só deve dar pra ver de fora pra dentro, mas o instinto me acusa esse defeito social grave.

            Acontece que, mesmo sentindo na hora, não dá pra refrear, está tudo calcado em complexos ( no sentido técnico ), trazidos à tona por ambições antigas, e esperanças malogradas, talvez. Isto é, dou tudo, sempre dei tudo, pelas revelações da Arte, que fica sagrada, mas num patamar de fanatismo, porque não a exerço amadorísticamente e nela me aplico com fervor de xiita.

            E quando tenho uma convicção, chego a ofender meus opositores.

            Insegurança? Navegação gostosa mas sem bússula?

            Sei é que piro, me finco, não admito contestação ( naquilo que julgo que domino, no assunto que está posto na mesa etc. etc. )

            Então estimaria muito que vocês me desculpassem pela ênfase, a contestação fascista, a quase intolerância. No caso de ontem, posso tentar justificar, embora o grau de colocação das coisas tenha extrapolado a área das ponderações, das trocas de opinião, tudo que uma comunidade civilizada impõe.

            Mas... é que acho que toda Arte, mesmo não sendo primacialmente política, espelha sua época, até a mais alienada ( mas num sentido de que só a aceito alienada  se feita por artistas alienados mesmo, tais como os loucos varridos geniais, Lautréamont, Jarry, Qorpo-Santo, Artur Bispo do Rosário, até o próprio Pound, que era um louco com capacete do mais puro cristal e com aquelas antigas roupas de astronautas na quarentena. Ou um Glenn Gould, um louco pra dentro).

            Então não pude ontem – como não posso ainda joje – admitir Arte Datada, isto para mim é um absurdo, senão jogaríamos pela janela, não digo só grande parte da obra de Shakespeare, mas todo o "Satiricon", toda "As mil noites e uma noite", os Ignudos da Capela Sixtina ... e outros monumentos mais da Humanidade, perdoi-me. Sobre Arte Datada e Noções de Gosto venho meditando há anos, e a primeira implica em valores éticos complexos.

            Cabem aos críticos – esses criadores frustros – e aos demais exegetas do sociologismo,  a tarefa de enquadrar aquilo que acham ser Arte Datada na virtualidade do Idealismo ( o tecnicismo dos computadores não criaram o altar da Arte Virtual?!).

            Se a Sociedade fosse diferente, a tal Arte Datada estava aqui revestindo a todos, num ideal que não é ideológico, mas humanitário. Adorno, que estaria fazendo cem anos, abordou isto.

            Portanto, a peça de Arthur Miller é dos maiores espelhos polidos da alma humana, numa fatia da sociedade que estava desmoronando, a grana faltando, o desemprego unido à decadência da idade, a vergonha matrimonial ( e uma vergonha triste, degradante, porque unilateral ) , a dicotomia simbólica dos dois filhos, justificando e transpondo para si a carga um do pai, outro da mãe, o sossobro daquela fase econômica dos Estados Unidos, e outras coisitas mais.

            Acredito  até [ DIGO ASSIM PORQUE NÃO VI AINDA ESSA ENCENAÇÃO] que a modernosidade da cenarista, acostumada a exager seu gande talento plástico, unida á possivel falta de physique de rôle do personagem principal, mais a falta de uma boa acústica, tudo tenha contribuido para a impressão da tal Arte Datada.

            Num pequeno parêntese, o Willy Loman da encenação que vi, com meus vinte e poucos anos, era interpretado pelo inesquecìvel Jayme Costa, um gordalhofo mofado e trágico. E havia uma música de fundo ( naquele tempo não se chamava trilha, no Brasil ) tirada da suíte Peer Gynt, de Grieg, muito triste.

            Para terminar, gostaria de dar uma opinião sobre "a exagerada perenidade e intensidade do amor da mulher pelo marido" : também não acho que esses tipos de Amor estejam datados não. A fragmentação burguesa dos lares hodiernos, quase sempre alicerçados em idealizações magnificentes ( estas sim DATADAS MORALMENTE ) colocadas em retábulos que são os aparelhos de TV na hora das novelas, isto sim é que disfarça a necessidade daquele tipo de amor que existe ainda, mas que o trabalho, o trabalho e o trabalho, além da falta de filhos cirandando pela casa, alçam esses seres todos para o terreno das fantasias esdrúxulas.

            A alta sociedade tem esse amor de mulher para marido principalmente ( não estou dando uma de machista). A favela também é palco desse tipo de amor.

            Mas na nossa classe, a classe mérdia, perdão, o teclado está com defeito, a classe média... esta está fadada à danação.

            Ainda bem que está com a Bíblia. Pelo menos na classificação e denominação.

            Pedindo desculpas mais uma vez pelo autoritarismo e penitenciando-me por não louvar gritando o carinho com que vocês todos me recebem nessa bela casa – que escapou, graças a Deus, da classe média - deixo um abração a esse casal que, felizmente... não está datado!

             São Paulo, 13 de setembro de 2003,   

                                               (MENEZES)

**********

 

@ - Para Tragtenberg, Lívio:
 

            1 - Lívio, deixei no fim de semana em seu  estúdio os dois DVDs de melodias árabes, sobre
as quais conversei rapidamente com você por telefone.

            Não   deixe  de   ver,  no  ainda   primeiro   DVD,   após  a  mulher   fantástica,   aquele  sábio
musicantor do Título II.

            É só deixar correr,  que o Título II aparecerá Senão, clique em  Título II, direto.

            Alí, na minutagem, preste atenção in :        31´04´´  ss.    32´15´´  (tudo ondas).
.                                                                                    41´14''   ss., até 43' 06'' (o dodecarrítmo mais o
silêncio intermitente (sic). Um dia lhe mostro na íntegra. Mas, um apanhado filosófico está na
contracapa dos dois DVDs.Ou quando eu  ultimar meu livro inteiro, "IMPROPRIEDADE PRIVADA".

     2 - Segue, do Livro, o "Monalívio", já antigo.
 

            Abraço, Menezes

 

 

**********
 

@ - Ao Wilson Janine. 11.04.06

 

     Re: Fw: En:Fw: Somos riquissimos/ FM em 11-4-06, 13h18.

De: Florivaldo Menezes <flomen@giro.com.br>
Para: WILSON <
wpj@mdbrasil.com.br>
Data: 11 de abr de 2006 - 18:40

Caro primo:
1 - Já tenho essa carta ao Alexandre Garcia ( muito boa! ) em meus arquivos. Mas, fico-lhe grato.
 
2 - Sobre meu posicionamento político-ideológico, fica para um e-mail mais longo, detalhado, bem explicadinho. Sua curiosidade ( legítima ) será satisfeita, sem que eu me ofenda e sem que nada mude, pelo menos de minha parte, em nossa carinhosa estima de parentesco e amizade. Acho você, como já disse, uma figura "sui generis", um médico-filósofo ( lembra-se que, numa mensagem, distingui o médico-filósofo do filósofo-médico ? Lembro-me, entre outras elocubrações, que a dignidade do corpo vem antes, vai sustentar a dignidade da alma, se é que ela exista como tal ). Também me recordo que o classifiquei entre os filósofos sem sistema.

[ 3 - Tenho, heroicamente, neuroticamente, tudo arquivado, do que mando e do que recebo.]

4 - Meu passado (juventude) lá em Presidente Prudente, me ligou ao Partido Comunista Brasileiro ( o do Prestes, Pimenta, Marighella et al.). Eu estava no colégio, estadual, de altíssimo nível, famoso no Estado todo, o Ensino mandava praqueles fundões da alta Sorocabana latinistas (Placídio Nogueira), matemáticos (Mercedes Guerrazzi), exegetas de literatura em língua portuguesa (Neuza Macuco), de literatura francesa ( Maria Prudência), historiadores, etc., de grande gabarito, todos com fama de geniais, iam pra lá talvez atraídos pela fama de Capital da Sorocabana, uma cidade de epicuristas, aventureiros, beberrões, extravagantes ( no sentido etimológico, que caminham em paralelo, fora do caminho ) , e na qual só havia gente rica...

5 - O Partidão de lá era de suma importância no comitê central, chefiado por um grande advogado e eminente poeta, que tinha ido de Recife para Prudente, dr. Érico Magalhães da Silveira, sogro do genial jornalista Mário Mazzei Guimarães, que modernizou, com Nabantino Ramos, as antigas Folhas (da Manhã, da Tarde e da Noite), hoje Folha de S. Paulo. Além do mais, dr. Érico era o presidente da Câmara Municipal.

6 - Apesar da grande, enorme diferença de idade, tornei-me muito amigo dele, que, muitos e muitos anos depois, década de 90, veio a falecer aqui em São Paulo, com mais de 100 anos! A última visita que lhe fiz foi pra devolver-lhe o livro "Poesias" [completas] do cultuado lírico, seu conterrâneo, e que você, Wilson, deve conhecer, Olegário Mariano. Ele m´o havia emprestado há mais de meio século, em minha juventude...Eu não queria que ele morresse sem ver o livro de volta!

7 - Nessa juventude, com filiação política meramente moral, bocal, nada de ficha, passei por uns acontecimentos marcantes, que vou resumir a você, aqui em baixo.

8 - Mas o DEOPS, na década de 70 aqui em São Paulo, levantou umas "fichas" minhas que quase me puseram em cana e que interromperiam minha carreira de Procurador-Chefe, o que não ocorreu por causa... justamente do próprio Governador Adhemar de Barros, que me garantiu, me bancou, por instância de seu irmão, o falecido senador Antônio Emigdio de Barros Filho ( o célebre Toninho de Barros, pai do que foi nosso prefeito e presidente da SABESP, Reinaldo de Barros. Toninho de Barros me disse, num inesquecível encontro de whisky, que a mulher morrera no parto desse filho, único).

9 - O "senador" , como era chamado nas rodas aliadas (a rigor, era suplente de uma figura exponencial do PSP, Lino de Matos), se tornara meu amigo chegado (boemia, mulherio, vinhos franceses) e queria sempre me proteger ( sic ). É um princípio, positivo, de máfia, pois, quando advogado iniciante, encarregado de desapropriar a imensa bacia hidrográfica do Tietê e Piracicaba ( que se tornaria o reservatório da Usina Hidrelétrica de Barra Bonita ) dei força à família Barros, na década de 50, pedindo, por colocação estritamente profissional, ao então coronel Faria Lima, Secretário de Estado ( Viação e Obras Públicas , onde eu trabalhava) que indenizasse a família Barros, deixada de lado, discriminatoriamente, porque Adhemar estava sendo caçado, literalmente, pela facção Jânio/Carvalho Pinto.

10 - Mal saberiam que Adhemar viria a associar-se à turba-multa pouquísimos anos depois, e que seria mola-mestra da Revolução Militarista de 1964...

11 - Ele foi ressuscitado pelo malogro da candidatura José Bonifácio Nogueira Coutinho, sendo eleito, em fins de 1962, governador do Estado. Uma zebrona!!!

12 - Daí o Destino se articula ( o Destino age por cissiparidade... ou, como diria o poeta Mário Quintana, "o Destino é o Acaso metido a besta") e repete a lição, sem falsa modéstica, mas em menor escala : VEJA, UM EX "MILITANTE" DO PARTIDÃO ( seu priminho aqui ) "SALVO" POR UM GOVERNADOR DA DIREITA, DO REGIME QUE CAÇAVA O PARTIDÃO...Tudo por um humanitário, humano, justo, lógico e racional principio de Máfia...

13 - Eles sabiam que eu havia participado de algumas ações, durante o período imediatamente seguido à colocação do Partido na clandestinidade, por decisão do Presidente Dutra, com dissolução do Congreso, perseguições, assassinatos e o mais.

14 - Tinha eu meus dezessete anos e "distribuia" , na calada da noite, o jornal "Novos Rumos" ( coitado, ingênuo, idealista mais que ideólogo, reformista / freirista, de Roberto Freire e de freiras, mesmo...) ... Eu também já possuia minha carteira de jornalisa, era reporter e colunista d´"O IMPARCIAL", diário de Presidente Prudente.

15 - Também fui à íngreme peregrin(ação) de resgate de vários comunistas ilustres e famosos da capital e do Rio, que foram atirados pelas janelas de trem em alta velocidade, entre Presidente Wenceslau e Santo Anastácio. Trouxeram-se os que estavam vivos para albergá-los em Prudente, com tratamento médico em caladas de noite (médicos que iam de São Paulo). Um dos caçados ficou homiziado na própria residência do próprio dr. Érico Magalhães, em frente à própria Delegacia de Polícia ( !?!?!?!...).

15 - Era o famoso romancista Rossini Camargo Guarnieri, que tem livro incensado por Mário de Andade !, cf. "O empalhador de Passarinhos".

16 - Trinta anos depois, reconhecendo-o, manco (manqueira-consequência daquela ação vandálica), em uma livraria de São Paulo, a Parthenon, do grande e saudoso Álvaro Bittencourt, que morou com Paulo Emílio Salles Gomes em Paris e que era ligadíssimo ao Partido Comunista Francês -- o mais forte da Europa, depois do ialiano- abordei-o e, ao relembrar-lhe do fato do resgate, ele empalideceu e escafodeu-se pelos desvãos das estantes, derrubando livros, surfando pelos degraus da escada, esquecendo-se da manqueira! Incrível, mas acho que a tortura marca mais que uma belíssima trepada.

17 - Ser humano... coisa nefanda?, nefasta? , mas inefável ! Só Deus mesmo.Que estrepolia é a Vida...Aquele anjinho esquisito, que escapou e quis morar em casa própria, está sempre por perto. Como um nosso filho, quando declara independência. Mas, arre ! e figa !

18 - Veja, querido Wilson, o que vale é a tolerência, o que está fora dos esquemas da ordem, tipo : no meio do anarquismo, só nele existe a tolerância integral . Ara, Ara, Aracy, " o diabo na rua, no meio do redemoínho" : em 1949, eu com 18 anos sou chamado à diretoria do Colégio Estadual Fernando Costa. Puseram-me sentado na frente da Congregação, todos os membros presentes. Daí levanta-se o diretor, prof. Wlademyr Bittencourt, apelidado "Bodão", deu-me um frio na barriga e ele, calmo, mas com a voz mais engrossada por encenação de autoridade: "- Senhor Florivaldo, não pense que não sabemos de suas atitudes comunistas! [ não falou " atitudes ou atividades de comunista", lembro-me exato, como se fosse ontem. E meu instinto conserva aquele "lapsus linguae" premonitório, sábio subconsciente!, a gente pode ser comunista sem ser comunista. Puxa, é óbio, é elementar sr. Watson!]

19 - [ Pulando pro futuro: na época do Euro Comunismo, um amiguinho de meus filhos me definiu muito bem, com extrema criatividade : O seu Menezes é Neuro-Comunista! É isso, Wilson .

20 - Voltando praquela sala do colégio: "- Mas, apesar disso tudo, o senhor vai representar o colégio na Semana Euclydiana de São José do Rio Pardo. Sabemos que o senhor é o único de todo o colégio que leu inteirinho aquele livro louco" (referia-se a "Os Sertões").

21 - Então vejamos, ele aplicou um princípio utilitário, valendo-se da tolerância... E será que pode ser ruim para a Humanidade uma coisa incensada por tantos sábios, tantos mártires, tantos que abdicaram de viver pela melhoria do próximo?

22 - Estou começando a acreditar que já respondi a todas as suas dúvidas, coração aberto, chorando pela ilusão da Propriedade, a inerência da coletivização, o desapego, mas com Polícia forte, também coletivizada, também comedida na ambição : de repente o homem desgarra, tomado... pelo que desgarrou...Arre! Figa!
23 - Parece teórico demais, mas penso que vale pensar.

24 - QUANTO AO LULA : Tenho verdadeiros tratados ( perdão, é força de expressão, não implica em valor) sobre essa figura realmente de gênio, iluminadíssimo pelos dons da intuição, o "astronauta das cosmopistas" ( valha-nos Cortázar! ) o Útil, o Papai Coragem, olhar bravo, desvairado, em contraste com o bucólico sorriso lindo. E tenaz. E patriótico, neste ítem só perde para o Brizola e para o Vargas.

25 - Veja, Wilson, como posso ser um comunista puro e pragmático se falo em patriotismo?!?!?

26- MAS ENTÃO , ESTÁRÁ PENSANDO VOCÊ, QUANTA CONTRADIÇÃO NISSO TUDO!!! É que, se ele tivesse uma estrutura, não digo firme, mas simplesmente uma estrutura, não teria sucumbido ao fascínio do Poder. O poder, em pessoas que nunca o tiveram, é o pior veneno.

27 - Ele não poderia/deveria ( ou deveria/poderia) ser eleito. Deu crepe e a Entropía embaçou tudo.

28 - Estou mandando como Anexo um alegoria que fiz antes de sua eleição, disfarçada por uma indagação baseada numa falsidade, que também é falsa.

29 - Acho que, em última instância, teleologicamente falando, minha alegoria ainda não se concretizou ... E tomara que não se concretize jamais.

Beijos Vadinho.
(P.S.: aquele e-mail prometido prum futuro, explicando-me, já está aí. Qualquer dúvida, pode perguntar.

----- Original Message -----
From: WILSON
To:
dante@vipway.com.br ; Victor Reiff Toller ; rosa turismo ; Florivaldo Menezes ; Beto Sassiotto ; Salvador Prantera jr.
Sent: Tuesday, April 11, 2006 11:48 AM
Subject: SPAM: Fw: En:Fw: Somos riquissimos

 

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@ - Carta a Pedro Xisto. 22.06.73

  

Meu caro Pedro Xisto. 

[ 22/6] Hoje, 22 de Junho, estou escrevendo esta sobre-carta a você, eis que em 19, com um pouco de whisky na cabeça, tinha escrito:

[19/6]                     “Acabo de chegar em casa e encontro sua carta, acusando o recebimento do meu livro.

Sua leitura de pronto me compensou um dia de segunda-feira, que também deve ser igual à do Japão – então você entende. (Neste instante está chegando aqui um pintor pro [ há um sinal flechinha meu, para o Xisto virar a página] – genial (no duplo sentido, pois ainda é inédito e pinta DEMAIS) , companheiro meu de mais de 20 anos diussoturnos, o Orlando Marcucci, pintormentoso como quê. Está por enquanto pendurado nas paredes de grandes amigos, Volpi, Ronaldo, Augusto, Braga, Willy, Gilberto Mendes). Entrando na carta, ele me observa que vocês, aí no Japão, já podem estar na terça-feira ou ainda no domingo [ duas linhas de frase anulada por uma seqüência de xx, e, na margem direita da carta, esta anotação em manuscrito: “No original dá, propositadamente, pra ler o que está por baixo]      

[19/6, repondo o papel]

         Vendo seu nome no envelope, fiquei muito apressado e, não atento ao inglês das dobras e cortes, cortei a carta errado, mas depois colei e a guardei com muito carinho: não só pelas novas que você me dá, como por saber de notícias suas.

TAXI, que, segundo a feliz sacada que você deu, vai levar-me à Exposição, Xisto, embora sendo o poema
[22/6, de 19/6]
menos tomado a sério  ” (olha, daqui por diante, modifiquei um pouco o teor da carta original, que achei um pouco bebida) aqui no Brasil pela crítica que se tem manifestado, [TAXI] é um ideograma puro -- ideológico no contexto global do livro-- e daí a razão de seu sub-título. Como tal, pura e simplesmente deva ter agradado à visão japonesa. É uma fisiografia do próprio nome próprio do poema. Elevado à sua condição etimológica, conduz ao termo-termo que se vê. Daí, voltando por um processo poético à perspectiva de quem , condiciona o leitor ao mero fenômeno da leitura  (O que vai agora neste parêntese estava na carta original: Sabe? : o meu livro tem a problemática simples do fenômeno da leitura. A escritura, que tanto tem atormentado a prosa-galáxia do Haroldo e me enfiado, ambiciosamente, num projeto de romance-computador (ou talvez um VIDEOGRAMA) onde os “personágios” são só fonemas, está por ser equacionada de novo, já que Joyce acabou com o negócio: Barthes-Jakobson-Proppagônicos... (...) (Se você tem interesse em saber, em tal romance-computador, “Ib Me” (IBM, “para mim”), escrito no verso dos cartões da Loteria Esportiva, o leiturador, enfiando um araminho nos vários buraquinhos de seu jogo, que tenham coincidido com os do cartão-acertador, retira do maço tantos cartões quando forem possíveis em cada segunda-feira. Ali, ele manipula o que está escrito nove-      [ como a carta já está no verso,aparecem várias linhas do anverso, quando cito Orlando Marcucci e as figuras [ pessoas] que possuem   seus quadros na parede...Após, isto segue: ]

[22/6 arap 6/91] (nove) lescamente, mas com os ruídos e interrupções advindas com os furos. Está dificílimo resolver o problema dos fonemas como “personágios” (no sentido de que ganham, na supressão maquinal do “computador”, tomando-se por base a problemática de semântica das letras, fisiognomias de sentido que a “leitura” sempre lhes dá). Sempre ganham, na supressão, um sentido isolado, formando um outro agrupamento social ou antropomórfico de “figurações”,embora simples fonemas. Exemplo: alalia! (as lá ali: a a a! (l l l) ). Mas este é o meu LIVRO, no sentido mallarmaico, e peço desculpas por isso. Voltando hoje [ na margem esquerda: 22/6] ao TAXI, só lhe peço que respeitem as margens do poema, nas proporções e cores originais (aquele branco das duas primeiras pranchas e o mesmo preto das duas últimas). Sua visão ideologramática passa a vigorar na segunda metade da leitura - : a interjeição desastrosa XI (molas ainda integradas) é o preparo para todo aquele desastre léxico resumido no último ideograma puro do poema, e que o japonês entendeu de cara [aparece na carta o símbolo do ideograma desenhado por mim] .

...as duas margens pretas, do XI e do TA final, procuram representar a crépeavisão (não dado um grande aviso...) de um cartãozinho de sétimo dia do cara que ficou lá,  na escrita do poema. A visão do leiturador é aquela mesma do [símbolo do ideograma desenhado por mim] = túmulo, no poema. Mas, veja você, é uma estorinha. Pois “  “   [ símbolo do ideograma] equivale muito mais.

Mas, acho mais literatura pura o ENIGMAO, de que o Augusto tanto gosta e, antes de tudo, a incursão concreta no problema das “personae” poundianas, do PaPiroPirâmides “MONOPOL”, na antiguidade egípcia ( que ele Pound politicamente não explorou). Ali, falo através da organização (PC.I.A.) controlatriz, e da minoria silenciosa (PSIU), só encontradas nos extremos queimados do “extrememisme”

 

                           “................................................

                                         Verso

                           podendo chegar ao extremo”

                                                                      

                                                                          (é preciso pôr fogo no encarte, impresso em limão e portanto invisível, para que o “imobile” do “monopol” (isqueiro-sarcófago, isqueiro-esfinge (ex-finger, veja lá o dedo do leitor agindo) decodifique a mensagem – desculpe –, toda embrumada naquele CIO, de ÓCIO, que aparecem, ao calor da chama, respectivamente no alto e no centro da imagem radiografada (veja o que forma a fuligem do esquentado ( às vezes queimado...) no verso do encarte, após a “operação”...) do Egito antigo. Gosto também do ABANE-SE / ABONE-SE, um poema táctilográfico (veja que ainda é leitura), onde o leitor, se aleavia através de uma abanabonação de um leque, tão sagrado para os orientais e tão meramente ideogramático. Desculpe, Xisto, mas veja que literatura explicada começa a se complicar, mas na versão do ABANE-SE / ABONE-SE, que fiz para o inglês, aparece o seu sugestivo Fan a peias: “To fan oneself...etc.

Deixo para outra carta outras xaropozas “interpretações autênticas”, no sentido de “hermenêutica jurídica”, mas só lhe peço atenção para a interferência que os títulos dos poemas têm em seu andamento, principalmente para a “segunda leitura” dos mesmos, quando se amarram, na versão ao inglês. Às vezes, a versão é rigorosamente condicionada à língua de origem do assunto, como no caso do MENOS MAL MAIS MAO, do ENIGMAO, onde, à feição da leitura de uma carta enigmáotica (leitura de ponta-cabeça), encontrei aquele prosódio-fonetismo chinês de LESS WRONG MOST  ´ UNG.  Mas, fica para a próxima carta.

Para terminar, estou enviando-lhe, diretamente, um exemplar do livro dedicado ao Seiichi [NIIKUNI] , e mais dois exemplares, para você, fazendo-me um favor, dar a quem estiver mais chegado a você e uma foto minha. Devido à urgência, catei uma de que muito gosto, só que pintei por cima um bigode, que ora estou usando e de que não abro vista. Fotografei de novo, com a montagem, mas o bigode-nankin não desdeformou. Acho que não tem importância. Nasci em 18 de Fevereiro de 1931. Se necessários mais alguns dados pessoais para o catálogo, pode tirar do prefácio do Ronaldo [ Azeredo] e desta carta. Estou muito contente por participar da Exposição e muito agradeço ao velho companheiro de lutas, que só vi uma vez (lembra-se daquele papo agradável na casa do Augusto [ de Campos] , num cair de sábado?). Gostaria intrigado de saber de seus novos projetos e coisas, pois, depois do logograma ZEN, o resto é bambuzeira.

UM FORTE ABRAÇO DO

F. MENEZES

SP. 22/6/73

 

[ Segue em manuscrito:] Perdoe-me pelas marcações laterais, mas os “canji” às vezes também as levam.FM

 



Pedro Xisto e seus poemas

 

 

to be continued

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