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 CONTOS

 

Esta gaveta compreenderá contos, na grande maioria inéditos, inclusive os da década de 40, juventude do autor. Serão aportados na medida da superação de implicações técnicas do Site. Como nas demais, poderá haver compartilhamento de textos, segundo sua natureza (ficcional, ensaística etc).   

 

Duas borgeanas

 

 I – DE UMA SEGUNDA-FEIRA (18-02-02)

 

Quando Luciana, uma botticelli anamórfica, com seus delgados dedos de deusa, colocou-os em cima de "Remember",  no livrinho de Christina Rossetti, "Goblin Market and other Poems", pedindo,  simplesmente com seu silêncio, sem nenhum comentário, que o lesse, eu não estava no meu melhor. Tinha passado aquele domingo em seu fim  com certos desgostos difusos, ressaca, saudades de um filho perdido, mas aparentando, no fundo,  ter vivido uma "noite de almirante". É uma técnica desenvolvida para as festas da solidariedade.

            Eu não me apercebera que já havia traduzido aquele soneto magistral. Mas parei num de  seus versos – não aquele maior verso da lingua inglesa tido por Borges, de Shelley, cujo pendant brasileiro, na primazia, fui catar no "tu pisavas os astros distraída" de Orestes Barbosa , nas minhas incertezas cinqüentonas, no fim dos anos quarenta.

            Falei a Luciana:

            - Como isto é triste, veja! E apontei-lhe:

 

                                                           " [ ];  you understand

                        It will be late to counsel then or pray."

 

                        E falei-lhe que o verso era triste no contexto ou fora dele.

                        Tinha-me esquecido,  ali na hora, no balcão da Cultura, que não só já lidara com Christina Rossetti, e especificamente com esse verso, que mostrei a Luciana como descoberto na hora!, como também do nome do MacPherson, que usara do artifício -- diria eu artefato poético -- das "dramatis personae", principal recurso do grande Robert Browning, do qual  eu estava levando "O flautista de Hamelin". Browning através do "Sordello" e outras "dramatis personae" , MacPherson através do lendário Ossian, para alguns o pai do Romantismo inglês. Só que este usando da mentira no referencial, isto é, inventando o Autor, e não a Autoria, como em Browning. Algo como um Fernando Pessoa "avant la lèttre".

                        Quando cheguei em casa, fui procurar minha tradução daquele soneto que tanto impressionara Luciana.

                        Antes, deparei-me com uma separata de Sérgio Milliet, a propósito de minha tradução de uma canção de Christina Rossetti:

                        " Se se colocar em frente desse texto o original inglês, ter-se-á uma idéia precisa daquilo que eu insisto em denominar equivalência e que consiste não na tradução exata das palavras, mas na expressão do mesmo sentimento, e até das mesmas imagens, sob forma diferente".( Está no Diário Crítico, 3. Volume, grifo acrescentado)

                         Foi essa equivalência que sempre procurei em minhas traduções.

                        Achava que há versos que, nem quebrando a cabeça semanas a fio, a gente consegue traduzir.

                        Não se trata de poesia intraduzível por sua própria natureza, como a de Mallarmé ou a de Valéry, em que a emoção poética está rigorosamente condicionada às palavras ( e foi, creio, nesse sentido que Mallarmé disse a Degas que a poesia se faz com palavras e não com sentimentos ), mas de poesia traduzível até em prosa.

                        Ponho hoje uma exclamação nesse dizer, e não sei atualmente se considero ainda humildade  relativizar uma provável impossibilidade de tradução perfeita embora correta. Mas que acho que é racionalização de impotências episódicas face a determinados textos,diante dos quais, para mim, a falta de rapidez, somada à insistência, à tenacidade, têm que dar certo, têm que operar o milagre.

                        Não há texto intraduzível. Até o som do sentido pode ser transposto, do sânscrito para o chinês, só uma questão de paciência e fanática dedicação.

 *****

                        O amor pelo texto pode prejudicar a tradução... 
                        Você acha que está bonito transcrever, como fiz ?                    

                         

                        REMEMBER

                         Recorda-te de mim quando eu embora

                        for para o chão silente e desolado;

                        quando não te tiver mais ao meu lado

                        e sombra vã chorar por quem me chora.

 

                        Quando não mais puderes, hora a hora,

                        falar-me no futuro que hás sonhado,

                        ah de mim te recorda e do passado,

                        delícia do presente por agora.

 

                        No entanto, se algum dia me olvidares

                        e depois te lembrares novamente,

                        não chores: que se em meio aos meus pesares

 

                        um resto houver do afeto que em mim viste,

                        --  melhor é me esqueceres, mas contente,

                        que me lembrares e ficares triste.

 

 

                        Me lembro que  quase me desesperei quando vi que não conseguira transpor o que foi dito no enjambement dos dois últimos versos do terceiro quarteto ( não se esqueça que é soneto elisabetano, três quartetos e um dístico):

                         "For if the darkness and corrruption leave

                        A vestige of the thoughts that once I had,"

                         Hoje vejo que quintessenciei, olfatei, fragranciei ( olha o Modernismo me rondando de novo !),  que fiquei vagando no conceito de substituição poética que Mário de Andrade doutrinou em seu último escrito, publicado, acho, no dia de sua morte. Nele, Mário justifica recursos, meus, que posso agora creditar à época, à diferença que malbaratou entre prosa e poesia , à impaciência e...à falta de dedição exclusiva.

                        O tradutor não pode escrever.

                                               *****                 

                        E o verso-começo de nossa conversa, Luciana,

           

                        " [ ];  you understand

                        It will be late to conseul then or pray.",

 

teve perdida o que deveria ser sua tradução pela desculpa que dei de tratar-se de um viés anglicano, religioso, penitencial:         

                                                                       " você entende:

                                   s´rá tarde pra conselhos ou pra orar!

 

 

                                   Bem, ...

 

                                   Abração do FLORIVALDO Menezes

 

                      

 II- PARA UMA SEGUNDA-FEIRA PRÓXIMA À PASSADA (25-02-02)

 

                      : No dia da última folga semanal de Luciana, perdi a viagem de vê-la pessoalmente, mas fui para entregar-lhe algo sobre tradução.

                        Perguntei a um seu colega onde ficavam suas coisas; apontou-me ele uma gaveta e, despreocupadamente, colocou lá meu envelope.

                        De repente vi um papel com minha assinatura em verde e, sem que ele visse – embora a assinatura fosse minha, poxa! – peguei-o e li.

                        Fiquei a princípio atônito, em seguida abilolado e finalmente estarrecido: via lá coisas minhas, de minha alma, tudo misturado com tiradas que eu conhecia, mas de quem?, de quem, meu Deus?, eram-me tremendamente familiares! E a que título tinha o autor aquela proximidade intelectual, diria teórica, com Luciana, embora eu não tivesse direito de indagar?

                        Antes que pudesse recompor-me, meio que cismei  que um sujeito alquebrado, de terno cinza algo amarfanhado, mas de uma limpeza limpa e burocrática, (metódica, pois os punhos da camisa, desbordando um pouco, davam para ver um zelo de solteiro, de um solteirão resignado) se esgueirava para fora da livraria, no meio de muita gente, picando a passada, como se fugisse de algo até criminoso. Segui-lhe os passos, mas acabei perdendo-o de vista. Percebo que uma espécie de decadência está começando a rondar-me, pois o sujeito parecia-me muito velho, mas muito velho mesmo, com aqueles passos trôpegos... que vergonha para mim, nos meus vangloriados setenta anos pespegados, não poder alcançá-lo.

                        Na pressa de ser surpreendido, e como  era eu co-autor da coisa – estava lá minha assinatura ! – , fui à xerox, copiei o documento, devolvi o original para a gaveta de Luciana.

            Meu Deus: como pode alguém esquecer-se de que foi um dia tradutor de um soneto, e justo de um soneto que chamara a atenção de Luciana, que na véspera ela apontara, tanto para mim como para ele, pelo jeito, com ...aqueles dedos, os mesmos que o cidadão chamara de "delgados dedos de deusa", numa afloração verbal de adolescente?

                        Me lembrei que esse alguém falava em "dedos de deusa" toda vez que via uma ninfeta, uma adolescente ou mesmo uma escondizente bem produzida: ele babou pelas pernas de Elsie Houston ( eram realmente tão ou mais saborosas que as de Marlene Dietrich ), se derreteu ao chegar perto de Hilda Hilst nos anos setenta, depois de quase desmaiar na proximidade do calor ( incrível, mas era frio) de Marta Rocha no famoso coquetel do Hotel Jaraguá.

                        Mas junto, lá pegadinho em seu texto, estava minha expressão "botticelli anamórfica", impressão que me causa Luciana, quando, rápida, se desloca para outras estantes da livraria e uma parte de seu ser fica ali, se esticando, visgada!

                        Por sua mulherenguice só podia ser ele. E a nostalgia meio gagá do mulherio, recôndita em seu "tom de voz" !

                        Mas o que me gelou na certeza de quem eu pensava que era foi aquela tradução do soneto!

                      No entanto, na semana passada, após referir-se a Orestes Barbosa, ele expõe literalmente suas dúvidas cinqüentonas, nos anos quarenta!

                        Põe sessenta anos nisso, Luciana , e o "goblin” – vamos chamá-lo assim em homenagem às entidades do livrinho da Christina Rossetti – está com mais de cem anos, não é possível!

                        Isso explica que tenha se esquecido que traduzira o soneto e que tenha se lembrado de procurá-lo logo ao chegar em sua casa. Nessa idade... mas...e a organização mental de localizar uma crítica de Sérgio Milliet a seu respeito? que se tenha lembrado do teor do último artigo de Mário de Andrade, publicado no dia de sua morte e que, indiretamente, lhe dizia respeito?!

                        Como explicar tudo isso?

                        Além do mais, está tudo misturado com coisas minhas, que eu queria dizer a Luciana, aquilo que falei sobre o aspecto religioso ter impedido a mais mínima correspondência vocabular, na tradução, com os versos do  original que falam do tardio para dar conselhos ou para rezar ( uma desesperança, uma desalternativa trágica!). E sublinhei – ou foi ele que disse? – que não se tratava de poesia intraduzível por sua própria natureza, como a de Mallarmé ou a de Valéry, em que a emoção poética está rigorosamente condicionada às palavras .               

            O milagre maior da tradução do soneto “Remember”, que transcrevi na semana passada, é, primeiro, a exemplificação mais típica de substituição poética  de que falamos ( foi ele ou eu que falamos?!?!?!): as imagens se refletem num espelho embaçado, que vai destransfigurando aos poucos, ficando claro, até à nitidez. Você vê o original com outra roupa, outras feições, é preciso reler "O espelho" de Machado, entretanto com o assunto invertido. Que ousadia de não usar da menor correspondência léxica, da menor costura sinonímica, nem nas entretelas (veja isto com uma costureira), nada ! Outra coisa, a transposição camoniana nos fechos dos tercetos ( ali estão fundidos o último quarteto com o dístico do soneto elisabetano). E aquela saudade magistral nas rimas externas com as internas, em tempos de verbos onde os ss ressumbram:

 

                        "No entanto, se algum dia me olvidares

                        e depois te lembrares novamente,

                        não chores: que se em meio aos meus pesares [ ]"

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                         Tive vontade de levar-lhe ontem isto que escrevi hoje, era só uma questão de truque literário de ubiquidade, mas não era fácil fazer na hora, embora esteja muito familiarizado com as interpretações transmediúnicas de Glenn Gould, nos “tempi” que aplica nas mal amaldiçoadas sonatas de Mozart ; mas isto é um apoio místico para meus desvios de qualquer ordem e sobre que e quem já escrevi na década de 70, um petit morceaux do capítulo 16 publicado na revista “ESCRITA” ano XI, n. 35, 1986.(“Ensaio-Poema sobre Glenn Gould”, do quase terminado “ Glenn Gould – do amor livre ao amor living” ).

                        Ontem cheguei a entrar na Cultura, cumprimentei você de modo displicente, porque estava naquela hora aflitivamente atento ao vulto da figura a que fui atrás na semana passada, uma figura parecidíssima com nosso grande vate pré-beat, dirigindo-se àquela  sua gaveta. Cheguei a dizer a você, recorda-se?:

                        - Luciana, vejo você daqui a pouco, depois falamos, pois quero ver se aquele cara ali é mesmo o Manuel Bandeira.
                        E corri atrás, no conforto - comfort de que estamos no Brasil, terra em que ninguém nasce, todo mundo reencarna.
                        Era mesmo um cara muitíssimo parecido, talvez fosse até ele, me arrepio só de pensar.
                        Fomos para um café, que virou whisky, saímos do Villa-Lobos e ficou tarde pra voltar.

                        Abração do FLORIVALDO Menezes

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                        Luciana:

 

                        Modifiquei um pouco, mas às vezes substancialmente, a “carta” contendo as “Duas borgeanas”, que lhe enviei  há pouco mais de um mês.

                        Eu já tive a intenção originária de fazer dela um “conto” e isto que lhe dou agora é sua versão por enquanto definitiva.

                        Como fará parte de meu livro (alguma parte dele no prelo, pois conterá literatura visual e virtual também, com clips e demais etecéteras da multimídia), gostaria de dedicar o conto a você, que, de certo modo, o inspirou. Afinal, foi sua infalível garimpagem que levantou a bola da Christina Rossetti.

                        Veja se não há nenhum incoveniente na dedicatória.

                        Se me permite uma exegese:

1.                                         - Quem escreve a você sou eu, mas, a partir do momento em me esqueço de eu já traduzira o Sonnet, já estou borgeanamente reescrevendo Manuel Bandeira (o homem não reescreveu o Quixote?!) Manu falando na Christina Rosseti, nos métodos de tradução dele Bandeira, do elogio desse método feito por Sérgio Milliet e do artigo do Mário de Andrade sobre ele, publicado no dia da morte de Mário. A carta passa a ser de Bandeira para você. Mas o leitor só saberá que é ele no final, se não conhecer aqueles textos sobre poesia, tradução e cacoetes do poeta. Continuo eu, de mentira, falando a você.

2.                                         Mas, linhas acima, falo em MacPherson (Ossian), que, na hora, eu, Florivaldo, havia me esquecido do nome, você se lembra? Aproveitei a compra, que fiz de você, do livro do Robert Browning,” O flautista de Hamelin”,  para amarrar o relato em alguns símbolos : o conceito da “dramatis personae” (Browning, invenção de autorias, que acontece a toda hora no relato, e, na carta, falo eu, fala Bandeira)  e da “invenção de Autor” (MacPherson/Ossian x Eu/Bandeira), são de minha autoria, Florivaldo, como também as passagens sobre inexistência de intraduzibilidade etc. etc. A primeira parte da “carta” termina com o espírito de Bandeira reencarnado em mim.

3.                                         Na segunda borgena ( PARA UMA SEGUNDA-FEIRA PRÓXIMA À PASSADA ), eu, Florivaldo, volto à livraria para entregar-lhe a “carta” com os dois relatos, mas como se já os tivesse entregue, ou, talvez só a primeira parte...

4.                                         Vejo lá um cara se esgueirando de perto de sua gaveta. Nesta está a carta, com a minha assinatura em verde, como se eu já a tivesse entregue, na semana que passara. Mas tem as célebres passagens de Bandeira e eu fico atônito. Relato a você que saí atrás daquele velho de terno cinza , e que entretanto o perco de vista.

5.                                         Acentúo que na carta há uma passagem em que ele fala em suas “dúvidas cinqüentonas” (nos anos quarenta), a propósito de sua escolha do verso de Orestes Barbosa (“tu pisavas os astros distraída”) como o mais belo da língua. Perplexo, deduzo que deve ter mais de cem anos ; e se refere a você como a de delgados dedos de deusa, galante frase feita de um garanhão que foi livre-atirador. Refiro-me a algumas de suas quedas pelo mulherio e cito até a passagem do Hotel Jaraguá, na noite de homenagem, em São Paulo, à Miss Brasil, Marta Rocha. Ele babava, literalmente, eu realmente estava presente, tinha meus vinte e poucos anos.

6.                                         Quando volto para entregar a você a carta, que, no flash back, já havia sido entregue, mal cumprimento você (aconteceu na realidade e, desde então, nunca mais a vi), porque percebo que o duende estava lá, fui correndo atrás dele, só que, desta vez, o alcancei. Batemos um longo papo. Era, para os efeitos borgeanos do “conto”, realmente Manuel Bandeira!

 

Desculpe-me pela exegese, mas é de minha filosofia artística, criar com bulas, pois para mim é mais importante algo obscuro explicado, do que as coisas muito claras mas muito óbvias.

 

Abraço do FLORIVALDO Menezes. S. P., 21-4-02.

 

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PONTO CEGO

- conto –

 

 

            Tive um tio abastado e versátil, que costumava dizer-me, no meu tempo de criança, que a criatura humana possuía duas almas: a interior e a exterior, que esta ultima podia ser uma agulha, ou para dizer pouco, um objeto qualquer. Isso no tempo da escolinha da Consolação. Mas, o diabo do tio falava-me em complemento do homem, de ego, uma confusão do inferno, que entendia eu, naquêles tempos! É a mania eterna do sábios para explicarem um fenômeno por meio de outro; enfim, cousas! Que custava dizer êle que a cousa era um naco da gente, um enigma recôndito, que a alma bruta, a de fora, era a minha gravata preta, aquela gravata tenebrosa que eu tanto amava? Mas, já que falei dela, vamos à gravata.

            Hoje está desbotada, o negror virando madrugada, madrugada cinzenta, de mesmo aspecto antigo: parece até que vive, e, não sei por que manhas, uma estranheza caipora, sei é que chego a repelí-la num movimento instintivo, abraço-a noutro, enfio-me em seus braços negros agora, largo-a em seguida, mas nunca cheguei a desgostá-la, positivamente. Talvez porque me acompanhasse a existência tôda a feitura sensitiva da matéria, ou que se assemelhe a uma reprimenda de um remorso antigo, não consigo vê-la sem lembrar-me da escola e dos tipos que sempre tive em mente. Tipos que emergem lá do escuro do ser, machucam a gente, abrem talho fundo, cicatriz teimosa que se não fecha nunca. A toleima da chaga assume um tamanhão infantil, ares de candura, que ouço Tião, Lazinha, Bartolo, Pacanho, Manuel, o Alvarenga, Totó Granfino, a cambada toda.

            Eu sentava-me no ultimo banco, era magro e fino, ôlho parado, nariz não digo de que jeito, usava um óculos de lente espessa, aro de tartaruga, roupa discreta mas bem talhada, orgulhosamente larga. Aqui, o Tião, negrinho luzidio; ali, o Bartolo; mais longe, o Pacanho, o Manuel; à direita, Lazinha; atrás dela o Inácio, vesguinho  lascivo; depois, o Alvarenga, o Totó Granfino, tôdos.

            O mestre-escola, sêu Batista, bojudo e decrépito, entrava na classe balançando a toga imunda, sórdida, era um silencio de se ouvirem indiscreções das moscas. Empinava o pescoço toruloso, gesto muito fútil, e passava de revista a classe.

            - Estenda a mão, Manuel.

            - Pronto, senhor, tremia o portuguêsinho.

            - Isso é tamanho de unha? Sujeira e mais sujeira.

            Choviam piparotes no côco rapado do coitado, era chôro, lamúrias abafadas, a mãe do mestre entrava no meio, tudo escondido, misturado a tristuras, o mais. Depois, sentava-se na frente, passava lição, abria um calhamaço, afundava nele á larga, a classe ficava a vontade. Eu, lá de trás, sentia uma atração profunda por êles todos; amava-os ternamente, chegava a saborear de modo indecoroso, o pescocinho cálido da Lazinha. Não digo que não gostasse dos demais, que seria um disparate afirma-lo; mas Lazinha, de olhos atrevidos, era um capítulo a parte; posto que me parecera uma laranja, doce e fresca, no meio de sabugos do milharal, já era o bastante para colocá-la a meu lado. E ainda digo mais: não gostava de milho e tinha sêde, uma sêde desmedida, de gente grande.

            Não sei que instinto me levava a analisá-los de perto, demoradamente, afim de mergulhar nêles a minha fome de curioso, sentir o que êles sentiam, etc. E de acôrdo com cada um, sentia-me ora grande, ora gigantesco, ora inseto, e – por que não dizê-lo – a inveja comia-me as entranhas pausadamente, uma diapasão esfaimada, gula do nada, hoje veio eu. Pegava dos óculos, tirava-os dos artelhos encardidos, um palmo deante do nariz, apontava um dêles, a imagem se formava, a principio difusa, depois nítida, estava preparada a anatomia. Era só escalpelá-la. Pacanho, Manuel, Inácio, Totó Granfino, Tião, Bartolo, todos passaram pela minha lente. Gesto instintivo, oculos á frente , é Pacanho, o italianinho do Brás. Virgem Mãe! Como é feio, que bruta ôlho, ôlho esquisito e triste. Pega do lápis, escorrega no papel, faz a conta de multiplicar. Engasga de súbito no 7x8, simula serenidade, coça o joelho, toca um mosquito, olha o sêu Batista, “tá distraído”, e desabafa-se.

-         Pst!

-         Que?

-         7x8.

-         O que?

-         7x8! 7x8! 7x8!, e desespera-se.

            O Totó Granfino, menino mimado e rude, pensa que mente, gosa, e vomita:- 56.

            O Pacanho lambia o 56 caido do céu, traçava-o logo, porca la miséria, uf!, orgulho entrava nele, êle sabia que era 56, queria certificar-se, forçava um sorriso. E eu lhe vi bem o semblante abatido, os olhos ávidos beijarem o 56, como se estivessem beijando a mãe. Teria mãe, aquêle sardento roto? Mais tarde soube que 56 era de fato sua mãe, e que era lavadeira. Pacanho queria subir, precisava arrancá-la da via crucis: o pai, um bêbado devasso lá das orgias do Brás, que extorquia todo o dinheiro da pobre. Da pobre que ganhava o necessário para não levar muitas bofetadas. Ah! Pacanho divino.

 

- : -

 

            Os óculos de tartaruga adquiriram um ego, o ego do meu tio, puxou outra figura. É o Manuel, pusilânime, pobre covardezinho inocente. Era um tipo mais trabalhado, os olhos belos, sem o calor dos de Pacanho, mas bem mais lindos e afetivos. Sentava-se, e de logo espalmava a compleição óssea dos punhos na faceta da carteira. Mas, que idiota! Sêo Batista mal apontava na porta, lá estava o estúpido, mãos estendidas, a unharada pútrida.

- Ah, sêo Manuel, antegosava o professor.

            Era um gesto automático, que se compunha de uma espiadela, severa repreensão, e chuva de toc-tóc na cabeça do português. Depois, chôro largado! Ali do lado, a vingança que tinham os olhos do Bartolo chegava a espumar na boca descaída, um sarcasmo de petimetri, transbordava a lente. Era só um fiapo de gosma, que descia dos olhos à boca, da boca à carteira, um símbolo de vingança flexível: formava-se o fio, pendulava, e rompia-se no delírio do espanhol trancudo. Um dia, peguei-os de surpresa, e não que quisera, mas não pude escapar á  conversa. O massa-bruta reprimia o Manuel, lá num canto obscuro do páteo.

      - Agora, esfrega mais a unha no chão, peste.

      - Chega, pelo amor de Deus, Bartolo!

      - Tem coragem!? Chega? Vagabundo! O dia que você limpá a unha, vai tê.

Limpo tua cara a tabefe! Ocê não me denunciô que eu tava colando? Apanhei uma semana, mas o véio chato vinga eu. Ah, se vinga!...

      - Pelo amor de Deus!

      - Deixa ver: tá bôa, bem suja. Vamo entrá.

            Entraram, foi outro chôro. Naquele dia, uma quarta-feira?, nem sei...naquêle dia, o Tião apareceu de óculos. Tinha um não sei que em si, uma satisfação imensa, incognoscível, no gesto vago, meio vexado. Sofreu da vista, formulou uma doença, astigmatismo, bruta palavra dificil!, e os óculos lhe davam um impulso intimo, uma superioridade cândida, uma luta interna, indefinida. Olhou-nos já sem medo, parecia até maior que nós, não sei. Mas, no cortiço os outros negrinhos achincalharam-no duramente, preto de óculos é pedantisss, exibido. No dia seguinte, apareceu sem êles. Lazinha perguntou-lhes, êle disse que o quebrara no “quebra da rua”. Emudesceu, tornou-se pequenino, para dali a dois anos morrer, quase cego.

 

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            O dia que eu olhei o Totó Granfino, lá de trás, pela lente dos óculos, recuei, anojado pela boca suja de terra. Vestia-se bem, era orgulho, de orgulho mordaz, maltratava os colegas, escárnio nos olhos e na boca. A realidade mostrou-me o interior do pobre tipo: era empregadinho duma viuva, que lhe dava boa roupa, boas maneiras, mas, desculpem-me a entrada, penso que não lhe dava comida. Êle saia, sorrateiramente, tremia, olhava bem, ia lá pros fundos do páteo, comer ervas com terra e tudo. Anos passados, encontrei-o vendendo caramelos no Pacaembu, êle olhou-me estarrecido, quase soltou a bandeija; fingi, comprei 2 sem mostrar-me confuso, aliviou-se.

            Que me perdoi o leitor a divagação tôda, mas que atente bem, que são pedaços de vidas, arrancados aqui e ali, não com intuito de retratar figuras, o artificio trivial, mas são pedaços humanos que ainda bóiam na dispersão da vida. E que se atente nisso: eu, lá no fundo do banco, já não vivia meu ego. Quando dei por mim, árdua me foi a tarefa de banir a torpeza de um, a timidez de outro, o medo do Manuel, etc. Cousa falaz e enigmática, a observação: tanto se vê um pássaro voando, que um dia batemos os braços, soltamo-nos, e damos com a cara no chão. Foi o que me aconteceu: sentia-me dividido em partículas humanas, uma idiossincrasia, gosava ver o Bartolo intimidar o português, sentia medo do espanhol cruel, dava-lhe até dez tostões para tomar-lhe o lugar, saborear a angustia do Manuel – uma coisa esquisita, que nem meu tio saberá explicar!...

 

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            Enfim, óculos á frente, lá me apareceu Lazinha: tal foi o puxão, que ela sumiu em mim, entrou fundo, um calafrio perverso. Apareceu só o pescoço, o pescocinho cálido da menina, depois o cabelo caido em madeixa no colo desnudo. E se o sêo Batista visse! Palmatória, talvez tabefes! Corri os olhos em tôrno, limpei o suor, impertiguei-me com um desgraçado de mosquito, que não estava ali!

            No 1o dia de aula, apareci lá com gravata preta, mais preta que a necessidade, posto que sempre tive uma atração por gravatas pretas, bem negras, aterradoras. Achei  Lazinha de corpinho ainda inculto, sêio aflorando, braços roliços. O mestre-escola faltou, gazetearam a aula, fomos brincar no parque, e ali ela me contou suas faceirices, falou-me do pai, da mãe, que era bela e moça, um amor de mãe, tudo. Abri umas senvergonhices, a menina enrubesceu, tudo ingênuo, infantil.

-         Puxa! Que óculos grosso!

-         É. Já nasci doente da vista.

            Silêncio.

-         Está de luto?

-         Hein?

-         De luto?

-         Oh, não. É costume, e olhei a gravata preta.

-         Acha feia?

-         Linda!

-         Gosta?!

-         Humm, assentiu.

-         Pois vou usar sempre; faz de conta que é você que está aqui no pescoço.

-         Chiii, você é muito sabido!...

            Depois, chamou por Inácio, veio a turma tôda, brincámos de cobra-cega, pega-pega, marido e mulher, fomos à nossa casa, u´a moita cerrada. E então lhe percebi dois olhos, bem abertos , fuzilando na escuridão, atrevidos, uma volúpia desabrida; deitou-se, mediu-me, uma ironia aflorou na boquinha, silenciou-se. Pronunciei-lhe o nome, puxei-a, ela virou-se, passei-lhe a mão nos cabelos crespos, deixei o beijo no pescoço, que fosse. Ela levantou-se, olhou para um ponto indefinido, sacudiu o corpo, deu de braços a Inácio. Êste olhou-me com cara de besta, levou-a consigo.

            No outro dia, olharam-me com escarninho, e no outro, e no outro também. Notavam-me o corpo ossudo, enfiado em calça branca, camisa branca, gravata azul. Ah, o martirio da gravata! Foi-se a gravata preta; com ela vinha a indiferença da menina. Agora, era uma gravata azul, de um azul berrante, obrigatória, do uniforme. Sêo Batista mal afundava no livrão, Lazinha pegava do Inácio, puxava-lhe o buço despontando acima da boca voluptuosa, olhava-me com indiferença, dava-lhe o nó na gravata azul, menos triste e mais infantil, um gritinho abafado, beliscão. Eu, lá de trás, irradiava um ódio, não uma braveira odiosa de moleque ferido, mas um ódio ubíquo, que batia no Tião, no Manuel, até no divino Pacanho.

            Pouco falei do Inácio, não menos por dificuldade, que por desprêzo. É que, quando levava a lente em frente e lhe via o semblante libidinoso, de buço no beiço (o único de nós que tinha buço), tremiam-se-me as mãos e formava-se o ponto cego. Coincidia a cobiça com o vesguinho lascivo, umas idéias espúrias, êle sumia da lente, lépido. Era o Ponto Cego.

 

- : -

 

            A morte levou meu pai no meio do ano. À saida do entêrro, tive um começo de delírio, antegosava o luto, de novo enfiado na gravata preta, Lazinha notaria, perdi a noção da realidade, só ouvia o grito da minha mãe. Cousa repelente, de criança. Dai a dois dias tornei à escola. Sinto muito, foi o que me disse Lazinha e tôdos. Ela não falou mais comigo; cada vez mais bela e criança, olhava-me a gravata preta, uma e outra vez, não poucas, mas com medo, ou repugnância. Enfim, cousas...

 

FIM

Presidente prudente, 20-9-50

Florivaldo Menezes

 

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GALO DE BRIGA

- conto -

 

            Era de ver-se a angústia do Xandinho, quando quiz contaminar o filho do seu Joaquim da Venda, expelir a alegria tôda  ou parcialmente, e sentiu a palavra tolhida no confim do peito. Era um bagaço de ossos, furando a pele entumecida, cara magra e mofina, um conjunto de anomalias disfarçado aqui e ali. Note-se que não era feio; pelo contrário, não sei que capricho da fisiologia lhe não dava o aspecto da monstruosidade: chegava mesmo a aventar um e outro risco de repelente aparência. Como numa pintura futurista, trocam-se os olhares, a repulsão cede a conformidade, que por sua vez enquadra bem na configuração. Xandinho. Do que ? Xandinho, nada mais. Treze ou quatorze anos, quem os diria, tinha os olhos batidos da vida e da indigência, carregavam o legado da miséria paterna, que não era pouca nem intermitente, mas larga e contínua.

            O pai, seu Ambrósio, vinha curtindo a miséria desde solteiro: sofria duns ataques, epilepsia (êle não soubera nunca pronunciá-la), padecia de outros males, arranjou meio de casar-se. Caso-me e acaba tudo, disse um dia. E casou-se, deveras. D. Alzira, lá dum lugarejo do interior, gorda a não mais poder, ouviu-lhe o pedido com afeição e deslumbramento. Casas comigo? – Sim, foi a pedra inaugural, que traduzo por: - Comes um pouco de minha miséria?- Como! E comeram tanto, que acabaram por vomitar aquelê magricelinha. Que se os não condenem pelo fato, que o pobre escalou, um por um, os degraus da infelicidade, gradativa e madrasta. Escalou o primeiro: veio um sarampo misturado à catapora; depois, um começo de febre tifóide. Tiveram que empenhar o radio. O melhor vestido de D. Alzira, aquêle que lhe apertava as formas rotundas, punha-lhe à mostra a extravagancia tôda. Por fim, o Xandinho colheu do pai os ataques, espumava a boca, caía ao chão, convulso, o coitadinho sofre sem ter culpa, Deus que me perdoi, mas parece que  êle nem liga pros pobres, lastimava a gorda D. Alzira. Era um desespero na família.

            O Ambrosio perdia-se em olhar para o filho, horas a fio, sem acudi-lo nem melindrá-lo, os olhos baços vegetando pela decomposição gradativa, mastigando seus gemidos. Se ora sentia a culpa de ser o pai de um traste paupérrimo daquêles, ora o orgulho, a vaidade de ser pai, não ser êle de todo inútil, entrava nele, corrigia a suposição anterior. Enfim, sou pai. Pai. Pena que o Xandinho é tão doentinho, coitado. E rememorava o pedido de casamento, olhando para o Xandinho, enfiava um contentamento caipora em meio à desgraça da situação. Ele é meu filho, não resta dúvida; a fraqueza humana levava-o à cumieira das sensações espúrias, urgia ver o filho espumar e cair de borco por sobre as pernas ponteagudas, urgia vê-lo padecer do mesmo achaque, que por si só era uma prova cabal de que êle era o pai. Fraquezas, pedaços duma vaidade repugnante, coisas. Homem singular! Pegava do pente, um gesto de inconsciência, passava-o no cabelo, desmedidamente frio, gosando e padecendo ao mesmo tempo. A realidade surgia, batia-lhe nas costas, despertava-o. Ele peneirava umas lagrimas, acercava-se do Xandinho, mimava-o, infantil e sincero, beijava-o demoradamente. A desgraça, porém, possui um contingente de reparação: o tempo, que passou, com outros ataques e outros.

            Agora, depois de chamar pelo visinho, parece que vai ter outro: mas ficou só no parece.

-         Oi João: vem cá; vem ver o galo de briga que o pai comprou ontem.

-         Galo de briga, no duro?

-         No duro João. Olha só o jeitão dele. Bonito, hem?

-         Puxa si é! Mas, dá no “côro”?

-         Se dá no “côro”? você vai ver, domingo. É de briga, seu! Não é galinho de criar, não,  que esperança. O meu pai disse que o homem que vendeu êle ficou rico, de tanta briga que êle ganhou.

-         Aposto que no Caôlho êle não dá. Aposto.

-         Não dá? Pois olhe só; olhe a esporona do bicho!

            Os dois olharam para a jaulinha, ali no fundo do quintal . A fisionomia de um diferia da do outro pelo aspecto e pela diferença de “situação”. Que era um galo, um besta dum galo de briga(esporte bestial!), ao rapazinho ali da Venda? Galo de Briga! Bah! Êsse Xandinho era mesmo idiota, como êle só! Olhou para êle, viu-o juntar as mãos cadavéricas, passá-las pela cara estremunhada, corrê-las pela boca, limpar um fiapo de gosma que descia, gosando a figura do galo.  Do Galo de Briga. Sujeitinho besta, mesmo!

      Xandinho tirou os olhos do galo, levou-os à fisionomia do João, que forçou um sorriso, saiu amarelo – forçado, bem se via --, o menino não deu pelo caso. Olhava-o com candura, como que pedindo uma aprovação à sua atitude extasiada. Viu-a insincera, alimentada pela dobrez repentina; contudo, se não chegou a dicerní-la com exatidão, a lenteza do movimento labial afigurava-se-lhe uma inveja do instinto e da inocência. Não o culpava todavia. Coitado: êle bem que daria a roupa pra ter um Galo de Briga, como o nosso! Vá pedir ao pai um Galo de Briga, coisa de luxo, que apanha pancada e mais pancada. Ora, se apanha! Então não vejo, tôdo dia, o João berrar como louco? É pancada. Vá êle pedir Galo de Briga, um campeão como êsse! An!

      O “campeão” deixava entrever-se, a custo, num e noutro desvão da tela de arame que cobria o caixote. Era uma reclusão animalesca, o galináceo retido a sete chaves; por certo fora uma precaução de momento do seu Ambrosio. É ; depois, havia galinhas ali, dessas galinhas de andar cadenciado, insinuante, que viram a cabeça de qualquer galo.

      - Qual, Ambrosio; não precisa, não. Êsse não é “dêsses”.

      - Bom, em tôdo caso, fechamos, não é por nada. Pode se machucar.

      - Vai lá.

      Trancafiaram-no. Mas o galo surpreendeu a todos, pela mesura de ímpetos, impassível mesmo. Ali foi posto, ali ficou bom pedaço da tarde.

            Não era um galo bonito, fusca-vista,  coisa do outro mundo, vá lá. Mas que era “diferente”, esquisito, foram palavras do seu Ambrosio, e ninguém as desdisse. Estava ali mesmo, a dois passos do quintal, a prova de tudo. Xandinho foi ter com ele logo, arranhou a tela, com vontade com palpá-lo, com tamanho acesso, que  se diria nunca ter visto um galo de briga, um matador, não fosse o fenômeno dos fracos espíritos. Uma coisa esquisita, um enigma, achava na grandeza aparente dos objetos o disfarce à fraqueza do espírito, mesmo do corpo. Mas o galo era bonitão, de fato. Puxava baba de qualquer nego duro, um porte de matador automático, êle via isso. Estava ali, atrás da tela. O João é que era um cego, não reconhecia o explendor do animal. Também, coitado, é inveja...

            Que o Galo de Briga tinha um aspecto diferente, isso nem se discute, estava ali, ali mesmo. O pescoço longo, nu de penas, epiderme dum vermelho-ocre, a cabeça espichada para frente e para o alto; o corpo nem muito grande nem pequeno. Um tamanho “diferente”, não acham, inquiriu com aprovação o pai do rapazote.

            Cocoricava pra cá e pra lá, o andar cadenciado, duro e sêco. Se ora derreava a cadencia do pescoço e baixava o olhar, vagaroso, ora tinha o tempero e o ajuste de um general , vencedor de batalhas, Alexandre, o Grande, xará do filho: o passo medido, olhar superior, de cima, uma tesura irreprimível, que varava tela, corria o dorso das galinhas (curiosas desprezíveis), desmanchava-se num ponto indefinivel. E elas, absorvidas na contemplação do “espécime diferente”, passavam por cima dos chit! chit! e das migalhas da D.Alzira. Uma hora ela veio de lá possessa, vassoura na mão, a galinhada dispersou.

 

-:-:-

 

            -  Que loucura, qual nada, Alzira. Quarenta cruzas. Que é isso? Nada. Ninharia.

      -  Ninharia? Já dava pro remédio do menino, ponderou a mulher.

Ambrosio não disse nem que sim nem que não. Seria mesmo loucura, a compra? ... É; que dava pro remédio, isso é.

- Ademais, pra que serve?

      - Pra que serve?

            Pergunta insensata. Então ela não sabia que êle, Ambrosio, o peitudo, ia pô-lo em aposta com o Caôlho? Mulher ignorante, mesmo. Dava. Dava até em dois Caôlhos. Ganhavam-se os 200 paus, contava-os, saldo:160 cruzas. Comprar-lhe-ia uma jaula nova, bem ventilada, entreaberta, o corpo do galo implacável, à mostra a galinha tôda. Riu-se. Dum riso estranho, diabolicamente furtivo. Enfiou pelo quintal, tirou o Xandinho de lá, privou-o do prazer da contemplação. Que era tôdo seu, privativo. De volta, chutou a Pintada, galinha insaciável, “sai, peste!”, ela desabalou, apavorada.

      “Não, mas êle não é “disso”, lembrava-se das palavras do nortista que o vendera, ontem.

      O Galo de Briga ouvira a transação toda, inteirinha. Que era aquilo tudo? Dependurado, cabeça para baixo, vendo as cousas às avessas, mudando de dono, coisa de mau augúrio. De resto, aquêle olhar mortiço do comprador, junto da tela, situação periclitante, êle o notara, animal e instintivamente. Não que não tivesse tendência “áquilo”, àquêle negócio de galinha; coisa simples; era so seguir outro galo, vê-lo cumprir o cêrco, concentrar os olhos, bico na cabeça, um arrufo: as plumagens confundiam-se, uma comichão apócrifa, o instinto fazia o resto. Estava vingado, o negócio. Mas, o pior, é que êle não tinha jeito para isso. É, não tem jeito, foram as palavras do vendedor quebrando rr na boca.

      - Não tem jeito, não! Quer pior caso do que a “garnizé” lá da casa? Fique adescansado, senhor. A diaba da galinha dava de cima dêle, êle nunca ligou. Pois é.

      Mas o “caso da garnizé” foi outro, o Galo de Briga bem sabia. Bem que aprumara o passo, sem jeito, é claro, mas seguro de si. Não fora aquela mistura de malícia e ventura, as penas brancas mendigando tremura, e aquêle jeito que a galinha possuía de querer e não querer ao mesmo tempo, não fora isso, a coisa estava feita. Demais, que-de o instinto de fatuidade, o ar fortuito, o prazer efêmero, tão comum nos outros galos? Ele não tinha mesmo era jeito. Fugiu à espécie. A natureza fê-lo diferente, esculpiu-o para a união, era um galo de tendência conjugal. Gostava de ovos. Gostava? Não é bem o termo; sentia-se atraído por eles. Quantos não quebrara com o bico enorme, inofensivo, agora “matador”.

      O galo andou pra cá e pra lá. De repente, desferiu uma bicada na portinhola. Estava bamba. Claudicava. Não. Ele tinha de corresponder ao afeto dos donos. E não é que se odiaram, atavicamente, pai e filho, quando aquêle puxou este? Devem estar dormindo. Caiu a noite. Só a maldita da Pintada, galinha insaciável, lasciva mesmo, estava ali, espreitando-o, cacarejando. Deveria estar dormindo, também. Mas não: estava ali, có-có-có, à socapa, dissimulando a espera, ciscando a cumplicidade do chão.

      O Galo de Briga deu um, dois passos, sacudiu as penas, os olhos vagos, esporeou a portinhola. Uma, duas, três vezes; rompeu-a e jorrou, esporádicamente. Tentou serenar o ânimo, debalde. Perdeu o decoro, arremessou pela Pintada. Houve um barulho de penas e conquista que não chegou a concretizar-se, apareceu um galo bojudo, bicadas no escuro. Pintada estremeceu com o peso do intruso, o Galo de Briga apontou uma brecha, enfiou por ela, crispando o silencio da noite, numa arrancada louca. Deixava um galardão de pena em cada páu. Foi-se, bem como os galos e galinhas, mal com as creaturas.

 

FIM

1949

 
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A APOLOGIA DOS EPITÁFIOS

-   conto   -

 

Nota preliminar, atual : Embora se note uma indisfarçável influência de Machado de Assis nos dois contos precedentes, da déc. 40 (ressaltando-se a natural imperfeição face à fonte inspiradora, inatingível para todo o sempre...), o conto que mais se assemelha aos estilemas machadianos, e pretendendo didaticamente, na época, configurar-se como uma espécie de paráfrase de seu estilo, é, na opinião do A., o mais imperfeito.

Vale, tanto quanto os demais, como testemunhos de projetos e ambições.

 

            Certa noite de chuva, no interior duma necrópole esquecida, ouviu-se um rumor leve, como sussurro de vozes, que vinha do recesso das catacumbas. Dir-se-ia que o coveiro , um valdevinos da indiferença, tivesse um acesso de cólicas, e suportar-se-ia com certa paciência, filosofou um corvo machadeano. A verdade é que, não menos estranho que ridente, houve foi conversa entre as lápides. Falaram pouco, não deixa de ser verdade, e ate chegaram a tornar-se humanas, truncadas uma e outra vez pelos dispautérios de um urubú sonolento. Porem, caíram na feitura de rebelião, acabou-se adustando o ambiente, e quando se não contiveram as letras, juntaram-se umas às outras, atropeladamente.

            No conúbio das primeiras, pôde-se ler:

AQUI JAZ

J.F.BIZARRO,

SÁBIO, PORQUE NÃO ALCANÇOU O IDEAL EM VIDA.

            O epitáfio do túmulo fronteiro, por ironia da contradição, ou por capricho da providencia, espertou-se e não pôde calar- se , aventando:

AQUI JAZ

SEBASTIÃO HILARIO

SÁBIO, PORQUE ALCANÇOU O IDEAL EM VIDA.

            À guisa de tão evidente paradoxo, puzeram a desdizer-se, puxando as honras um, forçando outro; ao cabo de dois instantes, nem este nem aquele colhendo o  mérito, conciliaram um meio de resolução.

            - O sábio, trago eu, disse o primeiro.

            - Enganas-te, rotundamente, retorquiu o outro, com polidez. Por que? Ora, porque...

            - Ouve-me, primeiro. Temos aqui um caso de “caráter constante”. J. F. Bizarro, que aqui dorme, veio do norte ainda moço , no melhor da vida. Sabes que  não era belo nem feio; mediano, assim: cabelo crespo, buço ralo, e tinha a mania de  pregar os olhos no teto.

            - Sim; e daí?

            - Daí, também não preciso dizer que era pobre e, podemos dizer, se não era um artista perfeito, era um perfeito esteta, muita veia artística. Amava a musica e tinha predileção por Beethoven. Era de vê-lo ouvir a Quinta Sinfonia! Punha até medo nos circunstantes, absorvia-se logo, grudava os olhos no teto, andava pra cá e pra lá, etc. De repente, notava-se-lhe uma tristeza profunda, quando lhe pendiam os braços, e se  sentia como que malogrado numa aspiração da intimidade. Então, desconjurava tudo. Era ouvir um ensaio de musica popular, desconjurava a tudo  e a todos, e olhava aos céus, a boca pendia, os impropérios atingiam a própria divindade.

            - Ateu?

            - Sim e não.

            - Como? Não me vens com um caso de ambivalência de personalidade!

            - Se não adivinhastes, passas por perto. Quieto, que entenderás. O nosso homem tinha complexo de originalidade. Destestava o Deus trivial, que o povo embarbudou e venerou, mas, no intimo, temia-o e tal temeridade fez com que...

            - ...disfarçasse o...

            - Calma! Êle acabou criando um Deus a quem pudesse venerar, sem que demonstrasse a queda nos princípios da vulgaridade. Atribuiu-lhe requintes artísticos, punha-lhe vários nome, de forma tal que, clamando aos céus o nome de um “Deus Beethoven”, pudesse, num só tempo, dissimular o temor à vista dos interlocutores, renegá-lo superficialmente, e deprecar um atenuante à falsa culpabilidade! Entendes?

            - Se entendo? Era um [ ilegível ] , uma contrafacção!

            - Ora, deixa de verborréia e confirma, colega: foi um sábio.

            - Sábio? E de onde vem o célebre “caráter constante”?

            - É simples. Bizarro lançava mão da música como um refúgio, único ponto de apôio ao fim que engendrou nos refolhos do íntimo.

            - Explica-te.

            - O nosso homem dizia constantemente: “Hei de formar uma religião que constará de um Templo, onde penderão da parede os retratos de Chopin, Liszt, Berlioz, Beethoven, Bach, Brahms ( e sibilava, franzindo o nariz, os olhos no alto). O religioso entra, ouve a composição de um dêles, sai, está prestado o culto a Deus!” E olhando para um e outro, em harmoniosa anti-libação, dizia com eufemismo: - Deus Beethoven!

            - E conseguiu?

            - Não, porque foi constante, um verdadeiro sábio. Abro parenteses para dizer que freqüentava uma igreja protestante, onde um tio era pastor, com o fito de ...

            - Conseguir adeptos?

            - Apre! Não te precipites, homem!

            - “Túmulo”, por favor.

            - Desculpa: com o fito de poder usar do órgão, arranhar alguma peça.

            - Tocava, também?

            - Assim, assim. Vai lá um belo dia , matou-se.

            - !

            - Terminado o culto, pôs-se ao órgão, começou a executar um Minueto, de Beethoven, quando lhe vem o tio e pergunta-lhe o que era quilo, tocar em igreja musica de carnaval (referia-se à adaptação carnavalesca), uma profanação! Bizarro descompôs-se, virou demônio, pôs rictus na cara e disse desvairado:

            - “Maldito crente! Diabos o levem, maldição!”

            Chegou à casa, atirou-se. Mas teve ainda tempo de desviar o revolver do ouvido e puxar o gatilho nas ventas! Nas ventas. Que maravilha! É o símbolo da constancia!

            -  Não vociferes, epitáfio tolo. Bah, constancia! Tens ai o cadáver de um degenerado, isso sim. O exemplo da constancia humana trago eu, aqui mesmo. És o epitáfio da toleima, é o que é.

            O outro sorriu, escarnecendo. Inquiriu com os olhos.

            - Constante é o sábio individuo que usufrui da perseverança na própria vida. Perde-se a existência, ganha-se o ideal. Mata-se com eles.

            - Mata-se?

            - O meu homem, a quem chamo sábio, também mediano, não veio do norte nem do sul; criou-se aqui mesmo na metrópole, e no melhor da vida contava trinta anos, pouco mais. Se não era belo, também não era feio, mais bonito que feio.

            - Sei.

            - Nós sabemos. Era casado, tinha um filho e uma mulher bonita. Aparentemente tolo ( tinha a cara fina e ria-se por qualquer nada, o olhar estúpido, assim), era objeto de escárnio do bairro onde morava. Olha: posso dizer que era o inverso do teu cadáver. Não me disseste que era serio e grave?

            - Ahn, disse. E era!

            - Vá lá. Aceito. Hilário era um tipo de homem vulgar. Amava a vulgaridade, fazia parte dela. Falavam muito da mulher, que era uma perdulária, etc.

            – E falavam verdade?

            - Falavam. Ela os arrastou à miséria. Desgraça puxa desgraça, o filho apanhou tuberculose galopante, o pai tornou-se uma espécie de idiota, sem saber que fizesse. A enfermidade consumia o menino, que virou um bagaço, e posto que de índole impassível, Hilário aceitou tudo com aquele sorriso de estupidez. Atenta bem, companheiro, no que é verdadeiro carater constante. Brigavam, incessantemente, marido e mulher, esta dizia-lhe que se mexesse, pedisse emprestado, não precisariam de muito. Pequena quantia já dava. Internariam o menino.

            - “Em ultimo caso, compra-se essa injeção nova, que remedia, Hilario”.

            - “Arranjo o dinheiro hoje mesmo. Vai ver”

            - E arranjou?

            - Não. À noite, chegou à casa, não penses que desesperado. Não. Veio até com aquela feição de idiota, cara estúpida, sem forçar a natureza. Se a forçasse, diríamos que trairia a constancia instintiva. Se o não fez, tolheou a sabedoria do instinto. Disse à mulher que correu amigo por amigo, um por um, que todos lhe negaram apôio.

            - Então?

            - Então, ela se pôs a madizê-lo, impingindo-lhe os mais desabusados insultos. No calor da discrepância , Hilário rogou-lhe sabiamente que se não exasperasse, arranjaria um meio de curar o filho.

            - “Arranja, você?! Não passa de um inválido!”

            Disse que se mataria.  

            - “Me mato, mulher.”

            - “Se mata? Ah! Patife!”

            E gargalhou, diabolicamente. Dali a dois dias, Hilário recorreu a uma tábua de salvação: um amigo velho, lá do outro extremo da cidade. Pediu-lhe trezentos cruzas.

            - Consegui-os?

            - Sim.

            - Adivinha o resto. Comprou o remédio, e daí vem o “sábio, porque alcançou o ideal em vida”, vais dizer-me.

            - Acalma-te, ignorante epitáfio, e vê o que é exemplo de sabedoria; Hilário comprou, mas foi um Colt 32, enfiou uma bala no ouvido. Ah! Maravilhoso. Tu foste, Hilário, o mais constante e sábio dos homens.

            - Absurdo! berrou o outro túmulo.

            E estavam quase a atracar-se, quando ouviram um ruído ao lado, como um apupo que lhes pareceu um estertor do infinito. Era um velho tumulo, que não trazia epitáfio algum.

            - Tolos, ambos. Sois os epitáfios do ridículo, é a verdade. Sábio trago eu, aqui no Anonimato. Foi sábio, porque não caiu em extremos: constante, porque se firmou no principio da Inconstância. Foi vulgar, foi um crente, não cuidou reformar religião alguma, e um dia esteve também às portas do desespêro. Chamai-lhe Anônimo, que não foi ninguém nem se preocupou com viva alma. Esteve também às portas do desespêro, repito. Quando ia matar-se, no momento em que levava a arma a cabeça, baixou-a, sàbiamente, e apostrofou, traindo dois princípios:

            - Pode falhar.

            Preferiu fazer da duvida uma contradição, a provar o momento da certeza. Viveu noventa anos, crendo e descrendo de tudo. Calai-vos e dormi, epitáfios do absurdo! E que não se interrompa o sono do Anônimo, que só teve êste ideal: não ter ideais...

            - Na velha necrópole, o urubú sonhava a morte do coveiro.

-1949-

 

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Mini-conto. Ou conto pós-minimalista.

Tragédia nominalista. (Apêndice ao poema Heaveling Creatures / Heavenly Creatures, cf. gav. Poesia.)
 

Irascível de Oliveira Filho e seu filho Irascível de Oliveira Neto atearam fogo em todos os cartórios de sua pequena cidade e demoliram a casa em que nasceram.

 

@ - INCESTO [ ... ]  meu conto maldito do Machado de Assis possuindo sua filha : Veja que o assunto é tão grave, maldito mesmo, que inventei uma filha para Machado ( Machado não teve filhos ), para, num tropo de retórica, cujo nome me escapa agora, absolver o Autor e o Leitor do espanto e da indignação, social antes que mais nada. ( "Ah, ele não teve filha!... Assim, podemos engulir...” : tem a ver com sua sacada clássica do: “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” e da “teoria” de que por onde passa um suco de groselha, passa um pedaço de bisteca ( prazeres diversos nunca conspurcando a goela goela)  mas desenvolvida com muita complexidade e sutileza). [ E um cafuné, que provoca na criança um orgasmo lullaby, alimentado pela Teoria da Sedução freudiana, que este, coitado, teve de suprimir de seus escritos em plena fase em que estava subindo como um rojão nos círculos médicos do início do Sec. 20 ? Meu conto tem por epígrafe a sacada epitáfica nas "Memórias Póstumas" : "Não tive filhos / Não transmiti a nenhuma criatura / O legado de nossa miséria"..

@ - INCESTO                      - V.  "EUGENIE DE FRANVAL", de Sade. [ p/ meu conto, Machado de Assis e sua filha, a "eugenia do Florivaldo".

 

@ - INCESTO                      - V.  "EUGENIE DE FRANVAL", de Sade. [ p/ meu conto, Machado de Assis e sua filha, a "eugenia do Florivaldo".

 

                                   - "O ódio à filha, naquele conto do Machado/Orlando-Artur de Oliveira >filha - ad.^os >problema do engulir, v. líquidos>a garganta; a coceira/cafuné como gozo ( e por que não pode ser na vulva?! )>(tudo está delineado dentro da fitinha micro, qual? Que nº? ) .>>>>o ódio à filha = sentimento só plausível numa pessoa estranha, sem elo sanguíneo = que prepara o estranhamento/distanciamento p/ o não problema moral do nháquete ( gíria/onomatopéia de trepada) RRISO Ah Machado!... TTRISTE (moral)"

                                   [ Cf. anotação a lápis no livrinho AS METAMORFOSES DE OSWALD DE ANDRADE, de Mário da Silva Brito ]                            

                                  [ O Machado jovem, na tradução do sonetista francês, naquela festa.

                                   - O “caso” com a mulher do José  de Alencar. ( episódio do “- Bocetas ardendo de tédio “ (como pode, rsrsrs?) , e sua dedução - A coceira é uma dor sorrindo.

                                   - A atriz do rebolado da época, que lhe foi apresentada por Castro Alves.

                                   - A (freudiana) “Teoria da Sedução”, antecipada mais de 100 anos (aquele recuo, pela filha, da parte baixa do corpo (baixo ventre), na hora de um abraço mais apertado de Machado : medo/vontade, inconsciente, dela que, por culpa, se afasta para não colar. O pai sente a sensação e o gesto, se excita, rápido, evitando também. Daí o despertar do desejo de sedução, que partiu dela! E ele levará A CULPA ( Cf. a famosa abordagem, acho que tenho imnpressa da Internet,. ao tempo em que eu não mexia com Internet, e a FOTO  DO ANÚNCIO “Neoskin” da “FOLHA DE S. PAULO, p. E-3 de 21-7-06).

 

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to be continued


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