[
1]
- “James Joyce’s Scribbledehobble – The Ur-Workbook for Finnegans Wake”, edited by Thomas Connolly, Northwestwern University Press, 1961.

[2] - “ Bandeira poeta menor menor menor menor menor [= menormenormenormenormenor = enorme] um dos maiores achados da língua, onde a repetição acarreta a ilusão, no sentido formal, e a ilusão decorre da repetição na assertiva do conteúdo / verificação da verdade! Usando de procedimento escolástico e portanto absolutamente anti-gratuito ( de graça ) , Paes enuncia um dogma – porque oculto – profundamente condizente com a displicência de ego de nosso grande poeta pré-beat. ( o coloquial, no cotidiano, com extratos de lições de vida e de comportamento, sacadas de Irene, o porquinho da Índia etc. etc., com tristes deboches de poesia de solteirão, não a poesia solteira de Mário de Andrade)

[3] - Campos, Augusto de  -  A pessoa mais fascinante como presença e charme artístico e cultural -- de uma limpidez calma e luminosa -- que já conheci . Mas absolutamente subterrânea , acho que cega, ou fanática, no rancor, felizmente raro. Subterrâneo, mas de grutas limpas, sem larvas.  Haroldo de Campos, seu irmão, de quem passei, a duras penas mas agora fervorosamente, a invejar o invulgar CRISANTEMPO, é de uma  “p.m.d.” talvez postiça,  frio nos dois extremos da sigla e cruel em seu centro. Ambos têm caráter quando não são atacados. Pensando bem, sempre se defenderam, nas refregas ou alusões, e quase nunca agridem pessoalmente. Mas quando isso acontece, são capazes de pedir a cabeça profissional do contendor.  Criticados por adotarem um sincronismo literário  naquilo que elegem como paradigma de modernidade, seu paideuma, calcado até agora, por incrível que pareça, no gosto - modelado por seus ídolos de leituras inaugurais, mas quase sempre o infalível bom-gosto da tradição de primeiro mundo - acaba por se tornar oficial. E o tiro de seus detratores, quase sempre sem a base de sua plataforma, sai pela culatra, pois o que estes chamam de afunilamento, é bem o contrário dos afunilamentos tradicionais, que jogam o passado para o presente ( critério político ) : elegem, baseados no fundador critério poundiano, de verdadeira estilística do nunca visto ( i.e., instaurado como Invenção), um fino que passa  por funil invertido, despejando numa vasta gama de interrelações, até mesmo de interações no sentido da Informática. Essa estética jovem, de mostrar o que estava oculto ou subentendido, malgré alguma  alquimia de conceitos, acaba exercendo uma sedução de proselitismo, que se instala por apoio no contato particular e silêncio na estimulação pública. Seus mais dotados acólitos, os poetas Nélson Ascher e Régis Bonvicino chegaram a avoaçar, no limiar dos cinquenta anos, e só não desarvoraram devido a seus talentos naturais. Ascher passou então a ser um herdeiro de Cabral, mas – como disse numa carta que dirigi ao didascálico crítico Ivan Teixeira – ,  um  herdeiro por representação, no sentido  jurídico  da  expressão: “ reelaborado vitalmente, encarnado num jovem de hoje, Cabral falaria com aquele instrumental de "hodiernidade" de expressão usado por Ascher; expressão essa de feição cabralina,  a despeito do hodierno mais perene da linguagem mais universal, embora idioletal, do poeta  pernambucano” ( Carta de 2 de novembro de 1997 ). Bonvicino passou a adotar em sua aguda poesia o que se denomina texto-bula, implícito na  poesia referencial de Pound e Eliot, embora neste mais adentrado no  conteúdo. Arnaldo Antunes mantém-se fiel ao proselitismo, transportando, com talento, às vezes enorme talento, a Poesia Concreta de origem para as diabruras do computador. Na Crítica e Tradução, Sebastião Uchoa Leite se destaca como fiel seguidor, elegendo Lewis e Villon como objeto de suas preferências. Nos moldes.

[4] - Alguns aspectos-vertentes da Poesia Sonora podem ser talvez  erroneamente colocados como ancilae, no sentido clássico, das Músicas Concreta, Eletrônica e mesmo Eletroacústica, bastando, para um bom/mal entendedor, ouvir-se por exemplo “ Visage” , de Bério – isto para ficar no repertório mais antigo . Mas isso se deve exclusivamente à escassês-- quase inexistência — de registros fonográficos dos poetas do Futurismo e Dadaísmo, mas que na época do surgimento de Bério e seus contemporâneos já existiam, pelo menos do Letrismo – , o que desarma a possibilidade de conferir, de duas ou três décadas anteriores, a “música” que seus aparelhos fonadores corporais – suas gargantas – produziam na mesma vertente sonora. Aliás, Glenn Gould, o maior de todos os pianistas ( por causa da técnica )  e um dos Pensadores com segundo código indisponível do século vinte – da família de John Cage, Marcel Duchamp e Boby Fischer –  e sobre o qual me debruço neste livro na hora “desapropriada” , acreditava que seus documentários radiofônicos eram composições musicais, pois, “ chopping it up and splicing here and there and pulling on this phrase and accentuating that one, throwing some reverb in there and adding a compressor here and a filter there... it´s unrealistic to think of that as anything but a composition .... And ... it is the way of the future.... I think our whole notion of what music really is has forever berged with all the sounds around  us, you know, everithing  our environment makes available.”  ( Otto Friedrich, “ Glenn Gould – A life and variation ”, Random House, 1989, p. 185 ). ( “Cortanto, e colando aqui e ali, retirando uma frase e acentuando outra, jogando algum eco ali e juntando um compressor aqui e um filtro lá (...) é irreal pensar nisso como algo que não seja uma composição. ( ... )  E é como vai ser no futuro. (...) acho que toda a nossa noção do que a música seja na realidade  já se combinou para sempre com os sons à nossa volta, com tudo o que  o nosso ambiente fornece.” ( Trad. De Ana Lagôa / Helena Londres ). Quanto ao problema , polêmico, da excludência em virtude de pressupostos estéticos e/ou doutrinários  de cada arte, penso que o próprio Philadelpho, ao se defrontar com a época crítica do aparecimento das tecnologias que possibilitariam a definição, o desenho de uma ou de outra (inícios da década de 50, onde a Poesia Sonora se debateu, em virtude mesmo dessas próprias tecnologias, com o impasse da ressemantização e dessemantização da  Poesia ) , admitiu que “ a poesia tecnológica produzida nos laboratórios nos anos sessenta, cinqüenta/sessenta, Henri Chopin, principalmente, na França, são poemas que na verdade são músicas eletroacústicas.” ( programa radiofônico  “Índice Cultura – Editoria Especial – `Do Impresso ao Sonoro e ao Digital´ ” , Cultura FM, final da década de 90.) . Em minha opinião, usando, na maioria, dos mesmos meios, paro, tanto na Música Eletroacústica como na Poesia Sonora, para aferir o problema da qualidade.  

[5] - Pignatari, Décio – De um amoralismo que chega a obsceno, mas uma genial inteligência travessa, de um moleque sempre atento e solertemente dirigido a dar golpinhos – quando não golpes sediciosos – contra a Lógica. Esse empenho de seleção de espécies não raro assusta, nele, quando pega no alvo, no absconso desejo de brilho de todo ser humano. Tem, entretanto, perante os Irmãos Campos, um pesaroso complexo de Osasco. Mas me parece que sempre abriu ( os )  caminhos para sua geração de peso. Também sabe pescar em águas que poucos conhecem, às vezes sem identificar o peixe. Mas seu senso divinatório intui de modo empírico-exotérico (sic), como uma criança que chora ao sentir dor : não sabe – e não precisa! – explicar para acusar  uma verdade. E é alegre, sem maldade. Muita coisa mais poderia ser dita sobre este fur(ac)ão de idéias... Por exemplo, a exegese louca que Dennis Hopper, o desvairado jornalista, fanático pelo desertor rebelde Brando  (este não tão alucinado) , faz daquele IF  que está no meio da Vida, da palavra LIFE , todo um resumo – não sei quem é discrônico de quem – do poema LIFE, do nosso poeta ... ( Cf. o filme“Apocalypse Now”, mas a versão “Redux”, de Francis Ford Coppola ). (NOTA A PENSAR, DE NOV. 2006: “É um metafísico futurível, naquele sentido que o Medina classifica os poemas de Oswald. / “_È muito inteligente, muito inteligente”, repetiu-me, grave, Haroldo, durante o velório do Edgar Braga, 2 e tantas da madrugada. RECOMENDO LEITURA DO VERBETE @ PIGNATARI, DÉCIO NA GAVETA PORTRAITS.

[6] - O maior benefício da Religião – para mim o único – é disciplinar o medo. O medo indisciplinado é dos maiores flagelos do espírito.

[7] - ESCRITA, n. 35, Ano XI, pp. 13-18.

[8] - As cores enzimas daquele movimento.

[9]- Pág. 13/14, publ. cit. ( Póstero, i.e., o póstumo por adução ( MacPherson para Ossian ), ou por adição (v.g., uma obra de Sousândrade, entre nós) . Uma obra de Castro Alves, escamoteada, seria póstuma por postumidade  típica.

[10]-  Sem título, chamado de “In Verso” a partir do prefácio de Ronaldo Azeredo, Edições Invenção, 1972, o de faca de pão na capa.

[11] Pág. 13, rev. cit., grifo acrescentado agora.

[12] Sítio onde se recolhia Mallarmé.

[13] Tenho gravada uma execução ao piano da parte inferior do poema – os cisnes transformados em notas – por Flo Menezes, o compositor e meu filho caçula: apercebendo-se o intérprete da curiosa coincidência entre o “perfil” configurado pelos cisnes e aquele que diz respeito à linha melódica d’ “O lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky, tocou com algumas appoggiaturas – como justificativa da ousadia, lá estão alguns cisnes soltos em segundo plano... – modificando-se um pouco a altura de certas notas.

[14] Atualmente, e já há algum tempo,  reconhecida como dos maiores semioticistas – talvez a mais “aparelhada”  – do país.

[15] A famosa foto do poeta aos 17 anos, 1871, de Étienne Carjat. ( 1828-1906 ):  [ ENTRA FIGURA 26, LADO ESQUERDO] De sua época de decadência e abandono da poesia, conhecem-se duas outras: de pé, ao alto de uma escadaria de 3 degraus, na África, 1882; e também na África, em Harar, 1883, auto-retrato.

[16] Como se  vê: 

[17] O mundo das aquarelas em que se exercia, nas pretensões secundárias, o grande visionário político e da Infância: “A casa onde mora aquela / Menina cor de açucena / É uma casinha pequena / Casa de porta e janela.”

[18] “ A casa onde mora aquela / gente de Bits e Bedames / não tem porta nem janela, / só alçacéu, pão e manes”.

[19] “Rimbaud-Rainbow”, de 1988, colocava,  numa relação intersígnica – pois a carinha do Rimbaud na calçada é um dado-consequëncia do arco-íris, como acima se percebe – a concepção aparentemente trocadilhesca da posterior obra homógrafa de Augusto de Campos ( 1992 ),  em seu poema-paráfrase-homenagem ao poeta francês, embora seja também – salve a memória arquetípica ! – e afora a tradução,  um belo approach sobre a relação do arco-íris com a variação fono-colorística das vogais, estritamente timbrística, muito semântica e, penso eu, no espírito da Poesia Sonora, usada e apregoada pioneiramente no Brasil por Philadelpho Menezes, cf. Nota 4.

[20]  VIVA HÁ POESIA, edição única de.1979, concepção e criação de Júlio Plaza e Villari Herrmann. Sobre este estranhíssimo poeta, que eu diria uma reencarnação de Augusto dos Anjos: “O Herrmann, eu conheci-o ( era triste, altivo e arredio (*) na casa do Augusto de Campos, 1967?, 1968?, procurando a melhor posição para o K8. Consultava o mestre de toda uma geração de artistas especulativos, “il miglior fabbro”, depois abandonado, e depois invejado.

                                               Herrmann trazia uma bagagem verbal de pouco volume mas grande peso, o soneto “rebus ( et pour cause, digo eu:) sic stantibus”, de melo-logopéias incríveis para sua pouca idade. Vejam depois seu primeiro opúsculo, “4 Poemas”, 1971, Edições Strip [ conferir ]. Mas “K8” reinaugurou uma semântica , embora fisiognômica e caligramática, sem chaves léxicas e rouparias da ribalta transcriativa, e que serviu de modelo para muitos, e para ele próprio. Criou-se com esse poema e mais “Oxigênesis” (!), que já vinha de uma tímida mas tresloucada alunissagem quase intersígnica ( a Desoxigênesis [ conferir isto ] , o vezo – dígito de Herrmann – das cáusticas decantações de atmosferas subcutâneas da alma: esse Augusto dos Anjos da Poesia Concreta, ou Visual, ou Intersemiótica, ou Intersígnica, ou ETC.

                                               Que grande autarquia espiritual  é seu “SomBRas” [ traço em cima do BR] , poema do porão político, algo negro escondido no negrume! O “Poder / Podre / Depor” ( veja, leitor, o grafismo indicativo, original do poema, esse sim, necessário), que uma visão glaucomattosa ( “O que é Poesia”, de Glauco Mattoso, Ed. Brasiliense, 1983) repetiu e acabou “inspirando” nosso maior menestrel (cf. LP “Velo”, faixa “Podres Poderes”, do Caetano...)

                                               Criador de coisas que podemos chamar de poemas-animados ( Ronaldo Azeredo é nosso maior “coisador”, eu já o disse em 1979, jornal “O Ambiente” da CETESB), Herrman brindou-nos num Natal com um poema-cartão ( no sentido mesmo de cartão de Natal) do Conde Drácula, a síntese amor-humor-tumor ( “Tu, só tu, puro amor”, lembram-se, camonianos?) ao fotografar-se, carne-e-osso, com a Miss Kodak de eucatex, tamanho natural, um “retrato de casamento” disfarçofálico e moralmente invertido: a amada imortal (esposa!) não lhe cederá o sangue necessário; mas ambos desejarão – e o fazem – às “excelentíssimas famílias brasileiras um feliz Natal e felicidade na década de oitenta” [ !?!, RRiso] . Só ele!... desejar felicidade por uma década!!! Otimismo de um solitário, não solteirão!, maior namorado da Humanidade que já existiu:  “Papapá – papapá – papapá .../ ...”és noiva do Porvir”, lindo Castro Alves), e que, num lance pré-figurativo visual, transformou genialmente a Valsa do Minuto de Chopin numa Partitura do Infinito!

                                               Na esfera-homem, desse grande homem, tambem só sobra o poeta: tenho sempre medo daquele corpo do outro mundo ( querem ter uma idéia?: vejam-no  em primeiro plano no quadro “ O grito” [ conferir nome daquele quadro] , do expressionista Charles Munch).

                                               Insólito, arrogante, dono absoluto de suas derróvitas.

                                               - Tive vontade de sair na metade, disse-me cansadíssimo, após o documentário, de 14 minutos, de Glauber sobre o velório de Di Cavalcanti, que assistimos juntos em sua até hoje única exibição em São Paulo.

                                               - Que título belíssimo, Menezes!... ( : “Vês, ninguem assistiu ao formidável / enterro de tua última quimera. / Somente a ingratidão, esta pantera / foi tua companheira inseparável!”, o primeiro quarteto inteiro do famoso soneto de Augusto dos Anjos!)

 

                                               E lá pelas três e meia da madruga, numa mesinha de calçada de um botequim da Av. Rio Branco, aterrorizado:

                                               - Vamos tomar mais uma, a última, Menezes! amanhã eu trabalho!!!

                                               Eis o seu rigor.

                                              

(NOTA: O ASTERISCO DA PRIMEIRA FRASE DEVE SUMIR NO TEXTO DO LIVRO – É UM LEMBRETE DE QUE A FRASE É PARODÍSTICA – QUANDO NÃO PARAFRÁSICA! – DO PRIMEIRO VERSO D´ ”O MELRO”, DE GUERRA JUNQUEIRO.)

 

***

( NOTA DE 15-3-03: Este approach,  fi-lo na década de 80  (ele se  parecia muito, não o vejo mais há longo tempo, com Jânio Quadros ; junto uma foto dele e uma do Jânio em outro local no livro)  Em local apropriado do livro, transcrevo trechos de uma linda e tremente carta dele para mim, com a resposta onde teorizo sobre influências reinfluentes, rebatendo-o num lance de humildade e generosidade ( Haydn / Mozart / Haydn / Mozart /  Haydn / Mozart / morte de Mozart).Tb. por acaso o rascunho estava grampeado num recorte do jornal FOLHA DE S.PAULO de 1º de fevereiro de 1981 ( ou 1984?, está meio apagado)) onde há uma chamada: “Se você já está cansado dessa história de ficarem mandando ver isso, aquilo, aquele outro, fique em casa hoje. Afinal a família ainda pode ser um bom programa.”
 

[21] É o que se deduz  do papo de Joyce  com Hemingway, ambos bêbados em Paris, onde aquele, talvez pensando na pletora da escrita corporal de Hemingway, lhe confessou que tinha medo de que seu texto fosse suburbano demais. Chegou a afirmar que “gigantes de seu tipo são verdadeiramente modestos; há muito mais por trás da forma de Hemingway do que as pessoas imaginam”. ( Cf. “James Joyce” de Richard Ellman, Cap. XXXVI, 1936-1939, grifo acrescentado ).

[22] “Observações sobre o estilo de Ernest Hemingway”, in Ensaios de Crítica Literária, selecionados por Harold Beaver, trad. ª J.Silva, ed. Lidador.

[23] Era um meio elogio, pois acho esse músico uma verdadeira súmula da Música até um certo tempo.

[24] Cf. pág. 15 da revista cit.

[25] Questões de ego? Talvez congêneres às de Mário Chamie – meu  querido ex-amigo íntimo,  a maior inteligência de improvisação, escrita ou principalmente oral,  que vi em minha vida, muito bom poeta e talvez histórico quando não apela para o tatibitati teórico e para a versaria—, ao exultar em sua casa que Nara Leão cantou, em “Mamãe Coragem”, faixa do LP-bandeira TROPICALIA:  “ ( ... ) leia o grande ‘Indústria’ ”, seu belo livro, sem se dar conta que ela exortava a ler “O grande industrial”, romance de Georges Ohnet (1848-1918) , escritor hoje esquecido, cujo “folhetim”, muito lido em seu tempo, era ainda palavra de ordem de toda burguesia “ilustrada”do Brasil. A confusão era plausível, talvez pela cadência melódica da frase, em fim de compasso, pois a tônica musical obrigava a transformar a palavra industrial em proparoxítona. Era a época que antecedeu a disputa, velada, ou entre amigos,  Augusto de Campos / Caetano Veloso x Mário Chamie / Chico Buarque, e que sobrou prum TomZé acabrunhado ( antes: recalcado ) num oblívio que durou até seu resgate, recente, pelo algo decadente mas esquisito David Byrne e pelo consequente recenseamento do  livro-chave dos pop-marginais importantes ( v.g. Linton Kwesi Johnson ! Ib. Morrissey ! do “Smiths” ):  “SPIN Alternative Record Guide”, A Vintage Original, october 1995, First Edition, pp. 414-415. Ou, um giro pelos diferenciados, pré-cults.

[26] Magalhães Pinto já não era Ministro das Relações Exteriores  ( Foreign Affairs ) quando editei o poema no livro de 72. “Relações Anteriores” – no livro, “Beforeign Affairs” – era então resultante dessa condição, um Brasil negro emoldurando o medalhão do retrato, e que também nascia, no processo de elaboração do poema, do que vem antes do joelho... À época deixei com um filho seu, executivo do Banco Nacional, agência Edifício Itália, a seguinte carta com um exemplar do livro:
 

                 Prezado Senador Magalhães Pinto:
     “Numa época de tribulações políticas de todo lado (1968-69), estava eu cansado da velha poesia e então resolvi, não sei porquê, cifrar, no código semiótico, os amargos poemas cripto-político-sociais do livro que lhe mando”.
     Achava que a Poesia Concreta estava modorrenta em sua deambulação lírica e formal; e, se algum “conteúdo” (perdoi-se, na época!) tinha de ser revitalizado, só podia ser através dos enigmas mundiais daquela época: os prenúncios de um ulterior respeito pela ascensão da juventude e seu pulo de gato (triste tigre) no cenário da Ideologia oficiosa do País, com o grande enigma dialético do outro extremo (daí o ENIGMAO...) ; o segundo tranco do Idealismo americano, dado pelo assassinato do segundo Kennedy (daí o “Killnedy I, Killnedy II,  ... kill need, do STEEL´ING); a falácia das teorias de McLuhan e o “ruído” da informação tribal (daí o BOA LUZ); a prisão-prostíbulo da voragem visual (daí o TRAMPOLÍNGUA); o alívio final “ABANA-SE ABONA-SE”; o verdadeiro cadáver corado do trabalho noturno daquele triste passado de governo egípcio do “PaPiroPirâmides “Monopol” “, etc etc etc.
     Na época da concepção dos poemas, era Vossa Excelência Ministro das Relações Exteriores e seu esforço para manter nosso país equilibrado era de certa forma contrastante com os balanços (perdoi-me  o involuntário trocadilho) mundiais. O Brasil me parecia um espelho-janela “art nouveau” e via, através do Poeta, as coisas meio tristemente. Fiz então o poema-charge baseado em Vossa Excelência e denominei-o “RELAÇÕES EXTERIORES”, com uma conotação de todo um relacionamento “exterior” de fisionomia (o retratado), e fisiognomia (a relação retratante, ou seja, o retrato triste que ficou , de alguém imobilizado nos limites não anímicos de outra parte do corpo que não a face : a perna). É evidente que, atrás da conotação política, o palíndromo levantava a seguinte tese : se, para Charles Peirce, o grande pensador norteamericano e pai da semiologia linguística, o “ícone” opera, antes de tudo, pela semelhança de fato entre o seu significante (imanência das qualidades) e seu intérprete imediato, ou seja, seu próprio significado, dando-se como exemplo uma fotografia, onde a foto retrata o retratado, pensava eu que o problema da morfologia pode configurar, poeticamente, o ruído, ainda não estudado, existente no problema da fotogenia.
     O livro só foi publicado em meados de 1972 e, não sendo mais Vossa Excelência nosso Ministro das Relações Exteriores, mudei-lhe o nome para RELAÇÕES ANTERIORES (daí o trocadilho que fiz na versão em inglês: BEFOREIGN AFFAIRS...).
     Os jornais da época reproduziram-no, principalmente a Folha de S. Paulo, V. Excia. chegou a vê-lo?
     Esperando que Vossa Excelência há de me ter perdoado a licença poética, renovo-lhe os votos de muito saúde e apreço.

[27] Em um de seus filmes mais famosos, pedala uma bicicleta ao lado de um automóvel, dando a impressão de estar dentro deste.       [ NOTA POSTERIOR, A SER PONDERADA:  “...Quando o automóvel acelera, desvinculando-se da figura paralela, o frajola mostra-se o pé-rapado da realidade” – algo assim...] [ Será o Long Pants (Pinto Calçudo) , de 1927?

[28] Ao  grande amigo e companheiro de uisque e confidências praticamente até a sua morte, quase nonagenário, mandei a respeito de “Algo”a seguinte carta:

                               “Braga,

                               recebi teu algo ( alga? ) com emoção, carinho e algor.

                               deu-me realmente um frio estatelar. não consegui sair dele durante todo-o.

                               esperava o carinho da dedicatória, mas nunca a algozaria de sua imagem – ação – algar.

                               penetrei na noite ilumënado pelas figuras que se antespelhavam, sós, e me fizeram, mal.

                               cheguei a ver um cara de Cristo ( não Rouault ) nas estrelas que você refletiu com distância que nem elas só a noite da direita do poema até hoje me revelou.

                               beleza linda.

                               só a lúcita luz também me ajudou a escalar os alg [ u – a ] res daquele algo indefinido e lúzcito. desculpe a prosápia, mas não se pode fazer outra coisa.

                               ( não ) gostei tanto da lua, embora tenha me fixado, ainda uma vez no espelho da noite, durante muito tempo numa impressão de que aquele tropeceiro cio do silêncio invertido me falava ócio, ociano, ócio ( lá, naquele lugar! ) .

                               cortei a parte de cima do poema e adorei. tive esse direito de usar tesoura.

                               sua obra dá qualquer direito; puxa, como você fez aquela noite daquele solsois! nem olhando uma vez ao telescópio vi tanta luz e falta de barulho. o poema me faz uma falta, falta!

                               tenho um título em inglês pra ele, mas “especulando” e com anagrama (n)egativo daquele soeis: é um contra-senso, mas me roeu: Lumen Noises.

                               sua Eva é uma criança pura. é pintura. parece um edgard braga.

                               todo o POEMA foi uma noite, para mim.

                               um abraço todo-poderoso meu.

                                               F. MENEZES

                               noite de 6, véspera de 6 de julho de 1971.                                              (Pág. 22, Seção 1, 22/23, Em.....Lin.... Col. 96)
 

clique na nota 28, aqui no rodapé, para não perder o final desta primeira parte da Introdução

to be continued


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