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ROMANCE

 

[INÁCIO ARAÚJO, in FOLHA DE 17-9-99, a propósito de “Os deuses malditos”, de Visconti: “Gilles Deleuze escreveu que ‘os objetos e os meios conquistam uma realidade material autônoma que os faz valer por si mesmos’ . Na história de uma família de industriais alemães que se afunda até o pescoço numa aventura nazista, uma almofada é tão importante quanto um massacre. Na observação de Deleuze, sobrevive do neo-realismo original, num filme dos anos 60, a idéia de que pessoas e coisas existem desde que são olhadas. Por mais que aconteçam coisas, são filmes de situação, antes de serem de ação.”]

O romance abaixo, parcial, foi desenvolvido nos primeiros anos da década de 50. A influência de Proust é evidente. Seu conteúdo, entretanto, elocubrava no campo de um certo misticismo (figuras criadoras vs. figuras criadas, p.e.). A carta a Osmar Pimentel, na época junto com Álvaro Lins nossa maior autoridade crítica de ficção, explicava-lhe a concepção e os objetivos, após um papo pessoal e ocasional na casa de Mario Chamie. Ela vem transcrita abaixo, após o capítulo III do romance.
 

(ouça a entrevista com Fernando Rios, em duas partes ( cf. gav. Entrevistas), nas quais se alinhavam coisas ligadas à concepção do mesmo e à maneira de ver Poesia que o Autor tinha na época da elaboração)

 

(REDAÇÃO DA ÉPOCA DO INÍCIO)

 

DATA: Iniciado em novembro de 1952.

 

TÍTULO DA OBRA (“Nausaérea”, originariamente) : OS SENTIMENTOS DIDÁTICOS.

 

ASSUNTO DA OBRA CÍCLICA: O primeiro relato é uma espécie de conciliação proust-joyciana obedecendo à seg. deliberação:

a) Primeiramente, a ação é descrita no estilo de Proust – por conseguinte: num fraseado interminável, penetrante, com profusas digressões de ordem psicológica, etc e onde o acontecimento é visto subjetivamente, isto é, através do Narrador. O início do conto já é seu próprio fim (como acontece com a vasta obra de À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU) e tudo que foi dito pertence a um momento passado, que preparou aquela fração de minuto por onde se desenrola o capítulo (relato). Naturalmente, tudo pode não ter sido senão a expressão de um temperamento e, portanto, uma fuga da realidade objetiva.

b) Em seguida a ação é descrita no estilo de Joyce (o Joyce de ULYSSES) – POR CONSEGUINTE: num estilo sincopado o ubÍquo, cinematográfico, essencialmente objetivo, contingentemente subjetivo (monólogo interior), onde o acontecimento é visto estritamente ligado ao fato, e naquela fração de minuto por onde se desenrola : o tempo, responsável pela existência de todo o passado (e o passado, quando passa a existir, adultera o presente) é nesta parte eliminado.

 

A SEGUIR: II) A Tiróide e a Rosa

                   III) Mulher de Alma Oxigenada

                   IV) O Prazer é Todo Nosso

 

 

[NOTA DA ATUALIDADE: NOS ESCRITOS DA ÉPOCA VEM A FRASE: “QUASE TUDO MODIFICADO” ]

 

Finalmente, o romance entra na fase do estilo fundido, unica forma estética que encontrei para adentrar o “universo das possibilidades impossíveis”, mundo e ambientação de toda OBRA CÍCLICA, cujo ponto de partida é “A tiróide e a rosa”, e onde as coisas também vêem os homens, numa espécie de advertência mística que, se não chega a vingar, no mais das vezes, interrompe entretanto o fluxo vital, iniciando as “possibilidades evitadas”. Como consequência,  liberta-se a criatura no rompimento do convencional. Aquele estranho mundo Absurdo* por onde se movimenta Mariana na parte (cap.) III (“Mulher de alma oxigenada”) da Obra Cíclica, nada mais é que uma “imageria” criada em função de sua vontade subterrânea, isto é, a de trair o marido. E aquela maneira estranha de fazê-lo, num mundo não menos estranho, de costumes inversos, de Moral inversa, onde predomina, enfim, o Absurdo, acaba sendo perfeitamente normal, pois determina seu temperamento nervoso, sua motivação absolutamente velada e satisfaz, de um modo cômodo, implericlitante, sua cabal intenção. Pois evitando, naquela tarde de extraordinária aventura e de grande pecado, encontrar-se com alguém, trai gostosamente o marido; mas não se encontrando com ninguém não é, neste mundo (que não o da novela) um perfeito exemplo de fidelidade?

Ai reside o perene retrato de seu temperamento e a normalização de seu temor. 7-XII-52

 * O universo da Obra Cíclica não é o do absurdo Kafkiano. Tem outra natureza e bem diversa, pelo que aconselho a classificação de suave absurdo, pois é um mero jogo de símbolos e imagens em função de pensamentos funcionais (possibilidades evitadas).

 


 

O homem absurdo de Kafka aspira, ou melhor, é consumido pela transcendência. O de Camus não transcende, antes se antepõe ao de Kafka pelo mito de Sisifo: A pedra, em termos simbólicos, o aguilhoa ao mundo concreto. É o absurdo sem esperança.

O homem absurdo de NAUSAÉREA, como o título do universo sugere, é o absurdo por consequência de uma fuga para as regiões da distração: e aqui podemos falar de distraidismo, em nausaérismo (a verificação de tal fenômeno produz essa espécie de naúsea das alturas). F.M. 17-7-53

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            Afora  o aspecto da chatice que é ler todo aquele entrecho que se desfragmenta, vai para o passado, volta, entra num fisiologismo descritivo,  fisionomias escaneadas..., câmaras-lentas durante o enredo, enfim, não estava nada explicado ao leitor ( v., agora, o Site, introdução ao Romance, quais minhas pretensões juvenís de esticar o enredo)  ( disse uma vez que meu livro, na época o Romance só, era como se escrito num elástico esticado: você soltava as duas pontas, ele condensava reduzia / encolhia tudo aquilo num indecifrável borrão/ponto/sei lá o quê. Era uma estética que veio a ser adotada, na déc. de 50 pelo Nouveau Roman. Mas quase ninguém reconheceu, excetuando Mário Chamie, Raduan Nassar, Modesto Carone, Hamilton Trevisan, Décio de Almeida Prado, então professor da Escola de Arte Dramática ( e diretor do Suplemento Literário d´ “O Estado de S. Paulo”) onde apresentei um capítulo em concurso para uma das 15 vagas. Classifiquei-me numa delas, com Ondina Ferreira, Caio Caiuby, Hernani Donato, José Renato, Gilda de Mello e Souza, Jorge Andrade, Patrícia Galvão (Pagu), meados de 1952, tinha eu 21 anos , fogem-me alguns nomes, talvez por  eclipse do prestígio.

 

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 Os Sentimentos Didáticos ( primeiro nome: “Palimpsesto”.)

                                                           I

                        Teplan!

                        A porta, dando com a cara nos umbrais, soltou um grito amarelecido misturado a uma dessas atitudes vingativas que só as coisas inanimadas possuem, quando nos olham na expressão estática de seu inconformismo natural, para depois exigirem de nós uma atitude de compaixão por sua inexplicável paralisia – o que se dá logo após metermos o joelho ou o cotovelo numa quina de mesa e com o sangue no terceiro andar desandamos a socá-la irrefreadamente, para, em seguida,  pararmos estúpidos a sentir a dor que recrudesce e multiplica – deslocou uma baforada de ar que revoluteou pela sala toda, impregnando tudo daquele perfume de carne fresca misturado a talco, loção e viço.

                        Seguiu-se a tudo um silêncio entrecortado pela presença de pequenas coisas deslocadas – tapetes, papeizinhos em espiral, toalha de mesa se franzindo pelo peso aparente do braço de algum conviva provinciano assustado – e que por sinal nos visitara há tanto tempo, quando a minha mãe, adotando a mesma atitude por causa de rusgazinha doméstica, saiu arrastando a porta consigo, deixando atrás do mesmíssimo “teplan!”, não o perfume vermelho, esparramado, contrabandista de sensualidade como o de Mariana naquele momento, mas um misto de asseio e suór, anacarado e triste – o que contribuiu para que eu, de minha posição passiva, achasse mais petulante aquela manifestação de histeria da rapariga, por uns segundos vaidosa e desprezível em seu manto de perfume espúrio... Coisa que me foi dado pensar talvez pelo enjôo que me provocaram as excessivas exalações, pois Mariana, em seus 7 dias de casada, era um modelo, se não de fidelidade ( o que também absolutamente não nego, por não suspeitar do contrário ) pelo menos de simpatia. Há bem 2 horas antes, quando o ascensorista lhe veio trazer o cartão do marido que dizia: - QUERIDA, PASSAREI A NOITE EM VIAGEM; EXPLICO O MOTIVO AMANHÃ. BEIJOS DO FELÔNIO, isso desenhado numa letra em que não se sabia o que mais admirar = se a visível pressa com que foi escrito ou se o traço bruxoleante e vago, acusando uma virilidade afetada no esforço que fazia para fechar os “o” ( o que deu a Mariana um arrepio que temo não ter sido provocado pelo vento da manhã ) e que lhe fez quase perder a linha e esquecer-se de que estava diante de um estranho ) – há bem 1 hora antes, foi ela quem [ na margem: 4-11-52 e, sob tal data: 5-11-52 ] saiu de sua posição de intocabilidade própria das recém-casadas, dirigindo ao rapazola um olhar que, escorregando pelo nariz, forçou a boca num sorriso melífluo, parecendo dizer: “- Ora, não se impressione! Fique à vontade!” E tal foi a força que imprimiu aos lábios, que me pareceu ter desconsertado mais aquele que, minutos antes, entorpecido pela timidez trazida pelo pensamento de que violava um princípio de inoportunidade, mas ao mesmo tempo maravilhado pelo antegozo de ver de perto uma figura que iria ou não corresponder à idéia que fazia das virgens abaladas, prenunciava o seu aparecimento no toque da campainha: Mariana acabava de se empoar, admirando no espelho os belos seios protuberantes que despontavam de um colo de rara maciez, e ensaiando uma pose que possibilitasse a reconstituição de um passado remoto e que ela só vivera na imaginação: o tempo das conquistas audaciosas do romance de capa e espada, quando se via, naquela petrificação fogosa das Venus provocantes, postada em altas sacadas, à espera de que lhe viessem arrebatar à força e sob o olhar que acusava o reflexo de uma lua onde as crateras ainda eram São Jorge. Diante de tais pensamentos, mexia-se defronte do espelho, fabricando gestos, modulando atitudes, dosando olhares, umidecendo os grandes lábios carnudos e sonhando, na motilidade interior dos maxilares ( esse gesto instintivo de que somos tomados quando caracterizamos: - senhores, a Nação”...(LINCOLN) ou “hum! hum” (NAPOLEÃO) , ou então quando borramos a figura grotesca da última festa ) – sonhando ser uma Messalina que, se correspondesse ao estado de agregação da lua de mel e que ela reputa vergonhosa, entretanto fosse estranhar a todos pela atitude de relutância extraordinária com que precedia a entrega.[ na margem: 5-11-52 e, sob tal data: 7-11-52, nada. Logo a serguir, anotado: 26-2-53 ] Assim, acabou vendo, num lugar que se situava além da face morena do espelho, longe do jogo de luzes mornas que emprestam à nossa figura projetada o aspecto de soturna dependência, um amontoado de linhas que acabava por delinear a presença do marido, primeiro em forma de sorriso, depois encabulado, em seguida com ares de uma espécie de paternidade degenerada: - a linha da testa se diluindo numa ruga que lhe estravasava a face até a base do malar, a arcada superciliar encerrando cinco ou seis olhares em gaza, somo suportes ogivais daqueles tempos remotos que, sob o signo de explêndidas cruzes, entranhavam um mundo de sortilégio, sensualidade e arrepios, numa atmosfera que não se sabe ao que mais convida: se à genealogia do pedreiro, amontoando pedra em cima de pedra, em meio de ufas! e inconsciências remoídas, ou se à vontade de nos desintegrarmos no hino que parece residir  nos encontros que determinam tal perspectiva ou naquele olhar de anjo que pespegam os olhos perversos das catedrais. E perduraria tal idéia, até um séc. de contemplação mais que divagação, se não viesse despertá-la o toque, a princípio surdo, logo se alongando num timbre que denunciava uma campainha apertada de leve, levíssimo, por fim [ na margem: 27-2-53 ] repinicada  num grande anseio de coragem. Quem seria? Seria F.? Impossível. De fato sou bela. Saiu não faz 2 horas.Quem sai somente há 2 horas... A beleza vai aderir à 1ª tentativa de fuga sem adesão. Porisso ela também adere ao primeiro arrepio que lhe bate às costas; não: mais abaixo, torneando a cintura, até se perder numa região que até agora ela não conseguiu localizar: não soube dizer ao certo se nas imediações indevassáveis do umbigo ou no prolongamento do cocix, esse lugar etéreo onde se acabam os arrepios e que convidam a idéia à idéia de outros convites. Mas um sorriso bem calibrado ela soube repor na face do espelho justo onde outra boca lhe endereçava outro sorriso. Uma associação desse sentimento à imagem que ele representa – ou a retribuição simultânea de tal fato – foi o bastante para que se evaporasse a figura de F., agora mais terna que distante, e Mariana tivesse a consciência de que estava só... – O que lhe valeu por um paradoxo, pois se na rua lhe acontecesse transtornar a fisionomia por causa de um mínimo atraso do sorriso contrário ( eu provocava... Hoje, seria desumano... Mas que dá uma tentação, dá!... Ainda mais agora: assim. Não: assim, assssiiim, fffff, com o busto assssiiim) – aí então é que ela se dividia no meio da multidão, sentindo a pressão de todos, a boca de todos, ou a gargalhada que podia explodir de onde ensaiasse uma boca a forma de sorriso. Entretanto, entre o primeiro toque da campainha – ( como já disse, levíssimo) e o segundo ( que denotava empreendimento e audácia ) a nossa recém-casada se entregou gostosamente a um emaranhado de sensações que, se tivessem cheiro ( o olfato é a melhor visão ), recenderiam a esses jardins de Espanha, mas bem longe de Espanha: aqui, dentro dessa moldura, na fotografia que lhes empresta alma. Foi pendendo o corpo, no encosto da banquetinha sem encosto, que ela pôde saborear um F. longe de sua configuração original. O nariz, arrogante, arrebitado, mas que arrogante, desde o primeiro dia de casado lhe cheirava os cabelos, como se eu não tivesse outra coisa pra cheirar! o estúpido! – deixava de ser arrogante, formado no espelho pela  perspectiva brusca que só se sente nos ares das catedrais batidas pelos séculos, ( não pelo tempo, mas pelo espaço, pois uma catedral moderna não avançou no tempo e sim retrocede no espaço, retrocedendo o limite, conduzindo a Beleza à origem, sob a forma de síntese ) – aquele nariz bem que podia lhe cheirar outras partes do corpo, ou simplesmente não cheirar, como agora, no espelho. A boca, entretanto, abrindo-se desmesuradamente, numa confissão babosa, ondulante, muda, perdia o ar que lhe depunha F. na realidade, adquirindo ângulos de uma formidável indiscrição. Mariana chegou até a sentí-la mais arrogante que o nariz e, pondo de lado a idéia de associar o marido a catedrais, [ na margem: 2-3-53 ]  desviou por segundos o olhar do espelho, que de fascinante passava a obcessão [ sic ], arqueou o corpo para frente e, não sem fechar o colo, até então alvo de uma grande agitação, foi cerrar as portinholas de uma catedral em miniatura que parecia fincada na superfície direita do pixixê: em planície habitada, ou antes inabitada, por grampos que se assemelhavam a seres fulminados pela simples estrutura daquele bloco irremediável. Para isso bastou se reduzirem os mortos às pernas, unicamente ( pois estas bastam às estruturas) e Mariana – agora compenetrada, de uma forma semi-inconsciente, de que cedia, desde que se sentara, à força da miniatura e só a isso – vendo aqueles grampos, que do cabelo (maldito nariz) [ jaziam, ou algo parecido ] em volta da catedral, pernaltas e teimosos em sua morte – sentiu um estremeção e divagou, desordenada: quantas vezes ela também não sucumbira à estrutura! Agora, de modo indireto, chegava à fatal conclusão, em que oscilou a vida toda, de que era isso, não há dúvida: a estrutura! Pecado, mulher, o marido, os homens, conceito de família, religião, semi-sentiu: estrutura! Aquele peso aniquilador das catedrais, quando nelas entrava, provinha da estrutura, essa forma bestial unindo pedras que separadas ( ah! separação ), ela aguentaria sem o menor esforço de adesão. Gostava de F., por exemplo, quando este lhe vinha e oferecia um sorriso que ela vira, em criança, na fisionomia daquele tio, cuja atração reconfortante se esvaia [ esvaía [?] ] à medida que se aproximasse p/ beijar a menina, n’um cheiro encardido, não sabia se da barba, e azedo, não sabia se dos olhos, tão estranhos e marcos de uma fase a que chegariam todos os olhos um certo dia, mas que eram de pronto repelidos à simples idéia disso, fazendo o tio levar da menina a impressão de certa rebeldia histérica ( oh, que idiota era ele em pensar assim!), mas que se consertaria com os anos.[ na margem: 3-3-53 ] Ou então aquele acento de presença, embora roufenha,  [ há um pingo/acento no u, parecendo um vocábulo inexistente: vocifenha, vorifenha ] com que o marido modulava a voz, em contraste  com a distância, perpétua, fatal, hodienda nos olhos: uma distância que, se a punha à vontade, entretanto lhe incutia um prazer de pairar além dos limites de uma certa responsabilidade, a que chamarei: gótica, do casamento, mas que só a aturdia depois de sua recuperação real. [ na margem: 4-3-53 ] Agora, por exemplo: Nem ela saberá discernir onde termina a surpresa e começa o cansaço, que não é tédio nem exaustão, mas simples familiaridade, mais delegada que instintiva, que parece dar-lhe ânimo para agir dentro de uma individualidade crescente, justo ( mas é absurdo! ) onde perdura o anseio de agregação, a vontade de se dividir, querendo apalpar o mundo que a apalpa, querendo arrepiar o silêncio que a arrepia, querendo ser sedosa como a combinação [ peignoir ] que a excita, querendo ser masculina como essa falha, essa imperfeição da imaginação, que truncava as coisas pela metade: querendo isso, querendo ser aquilo, querendo querendo, que-ren-do, assim, nesse tom de êxtase, hipnótico, aterrador, sensualidade. De súbito, Mariana virou invasão em si mesma, se bastou, comemorou com grande azáfama. Estúrdia. Adiós. Té loguinho, tetéia. Grande besta! Mariana saiu  do espelho, chamou o marido, trouxe ele até a porta do quarto, lhe disse:

                        - Agora você me carrega e me põe aqui dentro, deitada nos braços, igualzinho naquela fita do Gary [sic] Grant ( e não me pise no vestido! ), mas igualzinho , senão vou chamar o leiteiro. E ele me põe.

-         A idéia do leiteiro aterrou o marido. E ele não    conhecia o leiteiro.

Que não andaria fazendo sua mulher, que já reverenciava  o leiteiro. Deve ser assim:

                        - É aquele, de cabelo repartido no meio?

- Ah, então você conhece?

                        Não. Mas imagina. Sujeito forte, atleta, que agrada mulher, deve ter cabelo repartido no meio. Grande besta. Té loguinho, hein! Onde vou? Passear.

                        - “Não!”

                        E lá vinha o acento rouco mas palpável, eletrizando, lhe provocando um arrepio diferente. Mas o olhar, inexercido, parando lá naquele puto de lugar maldito, era um desafio. E ela aceitou. Na frente, nas barbas ( nas fuças desse peste!),  nas barbas do marido ( Ingrata ), alí, atual, com ares de um cotidiano horrendo, ( eu não queria dizer fuça...) deu uma gargalhada que o fez estremecer, e jurar que nunca, em nenhum planeta, pudesse existir uma gargalhada naquele ritmo, crueldade pura, ritmo pelo ritmo, mas sem a cadência sensitiva, -- saindo de uma boca de vinte e poucos anos. Ficou estático. E sem olhar, ou melhor, procurando enterrar ainda mais o olhar, de uma forma que saissem pela nuca afora, e fossem acolhidos por umas pálpebras que ele não tinha e desesperadamente procurava cerrar, F. se abstraiu e deixou de assistir à seguinte cena: [ na margem: 5-3-53 ]

                        ( A narrativa, interrompida em 5/3/53, foi continuada em 23/4/53, após um período de cansaço físico que provo ao escrever, chegando quase à extenuação total.

                               A ação, já elaborada mentalmente, com todas as variações que sofrerá até o término de seu curso, ainda longínquo, foi retomada nessa última data: veja página seguinte ) [ Esses dois períodos entre parêntese são de época e estão na ordem da escrita ]                

 

                               Estavam os dois numa grande festa, rodeados de gente por todos os lados, suprimidos como uma ilha, assim, infantilmente. F., naquela despreocupação que, apesar de natural, denunciava uma inquietação de sensaboria, ia na frente como um sonâmbulo, abrindo caminho num mar de cotovelos. Como se não bastasse um supremo aviso de um sussurro de enterro, ambientando-os implacavelmente naquela atmosfera de anisedade popular, saltavam-lhe à frente os olhares de espectros dos santos fabulosos: aqui o Santo Antônio empalidecendo numa atitude servil que, bem considerada, entremostrava o símbolo de seus fluidos intervencionistas; mais adiante, o São Sebastião, enfático na dor, resumindo obscuridade, bem menos exotérico nos lábios que na flecha entrepartida; e mais adiante o crucifixo, num esforço de afasto, delegando toda a impertinência aos pregos, de onde pendia um Cristo aquiescendo naquele contraponto de masoquismo e desarticulação mental.

                        Mariana era mesmo a fatal concentração. Aqueles  cinco minutos somente, entre os quais segui-se o préstito, borrado de ladaínhas íntimas ou de suspiros de velhas gaiteras [ sic ] ,as palavras rituais, depois um seguimento pelo corredor no fim do qual as desincumbências da primeira fase davam lugar aos empreendimentos onde a Santa Economia imperava ( pois econômicos  são os casais nos abraços, tanto como no jogo de olhares, dispersados estes pela premência dos pensamentos que afastam qualquer idéia de aconchego das massas afluentes) – aqueles cinco minutos foram cinco séculos. Mariana [ na margem: 27-IV ] sentia cócegas. No pudor. Não chegou a notar a presença do marido, que casava o ar aéreo ao esplendor da fisionomia esfumaçada. Entre um aperto de mão e uma profecia inoportuna, espoliados ambos, limitavam-se a trocar um e outro sorriso ou a se cotucarem furtivamente. O que mais a importunava era se ajeitar à idéia de que a enorme multidão focalizava as atenções na considerável abstração de F. Quando lhe veio por trás um velhote, bambo, os olhinhos trêmulos mas de mão viril e lhe cotucou o homoplata, desejando-lhe boa sorte, respondeu-lhe, com cara de menino cujo sexo não bem se delimitara:

                        - leve-a.

                        Mariana nada fez senão oscilar entre os dois extremos de uma situação horripilante. Porque no íntimo nunca se conformou com a enorme diferença de idade que os diferenciava. Quando o viu pela primeira vez, guardou dele a sensação elástica de um afago que lhe saia das mãos de seda como uma rede envolvendo-a de arrepios esburacados. Isso mesmo, foi como uma rede de arrepios. Ficou entusiasmadíssima em contacto com uma coisa ( podia chamar-lhe coisa ) a que desde [ na margem: 25-IV-53 ]  logo aderiu sem saber onde residia definitivamente a fascinação. Agora, entretanto, também se valeu de uma sensação estranha [ na margem: 19-V-53 ], um outro ser como os que vira  em suas noites de “imemorial desleixo”, que nela se traduz pelo despertar do sexo em situação de povoado. Mais tarde, acidentalmente, ficarão nítidos os acontecimentos daquela fase, e os pormenores de Serrinha, a cidade-fábula da Paraíba do Norte. Lá, onde o sexo se acomoda à economia, e esta extrai daquele as possibilidades ( fatais, às vezes ) de um temperamento infra-temporal, subterrâneo [ na margem : 20-V-53 ] e onde o goso dos grandes momentos  vive em função do que o sexo oposto tem de reacionário ou, simplesmente, contemplativo. Todavia, tanto em Serrinha ( já vão longe seus quinze anos ) como na Igreja da Consolação, foi preciso que o velhote de mão trêmula e compleição bamba provocasse no marido um leve transtorno da fisionomia, raramente intranquila, constituindo-lhe marco da personalidade: Aquele – “leve-a”, tão temperamental, bastou para que naquela mesma noite explodisse o fenômeno de rara consequência: enquanto Mariana, após um começo de pileque, descaía, pendular e eriçada, num mundo de cortinas e frestas aventadas, esvoaçante no leito, F. se dirigiu ao banheiro, de onde saiu envolto num roupão de listras horizontais. Trazia no gesto certa onda de serenidade, nas feições uma sagacidade sutilmente velada, apenas perceptivel para um observador arguto e que tentasse quebar a cadeia de toda aquela absoluta virilidade, por si só um meio de postergar a afetividade. [ está riscado “postergação de uma afetividade apressada”]

                        Quando surgiu aos olhos de Mariana, esta não pôde conter um “oh”, também inaudível, e trêfega, saindo do espelho, puxou o marido para perto de si, e poetisando tudo, degenerando tudo, apresentou-lhe o velhote da cerimônia. O desgraçado do velho é maçante mesmo. Cretino. Decrépito. Mas tem alguma coisa de um tempo que é um pouco meu. Será que foi em sonho? Mas eu já me vi assim. Sou eu naquela – não tem dúvida – situação horrorosa, meu Deus, em que me vi falido dos homens... e das coisas...Sem ter realizado nada. Só. Na porta da igreja. Que destino mais filho da. Não, isso ele nunca seria. Mas, porque será que ela me “amarra” [ não sei se escrevi “amassa” ] assim? Porque será que foi ter essa idéia filha da ( isso ela nunca seria ) de trazer esse desgraçado para dentro do quarto? Porque será que ela. Ou será que não? Agora: veja. Ou não? Esses olhos, Mariana. Ou será que foram sempre assim? ( Não se olha assim para uma moça indefesa, não. Então ele não devia saber que a gente nessas situações é sempre uma mulher... como dizia o Tio...”muito sem jeito, pois” ? Agora. Outra vez:

                        De súbito, no baque surdo, na consciência fabulosa da situação, tão horripilante quanto embriagadora, F. se pendurou no cabide, e veio ter com ela o guapo roupão de listras horizontais. E, à medida que a foi envolvendo, descortinando-lhe o horizonte que a tragou, irremediável, sedutoramente, não pôde evitar o grito enorme, guérrico, que se transformou em gargalhada mais gritante: porque na hora do choro remoído, a gargalhada soa como desencontro de potências; o que vale dizer: pouca bola, muita farófa, pra banda do Norte. E ria, ria, ria, e ele não compreendia que, por cima, como uma múmia amorosa, lhe apertava as costelas, provocando cócegas. Ah! Ah! Ah! E ele tinha ficado preso no cabide. Ah! Ah! Ah! O roupão. O maravilhoso roupão. Que podia ter dentro 2 ou 3 figuras de um album de de políticos. Do Norte. Ou do Sul.

                        Oh, como fora infeliz em beber justo naquela noite!...

                        Instintivamente, ao som da campainha, a visão do marido se precipita verticalmente, em direção ascensional. [ na margem: 17-7-53 ]

                        Mariana atravessa, rápida, a sala. Deixa um pedaço de recordação pendurado neste meu retrato, procurando evitar-me o olhar. Mas o perfume vermelho, esparramado, contrabandista de sensualidade, perdura na insistência de uma consideração que, certamente, exorbita da calma rapariga. Durante essas divagações, o ascensorista deu 2 ou 3 vezes à campainha e, quando ia desistir, Mariana abre a porta.

                        Podia ter dito: bom dia! Mas diante de uma figura que entra balançando, mas num bambolêio opaco, [ palavra seguinte ininteligível: parece escrito extunvando ] o mundo inteiro, a gente tem vontade de dizer: bom sempre! bons futuros! E fica-se sem saber que ralho de coisa [ na margem: 20.7.53 ] exquisita está virando o mundo: essa gente não se define mais!

                        - Bom dia, dona.

                        ... não se define mais, mas se eu ficar mais 1 minuto olhando pra ele assim, acaba se desmontando.

                        - ... dia, dona. Sou o ascensorista do prédio. A senhora já deve ter me visto.

                        Ou será que não me viu? Vivo sempre imaginando, mas que coisa exquisita!

                        ... se desmontando. Vai lá um sorriso, coitado.

                        - Ah, bom dia...

                        ... exquisita. Ah! graças a Deus o negócio já vai melhorando.

                        - Eu trouxe aqui um cartãozinho do seu marido: me deixou hoje cedo, pediu que eu entregasse à senhora, lá para as 9 horas...

                        ... sorriso, coitado. ---------- !!!

                        ... vai melhorando, pediu que eu entregasse agora; na certa, Deus me livre, lá vou dizer isso!, na certa para não acordar a senhora; podia dizer. Que há de mal nisso?

-         An. Do meu marido?

... !!! Que será?! Tréco.

                        - É sim senhora. [ na margem: 21.7.53 ]

                        ... de mal nisso?  “É sim senhora”! – Ah, Gardênia, você morreu na pele, somente na pele! E que mal há em se ficar sem pele? Podia dar um soluço, do tamanho do mundo, mas ninguém notaria, Gardênia! Oh, meu Deus, o pior é que ninguém notaria, pois v. foi sozinha, Gardênia... aquele enterro, Gardênia... eu não fui... ninguém foi... mas, na mesma tarde, perguntando a duas flores, duas heroínas cruzando na beira do túmulo, ... me disseram que v. baixou à terra com aquela mania tola de deixar lembrança... [ na margem: 24/8/53 ] Aquela insistência, que v. tinha, Gardênia, em se tornar presente... Aquilo era ingenuidade, não tem dúvida... mas, pra outro ingênuo, como v. me chamava, aquilo surtia um grande efeito, Gardênia... Mas também não precisa aquela mania, de se sentar na sala, que v. fazia questão de feichar [ sic ] quase inteira, só deixando uma penumbra sufocante, e depois, quando eu me distraia por causa do nosso silêncio, e da nossa distância ( era questão apenas de 2 sofazinhos, meu Deus ), você saia na ponta dos pés e ficava no limiar da porta; e ficava agitando a ponta do vestido; e até que numa hora o puxava inteiramente; e ficava sussurrando atrás da porta. Até hoje não sei se você fazia aquilo de calor ou de vergonha... Oh, meu Deus, que vontade de ficar louco, quando penso que apesar de tudo, eu a via inteira, completa, com os joelhos muito juntos... onde só havia cadeira... E então v. era outra... mais alegre... mais irrequieta... até que sua mãe ( Ah! meu Deus, como me fazem mal os mártires ) aparecia e lhe dava um tranco q. me doia, Gardênia, oh era triste era triste era triste. 

                        - O senhor quer entrar?

                        Mariana rescendia inquietação. Sepélio levou a mão à boca, afim de prender todos os sentimentos que o derreavam. A nossa recém-casada se abismou em verificar aquele melancólico fenômeno de ajuste, preciso, irremediável, entre o maneirismo do ascensorista e seu toque de campainha. Por um minuto ficaram sem falar; e, no meio daquela estática calcárea, como dois trogloditas a se contemplarem, longe do mundo, anacronizando todos os móveis, , que adquiriam feições agressivas, somente  os unia uma espécie de “vontade de planície”: tiveram ímpetos de arrebentar tudo, de sairem se repelindo, fazendo perguntas que escoassem pelo infinito, mas que absolutamente não tivessem resposta. O que poderia ser fatal.

                        - Está muito bem. Obrigada. Meu marido só deixou isso?

                        O cartão. Se ele pudesse, daria uma olhadela no cartão. Tinha certeza de que aquele cartãozinho trazia alguma coisa de consternador. O modo pelo qual o marido o entregou, e se referiu à mulher, como se se tratasse de um inventário para ser entregue a um morto ( uma coisa do outro mundo, meu Deus, esquisito. Ou será o cansaço de tanta coisa que me tem acontecido?), depois a fisionomia da recém casada, alí, a dois passos dele, que lhe lembrava Gardênia, tinha certeza de que havia mais alguma coisa além  “disso”. Agrega, num contrapêso trabalhado:

                        - Só isso, dona. Agora, se a senhora me dá licença, já vou indo.

                        - À vontade. Muito obrigada.

                        Estendeu-lhe a mão. Dois segundos depois, ao contacto morno, diabólico, Sepélio mergulhava num Inferno que só lhe proporcionava uma estranha delícia, e exaustiva. Por um instante, teve vergonha de se aproveitar de um oferecimento inanimado daquele natureza, e não sabia onde enfiar os olhos. Estava que era um puro lascivo beijando um espectro proibido. Mariana reagia de modo perspicaz e não menos deliciada, mas de uma delícia diferente, celestial, acolhedora, com os instintos azulados. Aquela mãozinha afilada, que apertava um aperto inédito, para fora, e  os lábios estranhamente unidos, formulando um perdão maquinal, pelo desabuso de uma descoberta que parecia importantíssima, lhe despertaram todas  as ternuras cabíveis de imaginar. E pela posição que as acomodava, podia-se ver que eram ternuras amorais, mas nunca imorais, melancolia do sexo, que se extingue num momento, de maneira quase brutal, deixando atrás de si um vago de improfanável despedida.

                        Sepélio puxou a mão com suavidade. Imediatamente desaparecia pela porta afora. [ na margem: 30/10/53 ] No corredor,ficou pendendoo entre as duas portas, a do apartamento e a do elevador, ainda meio combalido. Por fim, nada mais achando como pretexto de tornar a entrar, e incriminando-se pelo fenômeno, que já vinha se tornando habitual, de se “largar” infungivelmente a toda espécie de novidade, decidiu-se pela do elevador. Durante todo o encontro, acabrunhador, terrificante, experimentava debalde aquela angélica recorrência a esse sentimento que o tomou, enquanto apertava o botão: esse chamado de ancestralidade, trazido por tanto recalque diante das novidades da vida, ou antes pela incapacidade de discernir entre a natureza das novidades – a de não se  perpetuar – e o seu próprio temperamento – alérgico a todo passado: a capacidade de aceitar tudo como um verdadeiro homem. Mas o nosso rapazola, embora portador de tamanha sensibilidade, nunca chegou a sentí-la em termos de nitidez: diante das pessoas com que tratava, acontecia exatamente o que vimos em seu contacto com Mariana. Reagia com tamanho desespero, que, ao invés de se libertar ( ou talvez por manifestar sua liberdade ), acabava se aniquilando.

Se ele pudesse daria a vida  de, pelo menos, mostrar a tôdos que essa fisionomia transtornada era antes uma fraqueza, não era falta de entendimento, meu Deus. Esse elevador não vem. Eu então sacrificaria tôda minha existência para decifrar o enigma dessa escolha: justo êle, meu Deus, justo com seus pálidos, bambos, doentios dezenove anos , acumulava tanta coisa insuportável. Será que quebrou alguma peça? Ó inferno de vida. Gardênia. Ó santas bondades, tôdos os espíritos do céu, reunidos, o livrassem dessa lembrança. Mas isso era sina. O que adianta arrebentar esse botão, apertar tanto? Até isso já aceito, como sou um sujeito bom, um santo. Interessante. Ainda não havia pensado em como trato tôdo mundo muito bem, com bondade. Será que tôdos eles me vêm com a exclamação – “Mas é fantástico! Estou para ver alma generosa como a de Sepélio?” Isso lhe dá aparência até de homem maduro, de supremo entendedor dos homens de tôdas as mentalidades. E seu aspecto? Pode alguém compreender que, por trás de uma configuração quase infantil, raivosamente tímida, existe um sujeito que, pelo simples olhar, é capaz de aparar o sofrimento de qualquer indivíduo, mesmo o mais gratuito?   [na margem 31/10/53]  Ele já vira , no livro  de um poeta moderno, o sentimento que vem provando na mais ingênua antiguidade: “Perdôo, remanescentemente, a batida de todos os corações que sinto num só peito”. Parecia poeta. Ah; parece que vem vindo! 2, 3...4... Mas esse aspecto pueril ele bem que pode consertar com certo meneio de cabeça. Levanta-a. Auto-esculpe-se. 5...6... A moleza dos olhos, êle também pode fazer desaparecer. Que tal se lhes desse ares de certa crueldade? Fixa-os num ponto além de qualquer espaço. Logra o efeito da crueldade pela cumplicidade da distância. 7...8...9... Mas não adianta. E a bôca? E o nariz? Como iria modificar o nariz? Abrindo as narinas, nêssa fôrça interior? 10...11... Experimenta. Interessante, como começava a existir dentro dêle tôda a pessôa de seu tio Natálio. Era horrível, meu Deus, como é que a gente pode sentir-se outro, repuxando o nariz. Experimenta, sem definir, a sensação de que cada repuxo traz  a provocação de determinada memória, acabando por não se conseguir livrar do tio Natalio...12...13... Faz um leve bico, na ponta dos lábios, já ressequidos de tanto esfôrço; e à medida que vai dilatando as narinas a ponto de não mais suportá-las, percebe o quanto deve ser grotesco o contraste daquele narigão empinado, empertigado, intolerante do tio com seus lábios humildes, quase lamuriantes. 14...

A visão do elevador veio arrancá-lo dessa região tão fatigante do pensamento, e só então Sepélio aventou a possibilidade de estar sendo espreitado, e até gosado. Um leve rubor lhe subiu pela face enquanto fez um movimento de pêndulo com a cabeça, examinando o corredor. A velha do 155 lá estava, no fundo, balançando duas toalhas mas espanando-se a si mesma de tão gorda estava. Do outro lado vinha um ruído de vozes surdas, quase atordoantes, uma gritaria apocalíptica de crianças. Tudo muito estranho, como crianças (eram crianças, não havia dúvidas) como crianças conseguiam imprimir naquela lamentação penetrante um sentido de catarse horrível, de mau agouro! Ouvia-se bem longe uma vozinha anti-natural, anunciando o fim do mundo, que tudo ia acabar, no meio da algazarra, mais avivada pelo toque de um tamborzinho de lata. Mas, no meio de todo acontecimento, o que mais aniquilava era um fenômeno de intolerância, de sobrepujança infantil que se fazia notar por parte de uma voz que só poderia ter saído de algum menino pálido, delgado, na certa com duas olheiras extravagantes: era uma voz que se impunha, reduzindo a barulheira a um estado de senilidade, onde se percebiam as inconsistentes crianças numa condição de velhice, anarquisando, irracionalizando as próprias pausas, criaturas de uma grande liberdade encadeada, circular, pondo um sentido de ociosidade em tôdas as coisas. Tudo se passou, entretanto, num tempo insignificante, quase inclassificável. Uma hora, teve-se a impressão de que uma porta se abriu, atrás do corredor, saindo dela uma mulher alta (notava-se pelo passo) e que mal chegou às imediações da criançada, volveu tôda embrulhada num grito não menos apocalíptico, logo se abafando num cubículo qualquer. Imediatamente, antes que Sepélio pudesse abrir sequer a porta do ascensor, arrebentou dos fundos um alarme de dor, azulado, e ele sentiu aquela angústia remota  que tinha provado na tarde em que se desesperava por querer se esgotar, desaparecer naquela farândula horrível, mas prazerosa e inacessível: saboreava por detrás da vidraça, maldizendo a dor de garganta, com o maldito azul de metileno na garganta, revirando o estômago. Agora era a mesmíssima sensação; até o grito, penetrante, arrepiava num acesso azulado, no delíquio que sufocava.. Quando se “atualizou”; tornou a ouvir os passos da mulher alta, apenas mais agitados, porém compensados pelos de alguém, que deveria ser seu marido. No meio da balbúrdia, que já se tornava insustentável, percebeu que a mulher se abandonava a uma crise de choro. E ainda o marido compensando: êle pôde distinguir seu chamado paciente, advertindo na certa o filho, numa tonalidade de voz que evidentemente se ia arrefecendo diante da algazarra já quase tétrica resvalando pelo sentimental, pois havia naquilo tudo uma nota de sentimento, como se a criançada obedecesse a uma reviravolta lúdica de todos os instintos, embora extenuadíssimos. A mulher aumentava o grito, caindo na histeria, o marido perdia a fala, deixando-se dominar, o fim do mundo se construindo, entre pequenas anunciações, tais como: -“Este é o meu!”, ou – “Eu vou pra outro planeta”, ou então –“Morre o meu avô, que só tosse!”. Tudo muito rápido, mas num lapso suficiente para que Sepélio pudesse se abandonar a uma espécie de tragédia de vizinhança, e esquecesse seus próprios problemas. Ao entrar no elevador, ainda pôde ouvir o casal, clamando pelo filho (e aqui ele teve um sentimento de revolta) e as últimas palavras deste último:

- Pode acabar o mundo mãe... Pode acabar pai... Eu não ligo... Eu é que estou perseguindo...

E um barulho demonstrativo de sua agressividade quase santa. Sepélio tocou para o térreo. Estava visivelmente perturbado, e procurou dissimular o máximo, inventando uma fisionomia de bem estar, que viesse de uma plena inatividade. A engrenagem do elevador o ajudava: era só apertar o botãozinho do térreo (aperta-o) estaria no térreo – TLIM. E se encontrou no térreo. Entrou um  rapagão espadaúdo, pediu pelo 15. Inferno, teria que voltar para o quinze. [ Na margem: Enxertar algum pensamento a respeito do rapagão]. O rapagão não entende muito de intranquilidade, é excessivamente saudável: não percebe absolutamente qualquer sinal de contragosto, e torna a pedir naturalíssimo, como se já não o tivesse feito:

- Quinze, façoavôr.

Tinha uns belos olhos oblíquos, o nariz entre anguloso e curvo. Trajava um terno excessivamente justo,evidenciando o formato atlético cuja presença já se fazia notar, entretanto, no maneirismno dos braços – inclinados  para trás -  e na postura das pernas: uma ereta, apoiando o corpo, a outra levemente sôlta, um pouco mais pra frente, formando um ângulo aparatoso,  nessa posição típica de mulher em sociedade. Entre um andar e outro, não esboçou mínimo movimento nem tampouco percebia a agitação de Sepélio, mexendo peças, apertando botões, procurando “representar” a mínima interferência que fôsse, em algo que, a qualquer vista, era de natureza estável e mecanicamente orgulhosa. Se êle tivesse quarenta anos, como seu pai, por exemplo, mesmo que tivesse necessidade vital daquêle ordenado, acharia ridículas as próprias paredes de um hotel que, possuindo elevadores automáticos, empregava ascensoristas. Tinha certeza de que seu pai, com aquêle jeito [na margem 2-11-53] de pairar altivamente por sôbre tôdos os abismos, mesmo sabendo que se afunda, encontraria um modo de explodir sua revolta, que não era de orgulho, mas antes de humildade; uma humildade cega, talvez demasiadamente áspera, de quem é demasiadamente bom para se disciplinar à miséria. Sepélio, entretanto, com seus dezenove anos sobrecarregados de tanta exasperação delegada, conseguira se enformar nêsse recipiente de grande tensão, embora ultimamente viesse provando os calores de certa fermentação. Qualquer dia transbordava, queimaria alguém. O sinal lhe indicou o décimo quinto, e êle abriu a porta incontinente. O rapagão desceu como extrangeiro e foi saboroso o ato pelo qual se diluiu todo aquêle aspecto de trasmontano: engatilhou um flébil – obrigado – que destoou de tal forma com o físico poderoso, que Sepélio teve vontade de lhe dar um tranco que o fizesse rolar escadaria abaixo. Mas o erro foi ter transbordado a vontade nos olhinhos insignificantes. O espadaúdo se recuperou, ato mediato, com um simples olhar, e efetivo: quando Sepélio se “atualizou”, já estava a meio caminho, mastigando o luminoso do sinal, que descia metabolicamente: 7...6...5...4...3...Ó Gardênia...2...não pode viver sem Gardênia...1...Ela era a presença...Até no vácuo ela aparecia...Ele era passivo, Gardênia...Térreo.Tlim.

No décimo quinto reinava um silêncio de morte, e talvez por isso havia uma quebra tremenda  de perspectiva. Para o teto, subia uma rampa de cimento sem corrimão, abruptamente desviada pela curva helicoidal de gradilhado amarelo, acompanhando a escada. Duas ou três janelinhas de pombo coavam uma luz gordurosa, que vergava  todas as portas, de maneira que, detrás de uma convexidade agressiva, se divisassem os sinais de uma vida comedida, normal, até vulgar. Quem por ali passasse, sem observar daquêle angulo longínquo, é claro, sentiria as emanações de um diálogo sem entraves, convidativo mesmo, mas ostensivamente maléfico: visto de longe, entretanto, por quem sai do elevador e em determinada hora da manhã, exercia tal poder de deturpação visual, que era raro transeunte que não lhe apertasse a campainha a titulo de verificar se havia ou não correspondência entre a “fachada” e seus inquilinos. O número de –“Ó, me desculpe, foi engano!” era assustador. Naquêle dia, no entanto, o que estranhava era a impossibilidade com que o rapagão espadaúdo, tirando um cartão do bolso, atravessou o corredor, sem dar por qualquer nota de particularidade: deu dois passos para a direita, examinou a numeração, volveu-se, atravessou o enorme corredor, incorporando-se à perspectiva. A medida que se perdia na distância ganhava um volume todo especial, pela lepidez com que seu andar alegre ia esmagando  os espaços destinados a um respeito pressagioso: passasse alguém por ali, descobriria todo o fenômeno da perspectiva moderna. Evidentemente, por ali caminhava um ser destituído de qualquer sentimento místico: notava-se-lhe num passo a alegria (e fincava o pé com fôrça), no outro a coragem – e dava ao côrpo um balanço de homenzarrão distraído, a quem a menor concentração pesarosa (nêste caso um tique de solidariedade humana) provocaria uma náusea de lhe virar o avêsso. E o avesso é-lhe insondável. Nasceu para a euforia. Joga com braços. Não vê escuridão. Balança as cadeiras. Não respeita a reflexão da treva: - por aqui pode ter buraco. Alarga-se, deixando um sulco brutal.. Num minuto, tudo deixou de ter espaço. Há volume e mais volume, o homem do séc. XX, transformando-se já em homem póstumo. E o nosso rapagão consegue, quase no fim do corredor, transmudar a rampa em braços voluptuosos, aceitando as résteas de luz coada nos olhos onde brilha uma pletora  sem inteligência, atlética.[na margem:por gostar de todas as coisas. vulgar. absurdo]Então, antes de bater à porta, imprime automático, ares de grande humanização às coisas que o rodeiam. Aí está o colarinho. Enfia-lhe o dedo, faz a volta, como se não tivesse emenda. E foi aprumando o nó da gravata que apertou a campainha. Nem procura ouvir o toque, que vem logo para fora; não estabelece a menor relação. Examina a porta com uma seriedade estupidíssima. Quem a abriu, pode dizer, com a maior propriedade: “- Olá, senhor Vulgar! Então é o senhor? Como vai?” Ele não se importará. Agora já está tornando um pouco, impaciente. Torna a tocar. Dzzziiiinnfff.

Começa a notar qualquer anormalidade. Então pensa alguma coisa. Em seguida, levantando o braço, com muita leveza, imprime novo toque, meio desanimado. Agora, se alguém o visse, o acharia reduzido às verdadeiras proporções: não mais havia quebra de perspectiva, pois vinha não se sabe de onde, uma luz mais forte, que o envolveu, esclarecendo-lhe o semblante, agora de sofredor. Então esse alguém o acharia normal, muito normal. E simpático. E fraco. Dzzziiinnfff. [ na margem 3/11/53]

Dzzziiinff. A campainha veio surpreender Mariana na posição em que à haviamos deixado: pouco tempo se passou entre a saída de Sepélio e o chamado do rapagão. A nossa recém-casada permanecia na saleta de espera, com o cartão do marido entre as mãos enraivecidas, o mesmo ar de incredulidade: apenas a fisionomia um pouco gasta pela situação, que ela forçava por gosar até as últimas conseqüências. Quando a surpreendemos de novo, abrindo a porta, pudemos, com certa facilidade, perceber-lhe uma grande modificação no semblante, que descia pelo porte, dando-lhe ares de um certo esgotamento, e desenhando-lhe a figura de modo que a mesma pessôa, que a tivesse visto um minuto atrás, lhe estendesse as mãos, sem intuito de proteção: ver-se-ia invadida por um desejo fabuloso de apalpar-lhe aquela postura viciosa, que lhe ia bem. Entretanto, durante todos esses acontecimentos, seu pensamento transitou entre o marido e o cartão, sem que isso lhe tirasse o prazer de saborear aquêle encontro tão sensual quanto fortuito, e passageiro. Entre um toque e outro, ela tentou se recompor, assentando o vestido, ainda com o cartãozinho entre os dedos. Se custou a abrir, foi menos pela possibilidade de uma exploração visual, quase infantil mas atraente, que pela impossibilidade de dar com o marido numa posição de ilegalidade: nêsse caso, modificado, rejuvenescido e que se entregasse, como o fez o ascensorista. Mariana umideceu os labios, caminhou até a mesa, deixou lá o cartão, finalmente abriu a porta.

Aqui a necessidade nos obriga a afastarmos e a deixá-la com o rapagão espadaúdo, sem que no entanto não os possamos apreciar à distância. Se conseguirmos deduzir de seus gestos algo de que falam, haveremos logrado uma possível descoberta, que a natureza de meu ponto de vista impede de perscrutar. É que me sinto envolvido pela verdura com que fui plasmado: êsse mesmo instinto vegetal, que me presenteia uma visão escorregada da vida que nos envolve por fora, me impede que discorra sôbre algo que, mesmo que se desenvolva às minhas vistas, me escapa ao ouvido, ou ao tacto visual, cuja aproximação somente se subentende.

É necessário que esclareça que êsse que vos fala com tanto dinamismo é forçado a fazê-lo por sua condição de figura impressionista.

            Quando, no comêço do relato, me referi ao perfume da rapariga, aludindo à “minha posição passiva”, esqueci-me de dizer que a observava de um retrato impressionista. O fato em si se excusa de justificação, pois com o correr da narrativa já se deve ter percebido o quanto há de arbitrário no modo com que conduzo a ação, em sua maior parte indiferente ao meu pensamento ou à minha vontade. Ignoro o mais grosso do que ficou enunciado. Os que tiveram a curiosidade de estudar a arte impressionista desprezarão o que ora se vai assentando a título de esclarecimento de um incidente que pertence à história. Há bem uns vinte e cinco anos, por volta de 1925, passou por nossa casa um pintor faminto que, à custa de uma insistência, que nos desnorteou a tôdos, se propôs fazer o retrato da família. Era um belo rapaz, um tanto gordo, mas de uma gordura interior, que vasava nos olhos portadores da maior amizade que me foi dado contemplar. Ofereceu-se para ficar como nosso hóspede durante quinze dias, no fim dos quais nos entregaria a obra que seria o repositório de tôda uma geração, e onde se exporiam tôdas as virtudes de nossa “egrégia família”, e se esconderiam também as “tarinhas”, que êle fazia questão de acentuar entre duas gargalhadas úmidas, quase murchas e já irremediavelmente familiares. [na margem 4-11-53] Pois, passados cinco ou seis dias, sem que déssemos por isso, o nosso bom pintor se incorporara aos nossos sentimentos de tal maneira que nem siquer cuidávamos do resultado de tôdas aquelas pôses: durante a manhã, defronte à fachada esbatida de nossa casa, a obrigação do bloco vinha tirar meus pais do trabalho, para reunír-nos a todos numa disposição pictórica (quê êle construia e modificava alternadamente) onde pela primeira vez nossos reais sentimentos de pais para filhos e vice-versa se podiam intercalar por um elo de ternura inédita, celeste, abafante, intrusa. Começou por modificar a disposição dos móveis; alegando que tal cadeira embargava a afeição do velho ou que aquêle castiçal excitava a complacência da velha, etc. Em seguida, passando do interior para o exterior, sugeriu a meu pai mandasse reunir tôdos os parentes que morassem em São Paulo; idéia imediatamente cumprida pelo “velho” naquêle domingo inesquecível. Joaquim (era como se chamava o pintor) – Joaquim mesmo fez questão de os convencer. Foi admirável o ato pelo qual, alçando os braços maravilhosamente torneados, e atraindo os parentes naquela imantação das narinas espatuladas na base, êle conseguiu conciliá-los. Mas Joaquim não ficou nisso. Afogueou-se tôdo e fez reunir a visinhança. Para êsses, usou de outro atrativo: correu casa por casa, explicou-lhe o motivo de “uma estatística para a posteridade” e, quando alguém não entendia, arrastava com êle, abraçando-o, injetando-lhe duas ou três gargalhadas bilabiais e muito estranhas. E muito tristes. Todos os dias, durante largo espaço, o bairro desfilava perplexo diante de nosso casa, o que desgostava – superficialmente, embora – a meu pai, fazendo-o não dirigir a palavra a Joaquim por algumas horas. O que se desfazia como por encanto, naquêle caso como por desencanto, pois Joaquim, ignorando a quase multidão perplexa do bairro, abandonava sua distância e, com o pincel e paleta na mão, percorria figura por figura, ajeitava uma, afastava outra, repuxava o chápeu de um tio, para chegar enfim diante de meu pai. Então ficava-lhe olhando o nariz como que artisticamente admirado, mas numa seriedade quase funérea, o que fazia o “velho” abandonar a mágua, à custa do tremendo enigma daquêle empreendimento, infundido na hora...

            Nos fim dos quinze dias, a obra ficou pronta. É certo que talvez não se vissem logrados tôdos os esforços com que foi trabalhada, e não se pode falar em decepção. Acontece que o nosso bom Joaquim nos envolveu numa atmosfera que talvez não encontre similar em tôda a história do Impressionismo, percorrendo de Manet a Renoir, Manzel a Zandomeneghi. A inocência, direi: a pureza de sua arte desprezou o sentido de profundidade que caracteriza o Salão, de Manzel {“Cenas de Baile”, de Manzel}: aquela profundidade que é bem a maneira histórica do movimento, que dispunha os seres numa escala hierárquica, a cada grupo correspondendo tal ou qual motivo, encadeados tôdos num decrescendo de esnobismo; uma relação humana onde os mais imaculáveis seres se colocavam à distância, no fim do quadro, numa feitura pessimista, cuja a seriedade berrava em contacto com a tamanha pasticitade ( porque não dizer ? ) linfática. No nosso caso, fomos plasmados numa mesma superfície. Ali estava a família, e a visinhança, vestidas de meio-tons, numa intimidade primitiva, envolvendo-nos numa auréola que baixava até aos pés. Aqui, se desvendam os segrêdos mais obscuros de determinada pessoa. Acolá surpreendia aquela outra, num movimento de que não a julgávamos capaz, e onde se revelava, embora veladamente. Os pormenores dessa obra que não tenho receio de classificar como majestosa e misteriosamente sábia, serão estudados em seu lugar oportuno: é o único documento que nos resta para reconstituir quase uma sociedade e sua época, onde alguns elementos nos serão preciosos, porventura vitais. Por ora, devo dizer que seu principal enigma reside no fato de que se situa entre o eufemismo arrepiado de todo aquêle mundo interior de Seurat e a virilidade irresponsável de Manzel. Ali figura eternamente minha alma de vinte e poucos anos, numa expressão que traz, no encarceramento da côr, a graduação de minha liberdade diante de todos os eventos ulteriores, até atingir os nossos dias. Quando me casei, há sete dias dei o quadro a Mariana. Ela procurou em vão reconhecer-me. Colocou-o em cima da camiseira, mas logo no segundo dia, impressionada com todo aquêle mundo a nos espreitar no quarto, mudou-o para esta pequena cômoda, onde me encontro. Ah, feliz e ao mesmo tempo cruel Joaquim, que percebeu que só um impressionismo fora de época (1925) seria capaz de oferecer um universo onde os seres se confundissem entre si, e também entre as coisas! Um universo artístico com relação às tendências subterrâneas e aéreas da vida. Que acabasse, enfim, com o microcosmo. Que eliminasse o macrocosmo. Feliz e terrivel Joaquim boas saudades o guardem, sábio criador do mesocrosmo, essa maravilha que, [ 111 de s.m.ra., dist. os vei. de cond..] 1onge de ser moralizadora, distingüe os veículos de conduta.. Pois só assim posso compreender o que se passa, sem me modificar, e compreendendo-me. E ao bater da porta, confundir-me com outras vozes, conduzir as ações, representar o Romancista, que se vai desligando periodicamente do narrador do quadro, aproveitando a natureza das situações como essa, que durante êsse pequeno tempo foi engendrando outras:

Mariana falava com o rapagão, abanando muito a cabeça, deixando-o quase estonteado. Êste replicava a princípio articulando uma interjeição, logo mais anuindo nos olhos, inexpressivos invariavelmente, apesar de belos e esverdeados, e por fim aparando as frases no corpanzil que chamava o sexo oposto à luta, mas exclusivamente à luta. Ao cabo de certo instante, maquinou dois passos em sentido de volta, em movimento de quem quer avançar para algo de que se entedia por prevenção. Dá ao corpo um balanço de quem impõe uma retirada necessária para fortificar a esperança de um novo encontro. Afinal se despedem. A nossa recém-casada bateu a porta e se enfiou no quarto.[na margem 6-11-53] Pela primeira vez, desde que se casara, sentiu necessidade do marido, do amparo que representaria em tal momento. Foi daí que a figura de Felônio foi ganhando corpo numa estruturação que passava da complacência semi-doentia a um sentido de presença onde ela chegou a sentir-lhe o nariz mais arrebitado, em nada sensuais. Oh, como ela o desejaria agora no quarto, mesmo que o visse enfiado num pijama bem pálido, sem listras, que lhe caisse melhor e o ajudasse, naquele andar jungido e quase ordenado – as pernas pra frente, as duas pernas pra trás – a passar entre os móveis. Vai até o pixexê, passa uma lixa nas unhas. Oh, como ela daria a vida ( bate três vezes na boca) para acontecer um milagre que modificasse aquilo de toda noite: ou Felônio viesse andando entre os móveis, esbarrando-se, deslocando a cadeira, tropeçando-se no criado-mudo, se confundisse, ou abandonasse aquêle jeito enigmatico de empreender a caminhada, que era simples e curta. Era horrível aquilo tudo. Como era odiento vê-lo sair do banheiro ( fazia fôrça para encurtar o pescoço, enterrar mais a cabeça, enrubescendo), atravessar a sala (aqui, sempre numa cadência melancolica, de contrafeição), depois adentrar o quarto ( e quase nunca a olhava como se era de exigir, apesar de tudo) imprimindo uma enorme expectativa no resultado daquêle passo, que subentendia um zig-zague, algum choque, uma contusão! Uma contusão que não se realizaria, e fortemente esmaecida naquêles ares de segurança, que era antes de tudo a mescla do sorriso (nada além de uma boca curva) com o gesto de enfiar ao mesmo tempo as duas mãos nos bolsos do paletó do pijama, olhando-a como que a uma irmã, uma irmã!, e que ainda lhe desagradasse. As caricias, depois de tudo, as caricias, apesar de tudo, não assentavam bem, apesar de que, as caricias, e Mariana sentia falta de caricias. E uns leves prenúncios de fome do almôço, que já tardava, apesar de cedo.

 

II

A PRIMEIRA VÉSPERA

 

         Antes de prosseguirmos na série de acontecimentos dêsse mesmo dia, necessário é dizermos umas tantas palavras a respeito de Felônio e do movel que o levou a redigir aquele tão vago e enigmático cartão à mulher.
         Criado em um ambiente onde as afeições  se dividiam de maneira brutal, e os seres se sucediam periódicamente, foi dando ao temperamento um aspecto desconfiado: Felônio era o primeiro filho do segundo matrimônio de sua mãe, uma delgada senhora de origem italiana e que cedo enviuvara. Do primeiro casamento, teve um casal de filhos, mortos quando encetavam os primeiros passos, fato que causou uma grande transformação na vida dos esposos; desse dia em diante, passaram a viver assustadiços e demasiadamente resguardados. Pouco frequentavam a sociedade paulistana de fins de século, e desde então passaram a não vê-la mais definitivamente, só vivendo para si e de maneira quase mórbida. Dessa concentração afetiva, originou-se uma série de fatos que tornaram a vida da família bastante célebre no pequeno circulo paulistano da época. Dizem os que ainda subsistem que Aqueronte ( era o nome do marido) engendrara as mais drásticas penitencias para expurgar o mal de que se julgava culpado, chegando a se chicotear  horrivelmente no sótão do casarão, onde deixava ligado um gramofone no ultimo volume, afim de abafar as eventuais manifestações  desse castigo. O disco de que usava nessas ocasiões foi, por muitos anos, religiosamente guardado pela mãe de Felônio. Era uma triste melodia sem nome nem autor, entoada por um conjunto de vozes que pareciam instrumentos de sopro executados por alguém que perdia o fôlego, e que causava um grande efeito. A viúva, até o segundo casamento, chegava a tocá-lo mas só em noites excessivamente distantes e quando “ não era mais possível deixar de acudir àquele chamado do marido irrealizável”, e que não era senão desejos de uma  mulher honesta e misticamente moderada. Depois de certo tempo, já de novo casada e mãe de Felônio, passou a achar no disco semelhanças com essas músicas árabes, de exaustiva aceitação, sendo-lhe dificílimo ouvi-la sem esboçar um esgar de enfado ou mesmo repugnância.
         Amâncio, o filho que tivera ainda do primeiro casamento, apesar de levemente doentio e de gênio esquisito, destoava daquele gênero de musica derramada: era um menino de maneiras sincopadas, de poucos sentimentos, o rosto arredondado, os olhos invariavelmente virados para o alto, dando-lhes um olhar branco e muito introspectivo. Para completar essa figura, em sua simples aparência já tão estranha, agradava-lhe explorar até o ultimo as situações que o rodeavam com um sorriso azulado, sem formar curva, apenas alongando a linha da boca. Quando tais sinais começaram a manifestar-se nítidos, bem precisos, a nossa mística senhora abandonou a lembrança do pai, o primeiro marido, e enterrou o disco numa velha mala de ferro, no meio de trapos, vestidos de casamento e de explosivos da Guerra do Paraguai.  Com  o crescimento de Amâncio, a lembrança que tinha do marido se desvanecera completamente.; Amava o filho pelo que ele tinha de brusco e até de indesejável. Gostava de beijar-lhe as costas, que lhe pareciam altivas, largas, por cima da brancura quase descarnada.Era, de fato, na ondulação das costas que o menino parecia suportar qualquer espécie de ambiente e para onde se atraiam as atenções de todas as idades.No decorrer de cinco anos, apagou-se por completo a visão do primeiro marido, e ela pode amar o atual, pai de Felônio, com certa precisão e desenvoltura. Dizem certas pessoas da época que nossa estranha mulher encontrou no segundo marido a energia que nunca vira no primeiro, e desde então passou a amá-lo efusivamente. Outros afirmam, de mão no peito, que a nossa heroína de então até se divertia e preenchia o tempo de seus anseios líricos à custa do tal disco do sacrifício, e se chegou a enfurná-lo foi  porque Amâncio, quando lhe escutava a melodia, tinha uns acessos de louca alegria e esbofeteava Felônio desvairadamente. Isso deixava a mulher profundamente enraivecida, pois já amava o novo marido e o produto de seu amor de modo exclusivo: guardou  o disco, mas não castigava o primeiro filho, a não ser quando tudo acontecia na presença do marido atual. Todavia, preocupava-se mais em retirar o disco do gramofone, o que dava o tempo suficiente para que Amâncio se safasse, justificando aquela choradeira pela seguinte situação: vinha ondulando o corpo magro, as cadeiras enterradas para frente, realçando-lhe o costado enorme, chegava perto do padrasto, dizia-lhe forte:
         - Pá! (era assim que dissimulava o “papá”, que teria de lhe dirigir, mas sem dissimular a aversão natural que dedicava ao padrasto) – o Félão tá otra veiz com dô di denti...
         O padrasto, não soubemos se por desamor ou se por excesso de austeridade, que lhe dava um grande poder de descuidar de seus íntimos, nunca lhe percebeu a dissimulação, ou pelo menos nunca o demonstrou. Envolvia Amancio e ao próprio filho numa espécie de ternura episcopal, um pouco solene, negra, obscuramente risonha, às vezes, e quase sempre provocada. Mas, sinal dessas explosões que periodicamente os instintos paternais provocam,quando percebem que os filhos se vão irmanando a eles, apesar de o desejarem no fundo, jamais o tivemos. Depois de muitos anos, Amâncio se desligou da família, indo morar na Lapa, em companhia de sua irmã mais moça, rapariga nascida dez anos mais tarde, e em quem vislumbrou a única espécie de afeição em que se poderia apoiar. Ainda vivem hoje na Lapa, num mundo inacessível, estranho, crispado, contido pelas paredes de um casebre de compleição nervosa, com telhado anguloso, portas cicatrizadas e janelas violetas.
         ....

         Feitas essas considerações a respeito do ambiente em que se criou Felônio, podemos ver bem claro a origem de seu temperamento desconfiado e mesmo de seu olhar distante, inexercido, que desgostava Mariana, mas que lhe é bem a única maneira de evitar uma realidade aniquiladora, mesmo quando imaginada. Entretanto, voltemos à narrativa:
       Na manhã dêsse mesmo dia, Felônio acordou às sete horas, depois de um sono entrecortado por uma série de tensas preocupações, e na ponta dos pés saiu do quarto, deixando a mulher dormindo. Procurou vestir-se no banheiro: nem tomou seu banho habitual e, para sua própria surpresa, às sete e quinze já se encontrava na rua Santo Antonio, tragando a ladeira em passos mecânicos e largamente ritmados. Quando ganhou a Praça das Bandeiras, foi dominado pelo cansaço. Mas algo estranho fez com que se recuperasse incontinenti: ao passar defronte de espraiada vitrine, lançou por ela um olhar meio maquinal, sem qualquer intenção de reparo e chegou a ver-se em tonalidade diferente. Não se sabe se por influência da brisa matutina, que lhe envolvia o rosto deliciosamente, ou se pelo silêncio do local, excepcionalmente sem bondes, o certo é que pôde, depois de muito, muito tempo situar-se numa posição em que desejaria encontrar-se e que, desde que conhecera Mariana, o tinha abandonado. Chegou a achar-se mais vigoroso, os olhos nas verdadeiras órbitas, a cabeleira mais dura, enfim considerou-se mais palpável e provou a delicia de poder saborear a alinhada postura da gravata e o assentamento do terno. Por um minuto ou dois, sentiu um bem-estar fabuloso e como que iluminada a praça, que êle captava pelo espêlho, por uma luz mais intensa, chegando a queimar-lhe as costas, agradávelmente. Mariana lhe havia sumido da mente, e nisso êle experimentou um sensabor seguido de uma revigoração extraordinária. Cada transeunte que passava na calçada – ora uma mulher, em seguida um velho carregando uma cesta, logo mais três estudantes gordos, um jornaleiro, uma bela mas antipática moça de azul, um torturado libanês de quarenta e dois anos – cada transeunte era logo captado por seu olhar que procurava imaginar o sentido daquelas fisionomias, mas que bisonhamente eram colocadas num plano de inutilidade permanente e pertinaz. Entretanto, o nosso homem não pôde suportar por mais de três minutos aquêle estágio na irresponsabilidade e logo sentiu um vazio no estômago. Como se cumprisse um dever de evitar qualquer dor ou qualquer outra agitação, entrou no primeiro bar que viu pela frente, depois de lançar o último olhar pelo terno de grandes listras paralelas, que êle considerou abomináveis, pediu uma média, bastante pão e manteiga. Tragou-os, e deu volta às pernas.
      Subiu de novo à rua Santo Antonio. A cada passo, destinado a resolver altos desígnios, parecia ouvir a marcha de seus grandes e belos momentos: aquela marcha que êle gostava de ouvir executada pela Orquestra da Fôrça Pública, emb. n. int. n. s. p.... De fato, tocava-se pelas imediações algo muito parecido e familiar. Felônio respirou o ar forte da manhã, enfiou no rosto um ar negligente e carregado, e estugou o passo em direção ao apartamento. Às sete e meia já encontrou o ascensorista a postos; dirigiu-lhe um olhar de ambígua significação, apunhalando-o. Por mais que quisesse patentear um estado de desagrado por cima do rapazola, não conseguia livrar-se daquela confusão de sentimentos, que lhe era muito própria e que lhe dava na voz uma serenidade gasosa, sensual, esbarrando num tique de........
      - Bom dia.
     Soou triste como se falasse pela primeira vez. Ouvia a própria frase e não tinha certeza de seu significado. Sepelio forçava a resposta, a voz encrevava no gorgorinho que êle empinava, alçando-se no vôo que seu ouvido encomendava. Era sempre a mesma zoada. Não sabia se era o elevador subindo, logo de manhã: talvez o estômago vazio.
      - Bom dia.
     Felonio teve por instante a visão nitida do plano, de seu imenso plano. Como seria bom recordar, num só momento da vida que fosse, tudo aquilo que planejara para cortar com sua felicidade, mas que lhe dissipasse as dúvidas. Felicidade. Por acaso êle teve algum dia felicidade? Ora. E essa que vem tendo, desde que conheceu Mariana? E... se fosse sómente um desencontro? Isso! Êle não havia pensado em que os casais também se desencontram. Um dia, rebentariam juntos, numa explosão em que um descobriria o outro, no mesmo instante. E haveria um êstase mais espiritual. De como se abraçariam, até se aniquilarem, era coisa por demais espiritual, mas que não comporta olhares de criança.
       Encara Sepelio. Êste seu último pensamento foi provocado pelo olhar flácido do ascensorista. O rapaz pululava interiormente, passando de vez em quando a mão pela testa, ajeitando o boné de setim chúmbeo. Afinal, êle bem que pode ser um simples meninote e aquêles olhares são muito explicáveis. O ascensorista, enquanto aperta um botão ou sacode o cotovêlo, nêsse hábito impressionista, vai ponderando, uma por uma, tôdas as maneiras de Felonio, e que se resumem, a seus olhos, num grande, imenso, utrajado cansaço. E uma desabituada mulher. Não: uma desabitada mulher. Não: êle devia ter outros atrativos. Era um tipo até que magro, não, até que atraente. Mas ela, como devia ser horrível, meu Deus, ela deveria ser até humilhante núa, áspera, morena, côr que dava raiva nos braços do rapagão espadaúdo. Êle tem ciume é do rapagão espadaúdo. A figura do rapagão espadaúdo traz a Sepelio um endurecimento em todas as partes do corpo. O próprio olhar, singelo sempre, teve umas crispadas de dura revolta, e êle pôde encarar de frente aquêle que até um minuto antes o atemorizava, demasiado. Ganhou confiança até para um início de diálogo, que foi necessário, nascido pela mesma posição de ambos diante de uma situação semelhante. Apesar de ponderar que a tristeza daquêle ser ali, a dois passos de distância, combalido, mas que poderia ter fôrça de ânimo para ser seu pai, poderia ser fruto de sua imaginação, cismou em sentir-se irmanado e arriscou:
        - O senhor me desculpe, sou muito distraido.
        Felonio já não sabia do que se tratava. Esboçou o sorriso negligente.
       - Às vezes, tem gente que entra no elevador – gente também distraida – que só me cumprimenta quando já fechei a porta e quando já estamos os dois fechados, e mesmo assim não reparo, e só vou responder quando abro a porta no andar que êle pediu... E êle fica muito espantado... Isso me acontece muito, disse Sepelio com sofreguidão, sem encarar Felonio.
        - É, isso às vezes acontece, articulou êste, procurando enquadrar-se no assunto.
        - Não, cortou Sepelio, para mim isso acontece sempre, disse quase com paixão, em seguida do que emendou, para reparar o tom rebarbativo: - Quer dizer: quase tôdo dia, quando me acontecem das minhas, lamuriou.
        Felonio captou-lhe o olhar lasso, escorregadio, quase confidente.
        - Mas você é um rapaz muito novo para ter problemas assim tão terriveis; isto é... terriveis pelo que se deduz de suas palavras... De seu jeito..., agregou Felonio, querendo entender-lhe o sentido. Estava quase certo do “estranhíssimo” caso do adolescente.
        - Ahn, a gente sofre cad... Se o senhor vivesse comigo um dia – olhe: um só dia -, veria que não... não é possível sofrer tanto... quem não faz nada... Não nasceu pra isso...
         Esse “sofrer tanto...quem não faz nada... não nasceu para isso” transformou Sepelio numa autêntica rapariga (ali, naquêle local, uma holandesazinha sardenta) do seculo XVIII, despudonorada à fôrça e que se retirara para um mundo de perpetuo abatimento. Felonio estava confuso. Havia um pudor horrível, inadiável, acomodando os dois. De desconfiado, passava também a confidente.
         Ora, disso com certa precaução, isso tudo acontece a qualquer um! Tôdos nós temos problemas.
        Ao falar disso, lembrou-se de Mariana e associou-a ao ascensorista. Enfiou as mãos nos bolsos do paletó: assim, com os cotovelos aparatosos, era um manequim que inconcientemente lhe dava uma solidez inanimada e que êle não possuia nêsses momentos.
        - E quando descobrimos certos problemas dos outros... que nos cercam, aumentamos os nossos, acentuou, fortificando a suspeita de que o ascensorista sabia de algo a respeito de Mariana.
        - Ahn, isso é verdade! é muito certo! O senhor disse uma coisa que eu muito penso! A gente que nos rodeia...Ah..., e quase deu uma cusparada, meio absorto.
        Felonio sentia o pêso de alguma coisa oculta, que o outro forçava por dizer-lhe, só não o fazendo por não ter encontrado o jeito de iniciar. Ia dar-lhe meios para tanto, quando um sorriso muito diferente rasgou a face ovóide do rapaz; agora era êle, Felonio, que precisava de um meio de iniciar a conversa sôbre “aquilo”. Lembrou-se, num instante, daquêle encontro fortuito de cinco dias atrás:
        : êle, vestido de amarelo (era horrivel) quase vergado no meio (era o terno amarelo, acinturado) transportando Mariana pelo braço. Mariana era um primor de azul claro (agora êle olha Sepelio nos olhos: êste parece que não está ali. Será que também pensa em? Sepelio é um rapaz inteirinho oval, o nariz oval, a bôca mas é demais oval!). Êle transportava Mariana, pondo a mão quase sublimemente sem pêlos no cotovelo da mulher. O andar, entretanto, plant, tóc, plant, plant, tóc, plant, tóc, plant, plant, tóc, êle não compreendia: seria possível? Iam ambos em mesma distância, Felonio balançando-lhe o cotovelo, Mariana falando, compulsiva, um assunto de rua e, no entanto, seu sapato de borracha dava dois plant, o da mulher dava um tóc, êle queria consertar aquilo, mas ficava tão soturno que só assim Mariana se subjugava. Então deu mostras de cansaço, estava cansada e o marido a transportava, a mão no cotovelo. Tinham atravessado tôdo o saguão do prédio; ao entrarem no elevador, cumprimentaram o ascensorista, que respondeu muito pálido, quase automático. Mariana enconstou-se à parede, desligando-se de Felonio. Êste, virando-se duas ou três vezes para a mulher, como se a consultasse sôbre algo, pôs as mãos nos bolsos do paletó amarelo, depois de abotoá-lo. Pediu com os olhos ao ascensorista que o levasse ao décimo quinto. Sepelio, de costas para ambos, vestido de jaqueta cinza, com o pescoço gostosamente crescido, aparava o olhar suplicante de Felonio na nuca e demorava-se muito em cumprir sua obrigação. Sabia que teria de levá-los, mas alguma coisa lhe tolhia o movimento. De repente, tomou consciencia de que esperava era um homem que havia despontado há pouco lá no fundo do saguão. Virou-se, percorreu o casal com um olhar nublado, indicou com a cabeça a figura do homem, que amiudou o passo logo que percebeu que o elevador o esperava; por fim, tornou a postar-se numa posição em que era tôdo pescoço. Mariana devorava-lhe o pescoço com repugnância, conjeturando a respeito do marido. Felonio espreitava a ambos e chegava a ser ridiculo aos olhos da mulher. Por um momento, Mariana sentia-se bem, desligada de Felonio, com o cotovelo livre. Chegava a encolher-se mais para o canto, como se o elevador estivesse repleto. Esta atitude fez com que o rapagão espadaúdo, mal recuperasse o fôlego da correria que empreendera para alcançar o elevador, lhe dirigisse um olhar de humilde respeito, ao mesmo tempo que passava a mão esquerda pelo rosto, tamborilando a coxa com a direita. Virou-se e encarou Sepelio, significativo. O ascensorista dividiu o olhar entre os três, enquanto apertava o botão do décimo quinto. Quando o elevador se precipitou, deu quase meia volta ao corpo, abriu as pernas duras, estancadas, esculpidas para suportar-lhe o corpo e olhou Felonio nos olhos, que se colocara no meio do elevador. O ascensorista parecia perguntar-lhe o numero do andar em que deveria aportá-los. Em seguida, sem esperar qualquer outra solução visual, virou-se para o lado do rapagão espadaúdo. Começou a esquadrinhar-lhe a figura de baixo para cima, aguardando o momento de perfurar-lhe a cara com aquêles dois olhos que azulavam, quase refletiam na gravata do rapagão, que era amarela, e também onde se encontrava o olhar de Mariana. Esta, atemorizada por algo de terrível que pressentira, mal se fecharam as portas do aparelho, achegou-se a Felonio molemente, dando-lhe o braço, no que foi correspondida por um balanceio de corpo negativo do marido, mas abstraidamente. Êle tinha-se distraido, ha poucos segundos, com umas ideias tolas, em que envolvia a mulher, o velho da porta da igreja (o que lhe desejara boa sorte logo após o casamento, há três dias atrás), e o proprio ascensorista. Recordava-se do olhar do rapazola, quando lhe anunciou que era recém casados e que exigiam absoluta tranquilidade. Era evidente que nunca vira rapaz com aquela expressão. Mas, depois de curioso, adquiria feições de cúmplice de alguma coisa que não estava certa. Disso êle tinha quase certeza. Depois do primeiro dia, o ascensorista procurava até arrepiar caminho quando os via, ou não encará-los de frente, quando tomavam o elevador.
          O aparelho ganhava o oitavo andar.
         Mariana tirou-lhe o braço, tornou a encolher-se em seu canto. Repentinamente, Sepelio começou a olhar ao rapagão com outras expressões. Diabo: se êle lhe chegou um dia, despreocupado, bonacheiro, até com o rosto estufado, enchendo a boca de ar, nêsse gesto de saúde atlética, mas que lhe quebrava a beleza do rosto com facilidade; se êle lhe pôs a mão no ombro e o chamou de lado, num canto particular, sem dissimulação (se fôsse culpado, teria abordado o ascensorista no proprio elevador, para dar mostra de que era uma coisa de que não procurava eximir-se); se o rapagão chegou até a soprar-lhe na cara, tal a importância do caso, não poupando ao ascensorista nem a observância de um certo mau hálito; se êle chegou e lhe disse, é isso mesmo, se lhe disse que “desejava muito falar à recém casada, mas sem que o marido soubesse, pois era um caso de vida ou morte para umas certas pessoas da estima do casal”, diabo, era caso para se respeitar, e êle estava ali para atender, e êle estava ali para não desconfiar de nada, diabo, não tinha nada com isso e, nem que tivesse, a única mulher que lhe poderia inspirar ciume era Gardenia e Gardênia já morrera, aí seu Deus, êle sofria até que Deus o livrasse dêsse mundo. Veio-lhe à mente a figura do pai de Gardenia. Se pudesse tornar a viver para praticar um só ato durante a vida tôda, passaria a vida tôda matando o pai de Gardenia. Mas isso já era outro terror, e êle já estava cansado de tanto terror. Entretanto, aquêle desmiolado pai tivera a culpa de sua morte, sôbre isso não alimentava qualquer dúvida. Quando o elevador ganhou e décimo terceiro andar, tôdos se prepararam dando um aprumo ao corpo, como se fossem descer juntos e alegres se abraçassem em caminho de algum festival já malogrado na mente dos quatro: o rapagão espadaúdo sabia que não ia descer no décimo quinto, esticou o corpo e virou-se para dar passagem, mas, atraído que estava pela situação de seu segrêdo, delirava a passagem do perigo daquêle encontro em recinto fechado, e com isso sorriu aos três e estufou o peito, parecendo imbecil aos olhos de Mariana. Esta, a principio, quiz dar o braço ao marido. Resolução logo desfeita por outro lépido maneirismo: armou as mãos em forma de passadeira, deslizou-as pelo vestido à altura das coxas, enquanto separava os maxilares, esticando o rosto, abandonando-se até às ultimas conseqüências àquela situação tão fascinadora; sabia que os rapazes não se atracariam (ela não sabia por que haveriam de se atracar!) talvez por causa de sua presença, e nisso ela não quiz ter marido. Estufou o busto e preparou-se para sair, não sem dizer com os olhos ao ascensorista que nunca mais fizesse aquilo, que os rapazes triste não devem brigar, atitude que a fez vaidosa aos olhos do rapagão e extravagante aos do marido. O olhar que não puderam evitar fosse trocado, apesar do esfôrço de ambos, que ligou os rostos dos rapazes através do rôlo de cabelo incrustado na nuca de Mariana, foi o que prosternou Felonio: Sepelio a principio enunciou, num franzir de nariz, que sentia muito o outro não ter oportunidade de ver lograda sua missão junto à recem-casada. O rapagão entendeu com isso que o ascensorista zombava o malôgro de uma suposta relação ilegal dos dois e, firme, desviou os olhos dos outros então chorosos do ascensorista e percorreu-os pelo corpo, àquela hora sensual, da mulher, esquecendo-se do marido. Visava desnortear o rapazola, mostrando-lhe que êle era absolutamente ridiculo e digno de pena se procurasse interferir em seus desígnios de cobiçar e perseguir uma mulher alheia. Assim agindo, pareceu um autêntico D. Juan aos olhos do marido e fez com que o sangue lhe subisse à cabeça e à do ascensorista. Felonio tomaria uma atitude enérgica; esboçara até um movimento agressivo com a cabeça e chegaria a atropelar com o rapagão, não fosse a suspicácia desesperada de Sepelio. Mariana sentiu a mesmissima sensação de quando entregara a Felonio o primeiro beijo, ainda em sua terra: um frio na barriga, uma revolta nas pernas, um prazer que descia pela garganta e uma vontade de ser disputada, seguida de uma vergonha altiva, que gerava um domínio sôbre tôdos os circundantes. Cortou o encaramento entre o rapagão e o marido, que já se sentia aniquilado pelo olhar ciumento do ascensorista. Dois segundos mais, chegavam, ao décimo quinto andar.
            .......................
            Rememorando êsses fatos, Felonio saía de um estado de torpor contemplativo, onde tudo era duvidoso, para um comêço de cólera, onde vai se tornando irremissivel. Fixa o olhar na boca de Sepelio, de onde saíra, ha cinco ou seis segundos, aquêle: “Ahn, isso é verdade, é muito certo! O senhor disse uma coisa que eu muito penso! A gente que nos rodeia! Ah! ... – e logo a expressão facial enojada do rapaz.
           - Olhe: eu gostaria de conversar sôbre essa gente que o rodeia, disse, resoluto, Felonio, acentuando o “conversar”.
           Sepelio sentiu uma lâmina gelada perfurar-lhe o estômago. Deus o livre.
           - Szzzmtkkhanhhh não tem importância se o senhor quizer, respondeu sem qualquer pontuação, numa frase que mais parecia um grito remediado.
          -É. Não, porque nós temos um dia que nos desabafarmos com aguém, em quem a gente confia, não é?, disse Felonio num tom em que a cólera era quase um chôro. O medo do ascensorista lhe dava um desespêro inédito. Nos lampejos intermediários, sua mente vislumbrava Mariana também desesperada, e com isso êle proprio tinha medo e desviava o olhar do ascensorista, rezando por não vir resposta.
           - Szzznthahhh o senhor tem razão. Grrr. (Tlim). Prontinho.
           Haviam chegado no andar de Felonio. Sepelio sentiu-se na obrigação de dizer algo.
           - Às vezes não vale a pena a gente falar sôbre isso. Às vezes não vale... Oh, é besteira a gente comentar certas coisas... Não adianta, não conserta nada.
           A maneira com que foi dito isso era muito natural, as palavras escorregaram, listas, pela boca oval de Sepelio; Felonio sentiu-se deslocado e nem das profundezas da alma arranjaria mais qualquer palavra para dizer ao rapaz. Agradeceu com os olhos, tirou as mãos dos bolsos do paletó.[NA MARGEM DO ORIGINAL ENCONTRA-SE A FRASE: “Desenvolver depois, em Sepelio a “noção” dessas fraquezas de Felonio. Êste terá também “ciência” de que se “mostrou” e reagirá com ódio” ] Em outra atitude, em que parecia alçar o corpo na ponta dos pés inconcientemente, endereçou novo olhar a Sepelio, em que êle Felonio se desculpava por se ter ultrajado de modo tão jogral, e coçou a ponta do nariz, mostrando uns dedos finos, longos, que pareceram a Sepelio medonhamente viris, medonhamente românticos, medonhamente com unhas bem tratadas. Sepelio também lhe enviou um olhar à altura, antes de fechar a porta do elevador, mas em sua expressão se misturaram visões tais como:[na margem 13-05-54]
         
UMA SALA MUITO AZUL. Um quadro oval no meio da parede, quase rente ao chão. Papeis de parede, colantes, listras de azul chileno. Dentro do quadro oval, meio corpo de Felonio. À direita da sala, deitada, em transversal, uma figura em cinzento diáfano. Os olhos muito esticados, não fora das órbitas, mas pendentes da base do cabelo, onde começam as entradas. Dezenove anos e braços em plano anteposto, de onde saem duas casas, azul cobalto, ligadas pelo telhado, tendo no centro um vão sem perspectiva, pequeno páteo, truncado por portas enfiadas na parede de atravessado, com quinas salientes. À esquerda da sala azul, plantada no páteo comum das duas casas, uma mulher em violeta, muito esticada, a cabeça pouco abaixo do ponto de junção dos dois telhados. Seu rôlo de cabelo incrustado na nuca é o globo de luz, muito antigo, também comum às duas casas. Não esparge nenhuma luz. A mulher de violeta, de braços muito roliços, fina da cabeça à cintura e engrossando da cintura para baixo (não era um volume com duas formas, ou volume metade fino metade grosso: eram dois  volumes, um complemento de outro, jogando muito ao se deslocarem ) esculpe em barro amarelo-claro estátua de homem hercúleo, inflexivel. De seu corpo pendem grandes excoriações na argamassa, algo esverdeada, onde forma uma parede desrebocada a distâncias. Subindo pela parede uma pequena janela, mais acima outra com outra paralela e, bem no alto, talvez o sótão, outro ainda. Na casa da direita, a mesma superposição de janelas, vermelhas, entretanto, e sómente a do meio se conservando aberta. Na primeira janela da casa da esquerda, dois vasos com flores indecifraveis, agressivas, encaracoladas de tal forma, que pareciam constituir um parapeito de cimento nervoso, dêsses antigos, com arcabouçozinhos de ferro do lado de fora. Dentro da janela, objetos excessivamente estáveis, armário, mesa ovalada, banquetas e na única cadeira um gato fincado, rijo, com uma expressão que parece esperar as oito batidas do relógio e a escuridão envolvê-lo, para deslizar (os objetos da sala não o deixam saltar) entre o chão e postar-se no fim do corredor, onde te sua toca. Mas, tôdo êsse interior não se vê, é apenas percebido. Na janela de cima, mal colocado, deixando vaga uma grande parte, um homem de quarenta e cinco anos, rosto quadrado, olhar duro mas alcançável aos poucos, absorvido de tôdo ambiente, janelas, telhado, páteo, figuras. Seu olhar descansa ao longe, envolvendo, com uma espécie de desvêlo indolente, a figura colocada de atravessado, em cinzento diáfano.

          [na margem 14-05-54]
É o rapaz de dezenove anos, que, no plano dos olhos do pai tem muitos significados, mas que para aquêle apenas descansa a sesta em pequeno jardim das imediações. Seus olhos, colocados na base do cabelo, são duas margaridas incolores e sua postura tem algo de remanescencia de belos objetos. Na última janela, talvez o sótão, uma mulher gôrda e insignificante de fachada, mas de perfil martirizado. Seus grandes braços, apoiados na base da janela e suportando-lhe o corpo, parecendo impelí-lo para o interior, esmiuçam detritos que as mãos colhem, nervosas, nos cantos da janela, em gesto inapercebido. Tem os olhos fixos no páteo, onde se escutam, fazendo dos ouvidos olhos, colocados um ao lado do outro, um menino e uma menina, a mesma idade. Na casa da direita, na única janela que se conserva aberta, um homem magro e tôdo cortado em ângulos, a nuca saliente, o pomo da garganta saliente, a carcunda acentuada, a parte da barriga consideravelmente avançada. Visto de frente, entretanto, chega a ser belo e estranhamente atraente. Não se lhe vê a fisionomia; o cabelo, contudo, é liso, bem untado, para trás e sem qualquer linha de corte. É o pai da menina ao lado do menino, no pateo. A atmosfera indica ser sete e meia da tarde, e tôdos os contornos se diluem com vagar, as figuras pouco ou quase nada se mexem. De repente, começa a escurecer, vertiginoso. As casas sofrem com isso, parece que estremecem, ouvem-se pequenos barulhos, indecifráveis, que não se sabe de onde vêm. Não há pânico em relação às figuras das janelas, que se postam, porém, em situação de desespêro procurando aflitivamente as crianças no páteo. Escurece e escurece. Houve estremeção ou apenas presságeo de tempo avassalador? O menino e a menina do páteo se beijam na boca, assustados, sem notar qualquer outro perigo. A mulher da janela do sótão grita por êles mas não é ouvida. Fecha a janela, some-se por ela, notam-se-lhe os passos na escada. O marido, o homem de cara quadrada, preenche agora tôdo o espaço da janela e chama Sepelio. Sua voz, plangente, enérgica, mas logo de energia embriagada, que só se completa com outra voz, em réplica, movimenta o rapaz cinzento diáfano. Êle dá volta às casas, sobressaltado e quando chega ao páteo olha para cima e começa imprecar contra o pai e contra o homem anguloso, fronteiriço. O primeiro, envergonhado e surpreendido pela atitude do rapaz, desaparece da janela num gesto brusco, de desagravo que, ainda que passivo, lhe prometia um ajuste de contas. O homem da janela fronteira levemente sorriu, Sepelio o maldisse com fervor, e só não o matou com os olhos porque anteviu sua filha, Gardênia, chorando-lhe a morte, e nisso êle se sentiu culpado, e quiz sumir-se nos fundos do páteo. Estacou, vendo o irmão beijar a irmã de Gardênia. Então, sua expressão de estarrecimento deu lugar a um sorriso de beatitude, sem que de seus olhos desvanecesse um ressaibo de desaprovação. Mas êle parecia ouvir o chamado plangente do pai e talvez o grito da mãe. Sentiu-se combalido e teve impetos de bater à porta da frente e chamar Gardênia. Virou-se e em seguida estacou, pela visão da mulher de violeta, muito esticada, esculpindo. Experimenta, nos olhos, uma dessas impressões de que já se viu tal ou qual pessoa em algum lugar. A atmosfera é quase negra, e êle, aproveitando-se, com o sangue na cabeça, se lança ao pescoço da mulher, que é Mariana. Ela, debalde, não se move, continua a esculpir e desde então Sepelio percebe a estátua e encara o rapagão espadaúdo com nojo, consumindo-se em ciume. Experimenta a sensação de que a mulher apenas se distrai, esculpindo aquêle ser belissimo; fica oscilando entre ciumento e longínqua, distraidamente compreensivo. Enfim, aproveitando ainda o contacto com a mulher, suspende os braços, leva a mão ao rôlo de cabelo incrustado na nuca de Mariana, e apaga o globo, acendido há pouco, mergulhando tudo em quase completa escuridão.
            Apaga a luz do elevador.
            Felonio quase se ofendeu, só não fazendo devido a tudo se ter passado tão rapidamente, que êle mal teve tempo (Sepelio logo acendeu a luz) de escoar a surpresa na escuridão. O rapaz compensou tôdos esses instantes de turvação mental, que pareceu a Felonio uma esquisitice acabrunhadora, com um demorado sorriso amarelo, de lamentação. Seu rosto tomou logo a forma de um bastão. Ao final do encontro, todo o ambiente tornou a se transfigurar e Sepelio destruiu, com exasperação, toda aquela fileira de janelas. Transportava-se de novo, e passando a mão pelos quadradinhos nos botões dos andares, oito, cinco, quatro, botava tudo abaixo. Na fileira de janelas da casa fronteiriça, alguém queria subir, no quarto andar; o quadradinho reluzia. Felonio levou a mão e apagou, destruindo o pai de Gardênia. De tudo, restou apenas um quadro oval quase rente ao chão – a boca do ascensorista – e o papel de parede, colante, listras de azul chileno – o terno de Felonio. O nosso homem balançou o corpo e empreendeu uma retirada, não podendo mais suportar o ambiente; entretanto, já reservava certa animação para voltar. Sumiu pelo corredor.
           Sepelio, já então mais tranquilizado, teve um movimento com os braços lamentando a perda de oportunidade de perguntar ao outro alguma opinião sôbre seu modo de viver. No fundo, sabia que alguma palavra daquêle individuo lhe resolveria grande parte dos problemas, e, mesmo assim, sentia um quase pavor ao se aproximar dêle. Como êle estimaria que não fosse casado!
           Casado. Agora, no apartamento, tudo dizia a Felonio que estava casado, e êle não acreditava: os moveis, o retrato, o relogio marcando sete e meia, uma cadeira bem na quina da mesa, tudo formava um ambiente que só poderia ser de casados. Êle foi à cozinha, pegou de um copo e tomou água. Em cada gesto, queria fazer um barulho, para produzir algum outro mais forte, de acordar alguém, mas evitava-o franzindo tôda a testa, como se provocado pelo barulho. Parou uns instante na sala, em seguida entrou no quarto e trocou a gravata. Enfiou no colarinho a “borboleta” roxa, já bem antiga. Mariana jazia no leito submersa na coberta. Felonio percorreu-lhe a figura através do espêlho do guarda-roupa. Assim, vista indiretamente, provocava no marido uma fortíssima impressão de ilicitude, que lhe disparava o coração. Êle gosou, por um segundo aquela atmosfera deliciosa, perigosa, e fixava os olhos no criado-mudo, de onde pendia um lenço impecável, bem passado. Ao virar-se e ao comtemplar o leito de perto, deitou os olhos na face da cama que lhe pertencia. A respiração da mulher oscilava a região montanhosa da outra face. Felonio fez menção de arquear-se sôbre ela, mas interceptou o proprio gesto com outra atitude, que lhe crispou a face: ao se aproximar da cama e ao encarar o lado da cama que lhe pertencia, então amassado e com obcenas amarrotações no lençol, provou uma certeza sinistra de que sua mulher o trairia, fatalmente, pelo menos uma vez na vida. Tinha as pálpebras quase cerradas, o corpo relaxado e sentia um gôsto amaríssimo na boca. Então levantou o corpo, sem tirar os olhos da cama e do lençol desabitado, de onde parecia que se propagava um cheiro azêdo, de roupa mal lavada, ou nova. Relembrando certo acontecimentos, e com aquelas figuras na cabeça, saiu do quarto na ponta dos pés. Na sala, sentou-se distraidamente, tirou um cartão do bolso, pôs-se a escrever algo, nervosa e trêmulamente. Não sabia porque lhe viera à mente a lembrança do irmão Amâncio, que êle não vira ha muito tempo, senão de sosláio, na Igreja. Êle talvez precisasse falar ao irmão, pois Amancio tinha sôbre êle a vantagem de se moldar a qualquer especie de preocupações e possuia mesmo uma grande altivez que se alimentava de situações trágicas. Mas, antes, era necessario pôr à prova a fidelidade da mulher; não podia invocar uma especie de homem daquêle sem estar certo de que o problema existe. Conhece bem o irmão, sabe do que é capaz. Assina o cartão. Trrrraaaço. Amâncio, sem ninguém notar, depois que se entrega, oh é duro, duro, duro, ninguém o convence de que houve o equivoco. Levanta-se em direção à porta. Mariana ainda estaria com a cabeça para dentro da coberta? Lembra-se do caso do titulo quase protestado. Ah, como Amâncio. Após olhar novamente ao relógio, Felonio resolve sair. Aperta o cartão nos dedos e, escorregando-lhe o olhar mole mas quase raivoso, aguça o ouvido em direção da porta do quarto, enquanto lê: “QUERIDA: PASSAREI O DIA EM VIAGEM; EXPLICO-LHE O MOTIVO AMANHÃ, BEIJOS DO FELÔNIO”[na margem 9-08-54]
        
E resolve sair, clamando, num desespêro intimo, que lhe quebrava as coisas pela metade (o rádio é um simples pedaço de pau, mudo....: q.n.a.lh.tr.ma.um.recrdç.~, aquêle chinelo no canto da sala é um negocio sem sentido mas muito peculiar, simpático e para conduzí-lo a alguma supresa ou em busca do sedativo) – clamando a consequência daquêle barulho que vem do quarto, onde a mulher dorme. Se êle a encontrasse a gora, ali, no limiar da porta, trancando-lhe a passagem para convencê-lo de que era tudo um grande absurdo, uma fraqueza de seu espirito ainda não realizado de marido, tinha certeza de que abandonaria, de pronto, tão rude empreendimento. Chegou a pensar mesmo que ainda que Mariana se levantasse imediatamente para lhe dizer que de fato, sim, de fato, teve um desêjo enorme de traí-lo (onde?), mas que não o faria mais, ou adiaria (desêjo porque?) êsse... antes fosse capricho -, se êle deixasse de tolices, mesmo assim êle extinguiria a idéia por definitivo. Entretanto, ao cabo de poucos instantes, não veio nada do quarto e Felonio cruzou o arco da sala contraindo muito a fisionomia, agora estranhamente realçada pelo nariz arrebitado.[na margem 14-8-54].Estava efetivamente ferido em seu amor proprio; isso lhe dava, contudo, um grande temor, temor de sentir ferido no amor-proprio, pois no fundo tinha quase certeza de que não se dedicara à mulher nenhum verdadeiro grande amor: como poderia sentir-se ferido no amor-proprio, se não dedicara amor a ninguém? Será que não ama Mariana? E êsse desespêro de imaginá-la dividida nessa afeição que êle de forma alguma admite não lhe pertença totalmente?
          Assim conjeturando, Felonio saiu para o corredor, embaraçado em seus propósitos. À medida que se distanciava da porta de entrada, porém, crescia-lhe n´alma uma especie de revolta consumidora, que lhe transtornava a face, dilatando-lhe as narinas, isso tudo provocado pela visão de seu recanto fechado, entranhando Mariana, e do qual êle se desligava com grande rapidez. Quando apertou o botão do elevador, essa revolta recrudesceu, pois lhe veio à mente uma serie de associações não muito comuns, até perturbadoras: começou a prestar atenção ao rosto de Mariana e em suas reações faciais, por ocasião de seus coloquios com a mulher.[na margem 22-8-54]. Somente então percebeu o verdadeiro significado do olhar fugitivo de Mariana, exatamente nos momentos em que a fitava para sentir-se seguro quando aventurava um chiste malicioso ou tentava uma aproximação amorosa. Mariana iniciava a “retirada” com um passar de dedos ao longo das pernas, simulando um assentamento da saia; logo mais, desviava o olhar, de onde não se apagava um sentimento de respeito ao temor que invadia Felonio nêsses instantes. Só agora êle compreendia que aquêle ar encabulado da mulher era por culpa de sua falta de confiança, que na certa ela já teria notado. E foi pensando nisso que Felonio se sentiu horrivelmente ferido numa espécie de amor-próprio decorrente de não poder siquer ousar em sentir-se ofendido, sem que o invadisse uma humilhação que confundia com a pior das vergonhas.
           Um minuto mais, a porta do elevador abriu-se, êle entrou por ela, muito transtornado. Um segundo depois, contudo, ao esboçar o primeiro gesto, desanuviou-se-lhe a fisionomia, e êle adquiriu uma certa consistência animada nas feições: o olhar se aclarou imediatamente, invadiu-lhe a testa uma limpidez quase infantil, êle se tornava mais leve. Foi nêsse momento que disse ao ascensorista, em tom desusado:
            - Olhe, menino: tome aqui êste envelope. Você me faz o favor de entregá-lo à minha mulher, lá pelas dez e meia, viu?
           Sepelio levou a mão ao envelope, guardou-o no bolso, num gesto reflexo, muito rápido, antes de atinar com o sentido daquelas palavras. Procurou debalde o olhar de Felonio; não sabia enfrentar uma situação com aquêle homem sem primeiro olhá-lo bem nos olhos. Felonio, contrariamente, não conseguia olhar ao rapaz senão na medida em que êste procurava dissimular alguma coisa.
            - Sim senhor. O senhor quer que entregue às dez e meia, antes não, só depois das dez e meia, não é?
           O rapaz começava a alimentar um grande desêjo de vê-la de perto. Começava a associá-la a Gardênia, o coração batia-lhe forte, mas agora êle não teve medo.
           - É, me faz o favor. Mas não me entregue antes das dez e meia, faz favor?
           E como notasse que estava a repetir certas expressões, emendou atrás do “faz favor”:
           - Ela está cansada, Não quero acordá-la antes dessa hora.
          Sepelio procurava-lhe o olhar para dizer que sim, mas o remanescente da vergonha que invadira Felonio no corredor parecia reavivar-se sob o influxo da idéia de Mariana ser acordada em sua ausência. Antes que Sepelio pudesse afirmar que sim, podia ficar descansado, o cartão não seria entregue antes das dez e meia, Felonio ainda lhe disse, mas sem encará-lo siquer de relance:
          - E sôbre aquêle negocio...daquêle pessoal, que parece que você disse...que o atormenta, nós poderemos conversar qualquer noite dessas.
          - Ah, isso não tem pressa. Isso não se conserta assim, de uma hora para outra. Mas em tôdo caso, eu chamo o senhor, eu agradeço muito, nós conversamos qualquer dia dêsses, respondeu Sepelio, incoerente mas com estranha segurança.
          A figura de Gardênia, sua namorada morta em circunstâncias tão revoltosas, começava a tomar-lhe a mente, provocada pela ideia de acarear-se com Mariana. E isso lhe tirava qualquer temor.
         - Mas precisa ser logo, disse Felonio, em tom quase intimativo. O rapaz, inconcientemente, deu ao rosto um trejeito de submissão.
          - É. Porque hoje eu vou viajar e volto amanhã. Mas, talvez depois dessa viagem eu faça outra... E não sei para onde, nem se volto logo. Tem que ser nesta semana.

          [na margem 25/ 08/54]
Coisa estranha: parecia a Felonio que êle estava ali para infundir no rapaz uma espécie de sofrimento muito cruel e sem sentido, e que entretanto êle não poderia perceber através da fisionomia certamente transfigurada de Sepelio. Felonio não aventurou olhá-lo nem por um segundo, até que o elevador ganhasse o térreo. Só de então o ascensorista começou a modificar o semblante, que adquiriu uma tristeza tão desesperada, que êle não pôde deixar de dizer a Felonio, só faltando cair-se-lhe nos braços, como uma criança que estivesse para morrer, mas que soubesse o significado da morte e que fosse, de repente, diante de um ser mais velho, mais avolumado, mais grave, destituida de tôda inteligência e reduzida a uma criança bem menor, mas ainda com o significado da morte no coração, tendo a mente conturbada:
         - Oh, meu Deus, eu digo pro senhor qualquer dia dêsses... não! qualquer, é melhor uma noite... Mas eu não sei se devo dizer... Eu não estou bem certo... Essas coisas é melhor a gente guardar oh meu Deus que vida desgraçado sou um desgraçado desgraçado...
         Ao proferir estas últimas palavras, armava o punho e conduzia-o para o peito em gestos bruscos e cortados, porém sem bater. Tôda sua familia e seus casos particulares desfilavam-lhe nos olhos, àquela hora em chispas, profundamente enraivecidos. Felonio armava no cérebro um mundo de desconfianças envolvendo Mariana, o rapagão, o ascensorista, e isso lhe infundia um egoismo estremamente pernicioso, que se manifestava nos olhos, fincados no peito do rapaz, no ponto onde o punho descrevia a volta para novo movimento. Felonio queria tirar o máximo proveito daquêle desespêro, mas Sepelio subitamente quase lhe deu fim, limpando a fisionomia numa atitude inexplicável, que lhe colocou na boca um sorriso muito amarelo mas personalissimo, que desculpava imediatamente tôda a encenação.
          Todavia, Felonio não deixou que a calma se restabelecesse: inconcientemente, mas sem qualquer reservas, lançou as mãos aos braços do rapaz, segurou-os, firmes, e puxou-os para baixo, como se ainda houvesse desespêro:
          - Bem, calma, calma, rapaz, não faça isso... Hein? Ora, não! não se acanhe.
         E dizendo isso, ainda não chegava a olhá-lo no rosto. Quando, depois de algum tempo, soltou os braços do rapaz, pendidos e sem resistência, êste lhe disse:
         - O senhor me desculpe, é que eu ando meio nervoso, e às vezes digo coisas sem pensar... mas amanhã vou ter folga aqui no prédio e então chamo o senhor lá. Mas o senhor promete? ...
         E abriu a porta do ascensor. Felonio ouviu-o com toda atenção concentrada e, à vista de outras pessoas que aguardavam o aparelho, saiu, dando-lhe um tapinha no ombro. Atravessou o saguão e saiu do prédio, com a intenção, não só deliberada mas calcada em certa perversidade, de executar seu plano de verificação: dali, ocuparia a manhã para descansar ( pois dormira mal) num quarto de  Hotel que alugaria em lugar bem retirado: talvez na Estação do Norte, ou em qualquer outro recanto do Brás. Depois do almôço, ocuparia a tarde rondando a mulher e espreitando, com extrema (oh, precisará de grande habilidade. Êsse muleque sabe de alguma coisa, o como êle mesmo (que cara!) disse o desgraçado. Qual habilidade!, vou lá me esfalfar por causa dos estúpidos). Expreitando o rapagão espadaúdo, até saber onde mora, ou em que lugar do prédio êle transita. Não é que sempre o vê? Mariana daria seu passeio de tôda tarde; fatalmente (ou mesmo por coincidência) cruzará com o rapagão. Haverá alguma coisa entre êles. Êle os espreitará. À noite haverá alguma coisa. Mesmo que não haja, pela conversa que tiver com Mariana no dia seguinte, sempre tirará algum indício. Oh, como não vivem bem, sente isso, apesar de. Mesmo que não deduza nada, êle tem que ir falar ao irmão Amancio. Amancio lhe dirá que há sim, que ele deve cuidar bem do caso, ele Amancio lhe é bem mais experiente: só isso lhe apontará o caminho de alguma desconfiança. Como a manhã está fria. Gravata borboleta não se usa mais em São Paulo. E Felonio se perdeu em São Paulo.
         Mais tarde, pelas dez e meia, Sepelio entregou o cartão a Mariana, no encontro por que já passamos, no comêço do relato, ao qual se seguiu a visita do rapagão espadaúdo. E afinal a deixamos no apartamento, com o cartão entre os dedos e o pensamento dividido entre o marido e a fome do almôço, que ainda tardava.

 

III

 

Não tardara muito, o rapagão tornava a chamar, vindo surpreender Sepelio nas imediações do sétimo andar. O ascensorista deu um toque rápido na manivela, comprimiu o botão e zarpou para o décimo quinto. Estava um pouco sôfrego e a expressão do olhar traduzia um certo tédio não muito comum àquela fisionomia de linhas dinâmicas. Tudo fazia crer que era à custa de um grande desespêro de dissimulação que o rapaz afugentava do rosto um ar de súplica, fazendo com que então fixasse os olhos para baixo, até encontrar as costas da mão, onde se pendurou até a entrada de outro rapaz. Quando êste entrou ao invés de fortificar a atitude, lançou-lhe novo olhar, forte, resvalando pelo significativo mas quase inédito: não era mais aquela maneira de parecer intrometido, querendo perquirir como uma criança; agora, olhava-o com estranha simpatia, porém desanimado.
            O rapagão sentiu no outro uma espécie de desêjo profissional, só faltando pedir-lhe às claras que lhe dissesse tudo, o que fôra fazer junto à recém-casada, etc, mas com calma, muito calma, pois estava abatido. Algum sentimento, contudo, (ou alguma veleidade indifinível) pôs na boca do rapagão um sorriso como que enfiado para dentro, esticando muito a pele do rosto até realçar os olhos, que Sepelio percebeu serem esverdeados. No que será que esse menino não deixa de pensar! Era isso, somente essa indagação, mas numa forma vaga, a causa daquêle sorriso. O próprio rapagão pouco compreendia; tinha, antes, a atenção ainda voltada para o encontro com a recém-casada e para as primeiras consequencias dessa incumbência, que já prometiam muito. Êle não esperava que os primeiros acontecimentos do “caso” evoluissem de tal forma que já pressagiavam uma série infindável de aborrecimentos.
           Abro um parêntese para dizer algo sôbre o nosso rapaz. Começo por dizer que é advogado, ainda novo, mas de grande visão profissional. Tem vinte e sete anos e uma alma inqualificável; pouco tempo para uma profissão que exige sempre um grande acumulo de malicia e prática, mas o certo é que, em cinco ou seis causas que patrocinara desde a colação, chegou a pôr por terra cinco ou seis famosos causidicos da Capital. Talvez o fato se deva às características de sua alma, prodigiosamente inqualificável: Carlos (Carlos Caldas) não é tímido nem desembaraçado; para cada uma das situações encontra sempre a expressão justa de parecer bem acomodado. Talvez o fato também se deva à maneia com que coloca os olhos ( que são belíssimos, grandes e esverdeados ) num ponto acima do ombro do interlocutor, e no costume de mexer os maxilares, para cima e para baixo, sem abrir a boca. Aquela primeira caracteristica irradia uma espécie infalivel de fascinio, pois lhe pinta na fisionomia ares de grande sonhador. O simples olhar, entretanto, surtiria um efeito efêmero e logo o mostraria aos olhos do interlocutor em sua reduzida proporção ( sim, porque o nosso rapaz no fundo é de espirito vazio ), não fosse aquela mastigação ininterrupta, que não definia qualquer expressão. Os demais sentimentos, de bondade ou maldade, inveja ou ambição, são coisa em que jamais cogitara em seus vinte e sete anos de existência. Tinha um ról considerável de amigos, quase tôdos súcubos, que não se cansavam de fazer-lhe a roda, à noite, num certo ponto da Barão. Seus ombros largos e andar aberto dam-lhe um aspecto de ampulheta e sua simples aparência causa a impressão de um enorme corpo sem alma, mas estranhamente generoso e atraente. Entretanto, são impressões; deixo registrado, contudo, um fato recente, como sinal do que é capaz seu espírito vazio mas que evoluira a um grau espantoso de estagnação nessa idade: um ano antes do comêço dêste relato, Carlos Caldas cortejara, com insaciável assiduidade, a uma rapariga de vinte anos, bailarina do Taxi Dancing Maravilhoso. Não lhe custou muito fazer com que a “vadia” (era como antes a chamava) abandonasse a súcia de milionários insatisfeitos e viesse a cair-lhe nos braços; foi num fechar de olhos, e para seu próprio espanto. Viveram juntos um mês, ou pouco mais. Parco tempo para um idilio tão poéticamente nevrosado, mas o fato é que a rapariga não se disincumbia com o mesmo afâ, chegando mesmo a maltratá-lo e a tratá-lo com indiferença. Uma noite, êle apareceu pela Barão com aspecto doentio, consternando e de olhos baixos. Mas como o “pessoal” estava alegre e agindo com muito estrépito, o nosso rapagão, lépido, esvoaçante, abandonou os ares de velório e passou a distribuir abraços e empurrões, gingando o corpanzil, que parecia numa constante dança. Determinado momento, diz-se, chegou até a insinuações de ordem particular. A conversa descambou para o lado do amor, da fidelidade, alguém falou em traição, por fim falava-se das mulheres da vida e seus amores. Um disse que elas amavam violentamente, outro que era um tipo de amor controlado, etc. subitamente, Carlos irrompeu:
            - Coisa nenhuma! essas mulheres – é como eu sempre digo! – não se apaixonam jamais por nenhuma criatura!, disse, muito lívido e com segurança. E depois de pequena pausa: - ou, para não ser absoluto... só se apaixonam por “tiras” da polícia ou traficantes de merc... ou contrabandistas!...
            Nêsse mesmissimo instante, êle percebera, como nunca, que estava começando a dedicar à bailarina uma espécie de amor infausto, honesto. Mas não se martirizou muito; quase em seguida, teve de conter a explosão de um de seus melhores amigos, um rapaz magrissimo e alegre:
            - Ora, deixe de ser bôbo! Não diga uma coisa dessa! Como é então que não se apaixonam? Por acaso, elas são diferentes das outras mulheres?
            E um pouco mais calmo, mas em tom professoral:
            - Francamente, você com isso mostra desconhecer completamente a vida...
           Aqui, a necessidade nos obriga a cortar a cena e a transportá-lo para o dia seguinte, quando êle, após passar “uma noite de cão”, foi em busca da rapariga, sem saber em que acreditar. Encontrou-a viçosa e afável. Gastando duas palavras envolvidas numa rouquidão evocativas para a rapariga, entrou, depois de espiar pelo quarto, e franzindo tôda a cara por causa da nicotina apagada. Uma hora mais tarde, caiam nos braços um do outro, com a leve diferença de que a rapariga começava a reagir com certa indiferença, como se estivesse intuindo alguma coisa.
            De fato, Carlos, com os olhos sempre fixos em seu pescoço, fino e rosado, evitou chegar aos extremos da relação amorosa, substituindo o ato por uma contemplação não muito sadia, que atemorizava a mulher. Então começou a envolvê-la numa série de perguntas sôbre seus passado. A rapariga desandou a contar uma história confusa, que gerava outras inocentes, sem sofreguidão, com a pachorra prazeirosa com que essas mulheres relatam fatos de seu passado. Carlos escutava-a desenhando-lhe algo no joelho com a ponta do dedo, e levantava os olhos de quando em quando para o teto. Pasmava-se da distração da outra, respondendo a perguntas que já foram feitas nos primeiros dias daquela ligação. “Devia estar muito amedrontada”. Contudo, tinha no rosto uma tranquilidade que dava realce àquêle queixinho compriiido, como se fosse desprender da bôca-faz-bico-e-estala. Tàla-Plaft!: quando a rapariga deu por si tinha aparado uma  bordoado no meio da face e rolara para o criado-mudo, sem proferir gemido. Foi coisa de um segundo, desprendeu-se num vôo ardido, esparramando-se no chão, de onde pôde ver, sem pensar nada, o corpo de um homem (quem seria êsse malvado?) vestir-se e sair do quarto:
           Carlos a provocou até que ela se referisse a uma determinada passagem de sua vida anterior. A rapariga ingenuamente desceu a minúcias dizendo que então êle (o homem que a desencaminhara) chegara muito bêbado e então começou a maltratá-la – somente com um gesto horrível – dizendo então que ela é que não tinha mais jeito; e gritava (ou só dizia?) que era somente...somente...por causa dela que não tinham nenhum filho; então que êle não era o impotente, mas ela, e então com que cara ia levá-la à sua “velha” (tinha quase a mesma idade da mãe) ? Então ela não sabia que se a levasse para conhecer a mãe...assim...essas duas caras culpadas aparecendo, seria capaz de fazer com que sua mãe os enxotasse pela escada abaixo?
            Em seguida, a rapariga se levantou, apoiando-se nos punhos, e pôs o rosto para frente, com as pernas para fora da cama. Carlos esperou o momento em que a “rememoração” fosse patente, bem presente; e quando a rapariga representou a atitude de uma mulher leviana dizendo a alguém uns desafôros que não eram rispidos, mas humilhantes, soltou o braço com vontade. Um minuto depois, tinha descido a escadaria de quatro em quatro, trazendo os cabelos esvoaçantes na testa. Atravessou, rápido, a Av. Rio Branco, tomou um bonde quase vazio no Paissandú e foi com ele até a Angélica, mas sempre no estribo. Determinado momento, entrou-lhe pelo espirito um bem estar extraordinario e êle pôde provar o gôso deliquescente de uma felicidade que nunca sentira. Foi quando teve vontade de atirar-se do bonde em alta velocidade (êle chegou a antever, por cima do asfalto que se deslocava com um tapete mágico, suas pernas se atropelando no ar), só não o fazendo devido ao temor que o invadiu súbitamente, ao pensar que poderia ter sido preso no ato do espancamento.
           Dois mêses mais tarde, soube-se na Barão que contraira noivado com uma moça do interior. Chegou-se a dizer que Carlos instara junto à família da moça, para transferi-la para São Paulo, no que foi atendido dentro de poucas semanas. Foi desde então que não mais apareceu à noite ao encontro com os amigos, e dêsse noivado o pouco que se soube com precisão foi que a moça o amara deveras e com fervor. Um dia, quando já Carlos começava a entregar-se naquela teia amorosa (digo “já” porque, por incrivel que pareça, êsse rapaz é das pessoas mais difíceis de se apaixonarem que já conheci), ouviu dizer de um indivíduo másculo, que lhe dava o dôbro e que gesticulava entre ignorantes (eram ignorantes, não tinha dúvida!) que “aquelas mulheres” não se apaixonavam por ninguém. Era num bar, Carlos estava no balcão, chegara até a apoiar-se nos cotovelos esperando a frase final, aquela que prorrompeu gostosamente: - isto é, só se apaixonam por tiras etc etc.
           Uma semana mais tarde, diz-se, o nosso rapagão rompia o noivado, depois de deslanchar o braço por cima do irmão da noiva, alegando que o molestava muito a excessiva confiança com que, tinha certeza! , o outro rapaz se referia a fatos amorosos em sua presença: comentou-se que Carlos era tratado como um trouxa, mas o fato é que o nosso rapagão era demasiadamente egocêntrico para se ofender com insinuações. Sôbre a verdadeira razão, jamais se falou com nitidez...
           E sôbre seu papel nêste relato, basta saber, por ora, que o acaso fez com que conhecesse os irmãos de Felonio, aquêle casal de solteirões que reside na Lapa, há cerca de dois mêses. Carlos conhecera Amâncio Assunção no Joquei Clube em circunstancias bem particulares, que serão mais tarde relatadas. Presentemente, tinha uma missão a cumprir junto ao casal, de ordem sigilosa para tôdos e principalmente para o marido: tratava-se de um caso de herança, depois de determinado inventário do pai de Felonio e Amâncio, falecido ainda em 1943.
           O inventário compreendia alguns bens esparsos, mal localizados e de parco valor, e uma casa de dois andares e grandes colunas, construida no fundo de um terreno baldio da estrada de Santo Amaro. Descontados os honorários do antigo advogado e mais as despêsas de especificação dos bens, foi preciso proceder-se a venda ou desistência daquêles bens esparsos, para que pudessem sair quites do processo e com direitos iguais sôbre a casa abandonada. Mas, ao tempo dêsses acontecimentos, o esquisito solteirão, Amâncio Assunção, se via premido por necessidades quase desesperadoras devido à vida desregrada a que se atirara de há longo tempo. Então imaginou um meio de fazer com que Felonio, possuidor de outros bens, abrisse mão de sua parte em favor da irmã, Julieta Mara, usando, para tanto, certos artificios de ordem sentimental. O simples fato de fazer com que o advogado fosse procurá-los uma semana apenas após o casamento era um golpe de mestre que desferia “para inicio de conversa”, para usar sua propria expressão.
            Não pudemos ouvir o diálogo entre Carlos e Mariana, mas podemos deixar bem claro que o rapagão evitou dar qualquer esclarecimento à recém-casada. Entregou-lhe o cartão profissional, rogando-lhe, num gesto quase romântico e contudo muito seguro, que comparecesse ao seu escritório, aquela mesma tarde, onde “teria o maximo e honrosos prazer de incumbi-la ( foi a palavra que agradou a mulher ) de cooperar com êle para o mais rápido andamento numa causa de grande importância”.
             Em seguida, não pensou mais no caso, distraindo a atenção em coisinhas minusculas e particulares. Foi êsse ar de risonho alheiamento, que dava a impressão de superioridade zombeteira, a causa da inquietação do ascensorista. Depois que o rapagão partiu, Sepelio deixou alguns inquilinos em seus andares e sentiu enorme desêjo de voltar ao décimo quinto. Queria saber de onde vinha aquêle vozerio atordoante de crianças e confirmar num certo presságio que o vinha martirizando há mais de um mês. Nas últimas semanas, êle vinha sonhando com certas situações estranhas, horripilantes, sonhos onde se via acuado diante das coisas que mais amava na vida, e onde, geralmente, era atormentado por crianças. Ora era um meninote de seus ou sete anos, que lhe surgia de sob a cama  e lhe mastigava os cabelos com voracidade, produzindo-lhe fortíssima dor de cabeça, ora um bebê que crescia, crescia, crescia assustadoramente, até preencher tôdo o espaço do quarto e depois de redondo explodia, voluteando seus fragmentos em bandeirolas que desciam e espirais, até se fincarem no chão em fileiras simétricas. Uma e outra vez, sonhava que seu pai atravessava a parede  e se punha a altercar com o senhor Jerônimo, pai de Gardênia, o detestável pai de Gardênia. A discussão chegava-lhe até a cama envolvida em cantorias que procuravam disfarçar a quem passasse pela rua, e certamente deveriam ser entoadas por Gardênia, ou pela irmã. Certa hora, Sepelio ouvia um disparo e logo uma lamentação abafada, à qual se sobrepunha um silêncio enlouquecedor. O rapaz, com o coração aos trambolhos, virava-se convulso na cama, aguardando com a fisionomia esbranquiçada o desfêcho daquela situação: pedia a Deus que seu pai dissesse algo ou aparecesse por onde entrara. Mas não vinha nada e então êle se consumia em pensamentos tenebrosos, que se alongavam pela madrugada tôda, até o momento em que, prestes a conciliar o sono realmente, ouvia os passos do pai se arrastarem fanhosamente pelo corredor, para depois, do limiar da porta, sempre sem entrar, acordá-lo com energia para o trabalho.
            Relembrando alguns de seus últimos sonhos, Sepelio trouxe à mente aquelas palavras que ouvira de um dos meninos escondidos, antes de entregar o bilhete de Felonio a Mariana:
            - Pode acabar o mundo, pai, pode acabar, eu é que... -, e aquêle barulho esquisito, antes da lancinante lamúria.
           O ascensorista ainda estava abalado pelo encontro que tivera com Mariana. Agora, rememorava, uma por uma, as linhas da fisionomia da mulher, forçando por não acreditar que houvesse, naquêle apêrto de mão, qualquer intenção sedutora. Tinha pouca prática com mulheres, mas logo que lhe vinha qualquer dúvida sôbre determinada situação, invocava a lembrança de Gardênia. Era seu ponto de partida para tirar deduções, de onde quase infalivelmente generalizava. Assim, pois, corado pelo sorriso ambíguo da recém-casada, e ainda mais excitado pelo contacto com aquela mão que parecia um pêssego animado, Sepelio caminhava absortamente pelo corredor, esquecendo-se de seu trabalho. Sua confusão aumentava à medida em que se procurava transportar ao primeiro encontro com a amada desaparecida. Lembrou-se:
             FOI NUMA TARDE, por volta de sete horas, antes de escurecer. Residia ainda na mesma casa, o sobrado antigo da Barra Funda, estilo veneziano mal delineado, uma moradia grotesca e empoleirada em outra geminada, onde morava Gardênia. Faziam parte de um conjunto de casas de propriedade de um italiano papalvo, que residia no Rio. Não fosse a velhice – deviam ter sido construídas por volta de 1900 -, e o local - incrustada quase entre dois cortiços onde a algazarra bimbalhava por volta das onze, entre batucadas, palavrões e choros de crianças -, deviam ser de altíssimo valor, cujo aluguél provavelmente não pudesse ser pago pelos nossos inquilinos.
             Àquela hora, diariamente, Sepelio costumava sair para uma pequena caminhada até a Praça Olavo Bilac, onde um minusculo e redondo jardim servia de campo para a infalivel mas quase sempre inacabada “pelada” de moleques sujos e briguentos. Naquela tarde, rodeou, como de costume, o pequeno pateo comum às duas casas, levantou os olhos para o segundo andar, onde sempre se postava seu pai, zangou-se contra êle, para logo em seguida arrepender-se quase amaldiçoando-se e estugou o passo. Costumava caminhar com pressa, sem ver onde pisava. Tinha já se distanciado uns vinte metros, quando ouviu:
             -Pst!
            Voltou-se automaticamente em direção de casa, procurou o rosto do pai. Entretanto, o homem parecia uma estátua, não percebia nada, nem de fora, tampouco de dentro.
           - Sou eu, disse-lhe uma vozinha fina e rouca, saída de trás do muro, onde uma brecha de quatro ou cinco metros emoldurava um corpinho espigado de menina, de uns dezesseis anos, alta, muito magra, morena, e de cabelos podados na base das orelhas. Tinha o nariz fino e os lábios grossos, mas quase sem côr. Os olhos eram doces e severos, de uma confiança enérgica; entretanto, no conjunto, a rapariga dava impressão de franqueza.
            Sepelio encarou-a a princípio   sem bem atinar com a situação. A menina aproximou-se mais, fez-lhe um sinal ambiguo, em que parecia falar com o cotovelo, anunciou-lhe que parasse, que tinha algo a dizer-lhe, sem contudo sair da brecha do muro. Parecia esconder-se da visinhança.
            -Venha aqui (agora, nêste instante, Sepelio parecia ouvir a frase, sibilina, elástica, aguda) um pouco, disse, separando, o “venha aqui” de “um pouco”. – Não é você o Sepelio? Ou é o outro, o seu irmão? Qual dos dois é o Sepélio?
           - Sou eu mesmo, disse o rapaz, aproximando-se, depois de olhar para a casa, como se praticasse algum ato.
           - Acho que você deve me conhecer, pelo menos de vista. Eu moro naquela casa pegada à sua, há mais de três mêses... Mas eu não apareço muito, não! agregou, adivinhando qualquer pensamento de Sepelio.
            O rapaz sabia de tôdas essas particularidades, que então considerava insignificantes. Entretanto, a expressão de seu olhar parecia sugerir que estava surpreendido e que jamais a tinha visto.
            - Aliás, continuou a menina, antes de nós, morava aquêle casal de velhos, tios de papai, que você deve ter conhecido – conheceu? É claro! Mas êles não aguentaram essa vida da Capital, coitado do meu tio-avô: era bem mais doente do que vovó...Quer dizer, era minha tia-avó, você sabe. Ah, “era”, veja só, êles não morreram ainda! Voltaram pro interior e passaram a casa para nós. Foi uma sorte, porque é mesmo difícil arranjar casa na capital... Que que você acha? Mas aposto que nem sente isso. Você nasceu aqui mesmo, não é?
            - Não, eu também nasci no interior, mas vim pra São Paulo quando tinha uns três ou quatro anos. Meu irmão é que nasceu aqui -, agregou Sepelio, aliviado por perceber que a conversa saia daquela teia de considerações adultas, que o estiolavam.
            - Logo se vê, logo se vê que o seu irmão nasceu numa capital, disse a menina, sorrindo e sublinhando o “seu irmão”, como se estivesse insinuando algo. Aliás, prosseguiu, não vá pensar que eu ando especulando a vida dos outros, mas como as nossas casas são tão juntas – e isso só não vê quem é cego ou quem é muito antiquado! – eu sempre estou vendo vocês, principalmente na cozinha... Ha! do meu quarto, no fundo, se vê sua cozinha inteirinha! Mas aposto que você nunca percebeu isso, e da sua casa a vista é a mesma, as casas são gêmeas.
            Visivelmente perturbado, com a fisionomia tomada de surprêsa, Sepelio voltou-se num gesto meio reflexo, a espiar a disposição das casas. Seu olhar deixou o pescoço da rapariga (onde se pendurara no inicio do encontro) alongou-se pelo muro, deslizou por seus intersticios, até então nunca notados e que o convidavam para um ato obsceno ainda indefinido em sua mente, afinal encaixou-se na janela do quarto da rapariga.
           - Pode ver: não é mesmo? perguntou a menina, devorando-lhe os gestos, estranhamente interessada, Seu olhar adquiria lampejos de insaciável madureza.
          O rapaz queria responder, porém uma fortíssima sensação erótica lhe dava um nó na garganta. Era horrível – percebia inconscientemente – não poder controlar-se, quando tudo lhe indicava estar em plena rua e talvez à vista de transeuntes. A visão do quarto de uma donzela, situado nos fundos de sua propria morada e o convite para uma aproximação, feito em circunstancias inesperadas e de iniciativa da própria donzela, tudo o punha confuso. Ainda mais, devia estar assumindo atitude ridícula. Estava pensando nisso a ver se dissimulava  a excitação e encontrava qualquer palavra, quando ponderou que ainda podia estar sendo visto por seu pai. Dando um pulo de uns três palmos e mexendo a cabeça num requêbro de quem cabeceia uma bola, assoviou forte e jogou o corpo para dentro da brecha do muro, caindo do outro lado, perto da rapariga.
          - Mas ora! Não é atôa que eu pensava aquilo de você! Quando alguém começa a falar sério, você leva logo pro lado das brincadeiras! Você precisa deixar de ser distraido!
           A menina falava e realmente se zangava com aquêle jeito do rapaz. Todavia, nem a mínima percepção do estado de Sepélio – sua excitação, seu temor – lhe passava pela cabeça. Desenhou na boca uma expressão séria, quase rude, puxando os bordos dos labios para baixo. Seu pensamento voou para certos fatos espreitados à socapa, em que envolvia Sepelio numa série de recriminações muito sentidas. Devia tomar coragem e dizer-lhe tudo, o quanto êle era odioso, agindo daquela maneira. Procurava arquitetar no cérebro um acontecimento qualquer, por ela presenciado, para ilustrar aquela admoestação, que começava a perturbá-la.
            - Porque você é tão nervoso daquele jeito? perguntou num tom onde um certo carinho, não infantil, mas de mulher, vinha arrancá-lo daquêle alheiamento em que se enfiara, depois do pulo. À medida em que perguntava, trazia o corpinho fino para perto do rapaz, que então se encostara lateralmente no muro. Em seguida, com as costas na parede, puxou a perna direita para cima e, dobrando-a no joelho, colocou a base do pé na superficie do muro, em atitude de quem se reclina de pé.
            Sepelio sentiu-lhe a presença coleante e também fez menção de aproximar-se mais. Com o coração disparando, levantou o braço esquerdo e pôs o pêso do corpo no cotovelo, fincando no muro bem perto da cabeça de Gardênia. Sentia um enorme desejo de apalpar qualquer parte do corpo da menina, porém não sabia como começar. A menina fizera a pergunta e se pôs em posição de quem espera qualquer palavra para engatilhar outra. O olhar que endereçava ao rapaz tinha um brilho de safadeza, que fazia com que êle não a levasse muito a sério, apesar de a pergunta tê-lo feito estremecer por um segundo, imaginando algo.
            - Nervoso. Eu não tenho nada de nervoso! Você acha que eu sou um sujeito nervoso?, disse, sem qualquer entusiasmo pelo sentido da frase, com essa voz engastada e irrefletida de quem cochicha em colóquio amoroso. Seu hálito parece que provocou mais a fisionomia de Gardênia.
            “Ora que rapaz esquisito!” – pensava ela, quando começou a dizer:
            - Não, até que não! Você é muito calminho e tem sempre razão! Eu acho que o seu pai é um monstro, quando quer fazer alguma coisa com você! A sua mãe então, nem se fala! Eu acho que não está certo ela fazer aquela história de ir provocar teu pai pra te surrar e depois, quando seu pai se enfeza, ela fazer tôda aquela cena! Não, benzinho, eu acho que você e sua mãe deviam agarrar o seu pai e nem sei o que fazer com êle!...
            Sepelio tinha deixado deslizar o braço pelo muro e já ia enlaçá-la, quando essas ultimas palavras o fizeram recuar meio pálido e com a mente completamente turva. Gardenia virou-se e, com a língua entre os lábios, a ponta para fora alguns centímetros, avançou para o rapaz, encarou-o por alguns instantes, olhando-o nos olhos. Repentinamente, depois de olhar para tôdas as direções, levou a mão ao rosto de Sepelio, começou a apertar-lhe a bochecha com fôrça, até unirem-se os cantos da boca, sob a concha da mão, ao tempo em que dizia:
            - Não, bobo, você é que tem razão! Não vá ficar outra vez nervoso! Meus pais também são bonzinhos, porque se não fossem, fazendo o que às vezes você faz...não sei! Mas olhe, escute aqui (e apertava ainda mais a boca de Sepelio, encaixando o corpinho magro no corpo do rapaz): - eu acho que sua mãe também não tem razão, obrigando você a ir à Igreja. Ah, você pensa que eu não sei porque você não frequenta mais a Igreja? Não seja bobo, meu bem. O que você precisava era uma mãe que fosse uma mulher que te entendesse. É ou não é?, e finalmente tirou a mão, sorrindo às últimas palavras.
            Trazia desenhada da mente um imagem em que Sepelio aparecia envolvendo-a num abraço que estreitava a cabeça ao corpo com muito afã. Seus corpos caminhavam paralelos mas distantes, o abraço do rapaz colava com energia as duas faces, fazendo com que o nariz de Sepelio preenchesse o espaço de seu rosto, entre o nariz e o malar; sua boca, por sua vez, se encaixava entre o lábio e o queixo do rapaz, assim, de uma forma em que algo compensasse algo, os rostos caminhassem unidos e os corpo não se tocassem.
            - Se é uma questão de mulher, você pode servir, mal pôde dizer Sepelio, sentindo-se invadido por uma onda de amor. Seus olhos fixaram-se nos lábios grossos da rapariga, onde um leve rubor cobriu por instante a brancura que causava certa espécie.
            - Você quer ser minha mulher e me entender, meu bem?, continuou, descolando com dificuldade as palavras do pensamento, excitadíssimo. – Eu já pensei, muitas noites, em estar com você, sozinhos, lá na água-furtada, onde ninguém nos amolaria... Você gostaria? perguntou, mais seguro, ao passo em que lhe acariciava o queixo.
            - Ora, deixe de ser atrevido! Então você pensa que eu sou dessa laia? explodiu a menina , de repente, à medida em que pôde recuperar o senso. Por um segundo esteve pálida, quase branca, o chão pareceu-lhe arrancar-se como um elevador descontrolado, e esteve à raia do desmaio. Sepelio, visivelmente tomado de surpresa, afastou-se um passo, com a cabeça turbilhadona. O primeiro movimento conciente a empreender foi o olhar por tôda a extensão da rua, com um medo de ver alguém, que se transformava em pavor ao perceber o pai de Gardênia bater o portãozinho e caminhar em sua direção.
            A menina trazia um coração aos galopes, como um animal bravio que disparasse à toda em busca da acariciante crina desaparecida. Suas feições adquiriam, a muito custo, uma tranquilidade remoida, que transformava a menina numa dama de alta linhagem: em seguida, uniu as mãos à altura da cintura, levantou a cabeça, fez um leve bico com a boca, esperando a chegada do pai. Oh, como vinha em má hora, pensava, quando aquêle homem anguloso, de cabelo muito untado, sem nenhuma linha de corte, trajando um terno excessivamente justo, cujo paletó se abria atrás, numa aba que se abanava sempre, se aproximou:
            - Papai, tenho a oportunidade de apresentar-lhe o Sepelio, nosso vizinho, que você tão bem conhece de vista, disse a menina com afetação.
            A timidez de Sepelio aumentava com o tom de frivolidade com que Gardenia se postava.
            - Ah, muito boa tarde, senhor Sepelio. Sabe que é um grande prazer poder tratar com um vizinho distinto nesta terra abençoada de gente desunida? Ahn-hã-Ahn-hã, quanto me custa acreditar que dois vizinhos um dia se encontrassem e pudessem trocar duas palavrinhas dois minutinhos, em São Paulo! Ahn-hã-Ahn-hã, tenho ou não razão, meu novo amigo? Perguntou, quando ilustrava as três últimas palavras segurando as duas mãos desjeitosas de Sepelio e guardando-as na altura do colo, com certa elegância.
           - Ah, é mesmo, muito prazer!, o costume aqui nosso... Aqui ainda nós temos vizinhos muito dados -, começou a dizer; e voltando-se para Gardênia: - Mas não notou ainda em outros bairros como êles não se conhecem, anos e anos? – e sorriu, afim de cobrir com o sorriso a falta de pronome, que não sabia qual escolher para a menina.
            - Não, respondeu esta em tom admirativo. Mas também não temos saído geralmente, não papai?
           Crescia com o mal estar do rapaz a cerimônia da menina para com o pai o que lhe dava aspecto de grande rudeza precipitada, resentida pela surpresa do encontro.
            O nosso homem passava por cima da filha  e durante tôdo o encontro, se chegou a dirigir-lhe a vista por uma só vez, foi muito. Teve, por tôdo o tempo, os olhos presos à fisionomia de Sepelio, tragando-lhe, uma a uma, as atitudes. Dir-se-ia que almejava ansiosamente “saídas” de classe daquêle sêr diminuido pelas circunstâncias e que a desatanção ( não era desprêzo) que devotava à filha tinha uma raiz em qualquer observação anterior que fizera do casal.
          - Mas veja senhor Sepelio (ora: vou chamá-lo Sepelio se me permite), que também não “se há” prazer em sair, quando não se pode falar com ninguém, disse, tomando a última fala como se dita por Sepelio, ao passo que lhe largava as mãos.
         - A não ser quando é para levarmos mamãe a algum cinema ou teatro, não? E por falar na mamãe, como está ela, está passando bem? perguntou estapafurdiamente a menina, a Jeronimo.
         Gardênia mirava o pai muito crescida em anos: a dureza de seus olhos ultrapassavam o rancor de uma mulher rigida. Contudo, mentalmente, pedia-se perdão por olhar com desconsideração a seu pai, mas aquilo tudo era trazido por um fenômeno que a transformava numa moça, sedenta de amor e de prazer e que era interrompida desastradamente. A figura de Jeronimo, enquanto pai, perdia em autoridade, enquanto ganhava em inoportuno, em antipático.
          - Ora, mas você é um rapaz diferente, um rapaz distinto e elegante, mas, o que adianta?, não pode suprir a idade! Ahn-hã-Ahn-hã, no fundo é ainda uma bela criança, e isso é perigoso, disse, e seus olhos se abriram enormemente, dando maior realce ao cabelo emplastrado. – Mas é inteligente, muito elegante e inteligente, disse com estranho vagar. Sùbitamente, alongou o pescoço, e o pomo-de-adão subiu e desceu numa ondulação cômica e familiar.
          - Não, é muita bondade do senhor, ia dizendo Sepelio, quando Jerônimo, abanado a cabeça – (num determinado perfil, Sepelio se apercebeu do perigo, do iminente perigo!, se aquêle homem tivesse visto – e se tivesse visto?!!!) – e percorrendo os cortiços, falou atropeladamente:
           - Não: você tem no que gastar seu tempo, mas nunca poderia ter notado certas coisas que só o tempo traz. Mas... não quero dizer que o tempo não lhe seja precioso; não, não é isso...Sabemos que você trabalhar em alguma coisa, não é mesmo, Gardenia?
           A menina enrusbesceu e Sepelio se melindrou com certa mágua.
           - Sabemos que você é nobre, e o quanto me deu prazer...
           -         Papai...
           -         ...conhecê-lo.
           Essa menina precisaria de uns tabefes para deixar de ser egoista. E será que eu teria visto mal? E seria um mal?...
           - Ah, mas nada adianta, nada adianta, se não se comunicam as pessoas. Olhe: (e assumia um ar de mistério a espreitar os cortiços) – só êsse negros é que se conversam!
          Sepelio quase se aventurou a dizer que aquilo não era conversa, que era só briga, pancadaria e desavença. Mas como podiam batucar tão bem? E no batuque os ressentimentos não desapareciam? Era possivel criança de três e quatro anos avançar pela madrugada tôda, comendo pedra com terra e aguentando naquelas perninhas bambas a visão do espetáculo? Não, essa gente não era conversa. Espiava o decote e o colo magro e a boca mordível de Gardênia.
           - Ah, há, há, começou a rir fanhoso e baixo, Jeronimo. Êsses malditos... Ah, Deus me perdoi...Eu quase diria “êsses malditos”, mas o caso é que não têm culpa, mas olhe: sómente êsses negros têm uma vida de relação nesta terra! Ha!, mas isso está no sangue! Reparou como está no sangue? Mas é uma linguagem degenerada, que êles não podem evitar, senão acontece uma hemorragia!
            Enquanto falava, Jeronimo dava um balanço giratório com a cabeça, continuadamente, percorrendo com avidez o bando do casario sórdido que se engalfinha por tôda extensão da rua. Gardênia se distanciara uns passos e descascava com a unha o reboque do muro, no lugar onde Sepelio quase a enlaçara, quando seu pai surgira. Aumentava-lhe dentro do peito um prazer medroso ao dar asas à imaginação, ao passo em que suas unhadas, de leve, chegavam a transformar-se em carinho, raspando o muro, ruóc, ruóc, e produzindo-lhe outros arrepios.
             Jeronimo agarrava o rapaz atônito, cuja fisionomia sem rigor, apanhada de surpresa, os olhos claudicantes, a boca aberta se ovalando, produzia na menina uma fuga de virilidade, um prazer esvoaçante, que lhe tirava a consistência das pernas. Aos poucos, também ela se sentia fraquejar, e medrava-lhe no espírito insatisfeito um comêço de temor pelo pai. A figura enlevante do meninote se diluia numa criança indefesa, e isso lhe dava um mal-estar de cadeira de balanço abandonada de súbito por algum velho achaqueado.
            - Ah, calcule uma hemorragia saindo das frestas do corpo dessa gente!, dizia Jeronimo, empolgando-se. – Que espetáculo, como essas crianças fedidas- pobrezinhas – lamberiam o sangue dos vizinhos! Ah... Maravilha de São Paulo... Venha, venha você e traga seu pai qualquer noite dessas, para jogar um baralho em casa. Vi logo que você era aquilo que eu pensava. Menina (êsse “menina” infundiu em Sepelio um grave terror, do qual êle jamais se esqueceu, sem nunca explicar a causa), não deixe de convidar o nosso belo moço para jogar em casa.
            - Está bem, seu... Qualquer noite dessas eu vou, qualquer primeira oportunidade... Muito obrigado.
            Jeronimo ainda lhe deu dois apertos de mão, um abraço, logo em seguida outro apêrto de mão, quando então segurou a do rapaz enquanto olhava a filha absortamente:
           - Então vá para casa, que acho que sua mãe não está muito bôa. Anda com os nervos abalados. Mas é enxaquêca, não passa de enxaquêca; vá logo.
           A menina chegou a comover-se intimamente por um segundo e esqueceu-se de Sepelio. Êste, durante tôdos êsse ultimos instantes, enfiara as mãos nos bolsos, abstraindo-se por completo. Seu único pensamento podia resumir-se numa espécie de promessa que fazia a si mesmo: parece que daquela hora em diante, tinha certeza!, teria coragem de encarar o pai com energia e conversar com êle naquêles mesmos têrmos. “Ora, meu pai, deixe essa vida esquisita, pense bem, meu pai, abandone êsse negocio sem futuro, vá trabalhar comigo, meu pai”... Oh, tristeza infinita, como sentia um sofrimento estranho, que parecia derreter-lhe o sêr, ao cair na realidade, da qual êle mal podia entender o aspecto exterior! Porque não podia realizar nada do que planeja?
           - Eh, bobo! Não vá ficar com essa cara, que prefiro ir com o pai... Ah, meu pai é muito...
           Ia dizer “bom” e parece que não acreditava no que ia dizer. Em nenhum momento, todavia, teve um leve estremeção de remorso ou mal-estar. Tôdo seu ser vibrava por um ataque em bruto do rapaz, na delicia de ser amassada. De repente, perpassou-lhe o corpo um endurecimento de proteção, que se manifestou no rosto, incontinentimente sensual. A menina mordia os labios grossos e brancos e seu olhar se transformava numa chama viva.
            - Oh, meu Deus, eu te protejo, venha, não tenha medo, aqui estamos seguros! -, e Sepelio lançou-se ao pescoço da menina, apertando-a intempestivamente. – Não tenha medo, não tenha medo, não tenha medo, dizia, mordendo-lhe o cabelo, ao tempo em que suas mãos lhe desbravavam as costas, onde êle pôde sentir os tórulos da espinha. Seu rosto, por cima do ombro de Gardenia, estava livido e tremiam-se as fissuras dos labios, enquanto os olhos pareciam vagar naquela região interior, onde se procura a reflexão.
             - Medo de que? Medo de que?, dizia-lhe Gardenia, baixinho, ao ouvido. O que é isso, meu bem?
            As ultimas palavras ainda aumentaram mais o embaraço do rapaz: o final da frase, carinhosa, soava a Sepelio como o maior testemunho da segurança da menina. Percebeu que devia estar grotesco, mas imediatamente se afastou, repelindo-a sem lhe tirar as mãos dos ombros. Queria desviar-se de seus reais sentimentos.
           -Não podemos! Não podemos nem pensar...em...nos amar! Você me perdôa... Eu queria... eu daria a vida para continuar...assim. Mas você viu bem que o seu pai percebeu tudo... Eu notei que o seu pai está tramando alguma coisa contra você!
            E enquanto falava, descia as mãos pelos braços de Gardênia, não se aventurando a qualquer outro movimento. Percebia a superioridade da menina. Recordava-se, momentaneamente, da fortaleza da filha ao encarar o pai. Parecia-lhe a espôsa do pai.
            - Bobinho, disse por fim Gardênia.
            Houve quase meio minuto de silencio, ao fim do qual a menina disse, tirando as mãos de Sepelio de seus braços:
           - Bobo!
           A palavra, de diminutivo para o normal, aumentava-lhe a airosidade. Envolvia-os um vento frio, entremeado de uma garôa rala e intermitente.
           - Você viu...Eu queria...Eu tenho pensado muito em você..., insistia o rapaz, não sabendo bem porque nem o que fazer dos braços, se os cruzava, se enfiava as mãos nos bolsos. Era terrivel provar a sensação de dois membros recém-nascidos.
            - Tolinho, disse a menina. E em seguida: - Tolo!
           Aquêle alternar de graus num sinônimo adulto também era uma mudança no rosto de Gardênia, que, de minuto a minuto, crescia em presença de Sepelio. No intimo, Gardenia ansiava, numa calidez que lhe aumentava o porte, por um abraço e talvez um beijo de Sepelio. Se êle não estivesse tão transtornado, ela se lançaria ao pescoço do rapaz e lhe beijaria a boca, nem que tôda vizinhança estivesse espreitando-os.
             De repente, Sepelio puxou-a pela cabeça e pôs-lhe um beijo no rosto, do lado esquerdo.
            - Que é...?, disse a menina, que se sentiu de novo numa sensação de leveza. Sua boca parecia mastigar algo, sem abrir-se. Sepelio lhe segurou a mão direita, afastando-se e com outra lhe apertava o cotovelo, subindo, de quando em quando, pelo braço até a altura do ombro. Essa situação durou um certo tempo, durante o qual a menina avançava a cabeça, fazendo recuar a de Sepelio. Quando êste concentrava as fôrças, que pareciam sempre as últimas, e avançava para o rosto de gardênia, esta recuava, com os olhos exorbitados, a boca de mastigar algo e a mão apertando a de Sepelio. Três ou quatro movimentos dessa natureza extenuaram tôdo o contrôle de Sepelio, que não soube, por toda aquela noite, distinguir a voluntariedade daquêles dois pêndulos de uma provável tontura que tivera pelas emoções.
             - Gardênia! Gardênia! Chamou então uma voz, do lado do casario, e repetia: Gardênia! Gardênia!, enquanto a menina se recompunha e dizia, escorregando-se viscosamente de Sepelio:
             - Eu não volto.
             Deu uma corridinha e tornou a dizer:
             - Eu não volto, numa inflexão apática.
            Foi uma noite de insônia para ambos, mas o rapaz, estremunhado, distilando o silêncio que escoava do outro lado da parede, imaginava Gardênia dormindo, estirada, com uma perna quase fora da cama, e isso lhe afugentou o resto do sono.

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Agora, no corredor, ao terminar essa evocação que lhe infundira n’alma um misto de exaustiva curiosidade e de um tédio que na certa traria a lembrança de outras situações consequentes e mais tristes, Sepelio mal podia manter-se de pé. Coisa deveras estranha: de uns tempos pra cá, estivesse êle com a maior disposição de ânimo possivel bastava para derreá-lo a lembrança de um so fato de seu passado recente e, pronto, num zás, mergulhava-se no mais profundo mal humor. E tanto mais o nosso rapaz se dava conta dêsse sintoma perigoso, mais açulava-lhe a alma irrequieta a lembrança dos fatos seguintes. Êle não compreendia porque, à medida em que procurava repelir o passado, mais se desmilinguia pelos labirintos cinzentos da memória, como se seu corpo exausto corresse por um túnel cujo chão se deslocasse em sentido contrário, e soubesse em seu percalço um horrível trem repleto de seus conhecidos...Ah, seria triste ser morto perto de “sua gente”, aquêle mundo de pessoas que lhe causam a morte lentamente. Sepelio tinha, a miúdo, dessas associações de morte por esmagamento em túnel hermético, de orifício inacessivel, como um adeus claro que se perde em forma de alma branca. Depois era o choque, a mistura de gritos, conversas distraidas que se interrompiam e se encrustavam em janelas de madeira, que caiam a seus pés, trazendo meio corpo de mulher que lhe falaria algo antes de expirar (e era sempre uma menina – moça sensual na janela morrendo antes de ser possuida, para cuja direção êle corria desafogadamente, afim de ouvir, no ouvido, num ultimo alento a fala – santíssima? diabólica? – de uma mulher que morre sem ser maculada, impressionada). Em seguida, não sabia se possuia a menina – moça sensual, que depois de morta não tinha mais nenhuma aparência, ou se lhe chorava morte: o que era chorar por algo que não tem mais nenhuma aparência. Oh, seu Deus, fôra êsse sentimento que tivera, quando seu olhar entorpecido tropeçara pelos porinhos de cera do rosto de Gardênia, no caixão. Aquela menina fôra triste, oh seu Deus, êle tambem era triste; aquela menina conseguiu não se parecer com nada, quando esticada no caixao de madeira violentamente conspurcada por dois mosquitos, zzznnn, um em cima do outro, como êle notara, como êle notara. E êle se transformara em nada, depois de sua morte. Nada o ajudava na vida a se reerguer. Já nascera vergado? Não podia ser possivel. Mas a alegria que Gardênia lhe proporcionara fôra arrancada como marionette (sempre como marionette) por Jerônimo, o maldito Jerônimo. Seria mesmo cruel êsse homem, ou era êle o “marcado” pela sorte, para ser um eterno joguete de sua propria incompreensão? Não lhe pareceu ser tão bom, amigável, aquêle primeiro dia? Ora, menino incompreensivel, então não percebera logo que era um indivíduo sinistro? Como podia alguem ter duas caras, assim, como Jerônimo? Mas, será que nunca se enganara? Tem até vergonha em pensar que fôra um animal (sim, um animal) apavorado nas mãos daquela fera risonha. Chegara a chorar na frente de Jerônimo? se desesperar? – como fizera agora, na frente de Felônio?
             Sepelio foi até o fim do corredor, olhou pra trás, abriu a portinhola do encanamento do lixo e pendeu a cabeça, divagando. Na outra ala de andar ouvia-se, espaçadamente, um e outro farfalhar de saias e passos duros, metálicos, em grupo, castigarem o chão para se interromperem de repente, de fronte de alguma porta. Duas ou três vezes nêsses minutos tais sinais chegaram, anêmicos, até o ascensorista, conduzidos parece que pela apenas réstia de claridade opaca que dobrava do corredor. Sepelio sentiu-se invadido por um prolongado arrepio; a temperatura descera considerávelmente em plena manhã (já seria hora do almoço? Manhãzinha ainda? Quanto tempo fazia que se desesperara diante de Felônio, aquêle outro patife?), tomando até o interior do prédio. O ascensorista quis espiar o tempo la fora, pôs as mãos no pescoço e subiu a pequena escadinha que conduzia ao terraço.             Fora, a cidade rorejava.
            Em sua cabeça, o trânsito era mais complicado, entrecruzavam-se passado e presente, figuras mortas e figuras que nasciam daquêle temor nítido, uma visão acrimoniosa do futuro, e quase insuportável. Não. Decididamente, mais ou menos, agora duvidosamente, enfim desastrosamente, sempre fôra um medroso. Deixar uma menina tomar a iniciativa, uma simples menina, que também sofria como êle, iniciar uma atitude amorosa, e em seguida lançar-se ao pescoço da menina (ou era uma mulher?), como se fôsse uma criança apavorada! Jamais podia desculpar-se de tamanha vergonha! Mas também Gardênia aparentava ser a mulher de Jerônimo, nunca vira filha nenhuma suportar certas conversas com o pai, com aquela severidade muda, silenciosa como uma mulher arrogante, aquelas mãos unidas atrás, pôse de alguêm que só deve zombar da fraqueza de meio mundo! Não, Gardênia nunca; Gardênia fora uma coitadinha, como deve ter morrido!, uma infeliz sofredora, e entretanto corajosa. Mas, fôsse hoje, tem quase certeza de que também êle saberia tomar qualquer atitude enérgica. Até há um ano atrás, era um simples adolescente, pensa, que não experimentara nenhum destemor porque jamais provara qualquer espécie de malicia. Fosse hoje, repetisse hoje aquela cena, veriam como êle saberia impor-se virilmente. Sente que atualmente esta mais corajoso, enérgico: às vezes tem até certas audácias porque estava ficando meio imoral, não liga mais para as coisas...apesar de ser um sujeito bom, que sente imensa felicidade, uma verdadeira exultação, ao perceber tôdo mundo admirar-lhe, enigmável, a grande generosidade. Recompõe a coragem que tivera ao “chamar o pai a si”, ante-ontem:
            LOGO DE MANHÃ ISMAEL PULOU DA CAMA COM AZÁFAMA. Esticou os braços e aproveitou no espreguiçamento a enfiada da camiseta, assobiou o refrão de um bolero em voga, acompanhando-se com um trinado que sincopava o solo na tomada do fôlego, enquanto se calçava. Em dois minutos, já completamente trajado, adentrou o quarto de Sepelio, com certo enliço no gesto e no olhar e, sem deixar de assobiar o bolero, sentou-se na cama do filho pela primeira vez em três anos. Antonia, a mulher, ao colher pelo fio do corredor a figura do marido sentado em cima do rapaz (não estaria machucando o filho, tão magro?), sentiu-se tomada de tal surprêsa e tão viva, que não pôde deixar de cantarolar o mesmo bolero afim de abafar o barulho de seu coração desatinado, que parecia denunciar-lhe a presença. Estava tão alegre e quase derretendo-se de curiosidade ao tempo em que Ismael acordava o rapaz, dizendo-lhe:
            - Ande, acorde, Sepelio, acorde! Hoje você vai ver uma grande coisa. Ande, meu filho, levante-se, que eu quero que você veja, faço questão que você veja.
            - Aaaiii, pai, você está sentado em cima de mim, dizia o rapazola, ainda adormecido.
            Ismael, animado por uma euforia que lhe embaciava os olhos, misturava na fisionomia um ar de distração à ternura que parecia concentrar sôbre o filho. Antonia mal podia reprimir a alegria de ver o marido com tamanha disposição, chegando até a sentar-se em cima de Sepelio.
            - Ande, acorde, Sepelio! Vai ver como hoje decido a nossa situação!
            O rapaz pulou sobressaltado e compôs-se num abrir de olhos, sentando-se no meio da cama. Tinha as costas doloridas, o ar encabulado e o olhar parecia buscar na mãe, dentro da cozinha, o sentido daquêle despertar oarístico. O pai, a despeito de tôda gesticulação festiva, não conseguia desempanar daquêle rosto quadrado e costumeiramente remansoso o ar de certo acanhamento.
           - Vou lá hoje, na Secretaria, agora de manhã. Venha aqui, Antonia, sente-se aqui. E você, meu filho, hoje não vai trabalhar. Hoje é um dia marcado, é o nosso dia. Talvez você não precise mais trabalhar, não é só hoje.
          Filho e mãe entreolharam-se com a mesma cena na cabeça: uma sala oval, mesa ovalada, um homem pregado na janela, o rosto quadrado, o olhar distante, estanque que só se desprende para dormir.
           Ismael passou-lhes os braços às costas, os três numa pôse indefinível, que logo os cansaria.
- Eu sei que tenho um filho inteligente... Um dia você perdôa seu pai, meu filho. Você não vai continuar os estudos? ... e ser grande, filho?..., perguntava quase em tom de resposta, os olhos si fixando no colo da mulher, sem nenhuma emoção.
           Antonia, sem compreender quase nada da situação, deixou rolar três lágrimas que vieram molhar a mão do filho, que brotava de seu colo, andrógenamente. Estavam unidos apertadamente, sem jeito, pelos braços de Ismael e pelos proprios, desacostumados a êsse gesto.
           - Ora, mulher, deixe de ser bôba, deixe de chorar à-tôa, disse Ismael com rispidez, mas forçando um sorriso e desenlaçando-os afoitamente.
           - Não é à-tôa, Ismael... É que faz tanto tempo que não vejo... vocês ´ es podiam ser assim...unidos...a vida tôda ´ a que estamos assim, disse Antonia com um suspiro intercalado, que aproveitava o final de cada frase para o início de outra.
           - Deixe de ser besta, mulher! Porisso é que você vive com essa cara de mulher martirizada, dando o que falar a êsses vizinhos filhos da... trouxas!, disse Ismael numa voz que começou enérgica e desafogou num cansaço a partir de “vizinhos”.
            - Precisa ser dura; se sofresse como êsse coitado do Jeronimo, patife!...
           Percebeu que a frase foi de uma necessidade falsa. Por fim começou a abrir um sorriso. Sua feição, quadrada, se desantipatizou ovalando-se, os olhos tornaram a fixar-se no colo da mulher. Estava cismador, quando engrolava:
           - Coitado do Jerônimo... Perder uma filha! E que filha! Filha?!...
           Deu um cotucão em Sepelio com o cotovelo. O rapaz sentiu uma pedra de gêlo lambuzar-lhe a alma, teve impeto de desembargar o grito de indignação que o sufocava.
           - Filha nem era filha! emendou  Ismael, percebendo o olhar lamurioso do filho: já era uma verdadeira mulher.
          Entretanto, estava inocente nêsse perticular. Ademais, caso contrário, seu filho era um seu prolongamento, sempre uma surprêsa, uma boa surprêsa, pensava, encarando o filho com orgulho. Era extraordinária a candura de seu sorriso. Os olhos por um fio não se cerraram.
          - Nâo é Ismael...é que essa vida desregrada que você leva e nos proporciona..., começou a choramingar a mulher, aproveitando gososamente a quase beatitude do marido. – É um dia bom, alegre, trabalha firme, no outro dia o martírio, larga tudo, você é mal, essa vida cheia de alegria e tristeza acaba com a saúde da gente, é vida pra desgraçados!...
           A palavra “saúde” começara a invocar em Ismael um olhar pelo corpo da mulher e instintivamente recamou os olhos do marido de um namôro marron, algo prestes a lhe dar um prazer e uma dor, sobrancelhas marrons se plissando.
           - Ou a gente vive sempre feliz ou sempre infeliz! Essa vida desgraçada de um dia rir, no outro dia chorar não é pra gente! Até negro mais fedido tem sua felicidade!, disse algo antipática.
            Ismael estava sentado na cama, erecto, parece que engessado no ar. A luminosidade do corredor formava um enorme vitral, deitado, onde o gato se cortava. Antonia estava lívida, os olhos sensuais, a boca se chupando a si mesma, contínua, o lábio inferior entrando e saindo. Sepelio, que se furtara para o corredor, apoiados os cotovelos em cima de uma bacia, percorria o olhar num e noutro, ora amando o pai, ora detestando a mãe, como num santuário. De repente, Antonia, sentiu-se só, pôs-se a chorar como uma criança e de novo sua figura alçou-se àquêle estado de mulher acabada, que não se envergonha de chorar por _________
          - Eu não tenho mais ânimo nem pra me controlar! Shih! Até a beleza eu perdi! Shih! E ultimamente, posso até me enfeitar para iludir esses pobres bobos... Ah, quem me viu há vinte anos, você tem culpa disso! – estou andando na rua, me vem uma tristeza tão forte, que preciso me encostar no canto de uma vitrine pra tomar ar... Shih – Shih! Começo a chorar na frente de tôdo mundo! Anteontem me aconteceu isso, eu estava com aquêle vestido lilaz, apertado, mas andando, precisei parar e de repente... quase engasguei de soluço, mas não sei se chorava! Era na “Triunfal”, sei que começava a apertar tanto a mão e depois o braço de uma balconista, shih, a coitadinha me olhava com espanto, mas não ousava arrancar o braço porque o gerente estava olhando! – “minha senhora me permite, está sentindo-se mal, não se acanhe, venha tomar um copo d´água comigo”, e o moço (muito bem vestido) saiu comigo da casa, pôs o braço muito delicadamente no meu ombro... era um senhor, casado, magro, uma distinção, muito bonito... Precisava ver que delicadeza...
           O olhar de Ismael súbitamente pareceu chuchar a pausa, seu queixo se tornou quadrado de novo. “Que fingida!” – seu espírito parecia gerar. Mas fingida de que espécie? de doença? ou de que mais? –perguntava-lhe a alma, parecendo criar e dar-lhe vida. Começou a tremelicar a perna, na ponta do pé.
           - Entramos no bar da “Casa dos Dois”, êle pediu-me um chá e disse sorrindo que acalmava! Não sei quanto a gente deve a um sêr dêsses... mas ainda coro, tenho vontade de sumir...quando penso...que vergonha lhe dei...shih...
          O chôro, interrompido pelo olôr da reminiscência, tornava a assumbrar e a ganhar corpo.
          - Perdi a classe por sua causa, disse agora com dureza, encarando Ismael. – Foi falta de classe, foi falta de classe!, e batia as costas de uma na palma de outra mão. – O homem me serviu o chá na boca, tinha o ar de médico, que paciência!, na frente de tôdo mundo. Depois sorriu e desembrulhou um jornal e começou a ler, e sorria de vez em quando, mas estava lendo para não me desconsertar ou...sei lá! Mulher que sofre um dia, no outro se alegra, volta a ser uma criança estúpida! Essas miseráveis que sofrem sem pausa, pelo menos têm uma dignidade e uma pôse!... desastrosa, comecei a chorar de novo, na frente de tôda gente – mas eu notava a pena que causava ao homem: êle não tirava os olhos do meu corpo, do meu busto e da cintura, acho que estava pensando como o sofrimento estraga a beleza...uma hora, notei até que olhava com raiva! Levei a mão no jornal, arranquei a ultima página, um pedaço, pûs no rosto e solucei! Shih! O que será que não pensaram todos! Shih! O homem se levantou, olhou de lado, espantado... e nem sei se falou alguma coisa... me abandonou no meio de tôdo mundo! Shih!
           Antonia chupava o nariz e apertou a testa com o polegar e indicador. Parecia uma verdadeira criança, de loquacidade apimentada, os olhos ganharam o brilho de rapariga afogueada, impaciente. A boca não se cansava de chupar-se, o lábio inferior a entrar e sair. Ismael batia com a sola no assoalho, cadenciosamente, sem divagar. Sua expressão era a mescla do nôjo e de certo remorso. Sepelio sentiu-se mal e ao mesmo tempo penalizado com um sorriso de ironia defensiva de certa dor que aflorou aos lábios do pai. Sem compreender, olhou para a mãe e também sentiu uma cândida, clara repulsa. Quanto a Ismael, não sabia se devia amá-lo ou detestá-lo. Sabia que devia detestar-se a si próprio e mordeu os lábios, dorido e sem ação.
            Querendo tolher o gesto no ar, mas sem o conseguir, Ismael deu uma palmada nas cadeiras da mulher, dizendo:
           - Ora, mulher, você ainda tem seus atrativos! Está se queixando à toa! Bah, a pobre não é você!, e uma fulguração levou-lhe aos olhos algo daquela ironia enigmática, que o punha simpático e ao mesmo tempo rancoroso, como um justiceiro.
           - Você é ainda apetitosa, disse, mas imediatamente voltou-se para Sepelio. Sentia-se que o escape lhe fora penoso. – Êsse aí está triste, mas vai se alegrar muito. Venha aqui, filho, - e havia um carinho assimilado na voz do pai, filho pródigo.
            Sepelio se aproximou em Antonia, correndo, foi recebê-lo no meio do caminho; abraçava-o com fôrça, calorosamente.
           - Bah! Não vão precisar mais se abraçar, deixem disso, hão de ter do melhor, tudo!, exprimiu-se mal Ismael. – Vou agora mesmo lá na Secretaria, vocês vão ver como trago o contrato! Explico ao Secretário como se há de fazer a coisa... E êle já me conhece! A Secretaria precisa do serviço, mas não encontra um empreiteiro que tenha jeito... como eu... pra lidar com matogrossense. Precisa muita malícia, mulher! O matogrossense é índio disfarçado... E vá falando com o índio (aquêles que habitam a região das “obras”): Só quem tem muita experiência da vida percebe que o tal é matogrossense da cidade. Ficou sério e percebeu que soltou na frase um grosso rôlo de hipocrisia, que devia ter sufocado o filho. Mas arranjou logo justificação:
            - Destituo o Parra e trago o contrato já, num minuto. Aquele é um imoral, o Secretario deve me preferir. Eu... é porque... Basta explicar ao Secretario que agora estou decidido, que o Parra é um imoral, tem medo de lidar com aquêle povo (explico que ele não é doente), que abandona as obras e desce o rio Paraná: lá em Guaíra o mulheril é farto: as paraguaias!
            Repentinamente cortou a frase e pulou para o corredor. Deu uma espiadela no espêlho e arrancou a porta atrás de si, distraído, saindo com desplante. Mãe e filho aguardaram a volta, que durou duas horas, com o coração aos pulos. Pelas dez horas perceberam Ismael entrar, mas sem lepidez; mastigava os maxilares quadrados e soltava, espaçadamente, um suspiro que terminava em assobio de vendaval. Súbito frio tomou-lhes o coração, ao perceberem o olhar de Ismael caminhar, modorrento, entre os objetos da sala, nem procurando encará-los. Céus, estaria muito ou levemente embriagado? O homem deixou-se cair pesadamente numa cadeira, mas quase em seguida se empertigou; tinha no rosto, principalmente na boca, uma cerimônia flutuante, como se estivesse contracenando com alguém dentro de si mesmo. Parecia um estranho se estranhando.
            - Quando digo que vocês não têm experiência das coisas...
            Deu uma espalmada na mesa.
             - ... digo somente para vocês levarem sua vida... – plant - ... e me deixarem levar a minha.
            Homem indecente, 1estava quase a dizer a mulher.
           - Bah, mulher, essa cara não me intimida. Você pode guardar sua ironia para outras situações. Meu filho, vá buscar um copo d’água.
            Sepelio saiu para o corredor, enraivecido, de cabeça pensa.
            - Traga com açucar! E pa-ra vo-cê começou a dizer espaçado à mulher, só lhe imploro que me deixe continuar... como sempre fui. Não, não não: agora seu marido está falando sério. Ou eu não tenho o direito de pedir isso?...que é simples: vocês continuem com a sua vida, e deixem-me continuar na minha! Você tem tudo o que uma mulher precisa; até o direito de levar a vida que bem entender.
            Antonia estava tão colérica que não conseguia rebentar o chôro. Ao terminar a frase, Ismael puxou os olhos adormecidos  do cinzeiro e colocou-os nos da mulher. O sentido inconciente da frase surtiu o efeito de uma ducha fria. Tirou a lingua para fora e molhou a boca inteira.
             Na cozinha, Sepelio enchia o copo de água apertando-o frenèticamente, a ver se o estilhaçava. Não o conseguindo, cuspiu-lhe dentro com acinte, e começou a caminhar para a sala. Do corredor, olhou para o pai e para a mãe; vendo-os conversar de longe, o pai numa animação forçada, a mãe de pernas cruzadas elegantemente (como podia?),começou a beber a água num rictus enojado, mas meio se purificando. Tornou a enchar o copo, com lágrimas de um doridíssimo arrependimento nos olhos. Quando chegou à sala, o pai parecia outro.
            - Um dia, quando puder compreender, você dará toda a razão a seu marido. E então você se perdoará, pensando que está me perdoando. Por enquanto... vá engulindo essa vida como pode...
            E parecia começar a embriagar-se de novo.
           - Acabe logo com isso. Não acho graça em suas palavras. E tome cuidado com o que diz, homem, disse Antonia num tom enérgico mas calmo e delicioso. – Afinal, não sei o que você quer dizer e nem compreendo esta falta de sentido... de sua vida! Você  para mim perdeu o sentido, não tem mais nenhum sentido na vida! Você me obriga... eu não gosto de chegar a isto... Mas isso que você ultimamente leva não é vida, é...masturbação...oh, meu Deus!...
           Deu um pulo e alçou-se para a janela, parecendo um pano cinzento estirado pelo vento. Foi de lá que disse, de costas, com o sêr inteiro a tremer e amaldiçoando-se:
            - É isso de tudo, tudo! De sentimento, de indiferença, de amor!
           Seus quadris balançavam-se, ora  apoiados numa, ora noutra perna. Ismael espoucou uma gargalhada abafada, escarninha, que terminou em tosse. De novo assomou-lhe ao rosto aquêle sorriso de ironia, que no fundo nada mais era sinão a manifestação satisfeita de um espírito auto- suficiente em  matéria de compreensão humana. Parecia que êsse homem na vida se resignava tão só a amar êsse dom de atinar com tudo.
            De repente, Antonia virou-se e caminhou uns passos em sua direção.
           - Não me obrigue a odiá-lo!, disse com tresloucada violência. Eu nem exijo nada! Você bem sabe que eu nada, nada, nada (cada palavra repetida era uma fisionomia diversa), nada mais exijo naquêle sentido!
           O “sentido”, Ismael o compreendeu e não pôde deixar de agradecer-se com novo sorrido irônico. O máximo que a mulher pôde fazer diante de tal fato foi atirar-se ao colo do marido com afã, ficando ajoelhada e abraçando suas pernas, ao tempo em que suas unhas quase lhe dilaceravam as calças, só não o fazendo porque logo começou a afrouxar-se, afundando a cabeça mais e mais, até as virilhas. Dêsse lugar, pronunciaram-se espaçados balbúcios, entre os quais se pôde distinguir algo como: - eu só quero, ou imploro, que você me tenha aprêço, que você nunca deixe de me ter aprêço, que você nunca deixe de me ter aprêço...
           Sepelio, que um dia também “espreitara” o sentido daquelas palavras, arremessou o copo com água e pires ao chão. O açucareiro saltou-lhe das mãos e, dando duas cambalhotas no ar, esparramou o açúcar sôbre a cabeleira negra da mãe, que ficou totalmente pulverizada. Em seguida, o rapaz correu para o canto da sala e se acocorou, chorando. Ismael tinha a voz embargada pela emoção, quando dizia, sem tocar na mulher, os braços pendidos:
            - Vá dormir, meu filho... A noite é mais calma... Vá, que é sagrado dormir, meu filho... Durma sempre com amor...
            Houve uma pequena pausa, em que o pensamento se desligou da mente de Ismael, que balbuciava, lasso e confuso:
            - ...ao seus pais... Deixar de dormir na hora certa é pecado... Aos seus pais...
           Depois dessas palavras, pareceu perder a lucidez; o espírito fugia-lhe em ondas de grande frio e tudo em volta rodava com celeridade, trazendo para a sala, em cada reviravolta, novas cenas, outros ambientes, amigos, numa luz muito triste. Tinha novamente na boca aquela cerimônia flutuante, quando pendeu a cabeça e começou a lamber e a engulir o açúcar polvilhado na cabeça da mulher. Esta, cujo pensamento era menos denso, e então quase distraído, ao perceber aquêle movimento sôbre a nuca, não achou no que pensar e sentiu-se invadida por terrível sensação. Deus! Acuda! Proteja-nos! Proteja meu marido! Era mais ou menos o que pensava, quando arremessou o corpo para trás, branca como cêra.
            - O que que você está fazendo? Ai, uf, uf...
           Apoiou-se na mesa, sôfrega, engulindo sêco. Ismael lançou-lhe um olhar meio aparvalhado, que nada compreendia a não ser o estado da mulher. Desta, seu olhar pulou para Sepelio, e o rapaz era mais branco que a mãe. O menino tinha as mãos crispadas por detrás do corpo.
            - Vá dormir! Vá dormir!, berrou Ismael tonitroante. – Eu não admito, não admito! Que você não tenha amor a seus pais!, e desferiu violentissimo murro na cadeira.
            Estava irremediávelmente embriagado.
           - Eu percebo que você é um revoltado, e sua mãe só não presta porque só pensa em você!, dizia ainda quase aos berros. Em pensamento! Ela está ligada a você, seu trouxa, mas é só em pensamento.
           A mulher estava fria, aguardando qualquer insensatice, ou crueldade. O rapaz, entre os soluços, imprecava contra o pai, mas sofria, sofria imensamente com aquilo.
           - Rrrevoltado... Mas não modifico nossa vida enquanto você não for homem.
           E abaixou a cabeça, com os olhos vidrados, a imaginação a procurar algo. Antonia correu para o filho, disse-lhe algo no ouvido, aconselhou-o a retirar-se com ela, abraçados como estavam.
           Ismael levantou a cabeça e começou a sorrir. Era um sorriso alargante, que conduzia babas até as orelhas naquêle rosto quadrado, que começava a tomar outra forma. Êle caminhou na direção dos dois, cambaleante.  Fez menção de abraçá-los num gesto amplo, mas a distância não permitia. Por fim, apoiou-se na parede, junto dos dois.
          - Oh, como eu gosto de vê-los abraçados assim, meus queridinhos! Deus só deve me perdoar por vocês não me compreenderem, me julgarem um vencido...Mas o meu castigo está reservado, porque eu tomo as atitudes por vocês.
           Bateu com o punho no peito. A mente começava a aclarar-se, porém a emoção conduzia-o para campo diverso que o da lucidez.
            - ...porque... assim...vocês estão tornando Deus um vencido... Não se sabe nunca o que vocês querem, nesta casa... Bhr, maldição... Vocês me julgam um vencido?
            Fez um trejeito, com a boca, de que ia chorar, e talvez o fizesse, não tivesse interferido Sepélio, que só então pôde dizer:
            - Não diga isso, pai, não diga isso, pai, eu...
            - Olha aqui, bobinho! Venha ver um negócio-, e com as mãos no ombro do filho, fê-lo sentar-se a seu pé, ao tempo em que fungava no riso excitado por alguma idéia. – Quando na vida você quizer ser desonesto, não entre no campo da desonestidade de outro. Você acaba rindo como um homem com o demônio no corpo, quando devia chorar... Porque você sofre duplamente... Ah, mas é um gôso diabólico mesmo (estranho, como a expressão era típica de Jerônimo!)... você morre de rir, principalmente se tiver a visão de seu pai... Ah, como êsse mundo não presta, mas essa gente só me causa nojo.
            Entrava a amargurar-se, quando disse:
           - Prefiro continuar a vida que levo. Não tenho que lhes dar satisfação.
           E com a frase, suspendeu o olhar até a mulher, que se encostara no fio da porta aberta. Homem coitado, indecente, pensava esta. Sepelio ansiava por que o pai desabrochasse algo, relatasse algum fato, mas – coisa estranha – consumia-se na vontade de que êsse algo tornasse ainda mais culpado o pai, perante si e aos olhos da mãe. Era linear, quase pululante, a má vontade de ajudar aquêle homem embriagado, mas desesperadamente solerte no instinto, a recompor o fato. O olhar que endereçou ao pai estava carregado de um brilho desafiador.
            - Ha, ha, ha bobinho, isso não adianta; aprenda a ser revoltado contra quem você puder compreender! Vê, mulher? O menino teve por quem puxar. Olhe, meu filho – e daqui por diante falou com uma voz enrolada, ora rápida, ora morosamente, a cabeça sempre subindo e descendo, o queixo no peito, na hora das pausas – há certas atitudes que um homem toma que seria um crime torná-las bôas só para que os outros  compreendessem. Nnnão. Ninguém morre de fome num mundo de desonestos. Você pode ficar a vida tôda de papo pro ar, emagrecendo, sumindo, contanto que olhe para êle (referia-se a alguém? Nêsse instante, o riso fungou outra vez)... que antes do último suspiro... se você acompanhar todos os seus movimentos...êle virá enfiar carnes, ovos na sua bôca, de medo. Tem carne pra fritar, Antonia? Mas não-não-não-não (e aqui cantarolou):
                        “num mundo de ladrão
                        é melhor ficar no chão”...

            - Você não entende? Porisso é que eu digo: vá namorar meu filho, é da sua idade...
            Pensou em Gardênia, àquela hora “menina do vizinho”, não pode deixar de dizer, mas com a melhor das intenções:
            - Você não aproveitou!... Nessa idade se aprende muito, menino, a gente tem campo aberto para se movimentar; tôdo mundo é puro, ou quando não é puro é porque é louco, isso é filiz... A idade e a imaginação, quando o rapaz vive – como seu pai viveu – faz com que a gente pense em nunca abandonar a vida...
            (AGORA, SEPELIO LEVOU AS MÃOS À CABEÇA, APERTOU-A, VEIO PUXANDO-A ATÉ A PONTA DO TERRAÇO. E OS DENTES SE APERTAVAM TANTO QUE ÊLE TEVE A NITIDA SENSAÇÃO DE QUE OS MAXILARES ESTAVAM TROCADOS, OU QUE ESTAVA DE PONTA-CABEÇA).
            - ... mas depois dessa idade, não se abandona mais, ah, às vezes dá vontade, o que acontece é isso, que vocês não compreendem: é muito mais digno eu ficar preso à janela um dia inteirinho, só escutando o que se diz, parecendo não ver nada... Terrivel, como as janelas penitenciam os outros... Da janela você vê as indecências, oh, mas eu também não compreendo! È uma questão de honestidade.
            Desferiu outra palmada na parede. Estava espreitador e triste, quando disse muito baixo:
            - Vocês pensam que é ser vencido?... Êsse desgraçado (referia-se a Jerônimo) é um inocente nessa atrapalhação tôda que faz para trabalhar! Mas pensem vocês que dá dinheiro em casa : também não dá.
           Antonia cada vez mais se enjoava, mostrando-o no sesto de ironia que dava às narinas. Como posso amar um homem tão ruim?  pensava Sepélio. Será que Deus não põe fim a isso? Terrivel, como êle é tão bom. Duro, mas merecido êsse meu castigo. Ambicioso, maldoso, sou. Nada do que penso, em bondade, saiu do coração. Será que Gardênia precisou de mim? Mas que podia eu, um simples menino fraco – ou enfraquecido, fraco-ou-enfraquecido, fraco-ou-enfraquecido?
           - Mas no mal êle é consciente. Sacrificar uma filha por amor à experiência! Eu também podia pôr você no fogo pra ver no que dá, tá bem?
            A frase foi tão entorpecida e torpe, que Sepelio se levantou e não conseguiu evitar:
            - O que o senhor pensa que podia fazer? Eu trabalho! Eu larguei de estudar pra trabalhar! E ... e... acho que faço mais que o senhor.
            - É isso mesmo, é isso mesmo, o menino está acabado de tanto sofrimento, disse Antonia, muito lívida.
            - Qual sofrimento! Quem nunca passou a humilhação de ter pena de um sujeito desonesto, mas que tem capacidade de vencer na vida sem nunca falar mal de ninguém, como pode ter sofrido? Ah, o Parra, coitado, sabe que êle é bom? bom mesmo?
           Antonia puxou o Parra à mente, recompôs as cenas do casarão, teve realmente lampejos de uma grande, quase incontida alegria, o sorriso por um  grande esfôrço deixou de abrir-se na frase:
           - Você precisa deixar de ser frouxo com as pessoas com quem simpatisa. Sabe, homem, que realmente tenho vontade de desprezá-lo alegremente, de uma hora para a outra? Você não tem vergonha, não? Aposto que já arrumou as coisas com o Parra! Mas você, homem, não vê que êle tem medo de você, mas que confia na sua simpatia, e quando você sorri êle começa a espesinhá-lo na frente de tôdo mundo ?
           - Eu ia arrazá-lo, mulher, eu ia arrazá-lo, mulher! Mas eu o encontrei agarrado num poste (quer dizer:) agarrado num copo, sentado numa mesinha do “Corso” suspensa por uma corda, porque estavam lavando o Restaurante. Êle me chamou tão triste, acho que o preto que ensaboava o chão de vez em quando passava a escôva molhada em seu sapato, você vê que êle não tinha ânimo nem pra chutar o malvado. Quando eu lhe falei que ia expôr tudo ao Secretário – o que êle era, que vida levára e-ti-cé-tera – êle disse: - Não; você deve mesmo reclamar o contrato, porque você havia falado antes, só por isso. Mas eu disse: - não, quem falou primeiro foi você, vou só reclamar ao Secretário porque você está desmoralizando a classe! – Percebe, mulher, que eu estava procurando arrazá-lo? E êle me disse: - Não, quem falou primeiro foi você. Mas eu disse: - Não; foi você. – Então você me acha com cara de mentiroso? eu perguntei.
            Quem perguntou foi êle. No fundo é um grande cachorro.
            - Êle disse: bobagem. E me explicou que estava assim por causa da irmã, que estava fazendo das suas outra vez. Você vê? Como êle tem dois encargos? Tem que resolver os casos da desmiolada. Aí ele me disse: - Não podemos discutir o assunto assim, rosto a rosto; é uma questão de pudor (Foi daí que quase lhe dei um abraço, mulher! Quiz protejê-lo, dei um ponta-pé debaixo da mesa, acertei aquêle em cheio).
            - A mente se aclarou súbitamente e Ismael percebeu Sepelio com o rosto bem perto, como uma carranca trocando água com o da mãe. Fio d’água jorrava da boca de um, entrava na de outra.
            - O cachorro saiu ganindo. Restaurante sujo.
            Ufa.
            - E ele disse: - Vamos beber dez caninhas e depois resolver o caso. Bebemos. Depois que bebemos, êle me disse, muito tiste: - Você tem tôdo o direito de reclamar o contrato porque você havia falado antes. Eu disse: - Não, quem falou primeiro foi você. Ademais não estamos em igualdade. Você já havia bebido antes: você vinte caninhas, eu só dez. – Então você me acha com cara de beberrão? êle me perguntou aos berros para o garção. Eu falei: - Deus me livre, você é meu amigo. E então êle me disse, quase chorando: - Pelo amor de Deus, deixe lhe dar um beijo! Então vamos esculachar o Secretário juntos! Êle não me tem pago, e eu preciso. – E eu lhe falei: - Combinado! Mas um de cada vez, para o homem não pensar que estamos combinados. Aí, saimos, Antonia, hhrp, tósss! Tósss. Na Secretaria, quando subi no elevador, achei melhor que êle ficasse em baixo, na esquina do prédio fronteiro. A sala do Secretário fica naquelas três janelas bêstas, parece de Igreja, do terceiro andar. – Você percebe, Parra? Daqui você vai medindo nossos gestos. Mas olhe que não faço por você, que você não presta, preste atenção, olha, daqui dá pra ver as cabeças. Vá olhando só como desacato.
            (- O senhor não estaria melhor sentado? Faça o favor de sentar-se, senhor Ismael; afinal, não estou entendendo bem o que o senhor está falando. Afaste-se um pouco; pode pôr-se à vontade e explicar direitinho.)
            Então falei ao Secretário que era imoral de sua parte tripudiar sôbre o trabalho de um homem fraco. – É um homem insignificante.
            (- O senhor considera insignificante o trabalho, ou o Sr. Parra? Francamente, sr. Ismael, não consigo compreender suas palavras. Não seria melhor...o senhor voltar outro dia...quando então se encontrasse com melhor disposição? Vejo que o senhor...)            O senhor faça o favor de se levantar. Talvez de pé o senhor consiga entender-me melhor-, falei-lhe. E quando êle se levantou, tósss, tósss, puz-lhe as mãos no ombro e fiz com que se sentasse. Vê, mulher? Isso tudo aparecia na janela, debaixo dava para ver.
            ( - Só um minuto, doutor Mendes. Só um minuto. O senhor me desculpe, tomei um pouco de alcool na casa de um amigo... Sente-se, não quero que ninguém perceba alguma coisa. Desculpe a liberdade)
            E olhou pela janela, a ver se o Parra passasse por ali. Que dirá, quando me vir aqui? Será que êle estava bêbado? Fiz mal em acompanhá-lo, quando tinha algo a dizer ao Secretário.
            - Em casa de “um amigo”, logo de manhã, senhor Ismael?! Como pode?!...)
            - Bebe-se logo de manhã, doutor; é a desolação, doutor; a fraqueza, doutor; a enorme solidão, doutor; e o medo, doutor. Em suma, é isso! Mas se fosse bem pago, talvez pudesse suportar, doutor. Tenho pena dêle...ainda mais quando se diz...naquela viagem que fiz às obras...encontrei-o amarrado entre duas árvores, os pés numa, as mãos noutra, balançando, com uma paraguaia bêbada em cima, tirando a sesta. Mas se fosse bem pago, suportaria. A maioria dos homens precisa ser remunerado. O dinheiro só não é muito importante para quem pode amar o trabalho. Mas êsse amor é proprio das pessoas como...eu, doutor, e modéstia à parte.
            Sepélio tinha nos olhos uma expressão de imbecilidade rotineira: as palpebras excessivamente abertas e o olhar preguiçoso, procurando não ferir nada, apenas se acomodando àquêle estado de completa gratuidade. Fugiu-lhe por completo o raciocinio e, quando pensava algo, não sabia se devia levantar-se e pôr fim a tudo, extinguindo os pais de qualquer forma, ou então entregar o corpo ao pai, para que êle o estraçalhasse (pois o pai o tinha fabricado naquêle instante), lhe raspasse alguma coisa nas costas, a começar pela nuca e acabar pelos pés. O que não podia era mais suportar aquêle negro desfilar de mentiras, que lhe forrava o coração de um pai desnaturado, algo a tomar-lhe o peito e a infiltrar-se pelas vísceras como chúmbea, ácida – oh destelhador de afetos, sôpro interno, falta completa de hálito – visão de um mundo sem amor. Agora, nêsse mundo flutuante, tudo lhe vem às claras, cenas que antes somente o amor impedira a compreensão, mãe-mulher comum, que se divide com outros sêres, que se transforma em mulher com falas estranhas e lhe apresenta outros sêres estranhos. Ultimo plano da vida que o empurra, empurra. Mãezinha: podia ainda segurá-lo?
            - Depois, o senhor bem sabe que não é todo mundo que pode suportar trabalhar numa obra interminável. Um sêr fraco é capaz de aguentar trabalhar vinte ou trinta obras, que lhe tome a vida tôda. Mas trabalhar numa construção a vida tôda...mesmo ganhando rios de dinheiro e trabalhando só quatro horas por dia...recebendo ordens pra parar! Pra destruir o que foi construido! Não, ninguém, quase ninguém aguenta.
            ( - Faça o favor: realmente não consigo atinar bem com suas palavras. Tenha a bondade, olhe, escute aqui um minuto, por obséquio.
            Ismael se arqueou...)
            - Eh, mulher, o que pensaria você no lugar do Parra, vendo minha cabecinha abaixando e sumindo na janela? Ah, ah, intimidade?
            ( ...: - queira ter a bondade de se retirar com a máxima urgência, senhor Ismael. É. Tenha a bondade. Presenteie-me com isso. Passe bem.)
            - Aí êle me disse no ouvido, espiando de medo que o cochicho pudesse interromper as gargalhadas de dois deputados...bah, mulher!...me disse que guardasse aquêle segredo de um Homem de Estado: que da fato, sim, o Estado precisa de gente de pouca visão e de pouco suporte como o Parra. Que não era interessante deixar de proteger êsses coitados, que se revoltam na sua fraqueza, contra o Estado, mas nunca o abandonam. Aí, mulher, êle ainda me perguntou se eu podia compreender aquilo. Só no meu olhar êle compreendeu que era uma afronta formular aquela pergunta. Então perguntei se podia retirar-me arqueado até a porta. Era uma questão enigmática, mas minha, e fatal.
            ( Depois daquela desgraça, não conseguia retirar-me levantando-me. Era preciso sair amarrando os sapatos. Quanta humilhação. Mas estava mesmo embriagado.)
            - Aí, saí, mulher. Tósss, tósss.  , se sentiu humilhado e me disse: - Nãããooo. Você não pode fazer mais nada por mim, com uma pessoa com que você tem tamanha intimidade; e mordeu a manga do palitó; acho...não sei bem se falou mesmo isso ou...se só me cumprimentou e passou reto.
            De repente, Ismael teve diante de si, quase colado aos olhos, o rosto de Sepélio numa feição que êle nunca vira. O rapazola chorava e as lágrimas caiam-lhe pela garganta; exteriormente, entretanto, tinha a face mais aniquilada que a de um cadáver: branca e esperando, naquêle desespêro amorfo e impessoal, que alguma mão lhe perpassasse a superficie, era só isso. Oh, Deus que seria aquilo? Antonia, mulher, ajudasse-o a reanimar o filho. Numa ânsia
 

*

 

(CARTA AO CRÍTICO OSMAR PIMENTEL, AO INÍCIO REFERIDA)

 

Dr. Osmar

 

A maioria das cenas descritas nêsse trêcho de capítulo deixa, de certa forma, no ar sua plena apreensão, principalmente em certas alusões das “falas” dos personagens e nas remissões que a narrativa faz acontecimentos, pura e simplesmente.

É que tôda essa meada de fatos está ou ligada ao que já se passou, nos capítulos anteriores, ou preparada para encadear-se no que está por acontecer (final do capítulo III, ainda em manuscrito, e desenvolvimento dos seguintes).

Como intuição e benevolência, o senhor poderá compreender (se eu tive capacidade para tanto) o caráter dos personagens e mais ou menos vislumbrar suas intenções, bem como sua definição social.

O aparente misticismo que se depreende da “fala de Ismael, a partir do momento em que volta embriagado para casa (pág. 27 ss.), só encontra sua coerência na simbologia geral do romance, simbologia onde Ismael tem papel de "Criador",  em contraposição a “criatura” ( outros personagens que aqui não aparecem).

Tentei fazer, nesse romance, uma história do próprio romance, um romance do romance. Achei necessário associar o problema ao problema maior da teologia, onde as relações de criador-criatura e criatura-criador se ligam às faculdades do espírito de aceitar o fenômeno da vida com a maior ou menor resignação diante do ato puro da vida, isto é, do determinismo (sentido amplo) de todas as ações, que independem da vontade humana.

Para que o processo não desumanizasse a história (que também e – principalmente – tenta valer como “história”, análise de caracteres e levantamento social) – não tentei no decurso da narrativa, em nenhum momento, valer a teoria por meio de citações diretas, atitudes forjadas à base de um simbolismo à la escola simbolista. O artifício que pretende substituir aquele processo está ancorado na “estilização” da vida, o que quer dizer: cada fase social de um povo, ao ser retratada numa obra de arte, tem uma forma preestabelecida, no meu entender, de manifestação ; os sentimentos vários, que assolam as pessoas, desde que o mundo é mundo, são invariáveis na essência, mas o grau que atingem na exteriorização está prêso às constantes sociais que celebrizam, realçam mais uns sentimentos sobre os outros. O amor, por exemplo, na Idade Média, teve a nota da contenção mística sobre o jôgo do instinto brutal que originava as tentações no espírito dos personagens. Claro está que, numa cena de adultério, por exemplo, a sanção moral, social ou individual que exercem os que se logram sobre os adúlteros é quase sempre extrema. Mas, comparando-se o fato no “Orlando Furioso”, frente a um romance de Zola, e deste, ao “Dominique”, de Frommentin, a atitude dramática tem sempre uma espécie de acessório que configura a ação como sendo trágica, épica, romântica ou realista, conforme a época.

Talvez não tenha fôrça para explicar a um crítico de seu teor o inteiro motivo desse dêsse romance. Ademais, é-me exaustivo forçar essa tarefa de esquematizar uma história de quatro ou cinco famílias de diversa casta, apenas para ilustrar um ponto de vista estético. Flaubert, ao inventar o realismo quase cibernético (perdoe-me!) de “Madame Bovary”, valeu-se simplesmente da palavra pura, que eliminou a tão celebre “mescla de estilo” de que fala Auerbach (“Mimesis”), para que a ação não se deteriorasse : para conservar a tensão do real que tinha em mente, Flaubert quase se estiolou em busca da palavra impessoal, justa ao objeto, para mostrar que a realidade, em si, é insuscetível de ser apreendida por representação. O palavreado límpido de que usou parece-me que representa um esfôrço fora do comum de dar ao romance realista sua nova linha de conduta.

Assim, se usarmos do método contrário, não seria provar a tese de Flaubert? Para fazer um romance do romance (Romance para mim é vida em todo aspecto dela), que, hoje em dia, para mim, é a suprema ambição dum romancista (dar o mecanismo de concepção de uma realidade que nos concebe) – para fazer isso, pergunto, não há que se aferrar à “estilização”? A narrativa impressionista de Proust, Larbaud ou Valle Inclán ; a expressionista do Kafka da “Metamorfose”, ou de Capek de “A guerra das salamandras”; o realismo aristocrático de Laclos, n´ “As relações perigosas” ; a cética objetivação de Stendhal, principalmente na “Cartuxa”; o realismo acintosamente biológico de Balzac (“caracterização” até das portas e interiores, em “Eugênia Grandet”), para incorporar, como disse no prefácio da Comédia Humana, na vida, a doutrina daquele biólogo seu contemporâneo (não me lembra o nome), tôdos êsses estilos, enfim, não são produtos simples das escolas literárias, mas uma maor simpatia junto aos indivíduos de sua época : creio, para mim, que há seres impressionistas como há seres trágicos de tragédia grega...

Nessa tragédia, por sinal, tôdo aquêle mundo épico, “histórico”, esta contido pela apatia da conduta ética que “pairava no ar”, na Grécia antiga. Mas, creio que estou me perdendo num campo onde me faltam pés. O senhor saberá “descobrir”, na minha crítica confusa o anseio dos meus objetivos de criação romanesca.

O que se poderá ver, talvez nítida, é alguma aptidão para o “metier”.

Gostaria que o Sr. fosse severo na análise dessa aptidão, se ela chega a despontar nêsse trêcho que lhe entrego.

 

Florivaldo

SP, 20 de agôsto de 1958.

 

 Osmar Pimentel, o último à direita

 

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@ - DIÁLOGO          @ - “ - Imbecila! “

                                               @ - “ - Helpem me! Helpem me! “.

 

 

            @ - TIPO-1                (Anotação de 31 de Maio de 1985) - Conheci ontem dr. Rolando de Magalhães Couto, figura humana simpática, carinhosa, séria, um “velho” da estirpe  “arcadas São Francisco”, ruibarbativo mas autêntico, humanista, redentor, tribúnico, amável, gravata & colete, com quedas para a boêmia, feição do Monsieur Verdoux mais velho e entristecido, andar de quem tem calo, meio professoral, apreciador de esguelha de belas mulheres, Um papo na rua, farejando livros. (Mora na Pça da República, 76/80, 4o., conjunto 405, tel. 259-4913, elevador n. 2)

 

            @ - Aquela cara cinzenta no escuro agachado, um olhor terrífilo nuns lados da face. ( O CARA QUE ME PEDIU AS MOEDAS NO FAROL, VOLTANDO DA CASA DO WILLY EM 20-12-98)

 

 

            @ - AGONIA             SEY  IUO IS [ em italiano ] MIS - ESUACEB EUQSIUP EUQROP  [em ital.] EUPROP – EH TNAVA ETNEMROIRETNAN [ em ital.]  ELE -  REVEN  LI  LÈ  [ em ital.] ACNUN – DID A’N SÀMAJ  [ em ital.] ZEF - *

 

·        [ NOTA ] : TRAZER DO ESCRITÓRIO ( APÊ ) A VERSÃO DO ‘’ ULYSSES’’ EM ITALIANO E PROSSEGUIR. ( 21-8-99 ).

 

@ - Romance  a quatro mãos ( “ Romance em colaboração” ):

 

-          “O Mysterio” , 3ª edição, Cia. Editora Nacional, 1928.

-         Coelho Netto,

-         Afranio Peixoto &

(Medeiros e Albuquerque),

-         Viriato Corrêa.

No livro há história do gênero.

 

-         Brandão entre o Mar e o Amor”, Liv. Martins Editora, s.d., de

Aníbal M. Machado, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego e Raquel de Queiroz.

 

-         “ O Mistério dos M M M “, por

-         Viriato Corrêa

-         Dinah Silveira de Queiroz

-         Lúcio Cardoso

-         Herberto Sales

-         Jorge Amado

-         José Condé

-         João Guimarães Rosa

-         Antônio Callado

-         Orpigenes Lessa

-         Rachel de Queiroz.

Coordenação de João Condé ( Edições O Cruzeiro, 1962.)

                       

-         Os sete pecados capitais” ( 7 novelas; há alguma ligação?).

(     A ira, Mário Donato;

-         A gula, Guilherme Figueiredo;

-         A luxúria, Carlos Heitor Cony;

-         A avareza, Otto Lara Rezende;

-         A inveja, José Condé;

-         A preguiça, Lygia Fagundes Telles;

-         A soberba,  Guimarães Rosa )

 

to be continued


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