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Texto da déc. 90, em nada modificado, devendo seguir-se, como dito na pág. índice, o desenvolvimento dos fatos que compõem o relato. Assim, pessoas ou juízos que porventura se modificaram em meu pensar serão devidamente reavaliados na continuação do histórico.

 INTRODUÇÃO

 Numa noite de 1990, revolvendo as pastas que abrigavam, por muitos anos,  sueltos, ou mesmo peças integrais, do que viria a ser o “grande livro de minha vida”, eternamente  prometido por mim a meus amigos e familiares de uma maneira quase mística, para eles um sortilégio,  mas que às vezes  soava a mim mesmo como uma mistificação, li, reli, meditei, e acabei anotando na capa de coisas das décadas de 50 e  60:

“Nada que preste
Assumo minha mediocridade ! Tive algum talento até os  vinte e poucos anos, mas dispersei-o nas leituras improdutivas, porque, se me inspiravam algum projeto, não meditei a fundo, em silêncio, com fanatismo de recluso [ quis dizer anacoreta ],  sobre nenhum deles. Pago hoje, 26-3-1990, com a compensação de um troco: não odiar mais ningúem pela inveja, e meditar sobre os seres que me rodeiam. Amém.”

                        Revejo, hoje, pela letra, que fui sincero e acho que chorei.

                        E confesso, com toda sinceridade, que, embora tenha saído “odiar”,  tal inveja jamais se apercebia como o que se pode chamar de complexo de Salieri: sinceramente não me julgava um fiel servo desprotegido que lamuriava um valdevinos bemsinado pelos deuses. Mas uma inveja até altaneira, que não se usa mais, como esse próprio adjetivo, inveja de coisas simples mas luminosas, de quem não bate no surrado, a simplicidade que pode estar à mão de qualquer um, entretanto reveladora, realmente epifânica, para mim sempre esdrúxula. Inveja de quem, no fundo, não quer competir e, no fundo-no fundo, tem o dom de apreciar, mas também a esperança de que, na hora que quiser, também fará igual. Elegante, mas puro jogo do inconsciente, pois essa a inveja que mata, e que naquela noite resolvi abolir, como uma salvação da alma.

                        Dou nome aos bois, sem ordem cronológica:

                        Por exemplo, ser o autor do ZEN, de Pedro Xisto,  talvez o maior milagre da Poesia Concreta tipicamente falando,  y compris   toda carga de postulados da escola.

                        Ter sido iluminado pela bíblica enunciação do (…) Bandeira, poeta menor, tão  batido por tão má  idéia-feita, e que se revela – e descobre – enorme à nossa maturidade(José Paulo Paes).[2]

                        Ter feito o poema sobre a baleia do Melville, via Ródtchenko / Maliévitch,  onde uma consoante mergulha, aflora, remergulha  e singra um mar de recônditos significados, como o fez Augusto de Campos [3], exigindo, no barulho plástico do mar alto,um olhar safado também do leitor, pra notar a ardileza do animal fazendo a noite esconder o dia.

Ter realizado o verdadeiro poema sonoro do ( vai assim ) inseto inserto / incerto, de Philadelpho Menezes, que está no catálogo da I Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo, 1988, bem na beirinha baixa da publicação, quando cinematizado pelo polegar, com toda aquela semântica escritural do barulho do inseto se debatendo,  poema esse  típico — este sim – da Poesia Sonora ( usada e apregoada pioneiristicamente por ele no Brasil),  isto é, lida ou cantada, mas acompanhada. Ou não. Como lhe conceituei  em 1-5-98, sem ser contestado, certamente por ser eu seu pai biológico, ou por ter ele achado que não valia a pena polemizar com quem não domina totalmente aquele gênero, não obstante tenha eu traduzido os capítulos “Uma arte nova – a Sonia” (tônica no i ), de Pierre Garnier e “Fim do Mundo da Expressão”, de Ilse Garnier, para o livro por ele organizado – o primeiro sobre o assunto no Brasil – POESIA SONORA, Educ, SP, 1992.[4]

                        Ser dono dos magistrais capítulos que vão / vêm das páginas [ 111 ]  a [ 120 ]  / 85 – [ 69 ] do “Panteros”, de Décio Pignatari [5] , ou do capítulo de páginas [ 109 ] a [ 110 ] , volta de 86 para a 96, que,  numa noite de bebedeira,  anotei, injusto por um lado,  que “valia toda a trinca concreta”… Ou de seu incrível poema “Mayá”, de escrita sânscrita, que edifica um aprisionamento do ser, naquele eco das próprias paredes em que os vocábulos sânscritos literalmente se visualizam, tornando a manifestação “um grito mudo”( como anotei: Cri  sans (é)crit ! — Sanscrit ).

                        Acontece que, para desgraça minha, a epígrafe desta introdução denota a reanimação de publicar uma grande obra, meu Livro mallarcaico, pois a aldeiazinha – antes fosse a de Tolstói ! – de Scribbledehobble convida a desvendar os caminhos de meu Ur-Workbook, as origens de minha luta, minhas pretensões e  de minha única razão de existir, salve-me Deus.

                        Desanimado por aquela esperança sempre adiada, que no fundo era impotência,  em 15 de junho de 1986 ditei para minhas “Fitinhas”:

                        “Precisamos criar um gênero novo, mais feliz, para a Humanidade: a do expectador sem nenhuma pretensão. Essa é uma teoria que eu quero desenvolver paralelamente àquela da “destituição da autoria”, que fará com que um texto como “A última jornada”, de Machado de Assis, seja considerado como “um texto do maior poeta da língua”, sem que o cidadão saiba que nosso maior gênio é um poeta mediano e que atingiu aquela grandeza poética somente naquele poema . Acabar com o “gênero estanque”, nem que seja por surripiação de conceito. Uma teoria que está ligada a outra, a do expectador sem nenhuma pretensão…Será uma maravilha… porque… acho que a felicidade do mundo vai residir nisso: quando for criada uma condição de fruir-se  uma obra de arte  sem que nenhum cara tenha ego pra querer fazer também. Quer dizer: o camarada que vai ler Dostoiévski acha que um dia vai escrever uma obra como Dostoiévski, o cara que vai ver Rembrandt acha que vai fazer uma obra como Rembrandt, tá ouvindo? Não! A Humanidade será feliz o dia em que houver expectador capaz de fruir, com uma puta duma tesão, um puta de um êxtase, a obra de arte sem que tenha ele a menor possibilidade de sequer pensar que também vai ser um artista. Aí então acho que se poderão resolver problemas até políticos. Porque o problema da competição artística, no fundo,  é o que faz com que a Humanidade, o capitalista,  sejam cada vez mais filhos da puta, queiram ganhar cada vez  mais dinheiro, as concentrações de riquezas fiquem cada vez maiores… Porque, no fundo, bem no fundo, o que existe é uma frustração no plano espiritual. Quer dizer, o Ego do camarada é um câncer terrível, que o induz até a acumular riqueza para compensar a falta de aptidão artística. E ele vai competir. Hoje em dia, um burguês compra uma obra não só para acumular dinheiro, riqueza, não.Ele não sabe, mas é porque quer competir com Rembrandt, quer competir com Matisse, com o caralho a quatro. Quando ele usufruir — quando a Humanidade usufruir —  uma obra de arte na sua real e desvinculada grandeza, sem que o cidadão pense – nem no inconsciente – em querer fazer também, estenderá essa sua grandeza, este seu estado de graça, essa felicidade , não ao plano das religiões, que são sempre fajutas [6], mas ao campo da igualdade social e da redistribição da riqueza também…”

                        Algo dessa vagueza pervagou algumas opiniões que dei numa entrevista à revista “Escrita” [7], onde subliminarmente tirava o corpo do sentido de destino, dom ou talento inato – coisas que, afora a primeira, acho que realmente existem, pois, na imensa maioria dos casos, os que fizeram obra imortal desde logo a fizeram, a idade somente burilando , por obras talvez melhores, aquela jóia que despontou no primeiro aparecimento.

            Quando  naquela   publicação  falava  nos  pintores   pré-rafaelitas   do  século dezenove, Millais, Burne-Jones, Dante Gabriel Rossetti, aludi à crença, dos presumidos criadores , “em algum tarado que os resgatasse no futuro, num momento de ociosidade. Verde, lilás, azul, violeta e púrpura – um decassílabo – [8]  pertencem à métrica secreta dos megalomaníacos domésticos, como eu, que acreditam que um seu poema será eterno, se um dia o poeta for póstero!” [9]. Maneira de remediar o tempo que nos varre e de mascarar uma pretensão de ludismo filosófico , que me municiava para fazer, na brincadeira, qualquer obra de arte que almejasse, sem predestinação qualquer e a qualquer tempo…

                        Linhas antes lá me classifiquei, por artifício  de um sonho presumido, como um “semiota acadêmico”, alguém que assim me xingava aos gritos e que, por tropo de retórica, justifiquei como remordimento, meu, por ter mesclado, no livro de 72 [10] , poemas “avançados”, de acordo com a técnica vigente na Poesia “Concreta” ( com aspas no trecho original ) com figurações esotéricas, como o trabalho da TRAMPOLÍNGUA. Associei-me então com a postura dos pintores acadêmicos, que “viveram em todos os séculos ( como as pragas ou as graças! ) e que após a Renascença privilegiaram o conteúdo sobre a forma: a alegoria fácil, os símbolos ( cruz, lírios,  caveiras ) predominando sobre os signos. A arte baseada em regras pré-fixadas. O ético valendo como estético: os maravilhosos santinhos do catecismo, iguais às minhas postulações que vinham a seguir e às que inspiraram os conceituais A BOA LUZ e TRAMPOLÍNGUA” [11].

                        Traçava a seguir os planos, melhor: o roteiro, de meu novo livro, enumerando algumas produções, a maioria publicada,  que intermeavam a entrevista e o citado livro de 72, carregando na intenção de bulas, prospectos ou mero induzimento.

                        Era patente a intenção de deixar nítidas, não só as direções do projeto, como a demonstração de que por todo aquele tempo andava eu  de mãos dadas, quando não às turras, com os desígnios de uma vida toda, escondidos em minha caverna como um facho, ou um pisca,  de perpétua e pretensiosa ambição da célebre “cosa mentale”. Que, por ser assim, teria de ser esperada com paciência. Isto,  talvez para contrabalançar a indigesta memória da frase de Décio Pignatari, na noite do lançamento do livro  em minha casa, meio que falando menos para mim do que para profetizar: “-  Que pena, será mais um como outros… Daqui a alguns anos sumirá de circulação…”

                        E mais me pesa o vaticínio – que infelizmente ainda pode acontecer – quando me  lembro de  uma conversa com ele, na presença da poeta Lenora de Barros, Antonio   Risério e João Alexandre Barbosa, num fim de tarde no Cristal – bar dos concretos  e  acho que lá escrito de outra forma –, nos inícios da  década de 80, em que me confessou : estava “limpando” sua biblioteca, na maior parte em seu sítio “Val de Vin” – esse o primeiro nome em sua cabeça, um valdevinos na grande Valvin [12] – e que um dos livros que ficava  era o meu – contestei-lhe que não sei se Emílio de Menezes, Agrippino Grieco, Guimarães Passos ou mesmo o sisudo, e grande, Capistrano, achava que, para ser livro, tem que parar de pé! e o meu não parava! Contra-argumentou que o livro  trouxera todo o  approach da Conceptual Art que logo a seguir in-festou as Bienais da década. Tomei mais três ou quatro uísques e fui dormir na santa paz da farra.

                          Demonstrei ainda na revista que parte daquela produção subsequente ao livro foi exposta numa polêmica mostra, no Centro Cultural São Paulo, em fins de 1985, “Poesia Intersignos”, reunindo minhas últimas tendências, bem como as de Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo, Villari Herrmann, Philadelpho Menezes – seu organizador, assentador de pressupostos e que cunhou o nome da tendência —  , Ana Aly, Paulo Miranda e do decano Pedro Xisto. Nessa exposição foi apresentado, pela primeira vez, meu trabalho “O LAGO DOS SIGNOS”, cujas figuras, fotografadas da Natureza, conformam a melodia, transfundida, d’ “O LAGO DOS CISNES”, de Tchaikovsky [13].

Quando da reapresentação do poema na já aludida  I Mostra Internacional de Poesia  Visual, permito-me lembrar agora, não só por vaidade, mas por apreço à grande teórica Lúcia Santaella [14], que,  ao passar pelo painel,   surpreendi dizendo, enfática, tratar-se da maior obra da exposição, inclusive por seu texto-bula. Apresentei-me então a ela, ponderando que no acervo figuravam os de grande fama, como o próprio fundador Eugen Gomringer;  John Furnival, Klaus Groh, Pedro Xisto, Wlademir Dias-Pino, Ruben Tani, Richard C., Enzo Minarelli, Sebastião Nunes; e Melo e Castro, Ana Hatherly, Marcelo Tápia, Júlio Mendonça, Antonio Lizárraga, Shoji Yoshizawa; e produtos de expressões teóricas internacionais do porte de Harry Polkinhorn, Matteo D’Ambrosio e Clemente Padín e que, portanto, sua apreciação jubilava meu ceticismo…

“O Lago dos Signos”, talvez também por suas dimensões, imponência pictórica e destaque na parede, obscureceu o trabalho que eu mais prezava, “Rimbaud / Rainbow”,  por suas  implicações visuais, inter-referências fáticas do meu cotidiano e humor na surpresa, também ensejada pelo acaso, como no poema supra.

Após a visualização global do poema abaixo, utilize o mouse
em diversas partes da imagem para detalhes ampliados.

Como enunciado no texto, a carinha do Rimbaud, bem semelhante à do único retrato fotográfico de seu período de intensa criação [15], talvez como atmosfera até mais próxima da sua postura no famoso quadro de Fantin Latour [16], exsurgia da secagem que o arco-íris, Rainbow – existia isso em São Paulo na época! – provocava nas poças de chuva em  minha calçada. E, quando a fotografei, através das grades de meu portão, o acaso lhe deu o caráter de prisão a que se submeteu a vida toda. Olhando bem, guarda um parentesco com a fisionomia de Joyce,  embora com o agravo ocasional de não ter nada que ver o u com a alça no contexto. Mas me fascinou a irmandade contígua dos dois inovadores da modernidade contemporânea. As quadras acima – duas redondilhas maiores – e que  integram a representação caligrâmica da proteção que  deriva do ideograma chinês do teto visual do poema, são : uma, fotografada da primeira edição do livro de Ricardo Gonçalves –  cansadamente repetida por Lobato em sua correspondência d’ “A barca de Gleyre” como exemplo de redução eidética da simplicidade, e, como poema, uma aquarela verbal [17]– outra de  minha autoria, onde  interpreto a estranha vizinhança com uma casa com “BITS e BEDAMES” na fachada ( componentes de abajures ), vocábulos que fascinaram Augusto de Campos, em sua primeira visita à minha nova moradia, princípios da década de 70 [18]. Daí o poste giratório resultante da fusão das fotos, que loucamente colocava as duas residências numa espécie de carrossel / reco-reco…[19].

                         Retornando à revista, aludi também a algumas aventuras em publicações undergrounds, como o jornal de número único e de dimensões anormais, semelhantes às do CORRIERE DELLA SERA da época, VIVA HÁ POESIA [20], que reuniu, em minha expressão da época, usando jargão técnico de hidrelétricas como a em que trabalhava, os geradores Augusto, Haroldo e Décio, os transformadores Ronaldo, Leminski, Herrmann, Philadelpho, Plaza, e alguns transmissores, que a aldeia escura do país jamais esqueceria, se é que os leria. Contribuí com “POEMA DOS LESCENTES” e “CLÓVIS”, ambos visuais, além da exibição do “Poema sobre um quadro de Orlando Marcucci”, dentro do texto teórico que Gilberto Mendes, que musicara meu trabalho em 1976, publicou no mesmo jornal. Empreguei no primeiro verso a palavra inicialização, posteriormente e durante muito tempo constante da lexicografia das aberturas  de programas de computador; mas me lembro que fui muito criticado pelo mau gosto do neologismo.

Eis o esquema da versão do poema em papelão móvel. Vide gaveta Poesia Visual

                       Este trabalho almejava a entropia da palavra oral ( um set cinematográfico ouvido ), na utilização do entrelaçamento da escrita horizontal com a vertical. Referida entropia visa transformar o machão “Clóvis no sedã” do faroeste (escrita horizontal) num Cu de Seda ( o resto é Loves ),  pelo mero som que o enfoque visual determinaria ao se fazer a leitura vertical ( leste : chinês ). No referido jornal foi omitido o subtítulo BANG BANG DOS SENTIDOS : BANG, em chinês, que dizer OUTRO. Assim, OUTRO OUTRO DOS SENTIDOS…

                      Ainda na entrevista da ESCRITA, aludia à publicação,  na revista AMBIENTE / CETESB ( 1979 ), de parte de meus DESENHOS-PORTRAITS : um, bem antigo, da década de 50 (  4 de fevereiro de 1955 ) , de Carlos Drummond de Andrade, que nessa data tanto me influenciava, e um de Ronaldo Azeredo, que fiz meio bêbado  na casa do Volpi em 1972, e que mereceu, no verso do papel, um “Magnífico, Augusto de Campos, 25-5-72”, aquela assinatura linda num ovo galático:

 

                        Para ilustração do até hoje renitente zelo por aquelas minhas ambições de desenhista, ilustro com outro Drummond, de 1973, que considero bom mas sem o ímpeto da   década biológica dos 20 anos , que teimo em dizer que é vital para o artista, ou para o virtual artista fanado:

                        Dou ainda como exemplo da biologia dos 20 anos, o Jânio Quadros que encontrei eu meus papeizinhos de absintólogo ( será que é meu mesmo?…)  e um Joyce que desenhei no livrinho “James Joyce par lui-même” em 1958, durante minha lua de mel no Rio de Janeiro:

                         E este Oswald de Andrade, que me parece de mesmo período:

                        Agregavam-se a essas figuras de conhecimento público outras de meu convívio doméstico, mas que gozavam de certa reputação no campo da cultura, caso dos amigos Américo Bandeira e Nílton de Castro.  O primeiro, já saudoso, irmão do poeta Antônio Bandeira, também já morto, primo-irmão de Manoel Bandeira, tradutor emérito do francês, arguto exegeta de Mallarmé e Verlaine, musicólogo profundo, pianista muito original (lembrava bastante  aquele analfabetismo de empunhação e espetamento de digitalização do extraordinário Errol Garner),  e compositor maravilhosamente démodé – tenho dele uma valsa gravada ao piano em minha casa, que faz chorar pela prisão de sentimentos-modulações em “rondós” sempre disfarçados por um  tipo de antiguidade só de mortos, exatinho como nos vezos de Ernesto Nazaré, filho gêmeo mas inimigo de Chopin – e, vez por outra, uma estranha criança raivosa de cabelos brancos:

                      O outro, o poeta epistolar Nílton de Castro, autor de magistrais encarnações, em poesias que só manda pelo correio, da prosa bíblica, versicular, típica da versão King James, do entretanto medíocre poeta Hemingway, chorado por Joyce nos ombros de Nora, em Paris, por não conseguir, como era tão fácil naquele, fazer correr o sangue em sua prosa.[21] E que hodiernamente é objeto – apesar de sua seiva!… – até de estudos estilísticos do porte de Harry Levin, que com justiça o leva à condição de apanágio do Contexto do Criticismo, 1957 , ajustando-lhe tropos de paralipsis, entimema, paródia e outros que tias (sic) da lingüística corrente.[22] Mas,  quando falar no “Palhaço holográfico – picadeiro e platéia ao mesmo tempo na vida do americano médio”, que já anunciei na revista, tentarei demonstrar que tal estilo é resultante não só da atenção à, como da mão sobre a Bíblia, lá nos EUA tão fatal como o pescoço na guilhotina francesa; e que Deus está com todos nós, Deus está em todos os Egos — e isto, por incrível que pareça, deixa de ser perigoso – nosSo dinheiro in God we trust.

            Note na poesia de Nílton de Castro o ar direto de cotidiano, estilo seco, límpido e nervoso da prosa de Hemingway, que ele tanto prezava e de quem era excepcional tradutor, cf. sua notável versão do conto “The killers”. Em sua solidão de poeta epistolar ( só mandava poesia pelo correio, como disse logo acima) usava às vezes do recurso da colagem, freqüentemente associada a desenhos e fotos, recurso esse que acabava desviando  a anedota (sent. etim.) de sua cursividade.

            Lembre-se que Nílton encarnava aquela presumida superioridade do povo norteamericano, com alusões, muito irônicas, de assertivas de pastor, sempre torcendo pelo final feliz, ou ilusoriamente feliz. Em local oportuno, darei exemplos de tal superioridade – que alguns atribuem à democracia plena interna – especialmente ao transcrever o verbete John Cassavetes do CD-ROM Blockbuster Entertainment. Tenha-se em conta  o aludido “estilo americano” (de dizer e de agir,  Deus por eles, v.  acima o “nosSo dinheiro in God we trust , complexo esse que assegura ironia insólita, até pecadora,!, V. o VERBETE ! e meu comentário sobre o “palhaço holográfico, picadeiro e platéia ao mesmo tempo…” cf.).

            Talvez valha a pena avocar a maneira de falar do norteamericano, exibindo   recortes de jornais e revistas que exemplificam isso e aquele exemplo do “suicídio resgatado” no filme Dirty Harry, de Don Siegel, uma ação heróica que comove toda uma multidão, até mais que a existência de um “simples” genocídio…